Iaiá Garcia

Machado de Assis · Capítulo 14 de 18

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Iaiá Garcia

Capítulo XIV

—Não! disse ella energicamente.

Jorge empallideceu, como se acabasse de ver o fundo da alma da moça. A negativa era alguma cousa mais do que um capricho. Não retorquiu; estendeu-lhe a mão.

—Até quando? disse ella.

—Até amanhã.

Tres minutos depois, Jorge estava na rua. A noite descia rapidamente. Elle não olhou para traz; se olhasse viria a figura de Yayá envolta já na meia sombra do crepusculo. Veria mais; vel-a-hia reflectir um pouco e espalmar a mão no ar, como uma ameaça, na direcção em que elle ia.

Yayá entrou na casa da doente.

—Seu noivo? disse esta.

—Já foi.

—Quando é o casamento?

—O dia não sei. E depois de uma pausa:—

Mas que se hade fazer é certo. Ou eu não sou quem sou.

 

XIV

 

Guiando para casa, Jorge ia agitado e inquieto; recapitulava a conversação que escabava de ter com a filha de Luiz Garcia. O acaso propuzera-lhe um enigma; o tempo dava-lhe a decifração. Seria a decifração? O espirito do moço recuava, não dava credito á realidade, pelo menos á realidade apparente; mas esta impunha-se-lhe de quando em quando, e Jorge recompunha todas as circumstancias daquellas ultimas semanas e ainda dos mezes anteriores. Que era a esquivança, a rispidez, a hostilidade de Yayá, senão a mascara de um sentimento contrario, a vingança de um coração atordoado pelo supposto desdem de outro? Esta reflexão vinha tão de molde com os factos dos ultimos tempos, que era difficil achar mais ajustada explicação. Logo depois, considerava que seria absurdo attribuir á moça uma ligeireza e um desgarre inconciliaveis com a prudencia que reconhecia nella, a despeito dos assomos de travessura intermittente.

—Impossivel! disse elle sacudindo o hombro.

Mas esse impossivel tornava a descer ás regiões da probabilidade, até galgar os limites da certeza. A observação lhe mostrava que Yayá tinha a audacia no sangue, e a razão lhe dizia que um amor sem freio possue todas as imprudencias e vertigens; que umas naturezas são stoicas, outras rebeldes; finalmente, que ha situações moraes incomportaveis, e que a uma candura de dezesete annos é licito não distinguir entre o sentimento que fala e a conveniencia que restringe. Esta era a interpretação benevola; depois vinha a interpretação pessimista. Podia ser que todos aquelles atrevimentos encobrissem um calculo,—o calculo da ambição, que intentasse trocar a belleza pelo beneficio de uma posição ostensiva e superior. Quando essa suspeita lhe brotou no espirito, Jorge não sentiu diminuir a admiração nem a estima; porquanto, a ambição, se ambição havia, parecia ser de boa raça. Mas era impossivel combinar o calculo com as lagrimas daquella tarde, e e elle as sentira quentes, silenciosas, e não podia crer que uma vida quasi adolescente possuisse já a arte da hypocrisia.

Não ha vida tão physica ou tão alheia ao sentimento da personalidade, que em tal situação não padecesse, ao menos, trinta minutos de insomnia. A insomnia de Jorge durou mais algum tempo. De envolta com as conjecturas havia um pouco de satisfação pessoal. A certeza ou a probabilidade de que, sem nenhuma acção propria, iniciara nos mysterios do amor, uma alma ainda nova e ingenua, dava ao coração delle alguma cousa da volupia do egoismo; sensação que, aliás, diminuiu quando lhe occorreu que talvez esse amor obscuro lhe houvesse já custado lagrimas e desesperos. Elle tinha razão quando dizia não ser espirito vulgar. Afrouxara-se-lhe o ardor dos primeiros tempos, a imaginação tinha o vôo mais curto; mas a generosidade juvenil ficara intacta, e com ella a faculdade de resentir as dores alheias.

—Pobre menina! dizia comsigo.

No dia seguinte, Jorge examinou detidamente se lhe convinha tornar á casa de Luiz Garcia, ao menos com a assiduidade do costume. A situação moral de Yayá tendia a aggravar-se com a presença continua d'elle; em taes casos, a ausencia, era um acto de criterio e até de misericordia. Misericordia foi o que elle disse comsigo, e sorriu logo depois, com um sorriso de modestia envergonhada. A verdade é que Jorge anciava por lá voltar; tinha curiosidade de contemplar a sua obra, agora que a descobria ou presumia havel-a descoberto; senão é que a noite lhe trouxera uma sombra de duvida, e elle queria verificar definitivamente a realidade.

De noite foi. Luiz Garcia estava um pouco andado e abatido.— Venha, doutor! disse elle quando viu entrar o filho de Valeria; este coração é o meu importuno. A mulher procurava animal-o; a filha tinha o terror nos olhos. Jorge auxiliou a familia no trabalho de o confortar; tres quartos de hora depois a molestia cedia, e tornava ao trabalho surdo da destruição. Luiz Garcia era outro, logo que passava uma dessas crises; tornava-se garrulo e risonho, com o fim de reanimar elle proprio a familia, e communicar-lhe a esperança que lhe começava a faltar. Jorge não se deixou contaminar da illusão; recordou a sentença do medico e sentiu a proxima extincção daquelle homem. Yayá não conhecia a sentença do medico; mas o espectaculo da afflicção do pae tinha-a prostrado muito. Apparentemente não se lembrava da entrevista da vespera; podia até suppôr-se que, de quando em quando, não se lembrava da presença de Jorge.

Jorge achou-a nos subsequentes dias, tal qual era nos outros, menos travessa, porém, e muito mais senhora. Ao cabo de uma semana, trazia todos os elementos de convicção:—Ama-me! pensava elle ao sair d'alli uma noite. A convicção, por mais que a suspeita a houvesse prevenido, atordoou o espirito de Jorge, que nessa mesma noite resolveu não voltar lá; resolução varonil, que durou quarenta e oito horas.

Alguns dias, tres semanas, decorreram assim na mais aprazivel familiaridade. Jorge, se não obtivera o titulo, exercia realmente as funcções de irmão mais velho; era um guia, um conselheiro, uma autoridade. Escutava-a com interesse; recebia a confidencia dos sentimentos da moça, e as ambições de um coração cuja sêde parecia contentar-se da agua que pudesse conter a propria mão, no primeiro arroio do caminho. Ao mesmo tempo, buscava temperar-lhe o romanesco com uma forte dose de realidade.

Durante esse tempo, nenhuma phrase egual ás daquella tarde veiu sacudir o espirito de Jorge; nenhuma lagrima lhe caiu nas mãos. Mas, se a palavra não vinha, a voz era insinuante e commovida, ás vezes; se os olhos não choravam, luziam ou quebravam-se de um modo pouco commum. Jorge fingia não comprehender; mais do que isso, forcejou por se persuadir a si proprio que não comprehendia: resultado util, que lhe dava a vantagem de saborear em silencio o gozo de se saber amado, sem perder o de contemplar uma natureza original, moralmente exhuberante e forte, que, além de tudo, tinha para elle a fascinação do mysterio.

No fim daquellas tres semanas encontraram-se em casa da paralytica. Não houve accordo, mas nada foi casual.—Vou amanhã á casa de Maria das Dores, disse Yayá uma noite, prestes a despedir-se delle. E no outro dia de tarde, Jorge, que havia rareado os passeios daquelles ultimos tempos, acertou de caminhar para alli, e com tão boa fortuna, que achou a moça sentada no mesmo banco de pedra em que lhe falára da primeira vez.

Outra vez, quando Yayá alli voltou, já encontrou Jorge, ao pé da enferma. Maria das Dores estava ainda mais contente com a honra da visita do que com a esmola que elle dissimuladamente lhe levara envolvida em um lenço de ramagens. Jorge animava-a, dizia-lhe que ainda iriam á Penha naquelle anno. Yayá parou á porta, espantada e contente.

—Venha, disse a enferma, ande ver como seu noivo está caçoando com a velha.

—Agradeço-lhe, disse Yayá; creia que ella merece todas as consolações.

Na noite desse dia, quando Jorge entrou em casa, um pouco inebriado da entrevista, achou uma carta de Procopio Dias, que o encheu de contentamento. Procopio Dias tinha necessidade de se demorar ainda uns dous mezes. Dous mezes! Era a eternidade. Jorge sentiu-se confortado com a noticia de tão longa ausencia. Que importava a presença, se ella o não amava? Essa reflexão não a fez Jorge, mas a filha de Luiz Garcia, quando elle lhe deu a noticia da carta:

—Que tenho eu que elle esteja ausente ou presente? elle ou um extranho é a mesma cousa.

A eternidade foi um minuto; os dous mezes voaram como um tufão. Um dia, no ultimo desses dous mezes, Yayá disse ao filho de Valeria que achara emfim um marido.

—Um marido? repetiu Jorge empallidecendo.

—Parece que um marido. Não me approva?

—Se ainda o não conheço.

—Não sei se é um marido, continuou Yayá depois de um instante; mas achei o homem a quem amo.

—É a mesma cousa.

—Ou quasi.

Houve entre ambos uma longa pausa, durante a qual Yayá tinha os olhos fitos no moço, emquanto este não tinha os seus em parte nenhuma; vagavam de um ponto a outro. Yayá repetiu que achara um marido.

—É a segunda vez que me diz isso, redarguiu Jorge com a voz tremula e irritada; se o achou, tanto melhor; casará com elle.

—Não me disse uma vez que não me deixasse ir com os primeiros olhos que parecessem responder aos meus? não me disse que era conveniente escolher um homem...

—O que eu disse foram palavras sem sentido, tornou Jorge; não se dão conselhos ao coração que ama. O casamento vem talhado do ceu, segundo diz o povo; outros dirão que vem do acaso; ou é o destino de cada um, ou é uma loteria. A senhora não me pede certamente que lhe diga o numero em que ha de sair a sorte grande? Compre bilhete e deixe correr a roda. Alguns dias de paciencia e nada mais...

A excitação de Jorge era extraordinaria, mas não foi longa. Alguns instantes de silencio bastaram a applacal-a ou diminuil-a; pelo menos o gesto não trahiu a agitação interior. Pallido, sim, estava pallido; mas a voz, se não era firme, perdera a aspereza do primeiro instante.

—Reflecti depois da nossa conversa, disse elle e não desejo tomar nenhuma responsabilidade em um acto de que depende a felicidade de sua vida.

—Então, não me estima, é o que é, disse Yayá em voz queixosa.

Jorge respondeu com um olhar, e a resposta que elle quizera fosse um simples protesto, transgrediu esse limite: foi um protesto, uma queixa e acaso uma interrogação. Yayá abaixou os olhos; uma onda de sangue lhe avermelhou a face; Jorge viu-a offegante e acanhada durante alguns segundos. Não indagou o motivo; ergueu-se para sair. Yayá retevo-o pela aba do fraque.

—Nega-me então todo o auxilio? disse ella. Depois de alguns mezes de uma vida em que me acostumei a ouvir seus conselhos, o senhor recusa-me este. Que lhe fiz eu?

—Nada.

Jorge saiu.—Que tenho eu que ella ame, que se case ou não se case? Sou eu sou pae? seu tutor? Quando assim falava, sentia dentro de si uma resposta; a consciencia desvendava-lhe a realidade. Sim, tu amas, dizia-lhe ella, tu não fazes outra cousa ha dous mezes; deixaste-te envolver nos fios invisiveis; não sentiste que essa intimidade de todos os dias era a gotta d'agua que te cavava o coração. Ah! tu querias saciar a curiosidade e sair dalli sem deixar alguma cousa, sem receber tambem alguma outra cousa? Não se brinca com um inimigo; e ella o era, e continuará a sel-o, por que tu estás definitivamente atado.

A esta voz importuna e verdadeira, Jorge erguia os hombros. Tentou refugiar-se no somno. O somno rejeitou-o de si. Então fumou, desceu á chacara, fatigou o corpo para melhor adormecer o espirito; mas a lua que batia no repucho mostrava-lhe, ora um casebre de Santa Thereza, ora uma varanda da Tijuca, como se fossem o verso e o anverso da medalha de seu coração, toda a historia da vida que elle vivera até alli. A differença entre uma e outra dessas duas phases é que presentemente o desengano não o levaria á guerra, nem lhe daria os desesperos do primeiro dia. Não; Jorge levantou-sa na manhã seguinte um pouco atordoado, mas não inteiramente abatido. Sentia alguma oppressão moral, um desejo de saber quem era o adversário preferido. Merecel-a-hia? Que a merecesse, embora; elle tinha um direito anterior e superior; desde que a amava, excluía todos os outros.

A força de pensar naquillo, chegou a entrever a realidade; perguntou a si mesmo se a declaração da moça não seria antes um estratagema. Podia ser; tinha-a visto corar, inclinar o collo, ficar por algum tempo acanhada e commovida. Essa conjectura desabafou-lhe um pouco o espirito, e, por isso que era a conjectura da esperança, não tardou em transferir-se a evidencia. Relembrou todas as acções de Yayá, suas palavras, as circumstancias e os termos de reconciliação, as lagrimas sem motivo, a paciencia, o interesse, o gosto de o conversar; finalmente, esse quê mysterioso que divulga a uma alma a preferencia de outra. Quando pouco a pouco lhe penetrou no coração essa ideia, Jorge reconheceu que havia sido precipitado. Queria escrever-lhe e recuou; queria lá voltar, mas resolveu o contrario.

—Se é um estratagema, pensou elle, ella terá nisto o seu castigo; se verdadeiramente ama a outro, que vou lá fazer agora?

Pensou isto; pensou mais; só não pensou em Estella.

Yayá não se pode conter. Ao cabo de sete dias de ausencia determinou ir ao logar onde mais de uma vez encontrara o filho de Valeria.

—Vae chover, disse Luiz Garcia; guarda a visita para amanhã.

Yayá teimou na resolução.—É uma nuvem que passa, disse ella; em saindo a lua verá como o tempo fica limpo.

Estava inquieta, preoccupada, tinha estremecimentos nervosos; não attendeu á segunda observação do pae. O pae dizia-lhe que não havia necessidade de desobedecer para realisar um capricho. Como repetisse a expressão, Yayá ficou pallida e não ousou responder; mas Estella, que assistia callada aos conselhos de um e á resistencia de outro, disse sorrindo á enteada:

—Vá; seu pae deixa-a ir.

Yayá ia agradecer a intervenção; mas, quando os olhos das duas mulheres se encontraram, detiveram-se por um instante longo. Poucos minutos depois chegava a moça á casa de Maria das Dores. Despediu Raymundo; a porta estava aberta; entrou. Da sala, onde se deteve, ouviu n'outra sala interior a voz de Jorge.

—Não se esqueça; hade entregar-lhe isto, quando ella vier; não mande lá á casa; é um livro.

Yayá entrou.

—Não contava commigo? disse ella.

—Não; por isso deixava-lhe este livro, respondeu Jorge tirando o embrulho á doente e entregando-o á moça; é um romance, creio que lhe falei nelle uma vez.

Yayá tomou-lhe o livro, abriu-o, folheou-o com soffreguidão, como certa de achar uma pagina marcada. Estava marcada uma pagina, e a marca era um bilhete. Abriu-o; dizia assim: «A senhora deu-me uma vez um titulo que eu esperei viesse a ser verdadeiro. Diga se me enganei, se o ceu lhe destinou outro noivo, ou se meu coração pode ter ainda uma esperança. Não lhe custará muito; não custa muito uma simples palavra.»

Emquanto ella lia rapidamente estas linhas, e tornava-as a ler, Jorge affastou-se até á sala da frente. A carta era das que não permittem a presença do autor; precisam do prestigio da ausencia; são, para assim dizer, expressões truncadas que a imaginação perfaz e amplia. Jorge ia a sair, quando ouviu o rumor dos passos de Yayá; deteve-se a esperar a resposta. A moça parou deante delle, e entre ambos houve um momento de silencio e hesitação.

—Cego! disse emfim Yayá estendendo-lhe as mãos com um ar de simplicidade e confiança.

Jorge recebeu-as nas suas, e a linguagem que a alma não quiz confiar do labio do homem, elles a disseram com os olhos, durante alguns minutos largos. Jorge perguntou finalmente:—É certo? ama-me?—Yayá cingiu-lhe o pescoço com os braços, e inclinou a cabeça com um gesto de submissão. Jorge inclinou-se tambem, e nos cabellos,—nos fios de cabello, que lhe pendiam na testa, pousou o mais puro e fugitivo dos beijos. Ao contacto daquelle labio, Yayá enrubeceu e estremeceu toda; mas não fugiu, não retirou os braços; deixou-se ficar subjugada e feliz.

Homero conta que Venus, descendo ao campo da batalha entre gregos e troyanos, saiu d'alli ferida e ensanguentada. Yayá teve a sorte da diva homerica; interpondo-se entre Jorge e Estella trouxe d'alli ferido o coração. Naquelle espaço de alguns mezes, obra de paciencia e luta, de violencia e simulação, para o qual fizera convergir todas as forças moraes, não suspeitou que, vencendo ao outro, podia vencer-se a si mesma. Queria ser uma barreira entre o passado e o presente, sem cogitar na difficuldade do plano, nem nas consequencias possiveis delle. Sobretudo, não pensou na moralidade da acção. Que podia ella saber d'isto? A suspeita ia até admittir a persistencia do amor no coração da madrasta, mas não lhe attribuia mais do que uma aspiração ou saudade silenciosa; não sabia mais. Para combater esse inimigo inerte, é que poz em campo a porção de astucia que a natureza lhe dera, as graças do rosto e a, rara penetração de espirito.

Yayá transpoz a soleira e saiu; precisava de ar, de espaço, de luz; a alma cobiçava um immenso banho de azul e ouro, e a tarde esperava-a trajada de suas purpuras mais bellas. Jorge acompanhou-a; a commoção delle era sincera e forte, mas menos intensa, menos desvairada que a de Yayá, cujos olhos pareciam dizer a tudo o que a rodeava, desde o sol poente até ao ultimo grelo de capim:—olhae, vede as bodas do meu coração; este é o meu amado. Perto da noite, Raymundo veiu buscal-a; Jorge acompanhou-a. Yayá lembrou-se de traçar com um grampo, no musgo que reveste o aqueducto, o nome de Jorge e a data; instando com elle, Jorge escreveu tambem o nome d'ella. Raymundo sorria entre dentes. Em caminho falaram do presente e do futuro; e, n'um intervallo, tocaram levemente no passado.

—Sabe que eu tinha um desgotosinho? disse Yayá. Jorge interrogou-a com os olhos. É verdade, um capricho, continuou ella. Quizera que o senhor nunca tivesse gostado de outra pessoa, e é bem possivel que não seja este o primeiro amor de seu coração.

—Não é, respondeu Jorge depois de um instante de reflexão. Amei uma vez, ha muito tempo; mas todo esse passado acabou.

—Está certo de que acabou?

—Creança! Que noiva receiou nunca de um amor antigo, começado e acabado, antes d'ella ser amada tambem? Que o novo amor seja sincero e fiel, eis o que se deve pedir e exigir. Quanto ao passado, é como os defuntos; reza-se por elle, quando se reza.

—Tenho medo de almas do outro mundo, tornou Yayá sorrindo.

Yayá mostrou-se tão expansiva n'aquella noite e nos seguintes dias, derramou de tal modo a vida que a enchia que Estella comprehendeu tudo o que se passava entre a enteada e Jorge. Ha uns amores, aliás verdadeiros, a que precedem muitas contrafacções; primeiro que a alma os sinta, tem despendido a virgindade em sensações intimas. Yayá ignorava tudo; não soletrara o amor, aprendera-o de um lance. Trazia o coração intacto. Seu accordar foi uma aurora subita, mas rutilante e limpida. No meio da embriaguez que lhe dava o novo sentimento, não cogitou nas possiveis consequencias d'elle; não perguntou a si propria se era verdade que no coração da madrasta havia uma saudade ou uma esperança silenciosa, e se isso podia ser a raiz de largos odios e dissenções domesticas. Não interrogou o futuro. Phenomeno curioso! A lembrança do pae foi por um instante esquecida; o egoismo do amor devorou-a.