Iaiá Garcia

Machado de Assis · Capítulo 16 de 18

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Iaiá Garcia

Capítulo XVI

Jorge prometteu. Estella, que estava presente, procurou tranquillisar o enfermo, e pediu-lhe que não falasse tanto. Luiz Garcia não attendeu; exaltou as virtudes da mulher, a dedicação, o zelo, a affeição que lhe tinha.

—Digo-lhe que fui feliz, concluiu elle; minha alma era já velha, quando a d'ella se lhe uniu, e comtudo... sim, minha alma rejuvenesceu um pouco...

—Já tem falado muito, interrompeu Estella, descance, não quero que diga mais nada.

Luiz Garcia pediu ainda á mulher e á filha que se amassem como até alli. Tinha falado excessivamente; ficara abatido. D'alli em deante, a morte não fez mais do que apoderar-se, trecho a trecho, da sua victima. Já a noite d'esse dia foi mais cruel que as anteriores; todo o seguinte dia foi de angustia para as duas mulheres. Na manhã do outro começou a agonia d'elle, que durou algumas horas.

Ao vel-o morrer, as duas mulheres ficaram longo tempo prostradas. Era a primeira vez que contemplavam a morte. Nenhuma d'ellas vira nunca expirar uma só creatura humana, e a primeira que a seus olhos se despedia da vida representava para ellas largos annos de affeição terna e profunda, e o mais forte laço moral que as ligava uma a outra. N'esse instante solemne, abraçaram-se sem reflexão; a dor impelliu-as com a mão de ferro, e, madrasta e enteada confundiram alli suas nobres, tristes e inuteis lagrimas.

Aos pés da cama, com o gesto dolorido, Jorge via a afflicção duas das mulheres, sem lhes poder nem querer valer. Quanto a Raymundo, não pode ver expirar o senhor; correu ao jardim, onde ficou longo tempo sentado no chão, com a cabeça encanecida entre os joelhos, sacudido pela violencia dos soluços.

 

XVI

A morte de Luiz Garcia foi uma complicação mais. Passados os primeiros dous mezes, Jorge pensou em realisar o casamento, sem apparato, como um simples acto de interesse domestico, aliás necessario pela situação em que se achavam as duas senhoras. O Sr. Antunes fora morar com ellas, e era o chefe natural da familia; mas Jorge não esquecera que Luiz Garcia nenhuma confiança tinha na pessoa do sogro; demais, entregara directamente a Jorge a chefia da casa. Ora, cumpria legalisar e sanctificar a designação do moribundo.

Mas, se isto lhe parecia claro e necessario, não se atrevia ainda assim propôl-o á noiva, e por duas razões. A primeira era o natural respeito á dor da filha, que elle podia magoar ainda mais falando-lhe desde logo no casamento. Era a segunda a frieza e o silencio com que esta o tratava depois da morte do pae. A differença era positiva e inexplicavel; mas a boa fé explica tudo, e Jorge attribuiu essa nova feição da moça ao profundo golpe que o desastre lhe desfechara. Sabia da paixão filial de Yayá; era testemunha dessa adoração constante, que parecia contar com a eternidade da vida.

A ideia de falar a Estella apenas lhe passou pela mente; rejeitou-a sem esforço. Limitou-se a esperar, e ia alli com a assiduidade que lhe permittia a condição de noivo. Ia ás noites, não todas; passava uma ou duas horas, a atar e desatar uma conversação frouxa, muita vez sem interesse. Sobre todos tres, mas principalmente sobre as duas, pesava ainda a lembrança do finado. O Sr. Antunes tomava parte nessas conversações intimas, e era elle quem forcejava por lhes dar a perdida animação; temperava-a com algum dito folgazão, ouvido com indifferença, quando não com tedio. Posto que o casamento de Jorge com a enteada da filha estivesse tratado, elle nutria a esperança de que alguma cousa o viria desfazer, e nessa carta incerta jogava todo o futuro.

Uma noite, Jorge propoz directamente a Yayá a necessidade de apressar o casamento.

Não sendo a ceremonia publica, disse elle, não daremos que falar aos outros, se alguma cousa ha que falar...

—Quer a minha resposta hoje mesmo? interrompeu Yayá.

—Podia ser hoje.

Estella que estava presente, apoiou a reflexão de Jorge.— Convem decidir quanto antes, disse ella; não vale a pena deixar passar mais tempo sem utilidade.

—Sem utilidade, repetiu Yayá olhando para o tecto.

—Decerto...

Yayá baixou os olhos aos dous; fitou-os a um e outro, longo tempo, com severidade; depois, retorquiu em tom rispido:

—Deixem-me ao menos o tempo de chorar meu pae!

Jorge proferiu algumas palavras de affeição; Estella não protestou nem retorquiu; erguendo-se silenciosamente e deixou-os. O silencio foi longo. Jorge não tomara á má parte a supplica da noiva; attribuiu-a ao sentimento de piedade filial, que era nella mais forte que qualquer outro.

—Yayá, disse elle, ninguem lhe nega o direito de chorar seu pae; se insistimos é em beneficio da familia. Seu pae recommendou-me que olhasse pelos seus, e eu quizera poder fazel-o, não como extranho, mas como parente; por isso lembrei a conveniencia de realisar o casamento quanto antes, mas se lhe parece que pode ser addiado...

—Pode.

—Até quando?

—Até um dia.

—Que dia?

—Sabbado de Alleluia, por exemplo.

—Falemos serio, disse Jorge.

—Serio? Dia de S. Nunca.

Jorge franziu a testa.

—Que quer isso dizer? Retira a sua palavra? Em todo o caso, tenho direito de saber o motivo, porque algum motivo ha de haver...

Yayá tinha-se levantado, pegou-lhe na mão e levou-o até á janella. O transtorno das feições era visivel; os olhos luziam de impaciencia, emquanto a palavra parecia medrosa e recalcitrante. Pasmado do que via, e curioso do que ella lhe iria dizer, Jorge não pensou sequer em a aquietar; se lhe pegou nas mãos foi por um movimento instinctivo; mas quando as sentiu geladas e tremulas ficou atterrado.

—Que tem Yayá? Você padece; vamos, fale, diga-me tudo. Já me não ama?

—Se o não amo! disse vivamente a moça deitando os olhos ao ceu, como a tomal-o por testemunha da sinceridade de seu coração; mas logo depois arrependeu-se e continuou de um modo compassado e frio.—Amei-o; não importa saber se muito ou pouco, mas amei-o. O senhor foi a primeira pessoa que me fez bater o coração de um modo differente do que elle batia; foi a primeira pessoa que me disse palavras novas, que me fizeram bem...

Jorge lançou-lhe o braço a cintura e conchegou-a ao coração.— Pois sim, disse elle; eu repetirei essas palavras em todo o resto da nossa vida. Seja boa, e sobretudo seja franca. Para que ha de negar o que se está vendo? Eu sei que ainda me ama...

—Eu? disse a moça deslaçando-se-lhe dos braços. Eu tenho-lhe horror.

Jorge sorriu.—Horror, por que? disse elle. Mas o gesto da moça veiu apagar-lhe o sorriso começado. Yayá levara as mãos ao seio, como se quizera conter os impetos do coração; os olhos luziam-lhe de extraordinario fulgor. Offegante, por alguns minutos, não pode articular uma só palavra; quando chegou a falar disse simplesmente:

—Que razão ha agora para que nos casemos? E depois de uma pausa:—Tenho ciumes do passado, e o senhor amou já uma vez. Assim como eu ia entregar-me ao senhor, com o coração limpo de qualquer outro affecto, assim quizera que o senhor nunca houvesse amado a ninguem. Que é o seu coração para mim? Um sobejo de outra; talvez nem isso; esse mesmo resto não me pertence, não é meu; fiquemos neste ponto, e tome cada um de nós a sua liberdade.

Yayá recusou outra explicação, aliás desnecessaria; a linguagem era transparente. Jorge saiu dalli com o espirito transtornado e confuso. O motivo da recusa, para ser sincero, era pueril ou romanesco demais; nenhuma noiva teve ciumes de um amor anonymo e extincto; logo, a allusão de Yayá não era vaga e sem objecto, mas ia direito á pessoa de Estella. Seria isso? Jorge não queria crer e mal podia duvidar.

No dia seguinte, acabado o almoço, appareceu-lhe o pae de Estella.

—Yayá manda-lhe isto, disse elle saccando da algibeira uma carta.

Jorge recebeu-a presurosamente e abriu-a; leu estas palavras unicas:—«Não posso ser sua mulher; esqueça-me e seja feliz.» Empallideceu; tornou a ler a carta, sem a entender, posto que ella não fosse mais do que a formula escripta e secca do que Yayá lhe dissera na vespera. Mas entre as queixas e effusões de uma hora de desanimo e aquella intimação, havia um abysmo; a carta trazia o cunho da resolução definitiva, que elle não achara ou não quizera achar nas declarações verbaes da moça.

—Yayá deu-lhe isto agora mesmo?

—Antes do almoço, respondeu o Sr. Antunes, cujo olhar forcejava por soletrar no rosto de Jorge algumas linhas do drama que suppunha haver lá dentro.

—Não lhe parece que Yayá anda triste? perguntou Jorge no fim de um minuto.

—A morte do pae prostou-a muito.

Jorge foi dalli ao gabinete; o Sr. Antunes acompanhou-o. A preoccupação do moço era uma chuva benefica ás esperanças do pae de Estella, que todas pareciam reflorir. Como este falasse da filha com a prolixidade astuta do pretendente, Jorge attentou n'uma ideia, que a principio lhe pareceu absurda, mas com a qual se familiarisou a pouco e pouco; mordeu-lhe o coração a suspeita de que o procedimento de Yayá era uma desforra de Estella, uma como vingança posthuma. O inexplicavel da carta podia justificar até certo ponto essa suspeita sem fundamento nem verosimilhança, que afinal acabou por não achar nenhuma repulsa na consciencia delle.

Duas horas depois Jorge escrevia estas poucas palavras á viuva de Luiz Garcia:

«Yayá mandou-me ha pouco o incluso bilhete. Peço-lhe o favor de uma explicação.»

A carta de Yayá fora escripta naquella manhã, depois de uma noite de agitação e luta. Nem foi a unica. Yayá escrevera outra, menos laconica, a Procopio Dias. Morto o pae, esse homem fora alli tres vezes, sem trocar com a moça uma só palavra relativa á extranha confidencia que lhe fizera antes. Eram visitas de meia hora, não mais; durante esse curto lapso de tempo, Procopio Dias não discrepava um instante da gravidade um pouco triste que adoptara. Não era o folgasão primitivo, mas tambem não era um poeta desesperado e pallido; ficava a egual distancia de um e outro modelo. Os acontecimentos pareciam aconselhar-lhe uma discreta ausencia; mas, além de não ter melindres nem escrupulos, floria-lhe no peito a esperança, a esperança tenaz dos cabiçosos. Não a sussurrava ao ouvido da moça, nem a ostentava nos olhos, na compostura, nos meneios, todos elles impregnados da submissão de uma alma desenganada e passiva. Yayá tratava-o com bondade, já agora mais constante; posto não lhe passasse pela cabeça a ideia de vir a desposal-o, não lhe destoava o aspecto dessa paixão resignada e muda.

Depois de soltar a palavra decisiva, Yayá entendeu que lhe devia dar a forma ultima, desligando-se da solemne promessa. Não o fez sem muita lagrima solitaria. A pobre creança amava o filho de Valeria com a singeleza de um coração quasi adolescente, e só então mediu todo o imperio que elle adquirira sobre ella. Mas duas circumstancias a induziam ao desfecho; era a primeira a revelação de Procopio Dias, confirmação de suas suspeitas; a segunda foi o espectaculo que se lhe offereceu aos olhos, naquella noite, logo depois de se despedir do noivo. Sabendo que a madrasta estava no gabinete do pae, alli foi ter e espreitou pela fechadura; viu-a sentada com a cabeça inclinada ao chão, desfeito o penteado, mas desfeito violentamente, como se lhe mettera as mãos em um momento de desespero, e caindo-lhe o cabello em ondas amplas sobre a espadua, com a desordem da peccadora evangelica. Yayá não a viu sem que os olhos se humedecessem.

—Que se casem! disse a moça resolutamente.

Desligando-se da promessa feita, Yayá reflectiu que ia ficar só, e que precisava forçosamente de um amparo; foi então que lhe lembrou Procopio Dias. Não encarou a ideia sem repugnancia; acceitavel na palestra, Procopio Dias era-lhe antipathico para a convivencia conjugal. Não o podia amar, e, uma vez resoluta a acceital-o, começou logo de o aborrecer. Que muito? Era um marido; não exigia outro merito. A carta que lhe escreveu não saiu de um jacto, foi trabalhada e repizada; o texto definitivo dizia que fosse alli sem demora para lhe falar de objecto que interessava á felicidade de ambos. Isto, e nada mais que uma lagrima, que lhe resvalou dos cilios no papel como um protesto contra o que ia nelle escripto.

Raymundo, chamado para levar essa carta, recebeu-a depois de alguma hesitação. Olhou para o papel e para a sinhá moça. Depois sacudiu a cabeça com um ar de duvida. Yayá simulou não ver nada, mas o gesto do preto impressionou-a. Ia affastar-se, Raymundo reteve-a dizendo:

—Yayá me desculpe... esta carta... Raymundo não gosta de falar áquelle homem.

—Não lhe fales; basta deixar a carta em casa delle.

Raymundo não insistiu; acompanhou com os olhos a filha de seu antigo senhor, abanando a cabeça com o mesmo ar de alguns momentos antes. Depois olhou para a carta, como se quizesse adivinhar o que ia dentro. Não era só presentimento, mas tambem deducção do que elle via naquellas ultimas semanas. Tinham-lhe dado noticia do casamento; falara-se nisso todos os dias antes da morte de Luiz Garcia. Morto este, cessou toda a allusão ao projecto, que parecia dever executar-se dentro de pouco tempo. O coração do preto dizia que aquella carta era alguma cousa mais do que um recado sem consequencia. Quiz leval-a a Estella; mas rejeitou o expediente, por lhe parecer infidelidade. Dez minutos depois saiu em direcção á casa de Procopio Dias.

Entretanto, chegavam ás mãos de Estella o bilhete de Jorge e o de Yayá. A viuva não podia crer o que lera. A carta da enteada era um acto de insubordinação, inexplicavel na essencia e na forma: e se essa carta a fez pasmar, a de Jorge fel-a gemer. O noivo desenganado recorria á intervenção de Estella. A primeira amada desse homem era agora a sua confidente, a quem elle escrevia sem saudade, sem remorso, talvez sem hesitação.

—Sogra! concluiu Estella com amargura; e erguendo os olhos do papel para o espelho, que pendia da parede fronteira, contemplou caladamente as suas graças ainda em flor. Yayá entrou nessa occasião. A madrasta chamou-a ao pé de si, e mostrando-lhe o bilhete que escrevera ao noivo, perguntou-lhe o que queria dizer aquillo. A enteada ficou silenciosa durante alguns segundos; mas a resolução deu-lhe força e tranquillidade.

—Quer dizer o que ahi está escripto, respondeu ella; não posso casar com o Dr. Jorge.

—Porque?

—Não posso.

—Porque? repetiu Estella com autoridade.

—Amo a outra pessoa.

—Não creio; tem de certo outro motivo.

—Que motivo?

—Nenhum que seja sensato, acudiu a madrasta, mas algum ha de haver, que não seja esse. O passo que deu é grave; não é proprio de uma moça obediente; chega a ser contrario á cortezia. Não importa; tudo se pode explicar; explique-me esta carta.

Yayá não obedeceu á intimação da madrasta, e para tirar á recusa qualquer apparencia offensiva, conservou um ar de modestia e resignação. Estella não se deu por vencida; demonstrou-lhe que só um motivo grave podia justificar semelhante procedimento, e que era forçoso dizel-o ao noivo; lembrou-lhe finalmente a estima que sempre houvera entre Jorge e o pae. Neste ponto Yayá estremeceu e fitou na madrasta uns olhos que não eram os de pouco antes. Parecia-lhe sacrilegio evocar o nome do pae. Não se pode ter; deu um passo e interrompeu-a com sequidão:

—Não posso casar, porque a senhora gosta delle.

Estella, que já então estava sentada, ergueu-se de golpe ao ouvir esta subita e inesperada explicação. A face pallida, que o traje de viuva ainda mais empallidecia, tingiu-se de uns longes de vermelho. Podia ser confusão ou indignação. Durante uma pausa relativamente longa, Yayá não tirou os olhos da madrasta. Essas duas lampadas buscavam examinar-lhe, no momento supremo todos os recantos da consciencia, e todos os atalhos do passado. Não disse nada, para melhor gozar do abalo que acabava de produzir em Estella; era o juro do sacrificio. Mas Estella sentou-se dahi a pouco, e foi a primeira que rompeu o silencio.

—Tu estás maluca, disse ella tranquillamente. Quem te metteu semelhante ideia na cabeça?

—Não examinemos agora quem foi ou o que foi que me fez adivinhar a verdade, respondeu Yayá; basta saber que decidi romper o casamento, que o mandei dizer ao Dr. Jorge, e que talvez dentro de poucos dias outra pessoa lhe pedirá minha mão.

Estas palavras transtornaram de todo a viuva, que, atonita e irritada, deu alguns passos na sala, buscando conter a explosão de seus sentimentos. Yayá foi ter com ella, falou-lhe com brandura e submissão.

—Não se zangue, mamãesinha, se lhe não disse antes o que fiz agora mesmo; estava certa de que approvaria, ou me perdoaria, quando menos. O homem de que lhe falo ama-me, e a senhora mesma não rejeitou a ideia de me ver casada com elle.

—Não tens culpa da imprudencia que commetteste, disse Estella; porque antes disso tinhas perdido a razão. Vem cá; disseste-me ahi uma palavra absurda, e é preciso que me digas outra com que expliques a primeira. Porque eu gosto delle? continuou depois de alguns instantes. Que quer dizer com isso?

Yayá curvou a cabeça.

—Fala!

—Não direi nada; essa palavra explica tudo. Se gosta como eu creio, é a sua felicidade que lhe trago, não digo a troco da minha, porque seria lançar-lhe em rosto o sacrificio, mas a troco de uma illusão, e nada mais. Não pense que lhe quero mal; não posso querer mal a quem me tem ou teve alguma affeição e substituiu dignamente minha mãe. Se lhe quizesse mal, é provavel que não fizesse o que fiz.

Em quanto falava a enteada, Estella tinha a fronte inclinada e pensativa; attitude em que se conservou ainda durante algum tempo.

—Bem vê que acertei, disse Yayá; seu silencio confirma a minha supposição.

—Eu! exclamou Estella estremecendo. Tu não entendes nada dos sentimentos, não conheces o coração. Eu amal-o? eu? Não! não é possivel!

—Talvez não, mas o que está feito, está feito.

A madrasta quiz retel-a, mas não pode; Yayá saiu sem dizer nada. Estella ficou atordoada, confusa e até medrosa; reboavam-lhe aos ouvidos as palavras de Yayá, não como um som exterior, mas como o brado da propria consciencia. Venceu o abatimento, reagiu depressa como lh'o pediam as circumstancias e a propria necessidade de sua natureza. Não teve tempo de cogitar no modo por que a enteada chegara a suspeitar um sentimento que ella recalcara no coração. Urgia reparar o mal feito pela imprudencia da moça. Estella dispoz-se a responder desde logo á carta de Jorge, e não sabia ainda claramente o que lhe havia de dizer. Tratou primeiro de chamar Raymundo, e vendo que elle não acudia foi ter com Yayá.

—Raymundo foi levar uma carta minha ao Procopio Dias, respondeu esta.

Estella caiu n'uma cadeira. Pela primeira vez, alumiou-lhe o espirito uma ideia cruel: a ideia de que a suspeita de Yayá fosse mais do que uma simples e innocente conjectura. Os olhos que lançou á moça ardiam de indignação. Cobriu-os depressa, não para chorar, mas para fugir aos da outra. O olhar de Estella fez vacillar por um instante a convicção da enteada; a colera pareceu-lhe sincera e até excessiva; mas o gesto que se lhe seguiu attenuou e desvaneceu a primeira impressão. Yayá suppoz ver na attitude da madrasta uma confissão involuntaria, uma expressão de abatimento e desespero, como de pessoa que entrevê a felicidade propria e julga dever sacrifical-a á de outrem. Era generosa. Caminhou para ella, dobrou as curvas, pousou-lhe no regaço os braços, tremulos de commoção; com as mãos desviou as de Estella e fitou-lhe os olhos, que estavam sombrios.

—Fui estouvada, confesso, disse ella; devia tel-a consultado antes de fazer o que fiz. Mas eu temia a sua opposição, e não queria tornal-a desgraçada. Sou mais moça que a senhora; se tivesse de consolar-me, consolava-me despressa. Mas não tenho; não amava; cedi a um capricho, e não sinto a menor dor ao despedir-me delle. Ande, perdôe-me; e esteja certa de que não a amarei menos do que até agora.

Ergueu-se e procurou beijal-a. A madrasta recuou instinctivamente a cabeça; era um resto de repugnancia, que a physionomia ingenua e pura de Yayá para logo dissipou. Em tão verdes annos, sem nenhum trato social, era licito suppôr na menina tamanha dissimulação? Estella concluiu que a acção da enteada vinha, não de uma supposição ultrajante, mas de um impulso desinteressado. Qualquer que fosse o fundamento da suspeita, o procedimento da enteada trazia o cunho da candura e da boa fé; assim pensando, Estella sentiu desopprimir-se-lhe a alma. Não era generosa,—ou tinha sómente a generosidade fria e altiva, que nasce da soberba. Mas não era insensivel, e o desinteresse da menina tocou-lhe profundamente o coração. Inclinou-se para ella, tomou-lhe a cabeça entre as mãos e fitou-a, com um olhar severo e maternal ao mesmo tempo.

—Perdoo-te, disse finalmente, porque não sabes o que fizeste. A intenção é que te salva do meu odio; digo mal, do meu desprezo. Se queres medir bem a profundidade do abysmo que acabas de cavar, fica sabendo que me injuriaste, pensando servir-me, e que o resultado do teu erro pode talvez arrancar-te lagrimas amargas e inuteis. Teu castigo será que só eu os enxugarei;—ouves bem? só eu.

Dizendo isto, soltou a cabeça da enteada com um gesto rispido, em que havia ainda um pouco de irritação. Yayá estava pallida. Sentiu na palavra secca e fria da madrasta um alento de indignação sincera; e a alma caiu-lhe prostrada, mais ainda do que o corpo, que não podendo suster-se, procurou amparar-se no movel que achou mais proximo. A duvida, que já antes atravessara o espirito da moça, começou a invadil-o. Yayá fitou Estella com o mais agudo de seus olhares, acompanhou-a de um lado para outro, por que a madrasta, logo depois das palavras que lhe disse, entrara a andar e a reflectir. Se a viuva era sincera, Yayá acabava de fazer gratuitamente a sua propria desgraça; foi o que a moça pensou. No atordoamento moral em que esta hypothese a lançou, Yayá achou-se entre dous desejos, mal definidos, mas inteiramente oppostos um ao outro. Quizera e não quizera ter-se enganado; aspirava a conciliar o coração e a consciencia. Seu espirito evocou a hora inicial da suspeita,—aquella funesta manhã, em que a carta de Jorge foi lida por Estella; recordou o gesto da madrasta, o tremor, a lividez, os vivos symptomas da consternação, do medo ou do remorso. Seria engano aquillo? não era evidente que elles se haviam amado, que se amavam ainda naquella occasião; e, dada affirmativa, era acaso impossivel que Estella, ao menos, o amasse ainda hoje?

Yayá ateve-se a esta conclusão, embora confirmasse a ruina de suas esperanças; a conclusão, porém, contrastava com a impassibilidade da madrasta. Já então perdera Estella o alvoroço do primeiro momento. Depois de alguns minutos de reflexão, parara em frente da enteada. Era difficil ver na attitude quieta, no aspecto de matrona severa e digna alguma cousa que se parecesse com as ancias, o triumpho ou o abatimento de uma rival. Yayá deixou-se estar deante della, a fital-a e a revolvel-a. A porção da alma que transparecia do rosto da viuva era tão fria, tão indifferente, que mal se podia combinar com o sentimento que Yayá lhe attribuia. Foi o que esta pensou ver com seus olhos finamente sagazes; e no meio desse contraste entre o aspecto presente e a revelação passada, Yayá acabou por não saber definitivamente onde ficava a verdade, e esteve a ponto de lh'a pedir de joelhos.

Achavam-se então no gabinete de Luiz Garcia, defronte da secretaria, onde o finado encontrara, com outros papeis, a carta que dera logar ás conjecturas de Yayá. Não havia mudança nem no numero nem na disposição dos moveis. Só a luz era differente, porque a daquelle dia era viva e clara, coada atravez de uma atmosphera serena, como a vida anterior dessa familia, ao passo que a de hoje vinha turva e meia apagada pelas nuvens de um ceu chuvoso e triste. Na longa pausa que houve entre a madrasta e a enteada, os unicos sons que se ouviam eram o rufar da chuva na folhagem do jardim e o tic-tac de um relogio de parede.

—Escuta, disse finalmente Estella; se alguma razão tens para crer que amo esse homem, é necessrio mostrar-te a realidade das cousas.

Estella abriu duas ou tres gavetinhas da secretaria, e depois de alguma busca entre os maços de cartas que ahi encontrou, tirou uma, abriu-a e deu-a á enteada. Yayá recebeu-a com as mãos tremulas de curiosidade; leu-a toda; devia ser a mesma que o pae mostrara á madrasta.

—Essa moça era a senhora? murmurou ella como se ainda esperasse resposta negativa.

—Era eu.

Yayá deixou-se cair n'uma cadeira raza, a mesma em que Estella estivera sentada, quando ouviu a confidencia do marido.

—Vês? disse Estella; foi por mim que elle fez o sacrificio de ir para a guerra, sem esperança de ser retribuido nem de contar um dia com a minha gratidão. Foi para a guerra, lutou, padeceu, fiel ao sentimento que o tinha levado, até o ponto de o crer eterno. Eterno! Sabes quanto durou essa eternidade de alguns annos. É duro de ouvir, minha filha, mas não ha nada eterno neste mundo; nada, nada. As mais profundas paixões morrem com o tempo. Um homem sacrifica o repouso, arrisca a vida, affronta a vontade de sua mãe, rebella-se, e pede a morte; e essa paixão violenta e extraordinaria acaba ás portas de um simples namoro, entre duas chicaras de chá...

—A senhora não o amou nunca? interrompeu Yayá, ao sentir o tremor e o despeito com que a madrasta proferira as ultimas palavras.

—Havia entre nós um fosso largo, muito largo, disse Estella. Eu era humilde e obscura, elle distincto e considerado; differença que podia desapparecer, se a natureza me houvesse dado outro coração. Medi toda a distancia que nos separava e tratei simplesmente de evital-o. Foi então que elle embarcou; interiormente approvei-o. Talvez lhe não neguei um pouco de compaixão silenciosa, mas nada mais. Casamento entre nós, era impossivel, ainda que todos trabalhassem para elle; era impossivel, sim, porque o consideraria uma especie de favor, e eu tenho em grande respeito a minha propria condição. Meu pae já me achava, em pequena, uns arremeços de orgulho. Como querias tu que, com tal sentimento, pudesse desposar um homem, socialmente superior a mim? Era preciso dar-me outra indole. Todas as felicidades do casamento achei-as ao pé de teu pae. Não nos casamos por amor; foi escolha da razão, e por isso acertada. Não tínhamos illusões; pudemos ser felizes sem desencanto. Teu pae não tinha os mesmos sentimentos que eu; era mais timido que orgulhoso. Qualquer que fosse a razão do seu desapego ao mundo, bastava que o tivesse, para me fazer feliz; vivemos assim alguns annos de inteiro isolamento, sem conhecer o amargor, que é o que fica no fundo da vida, sem necessidade da dissimulação... Minto; tive necessidade de fingir, desde que aquelle homem aqui appareceu; era necessario. Um dia teu pae mostrou-me essa carta e referiu-me a paixão encoberta que ahi se conta; podes imaginar se ouvi tranquilla. Mas fóra desse acontecimento, que outro podia perturbar minha alma? Não vi nenhuma porta abrir-se-me por obsequio, nenhuma mão apertou a minha por simples condescendencia. Não conheci a polidez humilhante, nem a afabilidade sem calor. Meu nome não serviu de pasto á natural curiosidade dos amigos de meu marido. Quem é ella? donde veiu? Ninguem me perguntou donde vinha, não é verdade? Perguntaste-me quem era eu? Não; amaste-me como tinhas amado tua mãe, e eu amei-te, como se foras minha filha. E para isso bastou-nos estender os braços; não foi preciso descer nem subir.

—Não foi, bradou Yayá commovida, apertando-lhe as mãos.

—Já vês quem eu era e sou; uma especie de animal feroz, que prefere a charneca ao jardim. Não me senti lisongeada com a paixão que inspirei; rejeitei, talvez, um marido digno das ambições de qualquer mulher. Era isto o que querias saber? Pois ahi tens a minha historia, a historia, dessa carta, que já agora podemos rasgar...

Estella pegou na carta e rasgou-a lentamente, em pedaços miudos, emquanto a enteada reflectia nas revelações que acabava de ouvir. A madrasta deitou os fragmentos do papel á cesta.

—Resta concertar a imprudencia e casar, disse Estella dando á palavra um tom galhofeiro.

—Não sei! murmurou Yayá. O que a senhora me disse é grave; não ha sentimentos eternos. Parece que depois de tamanha paixão, qualquer outro affecto não terá longa vida.

—Porque não? Não has de querer agora uma paixão, que o leve á guerra; seria um desastre. Mas está nas tuas mãos fazer que elle te ame sempre e muito.

Yayá reflectiu um instante.

—Jure-me que o não ama!

Estella franziu o sobr'olho; depois mostrou-lhe o bilhete que Jorge lhe escrevera pouco antes, e cuja redacção dissiparia á moça qualquer duvida em relação ao noivo. Era uma evasiva para lhe não confessar nem mentir. A primeira vez que lhe negara o amor, foi antes um grito do coração que queria enganar-se a si proprio: agora preferia calar-se. A certeza da isenção de Jorge importava muito mais que a de Estella; a alma de Yayá no primeiro instante, respirou á larga. O respeito que tinha á madrasta, e um pouco de ciume retrospectivo que a mordia, ao pensar naquella paixão tão violenta e tão desenganada, empeciam á moça qualquer outra manifestação. Quando se achou a sós comsigo, levava o espirito arejado da suspeita que o opprimira durante largos mezes; mas o vento que o lavou das sombras, lá lhe queimou algumas das flores desabotoadas ao calor do primeiro sol. A felicidade tinha um travo de desgosto e humilhação; o coração tremia de medo.