Iaiá Garcia
Capítulo VII
Tres mezes depois da chegada ao Rio de Janeiro, tinha Jorge liquidado todos os negocios de familia. Os haveres herdados podiam dispensal-o de advogar ou de seguir qualquer outra profissão, uma vez que não fosse ambicioso e regesse com criterio o uso de suas rendas. Tinha as qualidades precisas para isso, umas naturaes, outras obtidas com o tempo. Os quatro annos de guerra, de mãos dadas com os successos immediatamente anteriores, fizeram-lhe perder certas preoccupações que eram em 1866, as unicas de seu espirito. A vida á redea solta, o desperdicio elegante, todas as seduções juvenis, eram inteiramente passadas.
O espectaculo da guerra, que não raro engendra o orgulho, produziu em Jorge uma acção contraria, porque elle viu, ao lado da justa gloria de seu paiz, o irremediavel conflicto das cousas humanas. Pela primeira vez meditou; admirou-se de achar em si uma fonte de ideias e sensações, que unica lhe deram os receios de outro tempo. Comtudo, não se pode dizer que viera philosopho. Era um homem, apenas, cuja consciencia recta e candida sobrevivera ás preoccupações da primeira quadra, cujo espirito, temperado pela vida intensa de uma longa campanha, começa de penetrar um pouco abaixo da superficie das cousas.
Querendo adoptar um plano de vida nova, renegou a principio todos os habitos anteriores, disposto a dar á sociedade tão sómente a stricta polidez. Teve primeiro ideia de ir estabelecer-se em algum recanto silencioso e escuso no interior; mas desistiu logo, cedendo á necessidade de ficar mais á mão de uma viagem transatlantica, ideia a que aliás nunca deu principio de execução.
O primeiros tres mezes passaram depressa; foram empregados em liquidar o inventario. Poucos legados deixara a viuva. Um delles interessa-nos, porque recaiu em favor de Yayá Garcia. A viuva beneficiava assim, indirectamente, o marido de Estella. Jorge approvou cordialmente o acto de sua mãe. Não approvou menos o dote de Estella, mas o sentimento do vexame que experimentou, logo que delle teve noticia, honrava a delicadeza de seu coração.
Luiz Garcia dera-se pressa em visitar o filho de Valeria. A entrevista desses dous homens, que o curso dos successos collocara em tão delicada situação, foi cordial, mas não expansiva. Jorge não achou Luiz Garcia mais velho; era o mesmo. Não o achou tambem menos reservado que antes. A conversa, em começo não foi além dos factos geraes; falaram da guerra e das victorias. Jorge referiu alguns episodios, que o outro ouviu com interesse; e, como parecesse olvidar seus proprios feitos:
—Vejo que é modesto, observou Luiz Garcia; felizmente lemos as folhas e as partes officiaes.
—Fiz o que pude, respondeu Jorge; era preciso vencer ou ser vencido. Que é feito de tanta gente que ainda não vi? continuou elle para desviar o assumpto.
—Cada qual segue o seu destino. Meu sogro creio que já o visitou...
—Já.
—A proposito, deixe-me agradecer os beneficios que devo a sua mãe...
Jorge quiz interrompel-o com o gesto.
—Perdão; e meu dever, continuou Luiz Garcia gravemente. A Sra. D. Valeria quiz mostrar ainda á ultima hora a sympathia que sempre lhe mereci. Duas vezes o fez, além de outras. Primeiramente, resolveu-me a casar outra vez, cousa que estava longe de meus calculos. Foi ella a primeira autora dessa transformação de minha vida, e em boa hora o foi, porque não me podia fazer maior obsequio. Requintou o obsequio, occultando até a ultima hora a prova de ternura que desde alguns mezes antes dera a minha mulher; tinha-a dotado, como deve saber...
Jorge fez um gesto affirmativo.
—Achou que não era bastante e deixou, a minha filha um legado, que será o seu dote... Gostava muito della. Não podendo agradecel-o á bemfeitora, permitta que o agradeço ao...
—Desta vez hade obedecer-me, interrompeu Jorge com brandura; falemos de outra cousa.
—Sim; falemos de minha mulher. Saiba que rematou dignamente a obra de sua mãe; e mais uma vez me fez comprehender o beneficio do casamento. Logo depois de casado, propoz-me acceitar, em favor de minha filha, a parte com que a Sra. D. Valeria lhe manifestara sua affeição. Gostei de a ouvir, por que era signal de desinteresse, mas recusei, e recusei sem efficacia. Cedi, emfim; e não podia ser de outro modo. Folgo de lhe dizer essas cousas porque são raras...
Jorge fechou o rosto ao ouvir essas palavras de Luiz Garcia. Adivinhara a causa do desinteresse de Estella.—Eterno orgulho! pensou elle. Depois reflectiu no caso e perguntou a si mesmo se a moça teria confiado ao marido alguma cousa do que se passara entre elles. Era difficil percebel-o, mas não era acertado suppôl-o. Nenhuma mulher o faria nunca, Estella menos que nenhuma outra. Interrogou o rosto de Luiz Garcia; achou-a placido e immovel. Após alguns segundos de silencio, estendeu-lhe a mão.
—Permitte-me então que o felicite? disse elle.
—De coração, acudiu Luiz Garcia. E depois de erguer-se:—Se eu tivesse o sestro de dar conselhos, dir-lhe-hia que se casasse.
—Póde ser.
—Não lhe pergunto pela outra paixão; creio que a esqueceu de todo.
—De todo.
Luiz Garcia apertou-lhe cordialmente a mão e saiu, depois de lhe offerecer a casa. Jorge ficou alguns instantes pensativo. A noticia do dote de Estella causara-lhe certo vexame; a noticia da doação feita pela moça em favor da enteada, produzia-lhe agora um sentimento mesclado de admiração e despeito. Ella sentia arder no mais fundo do coração da moça um residuo de odio, e em seu proprio coração não podia deixar de approvar o acto.
Sendo forçosa pagar a visita a Luiz Garcia, Jorge demorou o cumprimento desse dever emquanto lhe foi possivel fazel-o sem reparo. Um dia, emfim, sabendo por intermedio do Sr. Antunes que a familia não estava em casa, foi a Santa Thereza e deixou lá um bilhete de visita.
A vida de Jorge foi então dividida entre o estudo e a sociedade, á qual cabia sómente uma parte minima. Estudava muito e projectava ainda mais. Delineou varias obras durante algumas semanas. A primeira foi uma historia da guerra, que deixou por mão, desde que encarou de frente o monte de documentos que teria de compulsar, e as numerosas datas que seria obrigado a colligir. Veiu depois um opusculo sobre questões juridicas e logo duas biographias de generaes. Tão depressa escrevia o titulo da obra como a punha de lado. O espirito soffrego colhia só as primicias da ideia, que aliás entrevia apenas. Uma vez, uma só vez, lembrou-se de escrever um romance, que era nada menos que o seu proprio; ao cabo de algumas paginas, reconheceu que a execução não correspondia ao pensamento, e que não saía das effusões lyricas e das proporções da anedocta.
Quando mais disposto se achava a compor essa autobiographia, occorreu vagar a casa da Tijuca, a mesma aonde fora uma vez com sua mãe e Estella, ponto de partida dos successos que lhe transformaram a existencia. Quiz vel-a novamente; talvez alli achasse uma fonte de inspiração. Foi; achou-a quasi no mesmo estado. Entrou curioso e tranquillo. Pouco a pouco sentiu que o passado começava a reviver; a resurreição foi completa, quando penetrou na varanda, em que da primeira vez achara o casal de pombos, solitario e esquecido. Já lá não estavam as pobres aves! Tinham voado ou morrido, como as esperanças delle, e tão discretamente que a ninguem revelaram o desastrado episodio. Mas as paredes eram as mesmas; eram os mesmos o parapeito e o ladrilho do chão. Jorge encostou-se ao parapeito, onde estivera Estella, com os pombos ao collo, diante delle, naquella fatal manhã. O que sentia nesse outro tempo, posto frisasse o amor, tinha ainda um pouco de estouvamento juvenil. Comtudo, a vista das paredes nuas e frias da varanda abria-lhe na alma a fonte das sensações austeras, e elle tornou a ver os olhos férvidos e o rosto pallido da moça; pareceu até escutar-lhe o som da voz. Viu tambem a sua propria violencia; e, como em meio de tantas vicissitudes, trazia ainda a consciencia integra, a recordação fel-o estremecer e abater. Jorge fincou os braços no parapeito e fechou a cabeça nas mãos.
—Olá, senhor dorminhoco! São horas de almoçar.
Jorge ergueu vivamente a cabeça e olhou para a chacara, donde lhe pareceu que saíra a voz. Na chacara, a vinte passos de distancia, estava um homem, que sorria para elle, com as mãos nas costas, seguras a uma grossa bengala. Jorge sentiu um calefrio, como se lhe descobrissem o segredo do passado. Só depois de desfeita a primeira sensação, respondeu sorrindo:
—Não durmo; estou pensando nos alugueis.
—Muda-se para aqui?
—Não.
—A casa é sua?
—É. Suba cá.
O homem galgou os seis degraos da escada de tijolo e entrou na varanda, onde Jorge assumira exclusivamente o papel de proprietario, olhando attentamente para as paredes do edificio.
—Que faz por aqui, Sr. Procopio Dias, ás dez horas da manhã? disse Jorge logo que o outro appareceu.
—Passei a noite na Tijuca; soube que esta casa vagara, vim vel-a; não sabia que era sua. Está um pouco estragada.
—Muito.
—Muito?
—Parece.
Procopio Dias abanou a cabeça com um gesto de lastima.
Não é assim que deve responder um proprietario, disse elle. Meu interesse é achal-a arruinada; o seu é dizer que apenas precisa de algum concerto. A realidade é que a casa está entre a minha e a sua opinião. Olhe, se está disposto a concordar sempre com os inquilinos, é melhor vender as casas todas que possue.—Ou fica perdido... Com que então esta casa é sua? A apparencia não é feia; ha alguma cousa que pode ser concertada e ficará então excellente. Não é casa moderna; mas é solida. Eu já a vi quasi toda; desci á chacara, e estava a examinal-a, quando o senhor appareceu na varanda.
—Quer ficar com ella?
—Ingenuo! respondeu Procopio Dias batendo-lhe alegremente no hombro. Se eu confesso que ella não está muito estragada é porque não a quero para mim. É grande de mais; e depois, fica muito longe da cidade. Se fosse mais para baixo...
—Mas no caso de que haja por ahi algum namoro? ponderou Jorge sorrindo.
—Falemos de outra cousa, acudiu o outro faiscando-lhe os olhos.
Os olhos de Procopio Dias eram cor de chumbo, com uma expressão reflectida e sonsa. Tinha cincoenta annos esse homem, uns cincoenta annos ainda verdes e prosperos. Era mediano de carnes e de estatura, e não horrivelmente feio; a porção de fealdade que lhe coubera, elle a disfarçava, quanto podia, por meio de qualidades que adquirira com o tempo e o trato social. Fazia ás vezes um movimento que lhe descrevia na testa cinco rugas horizontaes. Era uma das suas maneiras de rir. Além dessa particularidade, havia o feitio do nariz, que representava um triangulo de lados eguaes, ou quasi: nariz a um tempo sarcastico e inquisidor. Não obstante a expressão dos olhos, Procopio Dias tinha a particularidade de parecer simplorio, sempre que lhe convinha; nessas occasiões é que ria com a testa. Não usava barba; elle proprio a fazia com o maior esmero. Via-se que era homem abastado. As roupas, graves no corte e nas cores, eram da melhor fazenda e do mais perfeito acabado. Naquella manhã trazia uma longa sobrecasaca abotoada até metade do peito, deixando ver meio palmo de camisa, infinitamente bordada. Entre o ultimo botão da sobrecasaca e o unico do collarinho, fulgia um brilhante vasto, ostensivo, escandaloso. Um dos dedos da mão esquerda ornava-se com uma soberba granada. A bengala tinha o castão de ouro lavrado, com as iniciaes delle por cima,—de forma gothica.
Jorge conheceu Procopio Dias no Paraguay, onde este fora negociar e triplicar os capitaes, o que lhe permittiu collocar-se acima das viravoltas da fortuna. Travaram relações, não intimas, mas frequentes e agradaveis, e até certo ponto uteis a Procopio Dias, que obteve de Jorge mais de uma recommendação. Não obstante a frequencia das relações, estavam longe da amizade estreita; e isso, não por esforço de Procopio Dias, cujas maneiras faceis assediaram por muito tempo a inexperiencia de Jorge. O motivo de Procopio Dias cessou com a guerra, desde que com a guerra cessara tambem o interesse mercantil. Jorge não tinha motivo contra elle; quando o conhecera estava no periodo melancholico.
—Ainda não respondeu á minha suspeita, disse Jorge dando o braço a Procopio Dias.
—O namoro?
—Sim.
—Nem sombras disso, meu caro! Ou antes.... creio que vou entrar para um convento: é a minha ultima ambição.
Procopio Dias tinha dous credos. Era um delles o lucro. Mediante alguns annos de trabalho assiduo e finuras encobertas, viu engrossarem-lhe os cabedaes. Em 1864, por um instincto verdadeiramente miraculoso, farejou a crise e o descalabro dos bancos, e retirou a tempo os fundos que tinha em um delles. Sobrevindo a guerra, atirou-se a toda a sorte de meios que pudessem tresdobrar-lhe as rendas, cousa que effectivamente alcançou no fim de 1869.
A não ser o segundo credo, é provavel que Procopio Dias só liquidasse com a morte. Tendo chegado a uma posição solida, aos cincoenta annos, achou-se deante de outra riqueza, não inferior áquella, que era o tempo. Ora o segundo credo era o gozo. Para elle, a vida physica era todo o destino da especie humana. Nunca fora sordido; desde as primeiras phases da vida, reservou para si a porção de gozo compativel com os meios da occasião. Sua philosophia tinha dous paes: Lucullo e Salomão,—não o Lucullo general, nem o Salomão piedoso, mas só a parte sensual desses dous homens, porque o eterno feminino não o dominava menos que o eterno estomago. Entre os collegas de negocio foi sempre tido como um feliz vencedor de corações francos. E, ao envez de outros, não punha nisso a menor vaidade ou gloriola; preferia a cautella e a obscuridade, não em attenção ao pudor publico, mas porque era mais commodo. Nenhuma diva mundana teria jamais a audacia de cortejal-o na rua ou sorrir-lhe simplesmente; perdia o tempo e o sacerdote. Gozava para si, que é a perfeição sensual.
Não conhecia Jorge nem a vida nem o caracter do outro. Procopio Dias tinha o peor merito que pode caber a um homem sem moral: era insinuante, affavel, conversado; tinha certa viveza e graça. Era bom parceiro de rapazes e senhoras. Para os primeiros, quando elles o pediam, tinha a anedocta crespa e o estylo vil; se lhes repugnava isso, usava de atavios differentes. Com senhoras era o mais paciente dos homens, o mais serviçal, o mais boliçoso,— uma joia.
—Ninguem o vê, dizia elle d'ahi a duas horas, á mesa do almoço de Jorge, na casa da rua dos Invalidos. Não conheço os seus amigos de outro tempo, mas devo crer que todos lhe censuram essa vida de bicho do matto.—Nos theatros.... nunca vae aos theatros?
—Quasi nunca.
—Vamos hoje?
—Corruptor? disse Jorge sorrindo.
De noite foram ao theatro. Procopio Dias estava de veia; a palestra, a scena, o proprio tempo, tudo conspirou para dissipar as sombras de melancholia que a manhã accumulara na fronte de Jorge.—Não se deixe apodrecer na obscuridade, que é a mais fria das sepulturas, dizia Procopio Dias, á mesa de um hotel, onde fora ceiar. Jorge não comeu nada. Mau grado o prazer que achava em estar com elle, não quiz acceitar-lhe o obsequio da ceia, apezar de lhe ter feito o do almoço. Procopio Dias percebeu isso mesmo, mas não se molestou; abaixou a cabeça, deixou passar essa onda de desconfiança, e surgiu fóra, a rir. Sairam dalli uma hora depois. A evocação da Tijuca tinha-se esvaido.
Jorge deixou-se persuadir dos conselhos do outro. Abriu mão do ultimo livro planeado, contentando-se com tel-o vivido. Demais o tempo ia minando a antiga sensação, e a vida social tornava a prendel-o em suas malhas.
Entre as pessoas que tornou a ver, figurava a mesma Eulalia, com quem a mãe quizera casal-o, alguns annos antes. Eulalia não ficara solteira; estava na lua de mel, uma lua de mel que durava mais de um anno. O casamento fora a vara mosaica, mediante a qual se lhe abrira no coração uma fontesinha de ternura. Encontraram-se n'um baile. Nenhum delles sentiu acanhamento; como nunca chegaram a tratar dos projectos de Valeria, poderam falar com a mesma isenção de 1866. A differença é que Eulalia, que era feliz, exagerava a felicidade para melhor mostral-a a Jorge e convencel-o de que antes ganhara do que perdera com a recusa delle.
—Vá lá á rua de Olinda, disse a moça; quero mostrar-lhe meu filho.
Jorge foi. Eulalia mostrou-lhe o filho, creança que valia por duas, tão gorda e vigorosa era. Jorge chegou a pegar nelle, mas não sabia haver-se com as rendas, os babados, as fitas. Eulalia que possuia já toda a destreza materna, tomou-lh'o das mãos.—O senhor não entende disto, disse ella. E depois de concertar a touca da creança, beijou-a muitas vezes, riu-se para ella, fez-lhe um monologo, tudo com uma graça e poesia, que Jorge estava longe de lhe suppôr cinco annos antes. Elle contemplava essa joven mãe, elegante e natural, e sentia-se tomado de inveja e cobiça.
—A felicidade é isto mesmo, pensou elle.
Voltou lá algumas vezes, fez-se intimo da casa. Começou a receber tambem. Viu entre os frequentadores de sua casa o pae de Estella, que achou nelle a benevolencia do desembargador. O Sr. Antunes era conviva certo ao almoço dos domingos; dava-lhe noticias do genro e da filha. Elle pranteava ainda a chimera esvaida, e achava não sei que dolorido prazer em falar de Estella ao genro de suas ambições. Demais, era um como desforço do outro, a respeito de quem aventurou mais de uma queixa. Jorge, porém, ouvia-o sem lhe responder nada.