Iaiá Garcia

Machado de Assis · Capítulo 17 de 18

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Iaiá Garcia

Capítulo XVII

Quando mais absorta estava nesse contraste de sensações, viu Raymundo transpor a porta do jardim.

 

XVII

 

Yayá foi ter com Raymundo.

—Entregaste?

—Não entreguei, disse o preto.

Yayá ficou alguns instantes immovel. Raymundo tirou a carta do bolso, e esteve com ella nas mãos, sem atrever-se a levantar os olhos; levantou-os emfim e disse resolutamente:

—Raymundo não achou bonito que Yayá escrevesse áquelle homem, que não é seu pae nem seu noivo, e voltou para falar a nhanhã Estella.

—Dê cá, disse a moça seccamente; não é preciso.

Raymundo entregou-lhe a carta, e sacudiu a cabeça encanecida, como se quizera repellir os annos que sobre ella pesavam, e retroceder ao tempo em que Yayá era uma simples creança, travessa e nada mais. Tinha-lhe custado a resolução; tres vezes investira a porta de Procopio Dias para obedecer á filha do seu antigo senhor, e tres vezes recuara, até que venceu nelle o presentimento,—uma cousa que lhe martellava no coração, dizia elle dahi a pouco a Estella, quando lhe referiu tudo.

Estella não se deteve mais. Na carta, que escreveu a Jorge, disse que a enteada era apenas uma menina romanesca, desconfiada e curiosa; queria desfazer o casamento, porque suppunha não ser amada com egual ardor ao seu.—«Yayá adora-o, concluia Estella, e não se sente adorada. Venha prostrar-se ao pé do altar, e terá em mim a mais piedosa sacristã.»

Yayá teve noticia da carta, e já tarde para oppôr qualquer objecção. O primeiro impulso foi agradecer a pia fraude da madrasta; mas a alma, picada por um resto de ciume, depressa conteve o impulso, e a unica resposta da moça foi um gesto de acanhamento e um silencio largo. Ouviu-a depois sem azedume nem impaciencia, attenta á menor hesitação que lhe truncasse a palavra, ou á minima sombra de desgosto que lhe velasse os olhos. A verdade é que a ternura da madrasta e a jovialidade recente de seus modos traziam certa nota desusada e violenta, e esse excesso fazia reflectir a enteada.

Entretanto, a carta de Estella chegou ás mãos de Jorge, que a leu duas vezes para conseguir entender-lhe o sentido. A explicação tinha o defeito de ser um pouco subtil; mas a alma de Jorge conservava sempre uma porta aberta aos sentimentos extraordinarios. Demais, qualquer explicação favoravel era um beneficio, e aquella tinha a vantagem de affagar o amor-proprio, além de vir ajustada com o espirito inquieto e subito da noiva. Leu a carta sem cotejar o texto com a assignatura, sem attentar naquella sacristã em cujos hombros quizera outr'ora atar a veste sacerdotal.

Nessa mesma noite foi á casa da noiva, que o recebeu sem contentamento nem mortificação, um pouco laconica e meditativa. Nem um nem outro alludiu aos successos ultimos; fel-o Estella com muita pertinencia e tacto. Não obstante, como a explicação da viuva não correspondia exactamente á realidade das cousas, a situação ficou ainda obscura e vaga, e por ventura exagerou o acanhamento reciproco. A persuasão de que Yayá exigia da parte delle maior intensidade de sentimento, não inclinara o espirito de Jorge a nenhuma ostentasão theatral,—mas acabou por lhe infundir deveras maior ternura, e augmentou a vitalidade de um sentimento, que é a forma desinteressada do egoismo,—a felicidade de fazer outrem feliz.

—Marquemos o casamento para esta semana, disse Estella na noite de um domingo.

—Ainda não, respondeu a enteada.

Posto visse dissipada a tempestade que lhe negrejara sobre a cabeça, Yayá enxergava ainda para o lado poente um spectro, e para o lado do nascente uma possibilidade. Esses dous pontos negros vinham estragar a belleza azul do ceu e tornal-o pesado e melancholico. O mysterio do futuro unia-se ao mysterio do passado; um e outro podiam devorar o presente, e ella receiava ser esmagada entre ambos. A convivencia da familia atterrava-a. Que seria para ella o casamento, se tivesse de penetrar nelle com a perpetua ameaça deante dos olhos, uma antiga semente de amor, que a primara brisa da primavera podia fazer brotar e crescer de novo? Acreditava na isenção presente da madrasta, e na inteira cura do marido, mas o futuro? A belleza de Estella estava ainda longe do declinio, e a modestia de Yayá fazia-a persuadir de que, ainda no declinio, seria superior á sua.

Uma noite, entrou o Sr. Antunes e deu uma carta á filha, que a leu silenciosamente.

—Olha, disse ella apresentando a carta á enteada.

Yayá leu-a; eram duas paginas escriptas de alto abaixo, e por lettra desconhecida. Uma antiga condiscipula de Estella, residente no norte de S. Paulo, acceitava a proposta que esta lhe fizera, de ir dirigir-lhe o estabelecimento de educação que alli fundara desde alguns mezes.

—Bem vês que é necessario casar-te quanto antes, disse Estella logo que a enteada acabou a leitura.

Yayá sentiu os olhos humidos e atirou-se aos braços da madrasta. A effusão era sincera; havia alli affecto, reconhecimento e admiração. Mas, por isso mesmo que era sincera, deveria molestar a madrasta, se alguma cousa podesse já molestal-a. Estella sorriu, —um sorriso que queria dizer:—Bem sei que sou de mais. A lingua, porém, não proferiu uma palavra unica.

—Que quer dizer isso? perguntou o pae de Estella, que nada sabia da carta, e consequentemente nada entendia daquella expansão da moça.

Estella mostrou-lhe a carta. O pae não pode acabar de ler: a primeira pagina fizera-lhe comprehender tudo. Seus olhos iam do papel á filha e da filha ao papel, sem que a boca se atrevesse a formular nenhuma queixa ou censura.

—Não digo que me obedeças, murmurou elle; mas parece que podias consultar-me...

—Eu estava certa da sua approvação, respondeu Estella. Ou parece-lhe que fiz mal?

—Nunca fizeste bem em cousa nenhuma, disse tristemente o pae. E pegando-lhe nas mãos:—Tão moça! tão bonita!

O dia do casamento foi definitivamente marcado naquella noite. Como Estella declarasse que ella propria serviria de madrinha, Yayá procurou dissuadil-a cautelosamente; tambem ao noivo repugnou a intervenção espiritual da viuva. Mas Estella não se deu por entendida. O papel de acolyta, que a si mesma distribuira, tinha-o desempenhado com lealdade e dignidade. Quiz ir até o fim. Era o melhor modo de se mostrar isenta e superior. Jorge sentia-se vexado e transportado ao mesmo tempo, ao observar a simplicidade e o desvello que a viuva punha naquelle acto. Yayá sentia só admiração e gratidão. Tinha já certeza de que o passado era pouca cousa, e de que o futuro seria cousa nenhuma. O casamento ia separal-as, reconciliando-as.

Casados os dous, Estella preparou-se para seguir viagem, não obstante a resistencia do pae, que foi tenaz e habil. O pae ficaria. Estava já tão cançado para viagens longas! A differença do clima, a falta de relações, a necessidade de não abrir mão do emprego, eram motivos de grave peso para não arriscar-se a deixar o Rio.

—Ao menos, promettes vir ver-me de quando em quando? disse o Sr. Antunes sentindo tremer-lhe nos olhos uma lagrima sincera.

Estella respondeu que sim; depois pediu-lhe que acceitasse uma mezada. O pae recusou commovido.—Tu vales muito, exclamou elle. O tom com que preferiu estas palavras deu uma esperança á filha.

—O senhor pode valer ainda mais do que eu, disse ella.

Depois contou-lhe a paixão de Jorge e todo o episodio da Tijuca, causa originaria dos acontecimentos narrados neste livro; mostrou-lhe com calor, com eloquencia, que, recusando ceder á paixão de Jorge, sacrificara algumas vantagens ao seu proprio decoro; sacrificio tanto mais digno de respeito, quanto que ella amava naquelle tempo o filho de Valeria. Que pedia agora ao pae? Pouca e muita cousa; pedia que a acompanhasse, que cessasse a vida de dependencia e servilidade em que vivera até alli; era um modo de a respeitar e respeitar-se. O pae escutava-a attonito.

—Tu chegaste a amal-o! exclamou elle. Não aborrecias? Amaram-se? E só agora sei... Bem digo eu; tu és uma fera. Não tens, nunca tiveste pena de minha velhice... Elle é tão bom! tão digno! E se morresse por tua causa? não terias remorsos? não te havia doer o coração quando soubesses que um moço tão bem nascido, que gostava de ti... Sim, elle gostava muito de ti; e tu tambem... e só hoje!

Estella fechou os olhos para não ver o pae. Nem esse amparo lhe ficava na solidão. Comprehendeu que devia contar só comsigo, e encarou serenamente o futuro. Partiu; o pae despediu-se della com o desespero no coração,—e desta vez a dor era desinteressada e pura. Jorge consolou-o depressa. Não houve interrupção na convivencia, e o Sr. Antunes continuou a achar alli a mesma protecção e cordialidade. Se o casamento fora um attentado, elle os absolveu disso, e repartiu com ambos infinita solicitude. Outra vez comensal assiduo, tornou a ser o homem de confiança. Fóra dalli, as horas de lazer que lhe deixava o pouco trabalho, eram empregadas nas sessões do jury, nas galerias da camara dos deputados ou nos bancos do Carceller. Não tendo já a aspiração de uma alliança vantajosa, adoptou a devoção da loteria. Era elle quem dava, secretamente, noticias de Estella a Yayá.

Esta achou no casamento a felicidade sem contraste. A sociedade não lhe negou carinhos e respeitos. Se antes de casar, Yayá possuia o abecedario da elegancia, depressa aprendeu a prosodia e a syntaxe; affez-se a todos os requintes da urbanidade, com a presteza de um espirito sagaz e penetrante. Nenhuma nuvem do passado veiu sombrear a fronte de um ou de outro; ninguem se interpunha entre elles. Yayá escrevia algumas vezes a Estella, que lhe respondia regularmente, e no mais puro estylo de familia. De longe em longe a enteada presenteava a madrasta, que lhe retribuia logo na primeira occasião. Quanto a encontrarem-se, era difficil; Estella applicava todos os seus cuidados á nova occupação.

Procopio Dias viu a morte de todas as esperanças ultimas, com uma philosophia que não suppunha ter em si. Naturalmente padeceu alguns dias de despeito; mas o despeito acabou com o amor. Verdade é que o ambiciado casamento abriu nelle o desejo de não morrer solteiro; e, perdida uma opportunidade, tratou de haver outras á mão. Ultimamente voltou á religião do celibato. Duas ou tres vezes encontrou Yayá e o marido. A ultima foi n'um sarau. Jogou o voltarete com Jorge e acompanhou a mulher até á carruagem, não sem lançar um olhar furtivo ao estribo, onde Yayá pousou o pé, cançado de valsar.

No primeiro anniversario da morte de Luiz Garcia, Yayá foi com o marido ao cemiterio, afim de depositar na sepultura do pae uma corôa de saudades. Outra corôa havia sido alli posta, com uma fita em que se liam estas palavras:—Á meu marido. Yayá beijou com ardor a singela dedicatoria, como beijaria a madrasta se ella lhe apparecesse naquelle instante. Era sincera a piedade da viuva. Alguma cousa escapa ao naufragio das illusões.