Iaiá Garcia
Capítulo X
E essas duas forças, uma de impulsão, outra de repulsão, tendiam a esbarrar-se, no caminho de seus destinos.
X
Ora, quatro ou cinco dias depois, Luiz Garcia que, na previsão de viagem, começara a arranjar alguns papeis esparsos e antigos, dispoz-se a concluir esse trabalho, não obstante haver sido dispensada a commissão. Era dia de anno bom,—uma bella manhã, fresca, limpida, azul. Tinham ido á missa na capella do convento; almoçaram em familia, com a presença do Sr. Antunes, que inaugurara uma sobrecasaca, e trazia nessa manhã um aspecto, não sómente venerador, mas até veneravel.
Yayá accordara extremamente alegre e boliçosa. O Sr. Antunes levara-lhe um ramalhete de cravos, dizendo que era para que ella recebesse outros ramalhetes durante todo o anno, e a menina, depois de o receber e agradecer com uma mesura, foi pol-o n'um vaso, sobre o parapeito da janella da alcova. O Sr. Antunes despediu-se della, meia hora depois de almoçado.
—Já vae?
—Vou jogar uma partida de bilhar com o Jorge, disse familiarmente o pae de Estella. Viremos cedo.
—Elle vem jantar?
—Quero ver se o trago.
—Mas... papae não está prevenido, objectou Yayá.
—Está; foi elle proprio que me autorisou a trazel-o. Verdade é que fui eu que o pedi. Devemos muito áquelle moço, e ao defunto pae e á mãe, a Sra. D. Valeria, que Deus tenha. Até logo.
Yayá ficou só, e um instante pensativa; mas, logo depois ergueu os hombros, pegou de um trabalho de agulha, inventado para matar o tempo, e caminhou para o gabinete do pae, onde o foi achar com Estella.
—Virgem Nossa Senhora! disse a moça parando á porta.
Ao pé da secretaria estava uma vasta cesta, transbordando de papeis; sobre a secretaria papeis; papeis na mão de Luiz Garcia; outros na mão de Estella; alguns esparsos no chão. Era uma liquidação de seis annos. Luiz Garcia tinha o costume de guardar tudo, cartas, exemplares de jornaes em que havia alguma cousa de interesse, apontamentos, simples copias. De longe em longe inventariava e liquidava o passado. Havia já alguns annos que não fazia a costumada operação. Começara quando suppunha ter de deixar o Rio; agora tratava de concluir. Estella tinha entrado pouco antes da enteada; sentara-se em uma cadeira rasa, e entretinha-se a receber ou apanhar algum pedaço de jornal velho, e a ler algum trecho em que os olhos acertavam de cair.
—Que é? disse Luiz Garcia logo que a filha soltara a exclamação.
—Papae vae ficar afogado em papel, disse a moça.
Luiz Garcia não respondeu; voltara os olhos para uma carta que tinha na mão, e que sem duvida, lhe trazia alguma recordação amarga, porque elle sorria tristemente. Leu-a toda; releu alguns trechos; depois fez um gesto de desdem, rasgou-a e deitou os pedaços á cesta.
Yayá foi sentar-se do outro lado, a poucos passos do pae.
Na secretaria, ao pé deste, havia um maço de cousas que serviam, um maço pequeno; a grande maioria era a dos destroços inuteis. Não é isso mesmo a imagem do passado? Luiz Garcia desdobrava ás vezes um jornal, avaramente guardado havia annos; duas cruzes ou alguns traços indicavam o trecho que nesse tempo lhe chamara a attenção. Relia-o agora; buscava o motivo da reserva e sorria. A impressão que communicara algum interesse ao escripto desapparecera de todo; o escripto era um esqueleto. Tambem as cartas eram assim. Raras escapavam á destruição; as mais dellas eram dilaceradas, umas em dous pedaços,—as infimas,—outras em trinta, as que podiam ter alguma gravidade. Estella, que o ajudava, pegou casualmente em uma carta, cuja lettra do sobrescripto lhe não pareceu extranha.
—Eu conheço esta lettra, disse ella.
—Deixa ver.
Estella deu-lhe a carta.
—É do Dr. Jorge, disse o marido.
Abriu-a, e depois de ler algumas linhas, sorriu. Leu-a depois até o fim. Quando acabou, dobrou-a e ficou a olhar para a mulher; tornou a desdobral-a machinalmente.
—Vou restituil-a, disse elle depois de curta pausa; talvez se envergonhe de haver escripto estas cousas...
E dirigiu os olhos á carta, com uma insistencia de aguçar o mais embotado appetite. Depois, volveu a cabeça um pouco para traz, onde ficava a filha, a distancia, de olhos baixos; abafou a voz e disse a Estella:
—Nunca soubeste do verdadeiro motivo que o levou á guerra?
Estella ficou ainda mais pallida do que era; o sangue todo refluiu-lhe ao coração, donde lhe não saiu uma só palavra; foi com um gesto negativo que ella respondeu. E se não podia empallidecer mais, podia corar e corou de vergonha. Luiz Garcia não viu nem a primeira, nem a segunda impressão de suas palavras. Enrolava e desenrolava com os dedos um dos cantos da carta. Naturalmente relembrava os successos daquelles cinco annos, as confidencias da mãe e do filho.
—Quem diria que depois de tamanho sacrificio.... O que são rapazes! O que são paixões! Elle gostava de uma moça; não sei quem era, mas supponho.... A mãe fez quando pode para domal-o; quando desesperou, lembrou-se de o mandar para o sul; elle acceitou. Fui confidente de um e de outro. Tempos depois de embarcar.... espera.... a data hade estar aqui.... 67.... Ainda em 67 durava a tal paixão; afinal pareceu que só esperava o fim da guerra para acabar tambem. Morreu-lhe a paixão e elle engorda. Nunca suspeitaste nada?
—Não, murmurou Estella.
Luiz Garcia deu a carta á mulher, que a recebeu tremula e fria.
—Lê, que é interessante, disse elle.
Estella olhou para o papel e para o marido, vacilante, sem saber o que faria e o que pensasse.
—Lê; é curioso, disse este, que voltara aos demais papeis, abrindo uns, separando outros, tranquillo e indifferente.
Estella, sem levantar a cabeça, olhou ainda de esguelha para elle, como a procurar-lhe na fronte a intenção escondida, se por ventura havia alguma, e esse gesto era tão travado de receio e hesitação, era sobretudo tão dissimulado, que ella propria o sentiu e arrependeu-se. Cravou depois os olhos no papel, sem ler, sem fitar nenhuma linha, uma palavra unica. Não via as lettras; via, ao longe, dous pombos que voavam e a candura de seus labios embaciada por uns labios de homem; nada mais. A mão tremia; ella firmou-a sobre a borda da secretaria; mas o tremor, ainda que pouco perceptivel, não cessou.
—Leste? perguntou Luiz Garcia dobrando um jornal que acabava de passar pelos olhos.
Estella fez um gesto para que esperasse um instante. Não reparava que havia decorrido tempo sufficiente para haver lido a carta duas vezes. Fez um esforço; voltou a pagina; duas ou tres phrases lhe feriram os olhos: «Meu amor não sabe o que seja impaciencia ou ciume ou exclusivismo; é uma fé religiosa que pode viver inteira em muitos corações»—«O essencial é saber que amo a mais nobre creatura do mundo»—«A paixão veiu commigo, e se não cresceu é porque não podia crescer; mas transformou-se. De creança que era, fez-se homem de juizo.» Chegou ao fim da carta ou pareceu ter chegado; dobrou-a, e não se atreveu a dizer nada; depois tornou a abril-a.
—Que poesia, hem? disse Luiz Garcia sorrindo.
E o sorriso era tão natural, tão despreoccupado, tão honesto, que Estella ficou tranquilla. Tinha em grande conta a dignidade e a sinceridade do marido; não podia suppôr-lhe tanta hypocrisia nem tamanha indifferença. Sorriu tambem, mas um sorriso de acquiescencia, sem convicção nem espontaneidade. Luiz Garcia inclinou-se para ella; falou-lhe com a mesma voz abafada de pouco antes; referiu-lhe o amor que Valeria tinha ao filho e a estrategia usada para o fim de o arredar do Rio de Janeiro.
—Naquelle tempo, disse elle, não sei se cheguei a arrepender-me de a ter apoiado; hoje não. O filho ficou são e salvo de seus amores, com um posto e honras de sobra.
—É verdade, murmurou Estella, que o escutara com a attenção dispersa e impaciente.
Logo depois ergueu-se e foi á janella. Alli sacudiu a cabeça com um gesto energico. Talvez lutavam nella forças contrarias; ou era o seu passado que emergia da sombra do tempo, com todas as cores vivas ou escuras, com as delicias occultas e nunca revelladas, e ao mesmo tempo com as amarguras e resistencias. Era isso; era o coração que mordia impaciente o freio da necessidade e do orgulho, e vinha pedir ainda uma vez o seu quinhão de vida, e pedia-o em nome daquella carta, expressão remota de um amor desenganado e impassivel. Estella suffocava esses impetos, mas elles vinham. Após alguns minutos, deixou a janella, tornou á cadeira onde estava. Luiz Garcia lia então um retalho de jornal. Não chegou a levantar os olhos.
Defronte, Yayá tinha os olhos cravados na madrasta. Ouvira a principio o nome de Jorge e não lhe prestara muita attenção; mas uma ou duas palavras soltas do pae haviam-lhe despertado a curiosidade. Yayá ergueu a cabeça, inclinou-a depois, ouviu a confidencia do pae, não obstante ser feita em voz baixa, e emfim não retirou mais os olhos de Estella. Viu-a receber a carta, com a mão tremula; viu-a empallidecer ainda mais; viu-lhe a confusão e o enleio. Porque o enleio e a confusão? Um amor extincto de Jorge, uma paixão que o levara á guerra, que tinha ella, que tinham elles tres com isso?
Yayá olhou a principio com curiosidade, depois com espanto, até que os olhos luziram de sagacidade e penetração. O estylete que elles escondiam desdobrou a ponta aguda e fina, e estendeu-a até ir ao fundo da consciencia de Estella. Era um olhar intenso, aquilino, profundo, que palpava o coração da outra, ouvia o sangue correr-lhe nas veias e penetrava no cerebro salteado de pensamentos vagos, turvos, sem ligação. Yayá adivinhou o passado de Estella; mas adivinhou de mais. Galgou a realidade até cair no possivel. Suppoz um vinculo anterior ao casamento, roto contra a vontade de ambos, talvez persistente, mau grado aos tempos e ás cousas. Tudo isso viu uma simples innocencia de dezesete annos. Seu pensamento cristalino e virginal, nunca embaciado pela experiencia, ignorava até as primeiras scismas de donzella. Não tinha ideia do mal; não conhecia as vicissitudes do coração. Jardim fechado, como a esposa do Cantico, viu subitamente rasgar-se-lhe uma porta, e esses dez minutos foram a sua puberdade moral. A creança acabara: principiava a mulher.
A impressão foi tão profunda, que apezar da força de resistencia que havia em sua organização, Yayá não pode ter-se alli mais tempo. Saiu e refugiou-se na alcova. Certo, aquelle amor intruso, se o havia, era para affligir e prostrar um coração de filha, amassado de ternura, para o qual a forma superior e exclusiva do sentimento era a paixão que a prendia a seu pae, como um vinculo indestructivel. Depois vinha o affecto que votava á madrasta, sua mãe electiva, affecto não menos sincero e real, e que já agora podia diminuir, quem sabe até se morrer todo?
Sentada na beira da cama, com os pés juntos, as mãos fechadas entre os joelhos, os olhos cravados no espelho que lhe ficava defronte, Yayá trabalhava mentalmente na sua descoberta. Confrontava o que acabava de ver com os factos anteriores, de todos os dias, isto é, a frieza, a indifferença, a stricta polidez dos dous, e mal podia combinar uma e outra cousa; mas ao mesmo tempo advertia que nem sempre estava presente quando Jorge alli ia, ou fugia-lhe muita vez, e podia ser que a indifferença não passasse de uma mascara. Demais, a commoção da madrasta era significativa. Estendeu o espirito pelo tempo atraz, até o dia da primeira visita de Jorge, e lembrou-se que elle estremecera ouvindo a voz de Estella, circumstancia que lhe pareceu então indifferente. Agora via que não.
Uma hora inteira gastou nesse cogitar solitario, a sós com a suspeita e o remorso. Tambem remorso, por que de quando em quando atterrada com a vista do caminho andado, a alma recuava e estremecia; tinha horror de si mesma. Mas a figura pallida da madrasta surgia ao pé della, com a expressão que lhe vira pouco antes, e a consciencia fazia as pazes com a malicia.
Vede a consequencia. Estella não era culpada; um incidente do passado é que projectava tamanha sombra na vida presente; mas bastou o espectaculo da commoção para turbar o espirito da enteada e lançar lá dentro os primeiros germens da sciencia do mal. Que seria se fosse culpada? Talvez o mais lastimoso effeito dos desvios domesticos é essa corrupção dos corações ingenuos, impassiveis testemunhas do que ignoram um dia, do que suspeitam, percebem e sabem na seguinte manhã: primeira violação da virgindade.
Yayá agitava-se na alcova, de um para outro lado, desejosa e receiosa ao mesmo tempo de ir ter com Estella. Duas vezes chegou á porta e recuou. Uma das vezes, voltando para dentro, deu com os olhos no retrato do pae que pendia junto á cabeceira,—uma simples photographia. Tirou-o dalli, contemplou longamente a fronte austera e pura. Que! Haveria na terra quem o amasse uma vez e não sentisse que o amor lhe dominaria a vida inteira? Tão affectuoso! tão bom! vivendo exclusivamente para os seus, sem nada invejar ao resto dos homens. Isto lhe dizia o coração, emquanto ella ia beijando o retrato com respeito, com amor, afinal com delirio. Grossas lagrimas e quentes lhe romperam dos olhos; Yayá deixou-as cair: sorveu-as com seus proprios beijos. Quando essa primeira explosão acabou, acabou para se não repetir mais. Enxutos os olhos Yayá pode friamente reflectir, e a reflexão dominou a angustia.
O que se passou naquelle cerebro ainda verde, mas já robusto, foi uma resolução sem plano. Deslindar o vinculo espurio era o essencial e urgente, não cogitou no modo. Sua innocencia, assim como lhe dissimulava toda extensão possivel do mal, assim tambem lhe encobria as asperezas e os obices da execução. Era o coração que lhe designava esse papel de anjo guardador. Natureza simples e intacta, ia direito ao fim sem o temor que dá a experiencia e a contemplação da vida. Quem sabe? Não conhecia a hypocrisia, mas acabava de suspeital-a; começava talvez a apprendel-a.
Tinha-se demorado muito e era preciso sair do quarto; mas, como houvesse chorado, podiam ler-lhe os vestigios da dor. Yayá foi ao lavatorio deitou agua na bacia e começou a banhar os olhos e o rosto. O rumor da agua impediu-lhe ouvir que alguem abria a porta. Estella appareceu-lhe repentinamente.
—Que faz você aqui ha tanto tempo? disse a madrasta, parando á porta.
Yayá não se atreveu a olhar de rosto para ella; mastigou uma resposta esquiva e continuou o que estava fazendo.
—Que tens? perguntou Estella pegando-lhe dos braços e fazendo-a voltar para si. Você chorou? ... Chorou, sim; tem os olhos vermelhos. Que foi? Yayá, fala; que é?
—Não é nada, acudiu a outra procurando sorrir.
—Não minta, Yayá.
A enteada olhou de relance para o espelho; viu que era inutil mentir.
—Foi uma tolice, disse ella.
—Alguma travessura?
—Antes fosse!
Yayá pegou do retrato que puzera na borda do marmore de lavatorio, e olhou alguns instantes para elle. Estella quiz conchegal-a a si, mas a enteada fugiu-lhe com o corpo.
—Trata-se... de teu pae? perguntou a madrasta.
Yayá fitou-a e respondeu:
—Sim, mamãesinha; estava a sacudir a poeira do retrato de papae, e comecei a pensar... foi uma loucura... se elle... morresse?
Estella reprehendeu-a com uma interjeição; Yayá quiz continuar, mas a outra interrompeu-a impetuosamente:
—Cala-te, disse; não penses em tolices. Dá cá o retrato.
—Não é verdade que elle é o melhor dos homens? perguntou Yayá, em quanto Estella pendurava o retrato.
A unica resposta da madrasta foi caminhar para ella e dizer-lhe que nunca mais pensasse em semelhante cousa.
—Não sou senhora dos meus pensamentos, respondeu a moça, erguendo os hombros.
Após alguns segundos de silencio, Estella percebeu que alguma cousa preoccupava a enteada, e disse-lh'o. Yayá respondeu negativamente. Mas Estella insistiu:
—Não tens o teu ar do costume, e esses olhos andam vagamente de um lado para outro. Talvez... quem sabe...
—Não é isso que a senhora pensa, interrompeu Yayá seccamente.
Depois sentou-se, a olhar para o jardim, a morder o labio, que lhe tremia, e a comprimir os seios com a mão. Estella ficou um instante calada; emfim sacudiu benevolamente a cabeça e approximou-se da menina.
—Tu não tens confiança em mim, Yayá, disse ella pousando-lhe a mão no hombro. Se tivesses, dizias-me em que é que pensas, porque é de certo em alguma cousa. Não é difficil deixar de pensar no Procopio Dias; acho até que é a cousa mais facil; mas não será algum pensamento da mesma natureza? Anda; sê franca; sou apenas tua madrasta, e pouco mais velha que tu; posso ouvir tuas confidencias e aconselhar-te. Onde acharás melhor amiga do que eu?
Yayá tinha applacado a primeira sensação; afivellou de todo a mascara da tranquillidade, emquanto não a substituia por outra. Ergueu-se e disse com affouteza:
—Pois bem, vou confiar-lhe uma cousa... não... supponha... é melhor suppôr... tenho vergonha de dizer a verdade. Supponha que tive um amor de collegio...
—Tu? Aos treze annos!
—Aos doze e meio.
—Bonito! Não foi começar tarde. Esse amor naturalmente expirou nos braços da ultima boneca.
—Supponha que não, disse Yayá em tom serio. Ora, se eu tiver de casar com o Procopio Dias...
—Quem te fala em casar com elle?
—Por ora é um gracejo; mas, se elle teimar, é possivel que nem a senhora nem papae o desemparem, e ainda mais possivel que eu me deixe vencer para contentar a todos. Mas é este o ponto de minha confidencia; é uma ideia que me persegue ha dias. Devo eu casar com um homem amando a outro? posso fazel-o? devo fazel-o?
Estella estremeceu levemente, sob o olhar impassivel e puro da enteada, e não respondeu logo. Yayá parecia folgar com esse enleio de um minuto; mas ao mesmo tempo o coração lhe sangrava, porque o enleio era a confirmação de suas recentes supposições. A madrasta não tinha a penetração da enteada; além disso, como suppôr nella o conhecimento de um facto remoto e não divulgado? Estella nem cogitou nisso. Escoou-se o minuto, e ella respondeu com tranquillidade:
—Não deves casar, se o amor pode ser satisfeito sem obstaculo. No caso contrario, o casamento é uma simples escolha da razão: sacrifica-te.
Yayá, que tinha uma das mãos da madrasta entre as suas, largou-a subitamente. Estella riu, e bateu-lhe na testa com a ponta do dedo.
—Esta cabecinha! disse ella. Ha aqui dentro muita cousa que é preciso capinar...
No primeiro instante, Yayá empallideceu. Ao ultimo gesto de Estella, respondeu com um sorriso forçado e sem cor. Logo que esta saiu, deixou-se cair na cadeira e fechou o rosto nas mãos. Quando dalli saiu, meia hora depois, não trazia nenhum signal de lagrimas, ou sequer de tristeza. Não vinha alegre, de certo; serena, sim, daquella serenidade com que o caçador do sertão se dispõe a encarar a onça.
Jorge foi jantar, e sobre a tarde appareceu Procopio Dias. Durante o jantar e a noite, Yayá fez impressão na familia e nos extranhos, pela singular alteração de seus modos. Estava um pouco pallida, mas a viva luz dos olhos parecia communicar ao rosto uma porção do colorido ausente. Mostrou-se expansiva, e não golhofeira. Suas phrases eram longas, deduzidas, iam até o fim do pensamento, sem as interrupções e saltos do costume. De costume, parecia que a moça pensava aos fragmentos, porque era quasi impossivel ter com ella uma conversa inteiriça e ordenada com a sua variedade propria. Naquelle dia era o contrario. Como que a alma despira a roupa de bailarina, para enfiar um roupão caseiro, simples, apertado, subido até o pescoço. Era melhor assim? era peor? Nem uma nem outra cousa; era uma apparencia nova.
Mais do que ninguem, Jorge estimou essa alteração, porque em relação a elle a moça tambem havia mudado alguma cousa. Yayá sentira nesse dia mais repugnancia do que nunca ao ver o filho de Valeria, e chegou a recuar instinctivamente a mão. Cedeu, porém, e o sorriso com que corrigiu a recusa foi o primeiro que Jorge recebeu directamente della. Nesse dia a moça respondeu-lhe sem custo, e talvez lhe dirigiu a palavra alguma vez; o que tudo viu Luiz Garcia e attribuiu a effeito de suas admoestações.
Nem Luiz Garcia nem Jorge poderiam suppôr que sobre a cabeça da madrasta e da enteada a carta de 1867 agitava as suas lettras de fogo. Essa carta importuna, poupada da destruição immediata, era a scentelha subitamente lançada no amor adormecido de uma e no odio nascente de outra; Jorge estava longe de o ler no rosto affavel de Yayá, e no olhar fugidio de Estella.