Iaiá Garcia
Capítulo VI
Um acontecimento inesperado e desastroso veiu ainda golpeal-o cruelmente, logo depois de Março de 1870, quando, acabada a guerra, estava elle em Assumpção. Valeria fallecera. Luiz Garcia lhe deu essa triste noticia, que elle antes adivinhou do que leu, porque as ultimas cartas já lhe faziam presentir o lugubre desenlace. Jorge adorava a mãe.
Se só a contra-gosto viera para a guerra, não é menos certo que esta o cobrira de louros, e que elle os quizera depositar no regaço de Valeria. O destino decidiu por outro modo, como se quizesse contrastar cada um de seus favores fazendo-lhe sangrar o coração.
No fim de Outubro volveu ao Rio de Janeiro, Tinham passado quatro annos justos. Penetrando a barra e descortinando a cidade natal, Jorge comparava os tempos, as angustias e as esperanças da partida com a gloria e o abatimento do regresso. Não se sentia feliz nem infeliz, mas nesse estado medio, que é a condição vulgar da vida humana. Comparava-se ao mar daquella manhã, nem borrascoso nem quieto, mas levemente empolado e crespo, tão prestes a adormecer de todo, como a crescer e arremeçar-se á praia. Que aragem somnolenta ou que tufão destruidor, viria roçar por elle a aza invisivel? Jorge não o prescrutou. Trazia os olhos no passado e no presente; deixou ao tempo os casos do futuro.
VI
Antes de irmos direito ao centro da acção, vejamos por que evolução do destino se operou o casamento de Estella.
Poucos poderiam suppôr, nos fins de 1866, que a campanha se protrahiria ainda cêrca de quatro annos. O calculo do general Mitre, relativo aos tres mezes de Buenos-Ayres a Assumpção, tinha já cahido, é certo, no abysmo das illusões historicas. Proclamações são loterias; a fortuna as faz sublimes ou vans. A do general argentino, que era já uma affirmação errada, exprimiu comtudo, no seu tempo, a convicção dos tres povos. Do primeiro embate com o inimigo, viu-se que a campanha seria rija e longa; a illusão desfez-se; ficou a realidade, que nem por isso encarámos com rosto afflicto. Não obstante, era difficil presumir, em Outubro de 1866, que a guerra chegasse até Março de 1870. Suppunha-se que um esforço ingente bastaria a reparar Curupaity, a derrubar Humaitá, a vencer o dictador, não nos tres mezes do general Mitre, mas em muito menos tempo do que viria a ser na realidade.
Isto posto, não admira que Valeria receiasse cada instante a terminação da guerra e a prompta volta do filho. Se tal cousa acontecesse, ella teria dado um golpe inutil, e o fogo podia renascer das cinzas mal apagadas. Valeria preferia as soluções radicaes. Uma vez arredado o filho, viu a necessidade de anniquillar as ultimas esperanças, e o mais seguro meio era casar Estella. Assim procedendo, satisfaria tambem a affeição que tinha á moça, affeição que nunca lhe diminuíra. Sabia que entre Estella e o pae havia contrastes moraes de difficil conciliação. Cada um delles falava lingua differente, não podiam entender-se nunca, sobretudo (dizia ella comsigo), na escolha de um consorte.
Dous mezes depois do embarque de Jorge, Valeria mandou chamar o Sr. Antunes a Santa Thereza, onde tinha uma casa de verão. O recado foi escripto, circumstancia que lhe deu certa solemnidade. Nunca até então a viuva lhe escrevera. O Sr. Antunes leu e releu o bilhete, mostrou-o duas ou tres vezes á filha, esteve tentado de mostral-o ao vizinho fronteiro. Em quanto se vestia, pol-o sobre a mesa, lançando-lhe a furto os olhos, pesando-lhe de cór as expressões cortezes, espremendo-as, dissecando-as. Vestido, guardou-o cuidadosamente na algibeira. Na rua, separou-se de um importuno dizendo emphaticamente aonde ia. Quanto ao motivo do recado, não atinava qual fosse, nem teve muito tempo para isso. Cogitou, entretanto, e suppoz que se tratava de algum obsequio que ella lhe ia encommendar.
Era obsequio, e não lh'o pedia a viuva; prestava-o, e não se demorou muito em dizel-o. Ao cabo de dez palavras, pediu-lhe licença para dotar Estella.
—Não quizera fazel-o, sem o seu consentimento, concluiu ella; por isso o mandei chamar.
Do mais infimo a que um homem haja baixado, a natureza pode fazel-o grave, ainda que por um só minuto. Esse minuto teve-o o pae de Estella. Immovel e sem fala a principio; depois, ainda sem fala, mas não já immovel, o Sr. Antunes revellou em seu rosto, aliás vulgar, uma commoção digna. A dignidade, porém, expirou com o silencio. Quando elle abriu a boca para agradecer a prova de affeição que a viuva lhe dava á filha, a alma readquiriu o tregeito habitual. Valeria cortou-lhe o discurso com uma arte tão superior, que o pae de Estella antes sentiu do que comprehendeu. A viuva tinha a verdadeira generosidade, que consiste menos em prestar o obsequio do que em dissimulal-o; disse-lhe que, dotando Estella, cumpria um desejo do desembargador, e sem esperar pelo necrologio que o Sr. Antunes provavelmente ia recitar, fez um longo e affectuoso inventario das qualidades da moça.
—É muito boa filha, concluiu a viuva; tem qualidades dignas de todo o apreço, e, além do mais, sou amiga della.
—Isso, minha senhora, é a maior fortuna que lhe podia caber. Quanto a ser boa filha não é por vaidade que o digo, mas creio que a senhora tem razão. Saiu á mãe, que era uma santa alma.
—Estella não o é menos. É bonita! Emfim pode vir amar alguem, não lhe parece?
—Pode, pode, assentiu o Sr. Antunes. Que eu, verdadeiramente, não sei se ella já não amará. É tão calada! Ultimamente parece andar triste...
—Triste?
—Distrahida... assim, como pessoa que não tem o pensamento socegado. Não sei se aquillo é paixão, ou doença. Doença não creio que seja, por que ella é forte e tem boa apparencia. Coitadinha! Mas sempre alegre... isto é, alegre não... quero dizer, não anda sempre triste... ou por outra...
Valeria sorriu mentalmente daquella confusão que o Sr. Antunes fazia, e que attribuiu ao alvoroço que naturalmente a noticia do dote lhe causára; interrompeu-o dizendo que fosse lá com a filha.
Estella ouviu dahi a meia hora a noticia da generosidade da viuva, que o pae se apressou a ir dar-lhe, e, contra a expectação deste, ouviu-a calada e severa. Não achando a explosão de alegria que esperava, o Sr. Antunes abanou desanimado a cabeça.
—Não te entendo, filha! replicou elle. Has de dizer o que é que queres ser neste mundo. Não és rica, nem menos que rica; não tens a menor esperança no futuro. Eu não te posso deixar nada, por que nada tenho. Ha uma senhora, que te estima, que te faz um beneficio, e tu recebes isto como se fosse uma injuria.
A observação do pae chamou a filha á realidade da situação.
—Papae sabe que não sou de muito riso, disse ella; pode ficar certo de que me alegrou muito a noticia que me deu.
Não alegrou nada. Nunca lhe pesara tanto a fatalidade da posição. Depois do episodio da Tijuca, parecia-lhe aquelle favor uma especie de perdas e damnos que a mãe de Jorge liberalmente lhe pagava, uma agua virtuosa que lhe lavaria os labios dos beijos que ella forcejava por extinguir, como lady Macbeth a sua mancha de sangue Out, damnet spot! Este era o seu conceito; esta era tambem a sua magua. A altivez com que procedera desde aquella manhã de algum modo lhe levantara o orgulho, que o acto inconsiderado de Jorge havia por um instante humilhado. Mas a acção da viuva, por mais espontanea que fosse, tinha aos olhos da moça a consequencia de fazer decorrer o beneficio da mesma origem da affronta. Estella não distinguia entre os bens da mãe e do filho. Era tudo a mesma bolsa; e dalli é que lhe vinha o dote.
Com essa ideia oppressiva entrou ella em casa da viuva, cuja recepção lhe desabafou o espirito do mais espesso de suas preoccupações. Valeria beijou-a, com um gesto mais maternal que protector. Nem lhe deixou concluir a phrase de agradecimento; cortou-a com uma caricia; depois falou-lhe da belleza, das occupações, de cem cousas alheias ao objecto que as reunia, dissimulação generosa, que Estella comprehendeu, porque tambem possuia o segredo dessas delicadezas moraes.
Quinze ou vinte dias depois, Valeria interrogou directamente Estella, e a resposta que obteve foi contraria a suas esperanças.
—Não amo ninguem, disse a moça; e provavelmente não amarei nunca.
—Porque? replicou vivamente a viuva.
Estella sorriu.
—Podia dizer-lhe, respondeu ella, que não tenho coração...
—Seria mentir. Mas vás talvez dizer que um bom marido não é cousa facil de achar.
—Isso.
—Tens razão até certo ponto. De todas as aves raras a mais rara é um bom marido; mas o que é raro não é impossivel. Metteu-se-me em cabeça que heide descobrir uma joia. Se eu a encontrar, que farás-tu?
—Acceito, disse a moça depois de um instante.
—Assim, não; não quero que a acceites sem vontade; has-de acceital-a com amor... porque eu não creio que não tenhas coração; é faceirice de moça bonita. Deixa ver,—continuou a viuva collocando-lhe a mão no peito;—tens, oh! tens um coração que parece querer despedaçar-te o peito. Estella, tu estás doente!
—Que ideia! exclamou a moça rindo. Se eu vendo saude! Não estou doente, estou commovida. Tratemos do noivo. Não me peça que o ame apaixonadamente, porque eu não nasci para isso. Minha natureza é fria. Mas um pouco de estima, certo interesse...
—Justo: a semente do amor. O tempo se encarregará de fazer a arvore.
Durante tres mezes não falaram do assumpto. No fim desse tempo,—tendo Valeria descido de Santa Thereza, Estella foi passar algumas semanas na rua dos Invalidos.—Ainda nada? perguntou a viuva logo que a viu.—Cousa nenhuma, foi a resposta. Dada a situação de uma e outra, não era facil a Valeria encontrar-lhe o noivo desejado a menos de o designar a propria noiva, e essa era a mais improvavel de todas as hypotheses.
Entretanto, a convivencia fez renascer entre ambas alguns dos habitos antigos. Valeria tornou a sentir a necessidade de a ter comsigo, de a conversar, de depositar nella suas ideias e enxaquecas. Estella offerecia todas as vantagens de uma velha amiga, com a circumstancia de ser moça, e ainda mais, a de ser bonita, qualidade sympathica á viuva, que fora uma das bellas mulheres de seu tempo. Nada lhes impedia restaurar inteiramente a situação anterior, a não ser a memoria do passado recente. Era isso que ainda estabelecia entre ambas tal ou qual cautella, tal ou qual separação, que o Sr. Antunes chegava a suspeitar ás vezes, sem poder comprehender nunca. Não falavam de Jorge, nem da guerra, nem de cousa que podesse reviver a lembrança do passado.
Começado o verão de 1867, Valeria transportou-se a Santa Thereza, onde Estella foi algumas vezes. N'uma dessas vezes encontrou alli a filha de Luiz Garcia, que caminhava para os treze annos, e concluia os estudos de collegio. Houve um instante de hesitação entre as duas; Yayá, que era ainda a mesma creatura travessa e lepida, sentiu-se acanhada deante da gravidade de Estella, mas esse instante foi curto e a affeição immediata. Acabado o verão, a viuva resolveu não descer á rua dos Invalidos; e, com o pretexto ou o motivo de que em Santa Thereza ficava mais só, alcançou que Estella fosse lá estar algum tempo. Estella subiu em Março.
Já então Yayá entrara na intimidade da casa, menos ainda pelo que podia haver, e—havia,—sympathico e attrahente em sua pessoa, do que pelo esforço proprio. A sagacidade da menina era a sua qualidade mestra: assim viu depressa o que era menos agradavel, para evital-o, e o que o era mais, para cumpril-o. Essa qualidade ensinava-lhe a syntaxe da vida, quando outras ainda não passam do abecedario, onde morrem muita vez. Obtida a chave do caracter de Valeria, Yayá abriu a porta sem grande esforço.
Ia lá quasi todos os domingos, ás tardes, e algumas vezes de manhã, com tal ou qual repugnancia do pae, para quem os domingos eram os dias de ouro, e só o eram com a condição de exclusivismo. Luiz Garcia cedeu, não por causa da viuva, mas para satisfazer a filha, que parecia ter prazer em frequentar a casa.—É ainda creança pensou elle; convem dar-lhe festas. Quando Yayá jantava em casa de Valeria, Luiz Garcia, ou tambem jantava, ou ia buscal-a á noite, e trazia-a depois de uma hora de conversa. A presença de Estella tornou ainda mais apraziveis á mocinha aquellas visitas, e dentro de pouco tempo, era a affeição de Estella que mais lhe occupava o coração.
A lei dos contrastes tinha ligado essas duas creaturas, porque tão petulante e juvenil era a filha de Luiz Garcia, como reflectida e placida a filha do Sr. Antunes. Uma ia para o futuro, em quanto a outra vinha já do Passado; e se Estella tinha necessidade de temperar a sua atmosphera moral com um raio da adolescência da outra, Yayá sentia instinctivamente que havia em Estella alguma cousa que sarar ou consolar.
Um dia, Yayá foi encontrar Estella ao pé de uma mesa, com um album de retratos aberto deante de si. A moça estava tão embebida, que só deu pela presença de Yayá, quando esta parou do outro lado da mesa, e inclinou os olhos para o album. Estella teve um pequeno sobresalto, mas dominou-se logo.
—Seu pae tem uma physionomia de bom coração, disse ella.
—Não é verdade? retorquiu a menina com enthusiasmo.
Effectivamente, uma das paginas do album continha o retrato de Luiz Garcia; mas na outra pagina estava o retrato de Jorge, um dos tres ou quatro que a viuva possuia na collecção. Yayá, que adorava o pae, achou que a observação de Estella era a mais natural do mundo, e não olhou sequer para a outra photographia. Estella fechou depressa o album com a mão tremula, e mal pode sorrir á insistencia com que Yayá voltou áquelle assumpto. Tinha o seio offegante e o olhar vago, remoto, esvaido nas campanhas do sul. O coração batia-lhe violentamente. Mas essa commoção não durou mais de tres a quatro minutos.
—A senhora podia casar-se com papae, disse a menina depois de olhar algum tempo para a outra.
Estella teve novo sobresalto, mas dessa vez era só espanto. Como Yayá a abraçasse pela cintura, ella inclinou o rosto sobre o rosto da menina, e perguntou sorrindo:
—Tinhas muita vontade de ser minha enteada?
—Tinha.
Estella abanou a cabeça, com um gesto, não de negativa, mas de incredulidade. Já conhecia alguma cousa do caracter de Luiz Garcia; rigorosamente era um esposo acceitavel. Via nelle um homem de affeições placidas, mediocres, mas sinceras. Via-o respeitoso sem abatimento, polido sem affectação, falando pouco, mas com alguma ideia, em todo o caso com muita opportunidade, vivendo emfim para si e para a filha. De tudo o que observara concluia que a sobriedade era a lei moral desse homem, e que á taça da vida não pedia mais do que alguns goles, poucos. Que importa? A vida conjugal é tão sómente uma chronica; basta-lhe fidelidade e algum estylo. Com quanto houvesse algumas semelhanças entre ambos, havia tambem differenças, mas Estella podia fiar do tempo, que ajusta os contrastes. E, não obstante, se o marido era acceitavel, não lhe parecia que fosse possivel. A gravidade exterior como que o rodeava de uma atmosphera impenetravel.
Yayá não insistiu; mas dous ou tres domingos depois, estando todos na chacara, interrompeu a conversa geral para perguntar a Estella se deveras lhe tinha affeição.
—Ja disse que sim, acudiu Estella.
—Mas gosta muito de mim?
—Muito, repetiu Estella prolongando a primeira syllaba.
—Porque não vem morar commigo?
Riram-se os outros; Estella beijou-a na testa. Ficando sós, a viuva e Estella jogaram uma partida de cartas, mas jogaram sem attenção; depois tomaram chá, mas sem appetite; finalmente dormiram, mas sem somno. Talvez a mesma ideia as preoccupava. No dia seguinte, Estella perguntou sorrindo á viuva:
—Se eu lhe disser que já achei um projecto de marido?
—Quem?
—O Luiz Garcia.
Valeria apertou-lhe as mãos.
—Excellente homem, disse ella; marido digno e capaz. Conheço-o ha muitos annos; nunca desmereceu da nossa estima. E... amam-se?
—Isso agora é mais complicado, replicou Estella; não posso dizer que o amo; com tudo, desejaria ser sua mulher. Talvez elle não deseje ser meu marido, mas é por isso mesmo que a consulto e lhe peço que me diga, uma vez que approva a escolha, se posso esperar reciprocidade e se devo...
—Não deves fazer nada; imcumbo-me de tudo.
Valeria não occultou o contentamento. Não lhe tinha occorido nunca a ideia de os casar; Yayá fel-a nascer, Estella abriu-a em flôr; só faltava o fructo, e era justamente a parte difficil, porque a indole de Luiz Garcia affigurava-se-lhe inteiramente avessa ao desejo de contrahir segundas nupcias. Mas Valeria não desanimou. Não se pode dizer que elle seja o ideial de todas as noivas, pensava ella; não tem a expansão nem o verdor da primeira edade; mas deve ser um excellente marido. Luiz Garcia tinha agora melhor posição. Obtivera uma promoção de emprego, e mediante isso, e alguns trabalhos extraordinarios que lhe eram confiados, pode ficar inteiramente acoberto das intempéries da vida. Estabelecera o futuro da filha e restaurara as alfaias da casa, não por si, mas com a intenção de ser mais agradavel a Yayá.
Estella, entretanto, impunha uma condição.
—Não desejo parecer que me offereço, disse ella; seria desairoso para um e para outro, e não seria a realidade.
—Que te offereces, não; mas quem me pode impedir de ter adivinhado que o amas? disse a viuva maliciosamente.
—Ou que o aprecio, emendou Estella. Para um bom casamento não é preciso mais.
Luiz Garcia não ficou pouco admirado quando Valeria dahi a dias lhe perguntou se não tinha vontade de passar a segundas nupcias. Sorriu e ergueu os hombros; mas, insistindo a viuva, respondeu que a ideia de casar era já serodea para elle.
—Não diga isso, tornou Valeria. Yayá está quasi moça, vai deixar o collegio. O senhor vive só, e tendo de dar companhia a sua filha, é melhor que lhe dê uma madrasta.
Luiz Garcia abanou resolutamente a cabeça.
—Não tenho vocação para o casamento, disse elle depois de uma pausa; minha verdadeira vocação é o celibato.
—Foi por isso que enviuvou?
—Casei-me uma vez, é verdade, mas não foi por amor; além de que, era rapaz.
—Quando teimo em alguma cousa, é difficil que não vença, disse a viuva depois de alguns instantes. Ha duas pessoas de quem gosto muito, ella e o senhor, ambas dignas uma da outra; e eu entendi que as devia casar, e hei-de casal-as. Por que está a sorrir com esse ar incredulo?
Como Luiz Garcia não respondesse e continuasse a sorrir, Valeria ergueu-se e foi até a varanda, donde se olhava para a chacara; depois voltou-se para dentro:
—Ande ver sua noiva, disse ella.
Luiz Garcia foi até á varanda; a viuva apontou-lhe para o grupo de Estella e Yayá.
Na chacara havia um canteiro circular, plantado de gramma, no centro do qual jorrava a agua de um repucho. A bacia deste era orlada de plantas, cujas folhas largas, rajadas umas de escarlate, outras de branco, interrompiam a monotonia da relva. Dessas folhas colhera Estella algumas, entretecera os talos formando uma capella, a pedido de Yayá. Quando Luiz Garcia chegou á janella, a moça concluia o difficil trabalho. Uma vez prompto, Yayá que olhava para ella, infantilmente anciosa, inclinou a cabeça, e Estella cingiu-a com a grinalda rustica; depois recuou alguns passos, approximou-se outra vez, concertou-a melhor. As folhas caiam-lhe sobre os hombros irregularmente, ou erguiam-se sobre a cabeça, e o todo daria ideia de uma nayade casquilha. Estella mirou-a alguns instantes; inclinou-se para ella e beijou-a repetidas vezes. Yayá quiz pagar-lhe o trabalho e a caricia devolvendo-lhe a grinalda, e collocando-lh'a ella mesma na cabeça. Estella recusou, mas como a menina insistisse, batendo impacientemente o pé, cedeu ao desejo infantil. Inclinou-se; Yayá, que trepara a um banco, cingiu-lhe a cabeça, como a outra lhe fizera, e, satisfeito o seu capricho, saltou do banco ao chão.
Nesse momento, como Valeria falava a Luiz Garcia, não viram estes dous que a menina, saltando precipitadamente e mal, caíra na areia; só deram pelo desastre ouvindo um pequeno grito angustioso de Estella. A moça correra á menina para a fazer levantar.
A quéda fora pequena; Yayá procurava sorrir, mas um seixo que havia no chão, e sobre o qual caíra o rosto, fizera-lhe uma leve escoriação na face.
—Não foi nada, dizia ella
—Nada! Você feriu-se... Ora, isto! Papae que ha de dizer... Anda cá.
Estella levou a menina pela mão até o repucho; molhou o lenço na agua; lavou-lhe o sangue da face, inclinada sobre ella, que sorria voluntariamente. Nesse momento, Luiz Garcia, que havia descido logo, chegou ao grupo das duas.
—Não foi nada, papae, disse Yayá lendo no rosto do pae o motivo que o trouxera; fui pular do banco e caí. Foi bem feito; é para eu não ser travessa.
Luiz Garcia estendera a mão direita sobre a cabeça da filha e examinava-lhe a escoriação, que era pouco mais de nada. Tranquillisou-se e reprehendeu-a levemente, Estella, que interrompera a operação, concluiu-a dizendo que o caso era de pouca monta, mas podia ter sido mais grave. Luiz Garcia agradeceu-lhe o cuidado e o obsequio.
—Demais, a culpada fui eu, disse Estella, e sem desculpa, porque não sou creança. Vamos? continuou ella pegando na mão da menina.
—Então? perguntou a viuva a Luiz Garcia logo que este voltou a ter com ella.
—Não falemos nisso, ou faça-me um milagre, disse elle seccamente.
Não obstante a commoção que lhe ficou do procedimento affectuoso de Estella, em relação a Yayá, Luiz Garcia riu no dia seguinte, ao lembrar-lhe a proposta de casamento. Quando lá voltou, não ouviu falar mais em semelhante assumpto, nem Estella lhe deu a entender a menor pretenção. Pareceu-lhe que Valeria consultara apenas o seu desejo particular.
Tratando a moça de perto, Luiz Garcia havia já observado duas cousas: primeiro, o resguardo com que ella procedia, sem ostentar a intimidade de Valeria, nem cair nos ademanes daservilidade; depois um ar de tristeza, que era a sua feição habitual. Concluiu que Estella devia padecer ou ter padecido alguma vez. Apreciou, além disso, algumas de suas qualidades moraes. Suppôl-as verdadeiras, mas suppôl-as tambem caducas, como as graças do rosto ou como a flor do campo; com a differença, dizia elle,—que ha um prazo fatal para que as graças percam o primitivo frescor, e a flôr expire o seu ultimo cheiro,—ao passo que a natureza social tem a decrepitude precoce, e um principio de corrupção, que destroe em breve termo todas as florescencias do primeiro sol.
Estella não desistira da ideia e cogitava um meio de chegar á execução, não obstante a confiança da viuva, que lhe dizia:— Descança; a rede está lançada. Era justamente essa ideia de rede, que repugnava ao espirito directo e simples de Estella. Entretanto, cada dia que passava vinha confirmar a eleição da moça.
O resto foi obra de Yayá, obra dividida em duas partes, uma voluntaria, outra inconsciente. Voluntaria, porque tambem a menina, no silencio laborioso de seu cerebro, construira o projecto de os unir, e o dissera mais de uma vez a um e a outro. Inconsciente, porque o amor que a ligava a Estella, foi a mais poderosa força que modificou o pae. Era uma affeição intensa a dessas duas creaturas; ao passo que Yayá dava a Estella uma porção de ternura de filha, Estella achava no amor da menina uma antecipação dos prazeres da maternidade. Luiz Garcia testemunhou esse movimento reciproco e, por assim dizer, fatal. Se Yayá devesse ter madrasta, onde a acharia mais completa? Discreta, moderada, superior a seus annos, Estella tinha as condições necessarias para esse delicado papel. A primeira insinuação da viuva foi a causa primordial; mas o tempo, a convivencia, a affeição das duas, a necessidade de dar segunda mãe á menina, e antes legitima que mercenaria, finalmente, a certeza de que a Estella não repugnava a solução, taes foram os primeiros elementos da decisão de Luiz Garcia.
Faltava só o milagre, e o milagre veiu. Yayá adoeceu um dia em casa de Valeria, e a doença, posto que não grave nem longa, deu occasião a que Estella manifestasse de modo inequivoco toda a ternura de seu coração. Luiz Garcia foi testemunha da dedicação silenciosa e continua com que Estella tratou da doente. Esse ultimo espectaculo desarmou-o de todo. Entre elles, o casamento não era a mesma cousa que costuma ser para outros; nada tinha das alegrias ineffaveis ou das illusões juvenis. Era um acto simples e grave. E foi o que Estella lhe disse a elle, no dia em que trocaram reciprocamente as primeiras promessas.
—Creio que nenhuma paixão nos cega, e se nos casamos é por nos julgarmos friamente dignos um do outro.
—Uma paixão de sua parte, em relação á minha pessoa, seria inverosimil, confessou Luiz Garcia; não lh'a attribuo. Pelo que me toca, era egualmente inverosimil um sentimento dessa natureza, não porque a senhora o não podesse inspirar, mas porque eu já o não poderia ter.
—Tanto melhor, concluiu Estella; estamos na mesma situação e vamos começar uma viagem com os olhos abertos e o coração tranquillo. Parece que em geral os casamentos começam pelo amor e acabam pela estima; nós começamos pela estima; é muito mais seguro.
O casamento foi approvado pelo Sr. Antunes, com a mesma alma com que um reu sanccionaria a propria execução. Não sómente se lhe iam embora esperanças muito menos modestas, como lhe repugnava o caracter do genro. Não cedeu sem hesitação e luta; hesitação perante a viuva, luta em relação á filha; mas cedeu, porque elle nascera para não resistir. Habil, no emtamto, em espremer algum lucro dos males inevitaveis, uma vez perdida a confiança na efficacia da recusa, acceitou o accordo, não sómente com apparencia cordial, mas ainda enthusiasta.
—O dote faz-lhe foscas, gemia elle philosophicamente.
A viuva serviu de madrinha a Estella. Sua alegria era sincera, e tanto ou quanto desinteressada. Quasi se não lembrava já do perigo que, dous annos antes, lhe atordoara o espirito. As cartas de Jorge eram tão livres de qualquer oppressão, tão exclusivamente militares! Além disso, a consciencia ficava satisfeita de um desenlace que de certo modo, compensava a perda, se alguma perda havia causado a Estella. Finalmente, a satisfação com que a viu acceitar casamento, aliás suggerido por ella propria, e a felicidade de que foi testemunha durante os primeiros tempos, deram-lhe a convicção de que a moça estava já inteiramente isenta, em relação ao filho. Não obstante a paixão deste, tinha fé que o tempo fizera a sua obra.