Iaiá Garcia

Machado de Assis · Capítulo 4 de 18

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Iaiá Garcia

Capítulo IV

 

Era noite fechada, quando Jorge chegou á casa de Estella. O Sr. Antunes estava á porta e talvez contava com a visita; recebeu-o com alvoroço e tristeza.

Quatro mezes haviam decorrido depois da scena da Tijuca, e durante esse tempo Jorge fora muitas vezes á casa da rua de D. Luiza. Não lhe fugira Estella nem o maltratara; usou a mesma serenidade e frieza de outro tempo, falando-lhe pouco, é certo, mas com tamanha isenção, que parecia não ter havido entre elles o menor dissentimento.

Pela sua parte, Jorge forcejava por apagar a lembrança daquelle episodio, havendo-se com o respeito e consideração que lhe pareciam bastantes para resgatar a estima perdida. Ás vezes ficavam a sós na sala, porque o Sr. Antunes inventava algum motivo que o obrigasse a eclipses parciaes, com o fim unico, dizia elle comsigo,—de ajudar a natureza. Mas sobretudo nessas occasiões, aliás propicias, não transpunha Jorge a linha que a si mesmo traçara, não lhe sussurrava uma unica palavra amorosa, não lhe deitava um só olhar que a pudesse fazer corar ou reagir. Qualquer allusão á scena da Tijuca, ainda de submissão, seria prejudicial á causa de Jorge; elle evitava esse erro trivial, nada dizendo que proxima ou remotamente pudesse lembral-a á moça. Falavam pouco e de cousas indifferentes, como pessoas de nenhuma intimidade.

Foi só quando perdeu de todo a esperança de a vencer pelos meios ordinarios, que elle acceitou a proposta de se alistar no exercito. No dia em que lhes deu a noticia, a impressão no pae e na filha foi profunda, mas diversa, porque o pae ficou totalmente consternado e morto, ao passo que a filha sentiu a alma respirar livremente, e se uma voz secreta e medrosa lhe disse: não o deixes ir; outra mais dominadora e forte lhe bradou que a partida era a liberdade e a paz. A viagem, a distancia, o tempo, a natureza das occupações militares deviam arrancar ao moço um sentimento que Estella temia fosse origem de dissenções domesticas, e que em todo o caso a abatia a seus proprios olhos.

—É então amanhã? perguntou o Sr. Antunes fazendo entrar o joven capitão.

—Amanhã.

Estella recebeu-o como das outras vezes, sem embargo do pae, que parecia apostado em lhe tornar amargos esses ultimos instantes. A tristeza do Sr. Antunes era mortal. Elle pertencia á phalange daquelles espiritos que, atravez dos annos e ainda nos regelos do inverno, conservam as calcinhas da primeira edade, e para quem a vida tem sempre o aspecto dos castellos de cartas que construiram na infancia. Uma vez penetrado da ideia de casar a filha com o bacharel, viveu della, como se a vira praticada. O incidente da guerra não lhe desvendou a realidade da situação, mas pareceu-lhe que adiava o seu desejo, e bastava a consternal-o. Agora que via fardado o filho de Valeria, prestes a embarcar no dia seguinte, creu devéras na separação. Após meia hora de conversa, o Sr. Antunes retirou-se alguns minutos da sala; ia ver charutos.

—Tome um dos meus, disse Jorge.

—Nada; os seus são muito fortes.

Nunca os charutos de Jorge padeceram semelhante accusação da parte do Sr. Antunes, que fumava regularmente os do filho como havia fumado os do pae. Estella ficou humilhada com a resposta e a acção. Jorge que estava de pé, junto a uma mesa, viu sair o pae de Estella, e ficou a olhar para o chão. A moça cravou os olhos no trabalho, que estava fazendo.

Jorge ergueu emfim os olhos e pousou-os na moça, cuja belleza lhe pareceu naquella noite ainda mais limpida e espiritual, justamente porque elle começava a vel-a atravez do nimbo da saudade. Ella attendia ao trabalho com uma quietação laboriosa. As mãos, que podiam emparelhar com as mais puras, moviam as agulhas sem apparente commoção nem tremor. Ao mancebo já não humilhava esse aspecto indifferente e digno; podia medir, em si mesmo, a differença das situações, o caminho vencido, desde as primeiras ideias a respeito de Estella. Mas os minutos corriam e o silencio acanhava-o cada vez mais; emfim, resolveu rompel-o, e rompel-o de modo que tirasse daquelle minuto ou a salvação ou o naufragio da vida que ia emprehender. Deu dous passos para Estella.

—Talvez não nos vejamos mais, disse elle.

—Porque? disse Estella sem levantar os olhos.

—Posso ficar enterrado no Paraguay.

—Sua mãe não gostaria de ouvir isso...

Seguiram-se ainda dous minutos. Jorge poz toda a alma nestas palavras, ditas em voz baixa e triste:

—Embarco amanhã para o sul. Não é o patriotismo que me leva, é o amor que lhe tenho, amor grande e sincero, que ninguem poderá arrancar-me do coração. Se morrer, a senhora será o meu ultimo pensamento; se viver, não quero outra gloria que não seja a de me sentir amado. Uma e outra cousa dependem só da senhora. Diga-me; devo morrer ou viver?

Estella tinha erguido a cabeça; quando elle acabou achava-se de pé. Fitou-o alguns instantes com uma expressão muda e fria. A vaidade da mulher podia contentar-se daquella solemne reparação, e perdoar; mas o orgulho de Estella venceu, e não deu logar a nenhum outro sentimento de justiça ou de humanidade. Um geito ironico torceu-lhe o labio, donde saiu esta palavra má e desdenhosa:

—O senhor é um tonto.

Quando o pae voltou á sala, instantes depois, Jorge estava com uma das mãos no encosto de uma cadeira, pallido como um defunto. Estella fora até á porta da alcova da sala, resolvida a fechar-se por dentro.

O Sr. Antunes não tinha observação; mas, ao ver o rosto dos dous, não era muito difficil adivinhar que alguma cousa se passara entre elles. Adivinhou-o; comtudo, não atinara bem o que seria, se uma scena de dolorosa despedida, se outra cousa menos propicia a seus calculos. Foi ao joven capitão e pediu-lhe que se sentasse; mas Jorge declarou que ia sair e despediu-se. Sem encarar Estella, estendeu-lhe a mão, que ella apertou com o ar mais tranquillo do mundo. O pae espreitava uma lagrima furtiva, um gesto disfarçado, qualquer cousa que falasse em favor de suas esperanças. Nada; Estella não baixou o rosto nem escondeu os olhos. Jorge, sim; não obstante o esforço que fazia, tremia-lhe a mão ao apertar a do escrevente.

O Sr. Antunes acompanhou-o até a porta. Alli, antes de a abrir, quiz abraçar o moço official.

—Dê-me essa triste honra, disse elle; creia que estes braços são de amigo.

Jorge deixou-se ir, sem enthusiasmo; mas quando sentiu o corpo do pae de Estella, pareceu-lhe que abraçava uma parte da moça, e apertou-o fortemente ao peito. Esta manifestação lisonjeou extremamente o outro; chegou a commovel-o.

—Conte commigo, murmurou elle; fico para ajudal-o.

Jorge ouviu-o, apertou-lhe machinalmente as mãos, recebeu um abraço ultimo e atirou-se á rua.

Intoleravel é a dor que não deixa sequer e direito de arguir a fortuna. O mais duro dos sacrificios é o que não tem as consolações da consciencia. Essa dor padecia-a Jorge; esse sacrificio ia consumal-o.

Não foi dalli para casa; não ousaria encarar sua mãe. Durante a primeira hora que se seguiu á saída da casa de Estella, não pode reger os pensamentos; elles cruzavam-lhe o cerebro sem ordem nem deducção. O coração batia-lhe rijo na arca do peito; de quando em quando o corpo era tomado de calefrios. Ia despeitado, humilhado, com um dente de remorso no coração. Quizera de um só gesto eliminar a scena daquella noite, quando menos apagal-a da lembrança. As palavras de Estella retiniam-lhe ao ouvido como um silvo de vento colerico; elle trazia no espirito a figura desdenhosa da moça, o gesto sem ternura, os olhos sem misericordia. Ao mesmo tempo, lembrava-lhe a scena da Tijuca, e alguma cousa lhe dizia que essa noite era a desforra daquella manhã. Ora sentia-se odioso, ora ridiculo.

—Tua mãe é quem tem razão, bradava uma voz interior; ias descer a uma alliança indigna de ti; e se não soubeste respeitar nem a tua pessoa nem o nome de teus paes, justo é que pagues o erro indo correr a sorte da guerra. A vida não é uma egloga virgiliana, é uma convenção natural, que se não acceita com restricções, nem se infringe sem penalidade. Ha duas naturezas, e a natureza social é tão legitima e tão imperiosa como a outra. Não se contrariam, completam-se; são as duas metades do homem, e tu ias ceder á primeira, desrespeitando as leis necessarias da segunda.

—Quem tem razão és tu, dizia-lhe outra voz contrária, porque essa mulher vale mais que seu destino, e a lei do coração é anterior e superior ás outras leis. Não ias descer; ias fazel-a subir; ias emendar o equivoco da fortuna; escuta a voz de Deus e deixa aos homens o que vem dos homens.

Jorge caminhava assim, levado de sensações contrarias, até que ouviu bater meia-noite e caminhou para casa, cançado e oppresso. Valeria esperava-o sem haver dormido. Essa dedicação silenciosa, occulta, vulgar nas mães, natural naquella vespera de uma separação acerba e longa, foi como um balsamo ao coração dolorido do rapaz. Foi tambem um remorso. Pungiu-lhe a consciencia ao ver que esperdiçara algumas horas longe da creatura, a quem verdadeiramente ia deixar saudades, unica pessoa que pediria a Deus por elle. Valeria adivinhara onde estaria o filho, e tremia de medo á proporção que as horas passavam, receiosa de que, amando-o Estella, um e outro houvessem subtrahido a sua ventura ao jugo das leis sociaes, indo refugiar-se em algum ignorado recanto. Pensou isso, e fraqueou, e arrependeu-se, duvidando de si e da rectidão de seus actos. Não duvidava da natureza do mal; mas não excedia a elle o remedio escolhido? Suppondo que esse pensamento era a sua primeira punição, reagiu fortemente, colligindo as energias abatidas e dispersas e voltou a ser a mulher que era, com todas as suas fortes qualidades naturaes ou contrahidas. De mais, a que viria o arrependimento, se era tarde?

O filho entrou com as feições recompostas, mas tristes. Valeria recebeu-o sem nenhuma expressão de censura ou magua. Nada lhe disse; elle pouco falou e despediram-se sem expansão, aquella ultima noite que ia o moço dormir sob o tecto de seus paes.

A noite foi para elle afflicta e melancholica. Quasi inteira gastou-a em inventariar a vida que ia acabar, em dar busca aos papeis, queimar as cartas dos amigos, repartir algumas prendas, e finalmente em escrever disposições testamentarias e cartas a pessoas intimas. Perto das quatro horas deitou-se; ás sete estava de pé. Valeria havia-se-lhe antecipado. Algumas pessoas foram despedir-se delle e acompanhar a mãe no solemne momento da despedida. Entre essas figurava o pae de Estella, cuja tristeza, que era sincera, trazia uma mascara ainda mais triste.

Veiu emfim o momento da despedida. Valeria dominara-se até onde pode; mas o ultimo instante concentrava tantas dores, que era impossivel resistir-lhe. A organização moral da viuva era forte, mas a resistencia fora prolongada, e a vontade gastou-se nesse esforço de todos os dias. Quando soou o instante definitivo da separação rebentaram dos olhos as lagrimas, não tumultuosas, cortadas de vozes e gemidos, mas dessas outras que retalham silenciosamente as faces, resto de uma dignidade que cede a custo á lei da natureza. Ella estendeu os braços, ainda formosos, sobre os hombros do filho; nessa postura contemplou-o algum tempo; depois beijou-o e apertou-o estreitamente ao coração.

—Vae, meu filho, disse com voz firme. Eu fico rogando a Deus por ti; Deus é bom e te restituirá a meus braços. Serve a tua patria, e lembra-te de tua mãe!

Foram as ultimas palavras. Jorge não as ouviu; tinha o espirito prostrado e surdo. Chorou tambem, menos silenciosamente que Valeria, mas as mesmas lagrimas afflictas.

—Adeus, querida mamãe! disse elle arracando-se emfim de seus braços.

Saiu; Valeria não o viu sair; dera costas a todos e foi lastimar na alcova seu voluntario infortunio.

Pouco tempo depois, perdendo de vista a cidade natal, sentiu Jorge que dobrara a primeira lauda de seu destino, e ia encetar outra, escripta com sangue. O espectaculo do mar abateu-o ainda mais: alargava-se-lhe a solidão até o infinito. Os poucos dias da viagem desfiou-os nessa atonia moral que succede ás catastrophes. Emfim, aportou a Montevidéu,—seguindo dalli ao Paraguay.