Iaiá Garcia
Capítulo XI
Pouco depois das dez horas dispersou-se a reunião. O Sr. Antunes aposentou-se por essa noite em casa do genro. Jorge e Procopio Dias sairam juntos.
—Vae para a cidade a esta hora? perguntou Jorge.
—Repare que ainda me não offereceu cama, disse rindo o outro.
—Mas offereço-lhe agora.
—Acceito. Precisava justamente falar-lhe: negocio grave.
—Não é de certo algum fornecimento?
—Nem só de pão vive o homem, acudiu Procopio Dias.
—Que negocio é?
—Uma explicação.
—Sobre...
—Hade ser lá em casa; a noite é escura e os quintaes são traçoeiros.
XI
Entrados em casa, Procopio Dias não se apressou a dar ou pedir a explicação. Ceou primeiro, porque confessou haver adquerido esse costume, e Jorge não se demorou em obsequial-o. A ceia improvisada, composta de viandas frias e dous ou tres calices de vinho puro, deixou-o em paz com a natureza. Satisfeita esta, era a hora da explicação.
Não veiu ella com facilidade. Indolentemente reclinado n'uma ottomana, Procopio Dias fumava com volupia e falava com precaução, usando a voz pausada e avara de um homem para quem o digerir, é meditar. Se alguma ideia lhe avoaçava lá dentro, era difficil percebel-o atravez do olhar exhausto e morbido. Entretanto, a curiosidade de Jorge não lhe permittiu mais longa dilação e Procopio Dias foi compellido a salisfazel-a, quando o moço, parando deante delle, fracamente lh'o pediu.
—Parecia-me mais facil do que é, disse elle, sobretudo porque apezar de nos conhecermos ha algum tempo, não estou certo da opinião que o senhor forma de mim. Boa?
—Boa.
—Dê-me sua mão. Promette-me ser franco?
—Prometto:
—Qual das duas o leva á casa de Luiz Garcia?
Sobresaltado, Jorge retirou vivamente a mão.
—Bem vê, tornou Procopio Dias; é uma dellas.
Passada a primeira impressão, Jorge sentou-se tranquillamente, menos comtudo do que affectava estar.
—Na verdade, a sua pergunta é das mais exquisitas que eu esperava ouvir. Ignora as relações de amizade que me prendem áquella casa, relações que herdei de minha familia, e que eu apenas continuo? Qual das duas! Não ha alli duas; ha uma, uma sómente, uma... e...
—Não é essa? não é Yayá?
Jorge fez um gesto negativo.
—Acredite que me restitue a tranquillidade ao coração, disse Procopio Dias sentando-se de todo. Não é meu rival? não tem nenhuma ideia?... nenhuma ideia vaga?... É isso o que precise saber... é só isso, e é tudo.
—O senhor gosta de Yayá?
Procopio Dias fez primeiro um gesto affirmativo; depois balbuciou a confissão plena de seus sentimentos, mas com um ar de envergonhado, meio sincero e meio fingido, e tão a ponto e natural, que era difficil saber onde acabava a sinceridade e onde começava a simulação. Animou-se a pouco e pouco, e não lhe escondeu nada. Confessou que a filha de Luiz Garcia lhe transtornara de todo o espirito e que elle estava resoluto aos maiores sacrificios para obter-lhe a mão.
—Ás vezes suppunha que o senhor andava nas minhas fronteiras, concluiu elle, ideia que me affligia, porque o senhor tem sobre mim vantagens incontestaveis. A suspeita desvanecia-se e eu tranquillisava-me. Hoje, porém, confesso-lhe que a suspeita reappareceu e entrou a devorar-me o coração; e ainda assim, tinha intervallos, porque ora me parecia que o seu objecto era Yayá, ora que era a outra...
—Perdão, interrompeu Jorge; eu já lhe disse o que devia, e não posso consentir que voltemos ao mesmo ponto. Uma de suas suspeitas é injurias para mim.
—Tem razão; eu devia tel-o pensado, assentiu Procopio Dias. Mas que quer? Nada se deve imputar aos dementes e aos namorados. Perdoa-me? Em todo caso, pode crer que a minha indole não é tão tolerante com o vicio que me fizesse desejar haver dado em balda certa. Não sou rigoroso; sei que as paixões governam os homens, e que a força de as reger não é vulgar. Por isso mesmo é que se estima a virtude. No dia em que a natureza se fizer communista e distribuir egualmente as boas qualidades moraes, a virtude deixa de ser uma riqueza; fica sendo cousa nenhuma.
—Deixe-me falar-lhe com franqueza, disse Jorge, rindo; eu desconfio que o senhor é ainda menos rigoroso do que diz. Parece-me que se a sua suspeita, em relação á outra, tivesse fundamento, o senhor não me ouviria com indignação.
—Talvez estimasse.
Jorge não disse nada; olhou sómente para o interlocutor, com um ar de estupefacção, a que o outro sorriu benevolamente. Fez-se uma curta pausa. Procopio Dias rompeu emfim o silencio:
—Talvez estimasse, sem deixar de indignar-me depois; isto é, a indignação no momento seria abafada pelo interesse. Attenda-me, doutor; sejamos justos com o natureza humana. Virtudes inteiriças são invenções de poetas. Não me fazia bom cabello que a senhor gostasse da outra, e menos ainda que ella lhe correspondesse, porque, em summa; ambicionando entrar na familia, não desejaria que a familia tivesse a menor macula. Esta é a realidade. Mas, eu amo, doutor; e por mais ridicula que pareça esta confissão, por mais grosseira que seja a minha casca, a verdade é que amo a enteada apaixonadamente: é o meu pensamento de todos os dias. Ora, dado que o senhor amasse a outra, qual era o primeiro movimento do meu coração? Ligal-os ao meu interesse. Desde que entre os dous houvesse um segredo, e que esse segredo fosse descoberto ou suspeitado por mim, o senhor e ella eram os meus melhores alliados, e a resistencia daquella menina, e a vontade do pae, tudo cedia em meu favor.
Procopio Dias proferiu estas palavras com simplicidade e convicção. Seus olhos plumbeos pareciam duas portas abertas sobre a consciencia. A expressão do rosto era a de um cynismo candido. Jorge contemplou-o alguns instantes sem dizer palavra, ao parecer subjugado pelo raciocinio. Ouvira-o pasmado e satisfeito. Tanta franqueza não mostrava que Procopio Dias já não suspeitava nada? Jorge sorriu e replicou:
—O que o senhor acaba de dizer não será animador, mas persuado-me que é a realidade pura. Admira-me sómente que tenha tanta penetração e superioridade para ver e confessar os vicios da natureza humana...
—Sou pratico, tornou o outro sorrindo. Raras vezes me irrito, comquanto lastime sempre o que é fraqueza ou perversão. Assim, por exemplo, eu não lhe ficaria querendo mal se o senhor me houvesse illudido agora acerca de seus sentimentos, porque o seu interesse e o seu dever é negal-os.
—Perdão; já lhe dei minha palavra...
—Não deu, nem eu lh'a pedi, nem pediria, porque a palavra de honra não obriga a consciencia, quando é dada para salvar uma questão de honra. O senhor poderia dal-a sem sinceridade nem remorso. Já não é a mesma cousa se me jurasse, por que o juramento, invocando o testemunho de um ente superior, esse obriga a consciencia que não está pervertida.
—Não exige de mim que jure, espero eu? disse Jorge.
—Ha ainda uma raiz de duvida, em meu coração, replicou Procopio Dias sorrindo.
—Pois juro-lhe...
Procopio Dias levantou-se de subito.
—Não precisa mais, exclamou elle apertando-lhe as mãos. Agora creio; creio de todo. Não é meu rival, nem corrompe a familia a que pretendo unir-me. Se soubesse o prazer que me deu com a sua ultima palavra! Obrigado! Agora creio. Ria-se de mim, ria-se; eu creio que esta expansão pode ter um lado grotesco,—hade ter de certo. O que lhe affianço é que se minha felicidade não é completa depende sómente da fortuna não dos homens...
Sentou-se depois destas palavras, proferidas quasi sem respirar. Jorge acompanhou-o nessa expansão de felicidade. Pareciam satisfeitos um do outro. Procopio Dias confessou que era a primeira pessoa a quem falava de seus sentimentos, e não se vexava de dizer que, ao cabo de alguns mezes, nada podia saber do coração da moça. Ás vezes suppunha ser acceito; outras, e eram as mais numerosas, tinha a persuasão contraria.
—O senhor naturalmente conhece-a e sabe que obra de contradicção é aquella mocinha, disse elle. Ha occasiões em que sua familiaridade commigo chega quasi á seducção. Talvez exagéro; mas que heide de pensar de uma moça que me pede instantemente que vá lá, em certo dia, com um modo grave e cheio de promessas? digo-lhe sim; vou, recebe-me com um epigramma, ri-se de mim, abusa da complacencia e não sei se do amor, porque, comquanto não lhe haja dito nada, acho natural que ella o tenha descoberto nos meus olhos. Se fico despeitado e resolvido a não voltar lá, ella torna-se mansa, como uma pomba, carinhosa, macia, e o meu despeito evapora-se, e eu continuo a minha viagem interminavel.
—Nunca lhe deu a entender nada, ao menos por allusão?
—Nunca; receio que não me deixasse acabar.
—Não creia; eu supponho que ella gosta do senhor.
—Sabe disse?
—Não; mas é o que concluo do que me contou. As mulheres têm ás vezes caprichos; e demais ha naquella uns restos de creança, que a faz ainda mais caprichosa. Meu raciocinio é este: se ella percebeu, e não o repelle absolutamente, é porque o senhor ainda pode ter esperanças...
Procopio Dias não pode exprimir a alegria que estas palavras de Jorge lhe entornaram na alma; seus olhos brilharam da uma luz extranha, depois fecharam-se, emquanto a cabeça pendeu para traz, de um geito languido. Durante essa pausa de alguns minutos, Jorge pode analysar as feições de Procopio Dias, pouco proprias a fascinar uns olhos de dezeseis annos, e achou natural que Yayá não se sentisse tomada de cego enthusiasmo. Comtudo, não era impossivel corresponder-lhe de algum modo, se a razão tomasse as redeas ao coração. Jorge suppunha até que houvesse em Yayá uma semente de sympathia, que bastava fazer germinar.
Entrando no quarto que lhe fora destinado, Procopio Dias estava longe de ter somno; a excitação trazia-o esperto. Entrou, abriu a janella e olhou ao largo. O aroma vivo das plantas da chacara ainda mais lhe apurou o systema. Não era homem de contemplar estrellas nem de fazer philosophias acerca da solidão nocturna e do somno das cousas; limitou-se a pensar no que acabava de ouvir.
—Gosta da Estella, murmurou elle; antes de jurar podia ser duvidoso; depois do juramento é positivo, se ella não gosta delle faz mal; é um rapaz de espavento.
Depois, abriu as azas ao pensamento e foi direito a Yayá, galgando o espaço e derrubando paredes: foi e contemplou o seu somno de virgem, que elle suppunha ser quieto e puro, mas que a essa mesma hora, era turbado e já complicado das ideias do mal. Procopio Dias deixou-se ir ao sabor da paixão, que era viva e sincera, uma conspiração surda e mysteriosa de todas as forças sensuaes.
A figura terna e virginal de Yayá apparecera-lhe um dia, subitamente, como uma visão não sonhada. Se elle a visse em algum salão aristocratico pensaria nelle uma noite, talvez uma semana, até esquecel-a ou substituil-a. Mas o que o prendeu a Yayá Garcia foi justamente a mediocridade do nascimento. Possuil-a era fazer-lhe um favor. Quantas outras lhe não levaram os olhos de satyro, ao descer de uma carruagem, ou ao resvalar indolentamente o seu talhe na contradança de bom tom? Elle via-as passar ou estar, com os hombros nus ou cingidos da cachemira elegante, risonhas umas, outras sérias, todas altivas e compassadas, e sentia que os annos, feições e maneiras o distanceavam dellas; não era difficil apagal-as de memoria.
Yayá teria antes de agradecer a escolha; era a sua convicção, e foi o que mais o ligou á filha de Luiz Garcia.
Quando a moça reflectisse que acharia no marido a satisfação de todas as velleidades do luxo, o gozo das cousas superfinas, elegantes e raras, devia ceder por força e preferil-o a quem lhe désse apenas coração, trabalho e necessidades. Uma vez brotada a ideia, cresceu e tomou-lhe o cerebro todo. Yayá era então a figura presente a seus olhos, ora divina e casta, ora ardente e lubrica,— lubrica, porque elle em sua imaginação conspurcava-a, antes mesmo de a possuir.
No dia seguinte acordaram tarde e almoçaram juntos, sem tomar no assumpto da vespera. No fim do almoço, Procopio Dias referiu-se a elle, dizendo que fora excessivo na noite anterior, e pedindo a Jorge que o não levasse a mal; porquanto era tudo filho de um sentimento que não pécca por moderado na suspeita, nem equitativo na apreciação.
—Não podia attribuir-lhe outro motivo, redarguiu Jorge sorrindo.
—Não ficou mal commigo?
—Mal? A prova é que se dependesse de mim casal-o, casava-o amanhã mesmo.
Procopio Dias agradeceu-lhe a sympathia e o obsequio, e saiu. Jorge foi dalli vestir-se para ir passar alguns minutos no escriptorio. Emquanto se vestia, pensava na situação do ex-fornecedor do exercito. Não eram amigos, mas o caso de Procopio Dias interessava-o; era sympathico a seus olhos. Não indagou se essa sympathia brotava do medo; persuadia-se ingenuamente do contrario. Um marido apaixonado e opulento! Duas vantagens que uma moça nas condições de Yayá, devia acceitar com ambas as mãos. Talvez Procopio Dias não fosse mal acceito ao coração da moça; sómente, havia nesta uns vestigios de creança, que o tempo devia apagar.
—Naquella edade um pretendente é uma especie de boneca, dizia Jorge atando a gravata; o que é preciso, a todo trance, é fazer da boneca um esposo.
Chegando ao escriptorio, ao meio dia, Jorge encontrou o Sr. Antunes consternado. Tinha dormido até onze horas, chegara tarde á casa em que trabalhava, o patrão convidara-o a fazer as contas. Era uma pequena casa de commercio, onde o Sr. Antunes, que entendia de escripturação mercantil, trabalhava desde algum tempo, graças ao obsequio de Jorge:
—Mas já foi despedido? perguntou este.
—Devo fazer as minhas contas e retirar-me no fim do mez.
Jorge escreveu duas linhas ao patrão do Sr. Antunes. De tarde, foi este a Santa Thereza. Jorge ia sentar-se á mesa do jantar; o Sr. Antunes já tinha jantado, mas acompanhou-o.
—Venha, venha, disse o moço; preciso ralhar-lhe.
Vexado e timido, o Sr. Antunes sentou-se defronte de Jorge, que não lhe disse nada durante os primeiros minutos. Jorge falou emfim, reprehendendo-o amigavelmente; disse-lhe que as exigencias do commerciante não eram exageradas, e em todo caso não havia meio de oppôr-se a ellas, salvo se quizesse deixar a casa.
—Isso mesmo, disse o pae de Estella.
—Não faça isso; não se ganha nada em andar de emprego em emprego. Demais, francamente, não vejo que entrar antes das dez horas seja cousa difficil. Seu genro faz isso ha muitos annos.
—Meu genro!... meu genro!... disse o Sr. Antunes sacudindo a cabeça com um gesto de enfado.
Jorge fingiu não attender ao gesto e ao tom do pae de Estella, e tratou de o converter á pontualidade, obra que começava a ser difficil, porque o Sr. Antunes entrava já nas consequencias logicas e naturaes de uma longa dependencia; preferia o favor ao trabalho, e os annos contribuiam para esse amor da inercia e do beneficio gratuito. A maior ambição que o animou, se a fortuna a houvera realisado, dar-lhe-hia todos os meios de envelhecer tranquillo. Agora tinha encanecido, e o corpo, embora lesto, começava a suspirar pela inacção.
Jorge deixou o assumpto para não vexar o antigo protegido do pae, e acabou o jantar alegremente. No fim recebeu um bilhetinho de Procopio Dias. «Não imagina, dizia este, que dia tenho passado, depois da nossa conversa de hontem. Teimo em dizer que fui excessivo, e ainda uma vez lhe peço me releve a falta. Poderia o senhor castigar um doido? O amor não tem imputação. Queime este bilhete; em todo caso não o revele a ninguem, sobretudo á pessoa de que se trata.» Jorge sorriu e releu o bilhete; depois fechou-o na secretaria e escreveu esta simples resposta: «Ainda uma vez, não ha que perdoar. O senhor foi apenas desconfiado, como todos os ciumentos; mas, como não inventou o ciume, não lhe faço carga disso.» Entregue a resposta, Jorge olhou para o Sr. Antunes, que fumava discretamente um charuto do bacharel.
—Ouvi dizer hoje uma cousa, disse Jorge com ar indifferente; ouvi dizer que Yayá vae casar.
—Casar? repetiu o Sr. Antunes com um sobresalto. E depois de um instante:—É possivel; naquella casa o ultimo que sabe das cousas sou eu.
—Talvez não passe de balella. Nem me disseram com quem. Provavelmente ha algum namorado ou apparencia disso, e então os novelleiros vão logo ao fim. Mas haverá deveras algum pretendente ou namoro?...
—Que eu saiba, nada, asseverou o Sr. Antunes. E até, deixe-me dizer-lhe o que penso, duvido que ella cuide por ora de semelhante cousa. Aquella menina não tem cabeça.
—Oh! exclamou Jorge rindo.
—Não tem, digo-lhe eu. Está alli, está no hospicio. Não se póde dizer que seja travessura, porque não está em edade disso; é pancada. Se soubesse as cousas que ella faz ás vezes!
—Não me parece; quando a vejo, é sempre com um modo comedido, e muitas vezes serio...
—Lá isso. é porque ella não gosta do senhor.
—Não gosta de mim? perguntou Jorge admirado.
—Não digo que absolutamente não goste, obtemperou o pae da Estella; não lhe tem muita sympathia, é o que é.
—Como sabe você disso?
—Ouvi uma vez o pae reprehendel-a, por que de proposito voltara as costas ao senhor; e então ella levantou os hombros, assim com um ar de pouco caso. O pae tornou a dizer que aquillo não era bonito, mas perdeu o tempo; Yayá pregou os olhos nas unhas, com a testa franzida, e eu sai porque já não podia aturar nem um nem outro.
Jorge ficou alguns instantes pensativo. Era certo que Yayá o tratara sempre com muito resguardo e frieza; mas, supposto que isso não significasse sympathia, e até lhe sentisse alguma hostilidade, estava longe de attribuir-lhe declarada aversão. Do gesto a que o Sr. Antunes alludira, não se lembrava absolutamente, mas era possivel. Demais, pensou elle, o Sr. Antunes não o inventaria na occasião; não era callumniador; faltava-lhe essa ferocidade. Mas, porque motivo não gostaria delle a filha de Luiz Garcia? Era a segunda vez que Jorge fazia essa pergunta, sem lhe achar resposta plausivel. Em seguida, recordou-se da noite anterior, e observou ao pae de Estella que Yayá o tratara na vespera com alguma cordialidade.
—Milagre de anno bom! explicou o Sr. Antunes. Tambem lhe digo que não perde nada se ella não gostar do senhor; é uma fortuna. Porque ella, quando gosta de uma pessoa, é de fazer-lhe perder a paciencia.
—Mas parece ter bom coração, e creio que gosta muito do pae.
—Tambem Estella gosta de mim.
Jorge fechou neste ponto a conversação. Seu pensamento voltou á revelação inopinada do Sr. Antunes. Por mais indifferente que Yayá lhe fosse, Jorge sentia-se molestado com a certeza de que a moça não gostava delle. Porque seria? Simples antipathia ou outra cousa?