Iaiá Garcia
Capítulo V
A segunda viagem, as gentes extranhas, as novas cousas, o movimento do theatro da guerra, produziram nelle saudavel transformação. O espirito elastico e mobil sacudiu as sombras de pezar que o ennoiteciam, e, uma vez voltado o rosto para o lado do perigo, começou de enxergar, não a morte obscura ou ainda gloriosa, mas o triumpho e o laureado regresso. Bebido o primeiro hausto da campanha, Jorge sentiu-se homem. A hora das frivolidades acabara; a que começava era a do sacrificio austero e diuturno. Ia encarar trabalhos não sabidos, expôr-se a perigos inopinaveis; mas ia resoluto e firme, com a fronte serena e clara e o lume da confiança acceso no coração.
V
As primeiras cartas de Jorge foram todas á mãe. Eram longas e derramadas, enthusiasticas, descuidosas e até pueris. Descontada a escassa porção de realidade que podia haver nellas, ficava um calculo, que o coração de Valeria comprehendeu; era adoçar-lhe a ausencia e dissipar-lhe as apprehensões.
Cedo se familiarisou Jorge com a vida militar. O exercito, acampado em Tuyuty, não iniciava operações novas; tratava-se de reunir os elementos necessarios para proseguir a campanha de modo seguro e decisivo. Não havendo nenhuma acção grande, em que pudesse provar as forças e amestrar-se, Jorge buscava as occasiões de algum perigo, as commissões arriscadas, cujo exito dependesse de espirito atrevido, sagacidade e paciencia. Esse desejo captou-lhe a sympathia dos chefes immediatos.
O coronel que o commandava attentou nelle; sentiu-lhe a alma juvenil atravez do olhar brando e repousado. Ao mesmo tempo observou que, no meio dos gozos faceis e multiplos do acampamento, convertido pela inacção em povoado de recreio, Jorge conservava um retrahimento monachal, um casto horror de tudo o que pudesse divertil-o de curar das armas, ou sómente de pensar nellas. O coronel era homem de seu officio; amava a guerra pela guerra; morreu talvez de nostalgia no regaço da paz. Era bravo e rispido. O que lhe destoou a principio na pessoa de Jorge, foi o alinho e um resto de seus ademanes de sala. Jorge, entretanto, sem perder desde logo o geito da vida civil, foi creando com o tempo a crosta de campanha. O desejo de trabalhar, de arriscar-se, de temperar a alma ao fogo do perigo, trocou os sentimentos do coronel, que entreviu nelle um bom companheiro de armas, e ao fim de pouco tempo procurou distinguil-o.
Posto que Jorge falasse do coronel nas cartas que escrevia á mãe, não o dava como amigo seu, nem tinha amigos no acampamento, ou se os tinha não os considerava taes. Ouvia confidencias de muitos, animava as esperanças de uns, consolava as penas de outros, nunca abria porém a porta do coração á curiosidade transeunte. Devia ser entretanto interessante uma pagina sómente da vida daquelle militar, joven, bonito, abastado, que não ia ao theatro nem aos saraus do acampamento, que ria poucas vezes e mal, que só falava da guerra, quando falava de alguma cousa.
Um dia, um major do Ceará foi achal-o sentado em um resto de carreta inutil, lançado em sitio escuso, ora a olhar para o horizonte, ora a traçar com a ponta da espada uma estrella no chão.
—Capitão, disse o major, parece que você está vendo estrellas ao meio dia?
Jorge sorriu do gracejo, mas não deixou de continuar, nos demais dias, a traçar estrellas no chão ou a procural-as nas campinas do ceu. Os officiaes, arrastados pela sympathia, não lhe ficavam presos pela convivencia; Jorge era, não só taciturno, mas desegual, ora docil, ora rispido, muitas vezes distrahido e absorto. Era distrahido, sobretudo, quando recebia cartas do Rio de Janeiro, entre as quaes rara vez acontecia que não viesse alguma do Sr. Antunes. O pae de Estella regava com a agua salobra de seu estylo a esperança que não perdera. As suas cartas eram epithalamios disfarçados. Falava muito de si, e muito mais da filha, cuja alma, dizia elle, andava singularmente triste e acabrunhada. Jorge resistia ao desejo de falar tambem de Estella; mais de uma vez o nome da moça lhe caía dos bicos da penna; elle o riscava logo, assim como riscava qualquer phrase que pudesse parecer allusiva aos seus sentimentos; as que escrevia ao pae da moça eram seccas, sem especial interesse, polidas e frias.
Um dia, porém, antes de meado o anno de 1867, não pode resistir á necessidade de segredar o amor a alguem ou proclamal-o aos quatro ventos do ceu. Ninguem havia ao pé delle que merecesse a confidencia; Jorge alargou os olhos e lembrou-se de Luiz Garcia, unica pessoa extranha a quem confiara metade do segredo que havia levado para a guerra. Os corações discretos são raros; a maioria não é de gaviões brancos que, ainda feridos, voam calados, como diz a trova; a maioria é das pêgas, que contam tudo ou quasi tudo.
Já nesse tempo o coração de Jorge padecera grande transformação. O amor, sem minguar de intensidade, mudara de natureza, convertendo-se em uma especie de adoração mystica, sentimento profundo e forte, que parecia respirar atmosphera mais alta que a do resto da creação. Elle mesmo o disse na carta a Luiz Garcia, sem lhe denunciar o nome da pessoa, nem nenhuma circumstancia que podesse pol-o na pista da realidade; exigiu-lhe absoluto silencio e contou-lhe o que sentia:
«Não importa saber quem é, disse elle;—o essencial é saber que amo a mais nobre creatura do mundo, e o triste é que não sómente não sou amado, mas até estou certo de que sou aborrecido.
«Minha mãe illudiu-se quando suppoz que meu amor achara echo em outro coração. Talvez desistisse de me mandar ao Paraguay, se soubesse que esta paixão solitaria era o meu proprio castigo. Era; já o não é. A paixão veiu commigo, apezar do que lhe ouvi na vespera de embarcar; e se não cresceu, é por que não podia crescer. Mas transformou-se. De creança tonta, que era, fez-se homem de juizo. Uma crise, algumas legoas de permeio, poucos mezes de intervallo, foram bastantes a operar o milagre.
«Não sei se a verei mais, porque uma bala pode pôr termo a meus dias, quando eu menos o esperar. Se a vir, ignoro os sentimentos com que ella me receberá. Mas de um ou de outro modo, este amor morrerá commigo, e o seu nome será a ultima palavra que ha de sair de meus labios.
«Meu amor não sabe já o que seja impaciencia ou ciume ou exclusivismo: é uma fé religiosa, que pode viver inteira em muitos corações. Talvez o senhor me não comprehenda. Os homens graves ficam surdos a estas subtilezas do coração. Os frivolos não as entendem. Eu mesmo não sei explicar o que sinto, mas sinto alguma cousa nova, uma saudade sem esperança, mas tambem sem desespero: é o que me basta.»
Jorge releu o escripto, e ora o achava claro de mais, ora obscuro. Hesitou ainda algum tempo; emfim, dobrou a carta, fechou-a e remetteu-a para o Rio de Janeiro.
Quando a resposta lhe chegou ás mãos, preparava-se o exercito para deixar Tuyuty. Jorge estava todo entregue aos cuidados da guerra, a sonhar batalhas, a acutilar mentalmente os soldados de Lopez. A resposta de Luiz Garcia dizia pouco ou nada do objecto da carta de Jorge; compunha-se quasi toda de conselhos e reflexões, dadas em linguagem sobria e medida, reflexões e conselhos relativos quasi exclusivamente aos deveres de homem e de soldado.
Jorge esperava aquillo mesmo; conhecia, ainda que pouco, o genio sêcco e gelido de Luiz Garcia. Comtudo, ficou momentaneamente desapontado e triste. Seria certo que nenhum coração sympathisava com seus secretos infortunios ou suas venturas solitarias? Ao cabo de largos mezes de separação, nem Estella pensaria nelle, nem elle achava pessoa com quem partisse o pão das saudades, ultimo alimento de um amor sem conjuge. A consciencia da solidão moral abateu-o um instante; esvaiu-se-lhe toda a força accumulada durante aquelles mezes, e a alma caiu de bruços.
Poucos dias depois operou-se a marcha de Tuyuty a Tuyu-Cué, a que se seguiu uma serie de acções e movimentos, em que houve muita pagina de Plutarcho. Só então pode Jorge encarar o verdadeiro rosto á guerra, a cujo principio não assistira; figurou em mais de uma jornada heroica, correu perigos, mostrou-se valoroso e paciente. O coronel adorava-o; sentia-se tomado de admiração deante daquelle mancebo, que combatia durante a batalha e calava depois da victoria, que communicava o ardor aos soldados, não recuava de nenhuma empreza, ainda a mais arriscada, e a quem uma estrella parecia proteger com suas azas de luz.
Notou elle uma vez, em um dos combates mortiferos de Dezembro de 1868, anno e meio depois da carta de Luiz Garcia, que a temeridade do mancebo parecia ir além dos limites do costume, e que em vez de um homem que combatia, era elle um homem que queria morrer. A fortuna salvou-o. Findo o combate, recolhidos os feridos, repousados os corpos, o coronel foi ter com elle na barraca, e achou-o tristemente quieto, com os olhos inchados e parados. O coronel não reparou nisso; entrou a felicital-o pelo comportamento que tivera, ainda que um pouco excessivo. Jorge tinha-se respeitosamente erguido e olhava para o coronel sem dizer palavra. Este encarou-o e viu-lhe signaes de abatimento.
—Que diabo tem você, capitão?
—Nada, respondeu o moço.
—Recebeu hontem cartas do Rio de Janeiro?
—Uma: de minha mãe.
—Está boa?
—De perfeita saude.
—Nesse caso...
O coronel parou e reflectiu; depois continuou:
—Já sei o que é.
—O que é! exclamou Jorge procurando sorrir.
—Ha-de fazer-se, continuou o coronel; a cousa está a caminho, ha-de fazer-se, não lhe digo mais nada.
E bateu-lhe no hombro, com um gesto que tanto podia dizer: «socegue, capitão», como: «parabens, senhor major.» Jorge entendeu esse trocadilho gesticular, e apertou as mãos do coronel, agradecendo-lhe, não o posto que lhe annunciava, mas a affeição que lhe tinha. O coronel encarou-o paternalmente alguns minutos.
—Subir! Não sonham com outra cousa, rosnava elle comsigo.
E saiu.
Jorge ficou só, accendeu um cigarro, que não pode fumar até o fim. Depois sentou-se desabotoou a farda, tirou uma carta, abriu-a e releu algumas linhas do fim. A carta era de Luiz Garcia. Dava-lhe noticias de sua mãe, que, por motivos de doença, fora tomar aguas a Minas, e rematava com estas palavras assombrosas:
«... Resta-me dizer-lhe, se em alguma cousa lhe pode interessar minha vida, que sabbado passado contrahí segundas nupcias. Minha mulher é a filha do Sr. Antunes. Sua mãe serviu-nos de madrinha.»
Com os olhos fitos nessas poucas linhas, Jorge parecia alheio a tudo mais. O papel, recebido na vespera, estava amarrotado, como se lhe passara pelas mãos durante um anno. Olhava, relia e não podia entender; quando chegava a entender, não podia acreditar. O casamento de Estella era a seu ver um absurdo; mas após os intervallos de duvida, a realidade apossava-se delle. A razão mostrava-lhe que semelhante noticia devia ser certa. No fim de dous dias, tinha elle comprehendido alguma cousa do silencio de sua mãe: o motivo era, sem duvida, o mesmo que a impellira a mandal-o ao Paraguay. Nunca lhe falara de Estella, nem do casamento de Luiz Garcia, silencio calculado para de todo extinguir em seu coração os derradeiros murmurios de um amor sem echo.
Jorge sentiu então um phenomeno proprio de taes crises—um movimento de odio a todo o genero humano, desde sua mãe até o seu inimigo. Tornou-se descortez, violento, deliberadamente mau: effeito transitorio, ao qual succedeu um abatimento profundo. Ferido dahi a dias em Lomas Valentinas, retirou-se por alguns mezes do exercito, cujas operações só continuaram depois de meado o anno seguinte. Jorge teve parte nas jornadas de Pirebebuy e Campo Grande, não já na qualidade de capitão, mas na de major, cuja patente lhe foi concedida depois de Lomas Valentinas. No fim do anno estava tenente-coronel, commandava um batalhão, e recebia os abraços de seu antigo commandante, contente de o ver sagrado heroe.