Iaiá Garcia

Machado de Assis · Capítulo 9 de 18

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Iaiá Garcia

Capítulo IX

 

 

A nova ordem de cousas perturbou profundamente o animo de Estella. O procedimento de Jorge, por occasião da molestia do marido não lhe pareceu esconder nenhuma intenção particular; mas durante a convalescença, e sobretudo depois della, afigurou-se-lhe que a ideia do moço era insinuar-se na familia. Para que? Estella suppunha que o amor de Jorge, ao fim de tão longo periodo, estaria acabado de todo, como producto da primeira estação. Não lhe negou um pouco de gratidão, quando viu os obsequios que prestara ao marido enfermo, com tanta solicitude, discrição e dignidade. Agora, porém, ao ver a frequencia e a convivencia, suppoz alguma cousa mais do que a simples affeição tradiccional. Que encanto podia offerecer a casa de uma familia retirada e obscura a um homem creado em mais apparente plana social? Seu meio era outro; tendencias de espirito ou ambições de futuro o deviam levar a outra esphera. Esta consideração lhe pareceu decisiva. Concluiu que a paixão, vencida ou comprimida, soltava outra vez o brado da revolta; e se assim era, Jorge devia estar peor que em 1866, porque então os sentimentos rompiam com violencia e sinceridade, ao passo que agora o seu principal aspecto era a dissimulação. O amor, se amor havia, trazia já os olhos abertos e dispunha da razão; de estouvado, tornava-se cautelloso e subtil.

—Que ideia faz elle de mim? perguntou Estella a si mesma.

Quando esta palavra lhe soou no espirito, Estella sentiu-se diminuida e humilhada aos olhos de Jorge. Cumpria pôr termo a uma vida de reticencias e dubiedade. Estella cogitou no meio de fazer cessar a intimidade dos dous homens; quando menos, a frequencia de Jorge naquella casa. Pensou em pedil-o directamente a Jorge; mas rejeitou desde logo a ideia, aliás incompativel com sua indole; depois, pensou em dizer tudo ao marido.

Uma noite, na primeira semana de Novembro, Estella assentou definitivamente revelar ao marido a unica pagina de seu passado. Estava sósinha, no jardim, e vira desmaiar o crepusculo da tarde— uma tarde cinzenta e amortecida. De quando em quando o espirito volvia ao passado, e toda ella estremecia com uma sensação extranha, mysteriosa e insupportavel. A noite caiu de todo, e a alma de Estella mergulharia tambem na vaga e perfida escuridão do futuro, se a rude voz do escravo não a viesse acordar.

—Nhanhã está apanhando sereno, disse Raymundo.

Estella ergueu-se e foi dalli ao gabinete do marido. Luiz Garcia trabalhava, á claridade de um lampeão, que toda convergia para elle e os papeis que tinha deante de si, graças ao effeito de um abat-jour. O resto do aposento ficava na meia obscuridade.

—Que é? perguntou Luiz Garcia sem levantar a cabeça.

Estella parou do outro lado da secretaria; Luiz Garcia ergueu então a cabeça e olhou para ella, sem lhe poder ver o transtorno das feições.

—Que é? repetiu.

Vendo-o entregue ao trabalho, por amor della e da filha, Estella hesitou; pareceu-lhe crueldade dar-lhe, em troca da protecção e do affecto, um desengano e uma afflicção. Hesitou um instante, e passou da hesitação á renuncia. Conteve-se e saiu. Escolheu o silencio.

Mas o silencio só por si não melhorava nada; tarde ou cedo, o marido viria a ler em seu rosto o constrangimento, em relação a Jorge, constrangimento inexplicavel, que elle podia interpretar contra ella. Foi então que a serpente lhe ensinou a dissimulação. A necessidade deu-lhe a intuição machiavelica; isto é, a occasião não consentia um rosto franco, sinceramente hostil, mas um ar ameno, uma cordialidade de superficie, friamente cortez, mas cortez. Desse modo, salvava-se a paz domestica, e era o essencial. Ao mesmo tempo mostraria a destemidez de seu coração, capaz de affrontar todo o artificio do outro.

Com o tempo, verificou Estella que o procedimento de Jorge, se alguma intenção escondia, não a deixava sequer suspeitar; não lhe parecia já dissimulação, mas abstenção. Elle proprio a evitava; fugia ás conversas longas, sobretudo ás conversas solitarias. Era respeitoso e frio.

Com effeito, Jorge não havia cedido a nenhum plano preconcebido; ia á feição do tempo; mettia-se por um atalho, sem saber se iria dar á estrada recta ou a um abysmo. Nenhuma preoccupação lhe ensombrava a fronte risonha e placida. Dir-se-hia que, após longa e trabalhosa jornada, vingara o cume das delicias humanas.

A verdade é que o amor de Jorge tinha como que despido a qualidade de sentimento para constituir-se ideia fixa. Nascido de uma primeira explosão de juventude, curtiu alguns annos de ausencia. A ausencia disciplinou os primeiros ardores, quebrou os impetos, afrouxou o alento; o amor atou aos hombros as azas de um mysticismo quieto. Não parou nessa evolução. Do coração em que pousava tomou impulso e alou-se ao cerebro, onde assumiu a fixidez das resoluções definitivas. Não era já uma paixão, mas uma convicção, isto é, outra cousa. Pensava muitas vezes na consequencia de herdar em breve prazo a esposa de Luiz Garcia, resolução que lhe parecia necessaria; era o que elle dizia a si mesmo. E esse casamento tinha dous resultados: era uma reparação e uma desforra: reparação do mal que elle fizera, desforra do tratamento que ella lhe deu. Ambos tinham que reprochar um ao outro. O casamento absolvia-os. Talvez na balança commum não fossem eguaes as dividas, mas Jorge tinha certo fundo de equidade, e entendia que, se padecera muito e longo, não excedeu o padecimento á injuria, que, a seus olhos, fora grave.

Os ralhos da consciencia eram agora menos frequentes e menos rispidos: é o effeito natural dessa ordem de situações violentas. Os mais rigidos podem chegar assim ás complacencias inexplicaveis, e o que é hoje nobre repugnancia, é amanhã hesitação pueril. Jorge não ficou extranho a essa lei do costume. De si para si julgava-se innocente, porque era impassivel, esquecendo a lettra do decalogo que não defende sómente a acção, mas a propria intenção.

Duas circumstancias perturbaram, entretanto, o espirito de Jorge, antes do fim daquelle anno.

A primeira foi a assiduidade de Procopio Dias, que lhe pareceu pouco explicavel. Procopio Dias era recebido com agazalho mais cordial do que elle. Em relação a Jorge, o procedimento de Estella era cautelloso e apenas affavel; o de Yayá era de algum modo medroso ou hostil; uma e outra pareciam alegrar-se quando Procopio Dias assomava á porta. Era uma expressão differente. Este acompanhava-as ás vezes nos passeios, ou conversava-as largo tempo, fazendo-as rir com uma espontaneidade, que não tinham a falar com Jorge. Obedecia aos desejos da madrasta e aos caprichos da enteada, quaesquer que fossem, com tamanha tolerancia e bom humor, que fazia despeitar o outro, sem o saber. Jorge attentou nos dictos e acções do intruso, e com o tempo veiu a tranquillisar-se.

—É um celibatario necessitado da companhia de mulheres, disse comsigo.

Procopio Dias não parecia outra cousa; a atmosphera feminina era para elle uma necessidade; o ruge-ruge das saias a melhor musica a seus ouvidos. Graças á edade, Yayá era mais familiar do que Estella; ás vezes chegava a «judiar» com elle, excesso que o pae ou a madrasta reprimia, e reprimia sem necessidade. Procopio Dias não manifestava nem sentia o menor despeito; achava-lhe graça e chegava a fazer coro com ella.

A segunda circumstancia que projectou alguma sombra no espirito de Jorge, foi justamente a hostilidade de Yayá Garcia.

—Que diabo fiz eu a esta menina? perguntava Jorge a si mesmo.

Durante a molestia e a convalescença do pae, Yayá tratara Jorge com muita gratidão e cordialidade. Algum tempo depois, começou a diminuir essa apparencia, até que cessou de todo e se converteu n'outra cousa, que visivelmente era repugnancia, com uma pontasinha de hostilidade. Luiz Garcia viu logo a differença, tanto mais facil de notar quanto que Estella, se não era já tão expansiva como nos primeiros dias, tratava ainda assim o filho de Valeria com uma affabilidade, que salvava as apparencias; a unica excepção era a filha. Não deixou de a advertir; ponderou-lhe que Jorge era filho de uma pessoa a quem elles deviam estima, e de quem ella mesma houvera uma recordação posthuma; que essa circumstancia devia atenuar a antipathia, se Jorge lhe era antipathico. Yayá ouvia e calava-se; emendava-se n'um dia, para reincidir toda a semana.

—És uma extranhona, disse uma vez o pae depois de lhe repetir a advertencia.

Podia ser estranhice. A vida que Yayá tivera durante largo tempo dera-lhe o amor exclusivo da solidão e da familia. Mas no caso presente parecia ser alguma cousa mais do que isso. O rosto com que recebia Jorge não era o mesmo com que via outras pessoas. Jorge ás vezes chegava quando ella estava ao piano; Yayá interrompia-se habilmente, fazia gottejar dos dedos umas tres ou quatro notas soltas e divergentes e erguia-se. Se elle ia conversar com ella e a madrasta, Yayá tomava a parte minima do dialogo e esquivava-se cautelosamente. Não sorria nunca se elle dizia uma cousa graciosa ou fazia cumprimento; não animava nunca a adopção de qualquer projecto que viesse delle; não lia os romances que elle lhe emprestava. Se era convidada a dizer o que pensava de um ou outro desses livros, fazia descair os cantos da boca commum gesto de indifferença. Não falava nunca de Jorge; apparecia-lhe o menos que podia. Este procedimento constante, não affrontoso, porque ella o disfarçava, impressionou o espirito do moço, que não lhe pode descobrir a causa verdadeira, ou pelo menos verosimil.

A verdadeira causa era nada menos que um sentimento de ciume filial. Yayá adorava o pae sobre todas as cousas; era o principal mandamento de seu cathecismo. Instigara o casamento, com o fim de lhe tornar a vida menos solitaria, e porque amava Estella. O casamento trouxe para casa uma companheira e uma affeição; não lhe diminuiu nada do seu quinhão de filha.

Yayá viu, entretanto, a mudança que houve nos habitos do pae, pouco depois de convalescido, e sobretudo desde os fins de Setembro. Esse homem sêcco para todos, expansivo sómente na familia, abrira uma excepção em favor de Jorge; sem mostrar maneiras ruidosas, aliás incompativeis com elle, era menos reservado, de mais facil e continuado accesso. Não foi porém esse primeiro reparo que produziu em Yayá a notada mudança; foi outro. Luiz Garcia deu a Jorge algumas demonstrações de confiança pessoal, e no dia em que a filha viu a primeira, recordou-se da carta que escrevera ao moço na noite em que a molestia do pae se aggravara, e da confidencia dos dois, cujo assumpto nunca lhe chegara aos ouvidos. Neste instante sentiu borbulhar no coração uma primeira gotta de fel. Imaginou que Jorge viera roubar-lhe alguma cousa. Não cogitou se haveria assumpto que dous homens devessem tratar exclusivamente entre si; suppoz-se despojada de uma parte da confiança do pae, e porque amava o pae sobre todas as cousas, seu amor tinha os ciumes, as coleras, os arrebatamentos do outro amor, e consequentemente os mesmos odios e lastimas.

Conhecia o pae toda a intensidade da affeição filial da moça, e não era menor a do seu amor; mas elle dizia comsigo philosophicamente, e não sem pezar, que a natureza se encarregaria de lhe ensinar outro sentimento, menos grave, mas não menos intenso e imperioso. Quando elle assim reflectia, contemplava a filha com um olhar já humido das primeiras saudades.

Yayá estava então em toda a limpidez de uma aurora sem nuvens. Era leve, agil, subita—com um pouco de destimidez; ás vezes aspera, mas dotada de um espirito ondulante, esguio e não incapaz de reflexão e tenacidade. Nisto podia ficar o retrato da menina, se não conviesse falar tambem dos olhos, que, se eram limpidos como os de Eva antes do peccado, se eram de rôla, como os da Sulamites, tinham como os desta alguma cousa escondida dentro, que não era de certo a mesma cousa. Quando ella olhava de certo modo, ameaçava ou penetrava os refolhos da consciencia alheia. Mas eram raras essas occasiões. A expressão usual era outra, meiga ou indifferente, e mais de infancia que de juventude. Talvez a boca fosse um pouco grande; mas os labios eram finos e energicos. Em resumo, as feições dos onze annos estavam alli desenvolvidas e mais accentuadas.

Uma tarde Luiz Garcia recebeu ordem de ir immediatamente á casa do ministro. Saiu, deixando a mulher e a filha, anciosas pelo resultado. Jorge appareceu pouco depois. A demora de Luiz Garcia foi longa, e Jorge ter-se-hia retirado, se não fora a chegada do Sr. Antunes, que deu um sopro de vida á conversa que expirava. Nove horas, dez horas, onze horas bateram sem que Luiz Garcia voltasse. Yayá estava impaciente; receiava alguma doença subita do pae, um desastre qualquer. Eram onze horas e um quarto quando este entrou offegante, porque viera depressa, tendo encontrado Raymundo, que, ouvindo as ancias da moça, saíra a encontral-o e a dizer-lh'as.

Yayá atirou-se-lhe aos braços.

—Medrosa! disse Luiz Garcia abrangendo-lhe a cabeça com as mãos.

Sentou-se um instante para repousar; com a mão esquerda comprimia o coração. Logo depois ergueu-se, chamou Jorge e foi até uma das janellas. Conversaram em voz baixa dez minutos. Disse-lhe que talvez fosse obrigado a sair no fim daquella semana; tratava-se de uma necessidade de serviço; salvo uma hypothese, a viagem era inevitavel.

Yayá não tirava os olhos de um e de outro; despediu-se de Jorge dando lhe as pontas dos dedos. Foi no dia seguinte que Estella lhe disse que talvez fossem obrigadas a sair por algum tempo. Ouvindo a noticia, Yayá comprehendeu a confidencia da vespera, e ficou consternada. Ella era a ultima que a recebia, e o primeiro fora um extranho, um intruso,—esteve quasi a dizer um inimigo. Nenhuma palavra do pae; nenhuma communicação directa.

—A ultima!

Esse resentimento exagerado era o proprio effeito da organização da moça, e, outrosim, de sua educação quasi solitaria. Para affastal-a de Jorge não foi preciso mais; o despeito apoderou-se inteiramente della. Se até ali pouco lhe havia falado, esse pouco diminuiu ainda com o tempo; fez-se quasi nada.