Imagens da Organização
Revelando a Lógica da Mudança
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
• Crie "vírus" de c o m p u t a d o r n u m a m b i e n t e fechado que sejam capa-
zes de se automultiplicar, sofrer mutações aleatórias e competir pelo espaço limitado. O resultado: simulação de p a d r õ e s de evolução em que u m a espécie assume o domínio, é quase extinta por novas for-ças, modifica-se e recupera-se, é a c o m p a n h a d a por d e z e n a s de no-vas espécies e assim por d i a n t e ! Surge u m a ecologia diversificada de vida artificial com todas as características familiares de p r e d a d o r e presa e relações parasíticas e simbióticas encontradas na n a t u r e z a .
• Observe u m a colônia de cupins c o n s t r u i n d o seu n i n h o , movimen-
t a n d o a t e r r a a l e a t o r i a m e n t e . S u r g e m variações no t e r r e n o . Estas e n t ã o se t o r n a m o foco de atenção. Os cupins a u m e n t a m os monti-n h o s que surgem. "Colunas" c o m e ç a m a ser erguidas. Estas são liga-das p a r a formar arcos e túneis p r o d u z i n d o u m a maravilhosa peça de "arquitetura". Movimentos aleatórios a c a b a m p r o d u z i n d o estru-t u r a s c o e r e n t e s .
• Vemos um p a d r ã o semelhante no surgimento da inteligência do cé-
rebro h u m a n o e no c o m p o r t a m e n t o dos mobots discutidos no capí-tulo sobre o cérebro. Eventos e c o m p o r t a m e n t o s imprevisíveis ad-quirem forma coerente.
REVELANDO A LÓGICA DA MUDANÇA 261
Auto-organização espontânea
Q u a n d o e x a m i n a m o s b a n d o s d e p á s s a r o s , a s m u d a n ç a s n a s relações
e n t r e p r e d a d o r e presa, o desenvolvimento de p a d r õ e s climáticos, reações
químicas complexas, colônias de cupins, o c o m p o r t a m e n t o das abelhas de
u m a colméia ou a m a n e i r a como as organizações e os sistemas sociais são
transformados com o passar do t e m p o , p o d e m o s detectar processos c o m u n s
de auto-organização e s p o n t â n e a . Se um sistema t e m um grau suficiente de
complexidade interna, a aleatoriedade, diversidade e instabilidade tornam-se
recursos p a r a a m u d a n ç a . Uma nova o r d e m é o resultado n a t u r a l .
A influência dos fatores de atração
Em suas investigações, os teóricos do caos p r e s t a r a m especial a t e n ç ã o
ao m o d o como os c o m p o r t a m e n t o s dos sistemas t e n d e m a cair sob a influên-
cia de diferentes "fatores de a t r a ç ã o " . Por e x e m p l o , o p a d r ã o de a t r a ç ã o
m a p e a d o na Figura 8.2 ilustra como um sistema p o d e cair n u m a trajetória
o n d e eventos são únicos mas padronizados e como o c o m p o r t a m e n t o do sis-
t e m a p o d e "saltar" d e u m p a d r ã o p a r a outro.
Para e n t e n d e r o significado de um fator de atração, faça a seguinte ex-
periência. Imagine que você está s e n t a d o ao sol, de m a n h ã cedo, n u m a va-
r a n d a aberta. À sua frente está u m a cena de absoluta tranqüilidade: um lago
a b s o l u t a m e n t e tranqüilo refletindo o azul claro do céu e o verde da floresta
ao redor do lago. Aves aquáticas estão p i a n d o . De vez em q u a n d o , elas mer-
g u l h a m e voltam à superfície. A cena leva-o a um estado de completa paz e
h a r m o n i a .
262 ALGUMAS IMAGENS DA ORGANIZAÇÃO
Esta i m a g e m , b a s e a d a no t r a b a l h o do m a t e m á t i c o e meteorologista Edward Lorenz, é considerada um excelente exemplo de c o m o os sistemas complexos c o m b i n a m o r d e m e d e s o r d e m . Os d a d o s colocados neste espaço tridimensional m o s t r a m que, e m b o r a exista um claro p a d r ã o nos d a d o s , o c o m p o r t a m e n t o do sistema n u n c a se r e p e t e e x a t a m e n t e da m e s m a forma. A "virada" ou o c r u z a m e n t o de u m a "asa" do p a d r ã o p a r a o u t r a resulta de eventos aleatórios, n ã o lineares que colocam o sistema sob a influência de um novo conjunto de influências.
Fonte: Reproduzida de Gleick, J. Chãos: making a new science. p. 28. © 1987, Penguin.
Figura 8.2 O padrão de atração de Lorenz.
REVELANDO A LÓGICA DA MUDANÇA 263
Agora, m u d e sua a t e n ç ã o p a r a a sala atrás de você. Concentre-se no tic-
o c d o relógio elétrico, n o b a r u l h o d o m o t o r d a geladeira. Uma torneira pin-
gando na cozinha. Os sons tiram você da cena tranqüila. Embora seus olhos
passam ainda estar focalizados na á g u a , sua m e n t e está em outro lugar.
Num sentido m u i t o elementar, você está entre dois fatores de atração
Zde definem o contexto de duas situações c o m p l e t a m e n t e diferentes. A medi-
da que você é p u x a d o p a r a u m a delas, a outra se t o r n a insignificante. Quan-
do você está c o m p l e t a m e n t e voltado p a r a a cena da beira do lago, n ã o exis-
rem barulhos domésticos discerníveis. Você só ouve as aves aquáticas. Mas, se
você for atraído p a r a o relógio, a torneira e a geladeira, como muitas técnicas
de lavagem cerebral comprovam, os barulhos irritantes tornam-se d o m i n a n -
tes, na v e r d a d e , tornam-se a realidade total.
Sistemas complexos p a r e c e m ter u m a tendência n a t u r a l de serem apa-
nhados em tensões deste tipo, caindo sob a influência de diferentes fatores de
atração que a c a b a m definindo os contextos em que os c o m p o r t a m e n t o s do
sistema t ê m lugar. Vemos isso nos exemplos a p r e s e n t a d o s a n t e r i o r m e n t e . Crie
um contexto definido por alguns pontos de referência simples que são equi-valentes às "especificações mínimas" discutidas no capítulo sobre o cérebro, e
flutuações aleatórias irão se auto-organizar de forma coerente.
Os teóricos dos caos observaram que os sistemas complexos c a e m sob a
influência de diferentes tipos de fatores de a t r a ç ã o . Alguns e m p u r r a m um sistema p a r a um estado de equilíbrio ou de quase equilíbrio, por exemplo em
resultado de circuitos de influências negativas que r e a g e m desestabilizando
as flutuações. Outros fatores de atração t ê m a tendência de m u d a r um siste-
m a p a r a configurações c o m p l e t a m e n t e n o v a s , c o m o n o caso d o "fator d e atração de Lorenz" da Figura 8.2, que ilustra como um sistema p o d e ser in-fluenciado por diferentes conjuntos de pontos de referência que definem con-
textos que c o m p e t e m entre si. O c o m p o r t a m e n t o d e t a l h a d o do sistema de-
p e n d e de qual contexto domina.
Pontos de bifurcação: Encruzilhadas no caminho da mudança
Em sua exploração de como os sistemas podem-se transformar, os teóri-
cos do caos estão particularmente interessados em e n t e n d e r o que acontece
q u a n d o um sistema é " e m p u r r a d o " p a r a longe de seu equilíbrio, p a r a u m a situação que "beira o caos".
Aí ele e n c o n t r a "pontos de bifurcação" q u e são c o m o " e n c r u z i l h a d a s
n u m a estrada" levando p a r a diferentes futuros. Em tais pontos, a energia de
264 ALGUMAS IMAGENS DA ORGANIZAÇÃO
d e n t r o do sistema pode-se auto-organizar por meio de saltos imprevisíveis em diferentes estados. Se o antigo p a d r ã o de atração d o m i n a n t e p u d e r dissipar a energia e instabilidade, m u d a n ç a s potenciais são dissolvidas, e o sistema re-verte p a r a u m a v a r i a ç ã o d o e s t a d o anterior. Se, p o r o u t r o lado, u m novo conjunto de influências g a n h a o controle, ele p o d e "atrair" as energias p a r a u m a n o v a configuração.
Os pontos de bifurcação com seus respectivos fatores de atração sempre
existem como potencialidades latentes d e n t r o de qualquer sistema complexo n ã o linear. Eles sinalizam potenciais de a u t o - o r g a n i z a ç ã o e a evolução de u m a nova forma. No e n t a n t o , o c a m i n h o da evolução do sistema é completa-m e n t e imprevisível porque, d a d a a complexidade e não-linearidade do siste-ma, m u d a n ç a s a p a r e n t e m e n t e insignificantes p o d e m ter d e s d o b r a m e n t o s de grandes efeitos.
A famosa i m a g e m do "efeito borboleta", em que u m a p e q u e n a m u d a n -
ça, t ã o insignificante como u m a borboleta b a t e n d o as asas em Pequim pode influenciar o clima no Golfo do México. Ou como disse o escritor científico Kevin Kelly, em sistemas complexos n ã o lineares "2 + 2 = maçãs".
E m c o n d i ç õ e s d e n ã o - l i n e a r i d a d e e d e a l e a t o r i e d a d e , m u d a n ç a s
incrementais, a p a r e n t e m e n t e insignificantes, p o d e m precipitar grandes mu-d a n ç a s descontínuas ou qualitativas em virtude das propriedades emergen-tes disparadas pelos ajustes marginais. A borboleta na China n ã o "causa" um novo p a d r ã o climático. Essa é a velha lógica linear em ação. A importância da b o r b o l e t a é q u e ela dispara u m a p e q u e n a m u d a n ç a que talvez dispare o u t r a p e q u e n a m u d a n ç a , e o u t r a , e o u t r a que p o r acaso a c a b a s e n d o um e l e m e n t o aleatório significativo, catalisando m u d a n ç a s que em última análi-s e m u d a m u m sistema d a influência d e u m p a d r ã o d e atração p a r a outro. Mudanças quantitativas e qualitativas ocorrem de forma incrementall Assim, 2 + 2 n ã o r e s u l t a n e c e s s a r i a m e n t e em 4 ou 5 ou m e s m o 6. Resulta no surgimento de configurações sistêmicas qualitativamente novas.
Administrando no meio da complexidade
Estas idéias t ê m e n o r m e s implicações p a r a a m o d e r n a administração,
d a n d o origem a pelo m e n o s cinco idéias-chaves p a r a o r i e n t a r a m u d a n ç a administrativa. Em suma, elas sugerem que é i m p o r t a n t e .
• r e p e n s a r o q u e q u e r e m o s dizer c o m organização, especialmente a
n a t u r e z a d a hierarquia d o controle;
REVELANDO A LÓGICA DA MUDANÇA 265
a p r e n d e r a arte de administrar e m u d a r contextos;
a p r e n d e r como usar p e q u e n a s m u d a n ç a s p a r a criar grandes efeitos; viver com a transformação contínua e a o r d e m e m e r g e n t e como um estado n a t u r a l ; e
estar aberto p a r a novas metáforas que possam facilitar os processos d e a u t o - o r g a n i z a ç ã o .
A natureza emergente da organização, da hierarquia e do con-trole
Como vimos em nossa discussão do caráter e m e r g e n t e do a p r e n d i z a d o e
da inteligência, no capítulo do cérebro, a teoria da complexidade convida os administradores a r e p e n s a r a n a t u r e z a da o r d e m e da organização. Em vez de ver essas qualidades como estados que p o d e m ser impostos e x t e r n a m e n t e sobre u m a situação, por meios hierárquicos ou pela lógica p r e d e t e r m i n a d a que existe n u m projeto de pontes ou edifícios, os administradores são convi-d a d o s a vê-las como propriedades emergentes. Uma nova o r d e m e m e r g e em qualquer sistema complexo que, devido a flutuações i n t e r n a s e externas, é e m p u r r a d o p a r a situações que " b e i r a m o caos". A o r d e m é n a t u r a l ! Ela é e m e r g e n t e e livre! Mas, o mais interessante é que sua n a t u r e z a exata nunca p o d e ser planejada ou p r e d e t e r m i n a d a .
Observe que em todas as nossas discussões sobre a complexidade, seja
nas páginas anteriores seja no capítulo sobre o cérebro, n ã o houve m e n ç ã o de n e n h u m g r a n d e p l a n o . Não se fez m e n ç ã o de um administrador geral ou arquiteto chefe. Discutimos como a o r d e m p o d e evoluir sob a influência de certo n ú m e r o de regras simples (especificações m í n i m a s ) . Mas, n ã o fizemos n e n h u m a m e n ç ã o de qualquer o r d e n a m e n t o ou plano pré-concebido em ter-mos absolutos.
Isto p o d e ter conseqüências assustadoras p a r a os administradores que
estão acostumados com o suporte de planos, estrutura, hierarquia e outros m o d o s tradicionais de controle. Mas a m e n s a g e m da teoria do caos e da com-plexidade é que, e m b o r a algum tipo de o r d e m provavelmente s e m p r e exista nos sistemas complexos, a estrutura e a hierarquia p o d e m n ã o ter n e n h u m a forma fixa, e, p o r t a n t o , n ã o p o d e m funcionar como m o d o s p r e d e t e r m i n a d o s de controle. Os p a d r õ e s t ê m que emergir. Eles n ã o p o d e m ser impostos.
Pense n a s atividades de u m a equipe de trabalho auto-organizada envol-
vida com o desenvolvimento de um p r o d u t o novo, ou um grupo de trabalho a u t ô n o m o o p e r a n d o n u m a fábrica flexível que usa o m é t o d o just-in-time. Par-
266 ALGUMAS IMAGENS DA ORGANIZAÇÃO
cerias estruturais, hierárquicas e outras p o d e r ã o desenvolver-se à m e d i d a que diferentes m e m b r o s da equipe e diferentes funções ou atividades a s s u m e m um papel p r e p o n d e r a n t e , ou à m e d i d a que diferentes prioridades criam no-vos focos de atenção. Mas, o p a d r ã o evolui e e n c o n t r a sua própria forma.
Sob esse tipo de condições, a hierarquia e os p a d r õ e s de organização e
controle são condições temporárias ou resultados. São simples "pontos" n u m a j o r n a d a que se auto-organiza. Além disso, as hierarquias que surgem p o d e m ser criadas ou originadas a partir de qualquer p o n t o d e n t r o do sistema. As hierarquias autoritárias "de cima p a r a baixo", encontradas nas organizações mecanicistas d ã o lugar a hierarquias e m e r g e n t e s g e r a d a s pela necessidade de a g r u p a r e direcionar as atividades p a r a a t e n d e r às contingências do mo-m e n t o . Os administradores no meio desse tipo de complexidade são parte do fluxo. Eles precisam de atitudes q u e lhes p e r m i t a m facilitar o processo e fluir com a m u d a n ç a em vez de t e n t a r p r e d e t e r m i n a r e controlar no estilo tradi-cional.
A arte de administrar e mudar o "contexto"
Uma s e g u n d a implicação e x t r e m a m e n t e i m p o r t a n t e da perspectiva do
caos-complexidade baseia-se na idéia de que o papel fundamental dos admi-nistradores é modelar e criar "contextos" em que formas apropriadas de auto-organização possam ocorrer. Os administradores t ê m que ser capazes de aju-dar a criar as "especificações m í n i m a s " que definam um contexto apropria-do, p e r m i t i n d o que os detalhes surjam d e n t r o dessa estrutura. Dessa manei-ra, eles p o d e m ajudar a delinear os processos e m e r g e n t e s de auto-organiza-ção e, ao m e s m o t e m p o , evitar a armadilha de impor d e m a s i a d o controle.
O foco sobre os p a d r õ e s de atração cria u m a forte perspectiva p a r a a
a d m i n i s t r a ç ã o d a e s t a b i l i d a d e e d a m u d a n ç a , s u g e r i n d o q u e mudança transformacional em última análise envolve a criação de "novos contextos" que podem quebrar o domínio dos padrões de atração em favor de novos padrões. Os princípios-chave em que se baseia esta a b o r d a g e m estão r e s u m i d o s na Figura 8.3.
REVELANDO A LÓGICA DA MUDANÇA 267
Vamos usar a imagem de um padrão de atração de Lorenz como uma metáfora criativa para pensar sobre a mudança organizacional. Aqui estão algumas das questões que são levantadas:
Quais são as forças que Se a mudança for Quais serão as regras prendem a organização em necessária, como será básicas do novo padrão seu atual padrão "de feita a transição de um de atração? atração"? fator de atração para Como podemos gerenciar Estruturas? outro? a situação de "beira o Hierarquias? Como pequenas caos" do estágio 2 e ao Regras? mudanças podem ser mesmo tempo estar Controles? usadas para criar aberto para a auto-Cultura? grandes efeitos? organização emergente? Rotinas defensivas?
Relações de poder?
.Armadilhas psíquicas?
O "fator de atração" é
adequado? Ou deveria ser
mudado?
Figura 8.3 Padrões de atração e mudança organizacional.
268 ALGUMAS IMAGENS DA ORGANIZAÇÃO
Para ilustrar o desafio de se m a n t e r a estabilidade, considere o caso de
u m a sala de operação de emergência de um hospital. O desafio aqui é criar
um espaço relativamente estável d e n t r o do qual a equipe cirúrgica possa auto-
organizar-se em t o r n o das contingências e desafios enfrentados. O contexto
será b o m b a r d e a d o por todos os tipos de influências aleatórias: riscos de in-
fecção imprevisíveis ou incontroláveis, pacientes com história clínica desco-
nhecida, u m a q u a n t i d a d e imprevisível d e casos, m u d a n ç a s i n e s p e r a d a s d e
pessoal. O desafio é m a n t e r tal situação sob a influência de um forte p a d r ã o
de a t r a ç ã o que minimize as influências d e s i n t e g r a d o r a s p a r a q u e a equipe
cirúrgica possa fazer um trabalho eficiente.
Em outras situações em que o p a d r ã o de atração d o m i n a n t e é a susten-
tação de um e s t a d o desejável, o desafio será abrir a porta p a r a a instabilidade
ou m e s m o criar a instabilidade que ajudará o surgimento de um novo p a d r ã o
d e c o m p o r t a m e n t o .
C o n t i n u a n d o com nosso exemplo do hospital, pense no desafio de trans-
ferir o a t e n d i m e n t o do hospital p a r a a c o m u n i d a d e , u s a n d o novos m o d o s de
prestação de serviço. Esta m u d a n ç a pode ser a t r a p a l h a d a por forças do siste-
ma de fatores de atração d o m i n a n t e d e n t r o do hospital, como os sustentados
por atitudes estabelecidas, bases de poder, interesses institucionalizados e có-
digos de prática existentes. Em geral, essas forças m i n a r ã o a m u d a n ç a tra-
zendo a nova iniciativa de volta sob o controle do sistema estabelecido, crian-
do um p a d r ã o de longo prazo de fazer as coisas como sempre foram feitas.
Para quebrar o p o d e r do p a d r ã o de atração estabelecido, nosso adminis-
t r a d o r terá que e n c o n t r a r m a n e i r a s de criar um novo contexto. Uma estraté-
gia p o d e ser transformar as atitudes de médicos e administradores-chave dra-
m a t i z a n d o a realidade fiscal, d e m o n s t r a n d o a viabilidade da inovação ou real-
çando as novas formas e m e r g e n t e s de competição que sugerem a necessida-
de de m u d a n ç a . O u t r a estratégia p o d e ser m u d a r o contexto, mobilizando
u m a poderosa coalizão de pessoas-chave que p o d e m lançar e defender um
p r o t ó t i p o de um sistema novo. Ou, p o d e m ser t o m a d a s providências p a r a
transferir a responsabilidade pela prestação desses serviços p a r a u m a organi-
zação c o m p l e t a m e n t e nova, por exemplo, por meio de algum tipo de sub-
c o n t r a t a ç ã o .
Essas propostas ou ações criariam g r a n d e instabilidade d e n t r o do siste-
ma estabelecido. Esta instabilidade teria que ser conduzida p a r a o p o n t o crí-
tico em que os responsáveis fiquem inclinados a reconsiderar a viabilidade do senso de identidade estabelecido do hospital p a r a que o sistema possa evoluir p a r a u m a nova forma, por exemplo, em q u e os princípios de a t e n d i m e n t o comunitário definam elementos-chave do novo contexto.
REVELANDO A LÓGICA DA MUDANÇA 269
É importante notar que o administrador que age de acordo com as idéias
da teoria do caos e da complexidade n ã o p o d e estar no controle na m u d a n ç a .
Ele ou ela n ã o p o d e definir a forma precisa que o novo p a d r ã o de a t r a ç ã o irá
tomar. Embora seja possível delinear ou alimentar elementos-chave do con-
texto e m e r g e n t e , abrindo o sistema antigo a novas informações, novas expe-
riências e novos m o d o s de prestação de serviço, novos critérios de avaliação
de qualidade e assim por diante, o p a d r ã o de atração resultante e n c o n t r a r á
sua própria forma. O p o n t o i m p o r t a n t e é que o a d m i n i s t r a d o r ajude a criar
as condições sob as quais o novo contexto possa surgir. E n q u a n t o o sistema
estiver preso no velho contexto, n e n h u m a m u d a n ç a significativa será possí-
vel. Este é o problema-chave que bloqueia t a n t a s organizações que estão ten-
tando-se transformar. Devido ao p o d e r do contexto estabelecido, elas a c a b a m
t e n t a n d o fazer o novo pelos m é t o d o s antigos.
Como a u t o r que escreve sobre o caos, Jeffrey Goldstein observou que
grande parte da literatura sobre m u d a n ç a organizacional focalizou o proble-
ma da "resistência" em vez de se concentrar em como os novos fatores de
atração p o d e m "tirar" as energias latentes de um sistema até que elas possam
organizar-se sob u m a nova forma. A resistência surge q u a n d o as forças de
um p a d r ã o de atração estabelecido são mais fortes do que as de um p a d r ã o
de atração novo ou de um que esteja e m e r g i n d o . O desafio consiste em mu-
dar o p o n t o de equilíbrio.
Isto é o que a arte de criar novos contextos nos ajuda a fazer. Novos
contextos p o d e m ser criados, gerando-se novo entendimento de u m a situação,
ou envolvendo-se em novas ações.
Novo entendimento p o d e transformar os processos autopoiéticos de auto-
referência por meio dos quais um sistema p r o d u z e r e p r o d u z seu senso básico
de identidade, e x p o n d o o sistema a novas informações sobre si m e s m o ou
sobre seu a m b i e n t e e encorajando o tipo de a p r e n d i z a d o de circuito duplo
discutido no capítulo do cérebro. O sistema p o d e começar a questionar e a
m u d a r suas n o r m a s operacionais, p a r a d i g m a s e pressupostos e a livrar-se
das armadilhas cognitivas e outras armadilhas psíquicas que s u s t e n t a m seu
padrão de atração estabelecido.
Como observamos em nossa discussão da autopoiese, a própria idéia de
que u m a organização veja a si m e s m a como u m a e n t i d a d e individualizada
pode ser o aspecto-chave do p a d r ã o de atração d o m i n a n t e , levando-a a ten-
tar sobreviver como u m a entidade distinta em vez de se permitir evoluir p a r a
a m a nova forma. Por exemplo, como resultado de um novo e n t e n d i m e n t o de
sua situação, o hospital em nosso exemplo anterior p o d e conseguir desenvol-
270 ALGUMAS IMAGENS DA ORGANIZAÇÃO
ver u m a nova identidade em que ele se torna parte de u m a rede evolutiva de serviços em vez de se agarrar a um que é insustentável.
Novos contextos t a m b é m p o d e m ser criados por meio de novas ações
que ajudam a conduzir o sistema p a r a um novo estado, mais r e t a m e n t e . Ex-p e r i m e n t o s , protótipos, m u d a n ç a s n a s recompensas, m u d a n ç a s d e pessoas-chaves, u m a crise fiscal, r e d u ç ã o de pessoal e i n ú m e r o s outros eventos, ações e experiências p o d e m incorporar fortes m e n s a g e n s que catalisam outras mu-danças no contexto à m e d i d a que o sistema se ajusta à nova realidade.
E n q u a n t o u m novo e n t e n d i m e n t o p o d e criar u m a a g u d a percepção d a
necessidade de m u d a n ç a e da direção em que a organização precisa ir, novas ações ajudam a chegar lá. A m a n e i r a convencional de p e n s a r sobre a mu-dança organizacional segue esta o r d e m seqüencial. Mas, da perspectiva do caos, essa o r d e m g e r a l m e n t e precisa ser i n v e r t i d a : u m a n o v a a ç ã o p o d e catalisar novos e n t e n d i m e n t o s .
Um hospital que implementa um forte protótipo do novo sistema de pres-
tação de serviço ou que subcontrata u m a organização que poderia transfor-mar-se n u m potencial concorrente para prestar um i m p o r t a n t e conjunto de serviços p o d e criar um e n t e n d i m e n t o c o m p l e t a m e n t e novo do status quo. A geração de novos e n t e n d i m e n t o s e a geração de novas ações, qualquer que seja a o r d e m em que ocorram, são cruciais p a r a a m u d a n ç a contextual.
Usando pequenas mudanças para criar grandes efeitos
Uma terceira implicação i m p o r t a n t e da perspectiva do caos-complexi-
d a d e e que traz u m a b o a dose de d o g m a t i s m o à tarefa de gerenciar e m u d a r contextos, baseia-se na idéia de q u e em situações que "beiram o caos", mu-danças p e q u e n a s , mas críticas, em m o m e n t o s críticos, p o d e m disparar gran-des efeitos t r a n s f o r m a d o r e s . O e x e m p l o , no m u n d o n a t u r a l , é o do efeito borboleta. Mas, nos complexos sistemas h u m a n o s , o princípio assume u m a d i m e n s ã o nova e ainda mais poderosa, p o r q u e os seres h u m a n o s t ê m a capa-cidade de refletir sobre seus contextos e escolher os pontos em que intervir. C o n s e q ü e n t e m e n t e , q u a l q u e r pessoa que queira m u d a r o contexto em que opera, deveria procurar iniciativas "factíveis" e de alto p o d e r de alavancagem que possam d e s e n c a d e a r a transição de um p a d r ã o de atração p a r a outro.
A teoria do caos t a m b é m dá claras indicações de o n d e os administrado-
res d e v e m p r o c u r a r essas iniciativas. Como o leitor deve lembrar, as tensões entre fatores de atração concorrentes g e r a m pontos de bifurcação que levam a diferentes c a m i n h o s de d e s e n v o l v i m e n t o futuro. Muito f r e q ü e n t e m e n t e ,