Leia-me negras: insurgências afroafetivas na prática pedagógica
Capítulo 7 – Escrevivências infantis, diálogos com Conceição Evaristo
Capítulo 7: Escrevivências
infantis, diálogos com
Conceição Evaristo
Talvez o primeiro sinal gráfico, que me foi apresentado como escrita, tenha vindo de um gesto antigo de minha mãe. Ancestral, quem sabe? Pois de quem ela teria herdado aquele ensinamento, a não ser dos seus, os mais antigos ainda? Ainda me lembro, o lápis era um graveto, quase sempre em forma de uma forquilha, e o papel era a terra lamacenta, rente as suas pernas abertas. Mãe se abaixava, mas antes cuidadosamente ajuntava e enrolava a saia, para prendê-la entre as coxas e o ventre. E de cócoras, com parte do corpo quase alisando a umidade do chão, ela desenhava um grande sol, cheio de infinitas pernas. Era um gesto solene, que acontecia sempre acompanhado pelo olhar e pela postura cúmplice das filhas, eu e minhas irmãs, todas nós ainda meninas. Era um ritual de uma escrita composta de múltiplos gestos, em que todo corpo dela se movimentava e não só os dedos. E os nossos corpos também, que se deslocavam no espaço acompanhando os passos de mãe em direção à página-chão em que o sol seria escrito. Aquele gesto de movimento-grafia era uma simpatia para chamar o sol. Fazia-se a estrela no chão. (Evaristo. Conceição, 2007, p. 16-21)
Assim como Carolina Maria de Jesus, a escritora Conceição Evaristo constrói suas narrativas e literaturas evidenciando corpos e histórias de pessoas negras, sem abdicar do direito à felicidade. Entendo que, a partir de experiências com a felicidade, pudemos pensar e realizar projetos pedagógicos comprometidos com a negritude, projetos esses em que nossas crianças pudessem se ver. Nós, do CMEI Dr. Djalma Ramos, após pesquisarmos possibilidades diversas, resolvemos, como projeto anual de 2018, estabelecer um percurso formativo feito com aproximações com a vida, a obra e o fazer literário da escritora Conceição Evaristo.
Quem é Conceição Evaristo24?
Maria da Conceição Evaristo de Brito, conhecida como Conceição Evaristo, nasceu em 29 de dezembro de 1946, em uma favela da zona sul de Belo Horizonte, Minas Gerais. Filha de uma lavadeira, menina advinda de um cenário sofrido, cresceu rodeada de palavras. Trabalhou como empregada doméstica, só conseguiu concluir o seu Curso Normal aos 25 anos. Tornou-se um dos principais nomes da literatura brasileira e afro-brasileira, tendo seus livros traduzidos em diversos idiomas. Publicou seu primeiro poema em 1990, no décimo terceiro volume dos Cadernos Negros. Conceição Evaristo é uma escritora que se propõe a repensar sua literatura, a partir de reflexões sobre raça e gênero, traduzidas em escrevivências, conceito criado por ela própria.
Entre atividades e princípios: novas
escrevivências
Criar formas e proposições que deem conta de pensarmos em novas metodologias educacionais com crianças, a partir de uma educação antirracista, tem exigido de nós, de uma só vez, coletividade e resistência. Durante cinco anos, nós estivemos nos escrevivendo coletivamente. O princípio que tratarei neste capítulo diz respeito a uma pedagogia afroafetiva.
A atividade apresentada a seguir refere-se à turma do Gueto Soweto, que teve, em média, 22 crianças estudantes em 2018. O subtema foi nomeado de "Mãe: mãos que criam e transformam". Um dos eixos que fundamentou essa atividade foi o relato feito por Conceição Evaristo, no qual é contada a gênese de sua escrita, herança de suas vivências com sua mãe e sua família. Tudo o que ela ouviu desde a infância faz parte de sua escrita. Conceição Evaristo entende que o ritual de se curvar à terra lamacenta, para manuseála com gravetos, escrevendo e desenhando, clamando por sol, tenha sido uma das fontes primordiais e ancestrais de sua obra. Foi inspirada por esse relato da escritora que a professora da turma chamou ao CMEI famílias e crianças, realizando uma atividade de experimentação com terra vegetal e argila. As crianças, em troca afetiva, vivenciaram um momento livre, sensorial. Desse modo, em espaço escolar, foi possível a vivência de laços afetivos familiares, já que as famílias foram convidadas para essa atividade. A professora utilizou de memórias afetivas vivenciadas pela escritora para a criação da atividade. A atividade foi realizada no jardim do CMEI, onde foram colocadas bacias com água e argila. A experimentação era espontânea e livre. Inicialmente foi declamada a poesia "De mãe", de autoria da escritora Conceição Evaristo. Logo após, foi sugerido às famílias presentes o manuseio da argila da forma que desejassem.
Outra atividade de relaxamento que quero trazer à análise faz parte do grupo de atividades que foi nomeado por nós no CMEI Dr. Djalma Ramos como pedagogias afroafetivas. As atividades da pedagogia Afroafetiva tem como objetivo se contrapor a relatos de vida e experiências formativas vivenciados cotidianamente pela população negra, em uma infância marcada pela ausência de afeto no ambiente escolar. A atividade relaxante e sensorial em questão foi realizada, com óleos corporais e ervas, e consistiu na experimentação da lavagem dos pés. Essa atividade também foi feita no jardim do CMEI. Ali, foram dispostas bacias com água, ervas, flores e óleos corporais para que as crianças, livremente, relaxassem seus pés na água, apreciando todas as sensações que um relaxamento desse tipo pode oferecer. Nessa atividade, foram propostas, como cenário para apreciação, imagens da escritora Conceição Evaristo. Além disso, as crianças foram também imersas em baldes grandes, com água morna e ervas, propondo-se outra possibilidade de relaxamento com água.
Todos os seres humanos necessitam de afetividade, todavia, para crianças e adolescentes, isto é imprescindível no processo de aprendizagem. Se, durante a formação, houver negligência quanto ao afeto, provavelmente, na vida adulta, haverá dificuldade de relacionamento social (CAVALLEIRO, 2001, p. 154). O afeto é uma necessidade humana. Experiências afetivas são imprescindíveis no processo de aprendizagem de nossas crianças. Promover uma educação antirracista é refletir de que forma ou de quais formas estamos promovendo estímulos afetivos para as nossas crianças. Pude perceber, nas duas atividades descritas, tanto no encontro com a família, em que as memórias afetivas marcaram a atividade, quanto na troca de carinho entre a professora e as crianças, por meio do relaxamento dos pés e dos banhos de balde, a afetividade estruturante em processos de ensino-aprendizagem com crianças.
Além das relações afroafetivas, outro ponto relevante para a construção da educação infantil é o contato que as crianças têm desde muito pequenas com o desenho. Frequentemente, umas das primeiras atividades que são oferecidas pelas professoras a crianças, quando chegam na escola, é o papel e um lápis de cor para desenhar. Pensar a possibilidade do desenho como sendo de memórias e traços ancestrais, que permitam conexões positivas com a memória familiar, é também uma via de acesso a crianças numa perspectiva afro-brasileira. Por essa via, podemos recriar possibilidades de novas escrevivências.
A próxima atividade a ser descrita foi realizada pela professora do grupo Quilombo dos Palmares, com um total de 25 crianças. A atividade se refere a uma releitura da imagem de Conceição Evaristo e recebeu o título de "Conceição Evaristo e eu". O princípio metodológico que traremos como ponto de reflexão é a valorização dos traços ancestrais.
Depois de uma roda de conversa sobre Conceição Evaristo, a professora propôs a releitura da imagem de Conceição para as crianças. Para tanto, dispôs, sobre as mesas, diversas imagens da escritora. Nessa atividade, as crianças começaram a ter contato com imagens próximas de suas marcas identitárias, nesse caso, a imagem de mulher negra figurada por Conceição Evaristo. Para continuar dialogando sobre valorização dos traços ancestrais, fazendo considerações como esses traços impactam e marcam a criança negra, considero relevante retomar aqui e incluir, na análise em curso, uma atividade realizada por duas outras professoras. Elas resolveram escrever um livro sobre a história de Bitita, para dialogar com as crianças a respeito da infância de Carolina Maria de Jesus. Essa atividade foi realizada em 2016, com as crianças do Grupo Reino Wakanda.
Observei nesses dois trabalhos algo incomum: o primeiro tratou o desenho a partir de uma imagem corporal articulada à negritude, a partir de vivências e experiências com histórias de mulheres negras, com traços que reafirmavam positivamente a negritude. As crianças recriaram/fabularam, com base em personagens reais e que remontavam a seu próprio universo infantil. É importante destacar que a criança, quando desenha, compreende melhor os aspectos identitários. Assim, não se corre o risco do desenho pelo desenho como prática pedagógica. Nas práticas relatadas, o desenho não aparece de modo pontual, mas como fruto de um encadeamento de atividades que desembocam na investigação simbólica, cultural, histórica e fabulativa dos traços ancestrais. Os traços identitários foram problematizados em rodas de conversas, nas quais buscou-se a valorização de características sociais e culturais de escritoras negras. Desse modo, as atividades foram pensadas a partir do pertencimento racial e de questões de gênero. A valorização dos traços ancestrais produzidos pelas crianças foi pensada e planejada a fim de que não se caísse no risco da produção de uma imagem vazia, de um desenho pelo desenho. Pelo contrário, a perspectiva norteadora foi a de pensarmos em alteridade e em construções identitárias, ou seja, em processos que permitem responder a questões básica de como eu me vejo, como sou vista e que percepções eu tenho do outro.
Para colaborar com os aspectos anteriores abordados, considero importante trazer, como princípio metodológico para uma educação antirracista, o reconhecer e valorizar personalidades negras. Este princípio tem permeado as nossas ações pedagógicas desde o início, quando começamos a refletir sobre possibilidades de uma educação antirracista com crianças pequenas. Construir proposições metodológicas que deem conta de pensar uma educação para relações étnico-raciais significa construir e oferecer, a nossas crianças, a oportunidade de conhecer personalidades negras que, através de seus trabalhos, evidenciam possibilidades de coexistência de mundos, experiências de felicidade com a ancestralidade. Assim, considero ser necessário que as crianças aprendam, de forma afetuosa e afetiva, sobre o sentido e o significado da vida de personalidades negras; além disso, que possam ser capazes de compreender, por meio do contato com essas personalidades, o legado patrimonial afro-brasileiro, visando preservá-lo e difundi-lo.
A atividade que apresentarei a seguir é o "Ocupa Djalminha: escrevivências infantis e diálogos com Conceição Evaristo". Essa atividade foi idealizada por duas professoras, inspiradas no projeto Ocupação, promovido pelo Itaú Social. Nosso objetivo era criar um espaço onde fosse possível contar afetivamente a história da escritora Conceição Evaristo, onde suas obras estivessem evidenciadas por meio de livros, de imagens, de objetos. Essa atividade teve como proposta abarcar toda comunidade escolar e não apenas um grupo de crianças.
Assim, depois de lermos sobre a escritora e debatermos sobre o projeto nos encontros coletivos, a equipe do CMEI Dr. Djalma definiu que o projeto pedagógico de 2018 seria trabalhar com a vida e obra da escritora Conceição Evaristo. A professora do grupo Quilombo dos Palmares sugeriu que fizéssemos uma exposição. Um dos grandes desafios era construir uma exposição que dialogasse com a leitura de mundo feita pelas nossas crianças. Para que essa exposição desse certo, um dos desafios foi respeitar a faixa etária das crianças. Os espaços foram construídos com as atividades produzidas pelas crianças e com imagens, textos e poesias escritas pela própria Conceição Evaristo e por educadoras da rede. Trouxemos a imagem de Carolina Maria de Jesus para a exposição, já que Conceição Evaristo cita Carolina Maria de Jesus como fonte de inspiração.
A nossa intenção era rememorar a história de vida da escritora e suas obras, a partir do olhar das crianças. A atividade foi mediada pelas professoras que atuaram no projeto. A ocupação, a construção de um território identitário, que o CMEI Dr. Djalma Ramos vem fazendo no bairro e no município tem contribuído para a valorização da arte e da identidade negras. Além disso, muitas crianças do nosso CMEI, bem como suas famílias, nunca puderam ou tiveram a oportunidade de visitar uma exposição artística e apreciála. Então, recriar este cenário foi a oportunidade de esses segmentos vivenciarem tal experiência. As crianças estavam aprendendo sobre a história, vida e obra de Conceição Evaristo em sala, e a professora trouxe os traços ancestrais, a partir dos desenhos realizados pelas nossas crianças, para o espaço da exposição. Na exposição, foi possível ver a reprodução de capas de livros da literatura produzida pela escritora e fotos de sua família, cuja finalidade era problematizar, junto com as crianças, as representações familiares do cotidiano.
Havia, no espaço da exposição, a representação da lavagem de roupa com folhas, pedras. A intenção era a de rememorar uma parte da história de vida da escritora, semelhante à história de vida de muitas famílias das crianças. Trouxemos a religiosidade expressa nas narrativas de Conceição Evaristo, por meio da tradição cultural da amarração de fitas realizada na cerimônia do Senhor do Bonfim. A representatividade da cultura negra foi traduzida em fotos feita pela equipe de profissionais do CMEI Dr. Djalma Ramos. Os projetos realizados com as crianças, deste 2013, estiveram representados na exposição, assim, foi possível verificar esteticamente e conceitualmente a história da nossa comunidade escolar. Além disso, trouxemos a musicalidade identificada durante a pesquisa feita sobre as cantoras Elza Soares e Ellen Oléria. Uma caixa de som ficava disponível para quem visitava a exposição. Assim, havia, ali, a oportunidade de ter o contato com o gosto musical da escritora.
As crianças e todos que visitaram o espaço puderam assistir vídeos infantis, declamaçãodepoesiasedepoimentos sobre Conceição. Saliento que a força desse projeto pôde ser materializada por meio dos elementos da natureza e dos tecidos africanos, reverenciando a ancestralidade negra. A experiência da felicidade, diversas vezes, foi verbalizada pelas crianças, a exemplo de quando denominavam a escritora apenas pelo nome de Evaristo, demonstrando uma certa "intimidade". Algumas delas esboçavam sua alegria com frases como "Que legal!"; outras mexiam, tocavam e sentiam o lugar e a ocupação, construindo suas próprias escrevivências. Nossas meninas e meninos demonstraram, a partir de seus gestos e falas, o amor pela "sua" escritora. Elas denotavam, a partir das suas escrevivências com Conceição, como se empoderaram de sua própria identidade, reconhecendo-se e reconhecendo no outro quem eram. Outro elemento importante dessa exposição foi a visitação dos adultos. Além da comunidade escolar, tivemos a visita de professoras da rede municipal de educação de Lauro de Freitas, que souberam da exposição e ficaram desejosas de conhecê-la.
A presença das mulheres foi majoritária na visitação da exposição. Essas visitas foram permeadas de risos e de lágrimas. A autoidentificação com a história de Conceição Evaristo trouxe, mais uma vez, para nós, a certeza de que representatividade é um elemento importante na própria formação das professoras. Reconhecer-se no outro e traduzir essas aprendizagens em propostas pedagógicas é um ponto importante no fazer professoral. Diria que história de vida e formação docente caminham juntas, como já argumentei anteriormente.
Concluo que a minha percepção sobre esse trabalho com uma frase da escritora Conceição Evaristo: "A gente combinamos de não morrer". Nesse sentido, a nossa prática como instituição educativa, no CMEI Dr. Djalma Ramos, busca inserir, em nossa proposta pedagógica, personalidades negras de grande relevância para o contexto local e nacional. Tais proposições se entrelaçam com marcas identitárias que nos compõem, como educadoras negras que somos, e que se traduzem no fazer diário dentro e fora de nosso CMEI. Considero que negar o direito ao ensino das relações étnicoraciais desde a infância é negar as infâncias em devir de nossas crianças (MACEDO; AZEVEDO, 2013). Por isso, parece-me legítima a reivindicação da necessidade de uma educação antirracista que preserve a identidade afro-brasileira.
Conceição Evaristo nos moveu a quebrar o silêncio sobre racismo, preconceito e discriminação no espaço escolar. Sua história, como a história de Maria Carolina de Jesus, é exemplo de possibilidades abertas a novas escrevivências para as nossas meninas e meninos negros e pobres, que nascem nas ladeiras, vielas, terreiros, ruas, quilombos e territórios. Para além do combinado de não morrer, poderão, por meio da escrita de sua história, transgredir o vaticínio do desastre, ocupando espaços que nos são negados como povo negro. Somos, sim, capazes de criar experiências de felicidades ao longo do processo formativo desenvolvido com crianças negras.
§
Experiência com a felicidade...
A prática pedagógica, que por vezes encharcar-se de lágrimas em face das consequências da dureza e da perversidade das condições de vida, do desespero diante da miséria, no limite, constrói estratégias e alternativas; faz a festa, mergulha nos movimentos e sons dos ritmos e cânticos afro-brasileiros cultivados na comunidade. (MACEDO, 2007, p. 126)
Lembro-me que, quando começamos, em 2013, com a nossa proposta metodológica – propondo uma possibilidade de educação antirracista com crianças, construindo coletivamente nossos princípios metodológicos e, porque não dizer construindo o nosso arkhé –, fomos criticadas, contestadas por tentar produzir práticas que evidenciassem uma educação antirracista com crianças. Algumas educadoras da rede educacional no município de Lauro de Freitas diziam que não era possível trabalhar com personalidades negras com crianças. Segundo Luz (1997, p. 199), arkhé, na tradição africana, como já indicado na introdução deste livro, são princípios inaugurais, princípios que dão sentido e força, ao recriarmos experiências de vida.
Nós somos educadoras que fazem parte de um coletivo que se desafia a recriar experiências de vida para a infância negra e novas epistemologias educacionais afrocentradas. Após discorrer sobre os princípios metodológicos que orientam nossas práticas curriculares, tenho a certeza de que foi o aprendizado obtido com a realização de nossos projetos, o que nos permitiu refazer conexões com a nossa ancestralidade, com a nossa cultura e com tradições afrobrasileiras. Nossos projetos construídos coletivamente nos trouxeram até aqui.
Falando em arkhé, no CMEI Dr. Djalma Ramos, o nosso começa quando decidimos trabalhar como o sambista Riachão, com sua história, com sua música, mas, sobretudo, começa quando construímos nossa prática atrelada à obra de Riachão, com base em experiências com a felicidade para a infância negra.
Em 2014, começamos a experenciar uma proposta teórico-metodológica voltada a uma educação antirracista e, assim, decidimos, coletivamente, realizar, para as nossas crianças, o
projeto Dr. Djalma Ramos e seu Amor por Riachão 25, por meio do qual as crianças puderam conhecer a vida e a obra do sambista Riachão, uma proposta considerada exitosa pelo reconhecimento nacional através do prêmio Arte na Escola.
Reafirmo o que disse anteriormente: trabalhar com uma educação antirracista não foi uma escolha, continua sendo uma necessidade, que vai para além de qualquer lei estatal. É a necessidade de romper com uma educação hegemônica patriarcal, branca e hierarquizante. Os caminhos que tenho trilhado ao longo desse processo (auto)formativo têm sido desafiadores em razão da própria estrutura precarizada imposta ao sistema público de ensino. O que tem me sustentado nessa experiência com a felicidade tem muito a ver com o que nossas crianças e professoras têm construído coletivamente. Nós temos nos escrevivido dia a dia, temos construído uma base teórico-metodológica decolonizante, temos construído uma pedagogia insurgente e afroafetiva no CMEI Dr. Djalma Ramos, em Lauro de Freitas-BA.
Estou convicta de que a complexidade dos processos já instituídos que operam e validam o racismo ainda é uma realidade dentro do contexto escolar, entretanto, nossa proposta no CMEI Dr. Djalma Ramos tem sido a de construir, com as crianças, experiências de forma dialógica e coletiva, a partir de vivências que respeitam a diferença e a pluralidade de cada sujeito.
Temos como meta, para além da complexidade da promoção de uma educação antirracista, garantir que as nossas crianças tenham o direito de ser. Isso é inegociável. Para nós, respeitar esse direito implica escutarmos a infância, valorizarmos as marcas identitárias de nossas crianças, reconhecermos e fortalecermos sua negritude ancestral, desconstruirmos estereótipos, valorizarmos aprendizagens coletivas, escrevivendo-nos afroafetivamente, reconhecendo e valorizando personalidades negras e nossos traços ancestrais. Tudo isso significa respeito, autoafirmação e cuidado, pois só assim faz sentido vivermos, cotidianamente, experiências educacionais atravessadas pela experiência da felicidade com nossas crianças. Aprendi que nossas crianças podem, a partir de experiências felizes com sua cultura, com o seu corpo, com o seu modo de vida e a partir da forma como se veem, criativamente, elaborar, ver e sentir o mundo, imersas e imergindo em processos (auto)formativos incessantes de uma educação antirracista.