Leia-me negras: insurgências afroafetivas na prática pedagógica
Capítulo 2 – Coordenar, r-existir, pelas Marias, Conceições e Marielles
Capítulo 2: Coordenar, r-existir,
pelas Marias, Conceições e
Marielles
Mamãe, embora preferisse ter você aqui comigo e não aí, tão distante quero que saiba que eu perdoo você.
Perdoo pelos dias em que você não esteve ao meu lado e pelos que ainda faltam. Sei que vai cuidar de mim aí no céu. Não se preocupe. Eu estou bem...
Tudo ficará para trás. E nós nos veremos algum dia, mãezinha.
Adeus.
Eu a amo muito...
SUA FILHA
(Teresa Cárdenas)
Escrevivências 2. Das minhas memórias de infância, aquela que mais guardo é o sabor do feijão de mainha. No CMEI em que trabalho, todo mundo sabe que amo feijão. De forma inconsciente, talvez ainda busque aquele sabor de todo domingo, busco as memórias mais lindas da infância, o cuidado de mainha para garantir uma vida mais digna para mim e para o meu irmão. Esse sabor tenho levado para as minhas experiências pedagógicas – tento dar sabor e saborear proposições metodológicas que garantam, no fazer diário das minhas colegas que labutam comigo no chão da escola, um saber com sabor, uma produção de conhecimento contra hegemônico, feito por mulheres negras.
No início de minha atuação como coordenadora no CMEI, em 2013, eu comecei trazendo para nossas discussões pedagógicas, como ponto de partida, aspectos de uma vivência coletiva da negritude. Naquele ano, adotamos uma proposta pedagógica sugerida pela Secretaria Municipal de Educação de Lauro de Freitas, que era a de trabalhar a afetividade com as crianças. Entre um diálogo e outro, uma professora do CMEI me disse: "Você fala tanto sobre o negro, que tal o projeto da minha turma ser: Eu, um ser afetivo na africanidade?". Era nosso início, foi assim que nos sentamos, pensamos nas atividades e mantivemos contato com colegas da rede. Fazer isso nos alimentava.
A prática desse primeiro projeto em que atuei como coordenadora pedagógica da escola foi exitosa envolveu todo o CMEI – as crianças, o corpo docente e as famílias. No ano seguinte, na Jornada Pedagógica, ao problematizarmos o projeto de 2014, decidimos trabalhar com a obra e com a figura de Riachão, um artista negro que canta a Bahia a partir de suas canções autorais. Além desse trabalho ter sido considerado, pelo nosso coletivo, uma prática pedagógica exitosa, o Projeto com Riachão foi ganhador do prêmio Arte na Escola Cidadã, em novembro de 2015.
Quase todas nós éramos, à época, professoras recémchegadas no município de Lauro de Freitas, mulheres negras em formação. Éramos também mulheres vivendo processos de "tornar-se negra". Acentuavam-se e se somavam às crianças, e seus processos de ensino-aprendizagem, questões sobre o nosso próprio processo formativo, sobre a nossa experiência de vida, sobre quem éramos. Tudo isso, ali, foi sendo tecido, constituído, por meio de pesquisa e com a escrita dos projetos pedagógicos anuais.
Uma das primeiras perguntas que se seguiu ao Projeto com Riachão e que nós nos fizemos foi: por que, sendo nós um grupo majoritariamente formado por mulheres, ainda não havíamos decidido por protagonizar uma figura feminina em nossos projetos? Depois dessa, vieram outras questões sobre o porquê também de alisarmos os nossos cabelos e sobre o desejo de saber como as nossas vivências coletivas de mulheres negras atuantes no Centro de Educação Infantil Dr. Djalma Ramos poderiam se constituir como formas de resistência. Tudo isso ia dialogando com os nossos projetos de ensino. Essas indagações não eram feitas só por mim, mas também pelo corpo docente do CMEI, à medida que nos reuníamos para os encontros pedagógicos coletivos ou em conversas cotidianas.
Percebia/percebíamos também, a partir de relatos diários das mulheres (mães, avós, tias...) que traziam as nossas crianças educandas, que essas mulheres passaram, em suas histórias, por processos de violência doméstica, sofriam com baixa autoestima, possuíam histórias de abandono, entre outras tantas experiências dolorosas. Era perceptível o fato de que educar, no nosso espaço, ainda estava associado, sobretudo, à responsabilidade feminina e a situações de sofrimento. bell hooks (2010, p. 1) exemplifica muito bem isso quando afirma: "Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso".
Os corpos das mulheres de nosso CMEI ainda pulsam, marcados por construções históricas coletivas que se perpetuam através de narrativas de mulheres que se machucam, angustiam, que amam, sentem e brincam do jeito que podem, dentro de hierarquias sociais que contabilizam suas escolhas e relações afetivas que foram e são construídas e alicerçadas pelas suas condições de mulheres negras. Como coordenadora pedagógica do CMEI, venho me refazendo, me camuflando, às vezes, me forjando mais forte e, sim, às vezes, desistindo, como todas elas, de tempos em tempos, ao sentir o peso de todos os processos que incidem em nós, quando problematizamos e vamos ganhando consciência sobre o que é (e o que pode ser) a educação étnico-racial e de gênero.
Conceber e realizar projetos de autoria negra no CMEI colocou-me/colocou-nos no centro de um debate contemporâneo: qual a base, o chão mais sólido e mais fecundo, para as escolhas epistemológicas que servem ao propósito de uma educação antirracista? Trabalhar com proposições teóricas de gênero e de negritude é refazer caminho e identidades como docentes e agentes políticosociais? Não recusei/não recusamos o confronto. Nós nos debatemos para identificar, com objetividade, quem possa estar a ocupar posições outrora ocupadas por nossos algozes históricos. Desse modo, as proposições pedagógicas concebidas, anos após anos, passaram a trazer histórias e projetos de vidas de mulheres negras que nos inspiram e fortalecem, ecoadas por outras vozes que fortalecem os nossos afetos e nos mantêm em pé, dentro da coletividade que formamos.
O método das escrevivências pretas foi traduzido em projetos na e para nossa comunidade escolar. Depois do Projeto com Riachão, em 2014, vieram outros projetos, como Ganhadeiras de Itapuã e Mariene de Castro (2015); Carolina Maria de Jesus (2016); Ruim, por quê? Ruim, pra quem? (2017); e Conceição Evaristo (2018). A pobreza e a fome aplacadas na escrita de Carolina de Jesus, os nossos cabelos que teimam em estar para cima e que nos fazem resistir, o combinado de não morrer, vivenciado pelos livros de Conceição Evaristo, a força constante das Ganhadeiras, tudo isso nos auxiliou a saber o que fazer para cuidar bem uma das outras e de nossas crianças. As pretagogias de projetos voltados para uma educação antirracista se traduzem em denúncias e em remédios para o racismo diário, e, dentro do nosso CMEI, a tarefa é buscar formas, meios viáveis, de reviver a nossa ancestralidade, a partir de experiências felizes, em companhia do nosso povo preto.
Nesse sentido, quando falo sobre a minha/nossa negritude, estou conseguindo fazer, coletivamente, encontros comigo mesma e com o coletivo de professoras com o qual e no qual trabalho. Estou comprometida com uma agenda coletiva, e, ainda assim, muitas vezes, de forma solitária. Fazer parte de um coletivo de professoras negras, e saber-se/sentir-se só, faz parte da experiência do ser professora negra. De todo modo, faço/fazemos isso para garantir a já histórica luta pelo direito de sermos consideradas pessoas, pelo nosso direito de ser e de reexistir, conforme ressalta Sojourner Truth (1851 apud RIBEIRO, 2017, p. 51-52), em "Eu não sou uma mulher":
Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que eu tivesse oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou uma mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher?
Nós somos mulheres negras que estamos na base da pirâmide, lutando pela sobrevivência, e, mesmo assim, celebro/celebramos as conquistas das nossas mais velhas, me escrevivendo/nos escrevivendo por meio umas das outras – talvez essa seja a garantia (a aposta) que nos mantêm vivas.
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O que é dito quando digo "Marias,
Conceições e Marielles"
O que apresentarei aqui não são ideias minhas. Falo do que vi, aprendi, li, ouvi, a partir de minha inserção em comunidades heterogêneas: de diferentes gerações, sexualidades, racialidades, escolaridades, possibilidades econômicas, culturais e políticas, e muito mais. Penso que a originalidade de que posso ser acusada se refere à tentativa de juntar aqui muitas fontes, diferentes vozes. Não vou nomear cada uma delas. Não porque queira ocultá-las, mas para destacar a riqueza e a amplitude da circulação de ideias que não sabemos onde começa, que se entrelaçam, que se propagam especialmente entre mulheres, criando comunidades de saber cujas fronteiras são imprecisas. (WERNECK, 2009, p. 76)
Existe o desafio de compreender o feminismo como um movimento político, que traduz sua efetividade e importância pela luta emancipatória, mudança social e garantia de direitos das mulheres. Segundo Faludi (2001), a palavra "feminismo" aparece pela primeira vez numa resenha literária publicada na Athenaeum, em 27 de abril de 1895, delineando uma mulher com capacidade de luta pela sua própria independência. A autora escreve:
"antes de mais nada, eu sou um ser humano". É simplesmente o cartaz que uma mocinha segura em 1970 durante a greve das mulheres pela igualdade: EU NÃO SOU UMA BONECA BARBIE. O feminismo pede que o mundo finalmente reconheça que as mulheres não são elementos decorativos, biscuits preciosos, [...] Elas são merecedoras de direitos e de oportunidades, tão capazes de participar dos acontecimentos mundiais quanto os homens. O programa feminista é muito simples: pede que as
mulheres não sejam forçadas a "escolher" entre justiça pública e felicidade privada. Pede que as mulheres sejam livres para definir a si mesmas – em lugar de terem sua identidade definida pela cultura e pelos homens que a cercam. (FALUDI, 2001, p. 22)
Se, por um lado, a discussão do feminismo se torna imprescindível nas lutas das mulheres, por outro, o feminismo negro se constitui a partir de esforços para romper com o racismo estrutural e epistêmico, repensados a partir do lugar de fala das mulheres negras, que, anteriormente, eram apenas vistas como objetos, silenciadas pela estrutura social. Mulheres negras às quais, durante muito tempo, foram negado o direito à intelectualidade, isto é, à produção acadêmica, à elaboração de teorias do conhecimento, à construção de uma epistemologia em que aparecessem ativamente inseridas. Apesar disso, questões como racismo, sexismo e discriminação racial passaram a ser repensadas a partir de processos educativos, produzindo saberes a partir de uma cultura na qual luta e resistência caminham juntas nas condições de produção da escrita de mulheres e de mulheres negras.
O sistema de opressões vivenciadas em muitas histórias de vida de mulheres negras, antes ignorado ou pautado como algo comum para a população afrodescendente, passa a ser questionado e problematizado por corpos negros, e o debate agora inclui, de partida, questões como sexismo, gênero, classe e raça, por meio de uma visão feminista e negra. Quando bell hooks (2015) afirma que mulheres brancas das classes elitistas precisaram de uma teoria para legitimar os processos de opressão, ela afirma que mulheres negras, por conviverem cotidianamente com a opressão, adquirem uma conscientização sobre a política patriarcal a partir de suas próprias experiências de vida e que são essas experiências que as fazem desenvolver estratégias de resistência. Nós, mulheres negras, nos tornamos a própria força da luta feminista. bell hooks (2015) ainda afirma que mulheres brancas, ao entrarem na universidade, comemoravam a possibilidade de estarem juntas, mas ela cita o seu próprio exemplo de não conhecer uma vida em que as mulheres negras não estivessem juntas, se protegendo, se amando e se ajudando.
O feminismo negro "nasce" não da construção de uma teoria, mas das implicações de opressões vivenciadas pelas mulheres negras referentes a questões de gênero, raça e classe. Há as opressões vivenciadas dia a dia, mesmo que algumas de nós não saibamos conceituar de forma ampla e profunda tal teoria:
Nós mulheres negras sem qualquer "outro" institucionalizado que possamos discriminar, explorar ou oprimir, muitas vezes temos uma experiência de vida que desafia diretamente a estrutura social sexista, classista e racista vigente, e a ideologia concomitante a ela. Essa experiência pode moldar nossa consciência de tal maneira que nossa visão de mundo seja diferente da de quem tem um grau de privilégio (mesmo que relativo, dentro do sistema existente). (HOOKS, 2015, p. 208)
Nesse sentido, nascem as narrativas contra hegemônicas das mulheres negras. São formulações de teorias que repensam não só questões de gênero, mas de raça e classe, a partir de experiências de vida, produções e narrativas que rompem, debatem e se confrontam com mecanismos que insistem na manutenção dos poderes falocêntrico e eurocêntrico.
Assim, quando Jurema Werneck (2009) chama a atenção sobre os passos das comunidades negras terem vindo de muito longe, reafirmar-se uma nova forma de teorizar em uma perspectiva negra. As narrativas autobiográficas de mulheres negras, nossos saberes e nossa experiência formativa/em formação teorizam e produzem novos conhecimentos, nos possibilitam anunciar e denunciar nossa luta contra a violência, o feminicídio e o epistemicídio.
Nossos saberes, os valores que eles representam e a forma como nós nos escrevivemos foram silenciados durante muito tempo. Nesse sentido, a escritora Sueli Carneiro (2005) nos lembra que processos de negação de povos e grupos afrodescendentes como sujeitos produtores de conhecimento são epistemicídios, isto é, a destruição de conhecimentos, de saberes e de culturas não assimiladas pela cultura branca/ocidental. Nós convivemos com a negação de nosso conhecimento por muito tempo, contudo, reafirmamos que mulheres negras, há muito tempo, vêm construindo novos repertórios e novas conjecturas de (auto) identificação, identidade e organização política. Arrisco-me a dizer que elas vêm reescrevendo novas histórias, novas teorias e novos etnosaberes há muito tempo, entretanto, a forma como escreveram no mundo, ao longo dos anos, foi sendo silenciada, pois essa produção era costumeiramente considerada de modo marginalizado ou como dotada de pouca importância.
Escreviver-se sempre fez parte da história de mulheres negras como forma de sobrevivência. Nesse sentido, destaco a escrita de mulheres como Maria Carolina de Jesus, Luiza Mahim, Dandara dos Palmares, Luiza Bairros e Mãe Meninha de Gantois. Todas essas mulheres construíram (constroem ainda por meio de nós, cada uma das mulheres negras que escrevem e publicam) narrativas outras, confrontando o sistema e garantindo a continuidade dos passos dados:
A implicação é que pessoas verdadeiramente oprimidas sabem disso, mesmo se não estiverem envolvidas em resistência organizada ou não conseguirem formular por escrito a natureza de sua opressão. Essas mulheres negras nada viram de libertador em análises do tipo "linha justa" sobre a opressão das mulheres. O fato de que nós, mulheres negras, não nos organizamos coletivamente, em grande número, em torno das questões do "feminismo" (muitas de nós nem conhecem ou usam o termo), ou de que não tivemos acesso aos mecanismos de poder que nos permitiriam compartilhar nossas análises ou teorias sobre gênero. (hooks, 2015, p. 203)
É possível afirmar que o feminismo negro vem construindo, sem cessar, novas formas de resistência. Ressalto que muitas dessas formas ajudaram a conceber e estabelecer novas formas de luta. Houve mulheres negras que, ao se posicionar sobre lutas de classe, resistiram, dando forma ao feminismo negro, algumas delas sem utilizar o conceito do feminismo ou se definirem como feministas. Lélia Gonzalez, Mãe Stella de Oxóssi, Conceição Evaristo, Marielle Franco e tantas outras mulheres confrontaram o racismo, o machismo, o sexismo e lutaram contra as desigualdades sociais e a intolerância religiosa, quer tenha sido através do posicionamento político de suas escritas, quer tenha sido da forma como inscreveram seus modos de vida no mundo, com a própria vida. Suas trajetórias, portanto, contrapõemse ao feminismo proposto pela branquitude, sendo assim, penso que o que aqui denominei conceitualmente como "feminismo negro" se constitui como possibilidades de novas escrevivências.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
(EVARISTO, 1990, p. 32-33)
É neste contexto de legitimação de saberes – acompanhada da
noção de 6 escrevivências –, que me encontro autorizada a tecer narrativas buscando a voz silenciada de minha mãe e as marcas identitárias que se inscreveram no meu corpo e que deram forma à forma como vejo o mundo. As mães de mulheres negras são mulheres que, ao longo da vida, frequentemente, foram emudecidas e silenciadas, mas que lutaram contra tantas formas de opressão. Muitas dessas vozes emudecidas não tiveram a oportunidade de avançarem na escola. Sem título acadêmico, sem refinamento teórico, lutaram para criar suas filhas/seus filhos. Desde muito cedo, labutaram cotidianamente para garantir o sustento familiar. A escrita de mulheres negras é insurgente, porque está acompanhada pelas vozes dessas mulheres que descobriram modos de falar em meio aos mais brutais modos de silenciamento.
Sueli Carneiro (2003a), uma das principais escritoras do feminismo negro brasileiro, ativista da luta antirracista, quando nos convida a pensar sobre a situação da mulher negra na América Latina, a partir de uma perspectiva de enegrecermos o feminismo, aponta-nos que, embora, historicamente, tenha sido construído o mito da fragilidade feminina, para nós, mulheres negras, tais percepções nunca existiram. De acordo com ela,
Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas... Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! Fazemos parte de um contingente de mulheres com identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de senhores de engenho tarados. (CARNEIRO, 2003a, p. 5)
Embora se tenha tentado estabelecer as estruturas do feminismo a partir de uma perspectiva branca, cuja tentativa tornou invisível por muito tempo uma discussão ampla a partir das mulheres negras, acredito que seja muito fecundo o convite feito por Sueli Carneiro (2003a) para enegrecermos o feminismo, na perspectiva de construirmos um novo modelo de sociedade pluricultural e multirracial. Ressalto que o método de educação antirracista que temos construído coletivamente em nossas práticas pedagógicas, no CMEI Dr. Djalma Ramos, pode ser considerado uma aceitação profunda a esse convite enunciado por Sueli Carneiro (2003a).
Mais uma vez reafirmo que a decisão de escrever este livro autoral, tão coletivo quanto pessoal, é a de me lançar e de me fazer ouvir entre tantas vozes que me acompanham, é a de me arriscar a escrever com vozes que ecoam em mim e me acompanham cotidianamente no meu fazer diário. Assim, tento tornar mais audível, mais legível, às vozes que carregam, e concebem, práticas para uma educação antirracista, a partir de suas experiências de vida como mulheres negras educadoras. A maioria das professoras do CMEI Dr. Djalma Ramos possui histórias de vida muito próximas da maioria das mulheres negras, marcadas por vários episódios de opressão, de violência e de silenciamento. Ainda assim, nos tornamos professoras que acreditam que a educação infantil de crianças negras não pode ser vista como sendo um lugar e uma experiência apenas da pobreza. A educação infantil de crianças negras é lugar de dignidade, posto que é passível de ser atravessada pela experiência de felicidade.
As professoras do CMEI Dr. Djalma Ramos, como já mencionado e como se verá mais detidamente a seguir, constroem planejamentos e projetos que perpassam por questões de gênero, raça e classe, conseguindo construir, juntoàs crianças, experiênciasde felicidade, vinculadasasuas marcas identitárias de crianças negras. Essas professoras lutam cotidianamente e se encorajam para garantir um lugar de fala nos enfretamentos dentro e fora do CMEI e nas tensões do cotidiano. São elas que, nos últimos anos, têm se debruçado e se debatido para a invenção de um currículo que se contraponha a uma educação infantil hierarquizada e normativa. Celebram uma educação pensada a partir de uma prática educativa libertadora, transgressora, resistente e esperançosa. É importante ressaltar que as professoras com as quais trabalho vêm construindo uma pedagogia de resistência coletiva quando se debruçam, constroem e inventam uma outra educação, quando lutam pelo direito de ser e de existir de nossas crianças, fortalecendo práticas que evidenciem uma educação antirracista.
Como coletivo de educadoras negras, compreendemos que as opressões estruturais tiram o direito de viver com dignidade de nossas crianças e suas famílias e que só uma educação voltada para o rompimento de hierarquização de saberes poderá contribuir para que as crianças rompam com o silenciamento imposto e descubram, vivam, sintam e construam novas possibilidades educativas e de vida a partir de suas experiências de vida.