Leia-me negras: insurgências afroafetivas na prática pedagógica
Apresentação
A luta por outras educações em território negro implica análises panorâmicas e contundentes. No terceiro mundo, o século XVI se iniciou trazendo demandas que geram indignação profunda e, consequentemente, reações. Contextos como o da América Latina e do Caribe são palcos de movimentos antidiscriminatórios que denunciam o soterramento das culturas dos grupos massacrados ao longo dos últimos cinco séculos.
A região tem pautado, a partir de experiências de insurgência – realizadas com base em sua pluridiversidade –, o reconhecimento de diferentes nacionalidades dentro de um mesmo território. Só nas Américas, somos 200 milhões de pessoas autoidentificadas como negras, e a Década Internacional de Afrodescendentes (2015-2024) nos convocou para impulsionar agendas que contemplem uma crítica radical às desvantagens que acumulamos. Pode-se avaliar que esse esforço nos ajuda a localizar, no bojo do movimento pelo reconhecimento e pertencimento humano, a importância da luta das pessoas negras, que reivindicam outras narrativas sobre as formas de reexistir e de garantir os vínculos com o continente africano.
Com a Declaração da Década Internacional dos Afrodescendentes, uma dinâmica afrodiaspórica ganhou contornos emancipatórios, além de ter apresentado capilaridade para mobilizar grupos diversos e incidir com um mosaico de propostas e projetos descolonizadores. Nesse itinerário, o tema dos feminismos negros saiu das margens e se deslocou para o centro. Cerca de 32 milhões de mulheres negras estão envolvidas direta ou indiretamente com a violência diária promovida pelo Estado, em um contexto definido pela invisibilidade de sua pertença multifacética. Racismo institucional, violência de gênero e genocídio da juventude negra ganham relevância nas pautas que mobilizam as associações de mulheres e lideranças negras.
A priorização da formação superior, a educação política no ativismo antirracista e, sobretudo, a compreensão das próprias urgências de uma população historicamente subalternizada chamam a nossa atenção. O percurso alcançado numa agenda de reexistência comunitária e feminina dialoga com o objetivo da Organização das Nações Unidas (ONU) de "reconhece[r] que os povos afrodescendentes representam um grupo distinto cujos direitos humanos precisam ser promovidos e protegidos" (SILVA, 2017, s.p.). Nessa identificação, as propostas especificam as demandas para meninas, adolescentes e mulheres racializadas.
Efetivamente, o Brasil é um país em destaque nesse itinerário descolonizador, capaz de gerar novas aglutinações. Com essa cultura mobilizadora, o que se vê é uma efervescência traduzida na proposição de núcleos e redes colaborativas. Nesses ambientes, visa-se promover amplas tecnologias de referência para outras movimentações oxigenantes. Com esses estímulos, vimos nascer diversos núcleos de estudos sobre relações étnicoraciais em instituições de pesquisa, ensino e extensão. Não obstante, já podemos mencionar a organização de outros formatos de pesquisa envolvendo os espaços escolares, incluindo as instituições que se dedicam ao trabalho com crianças pequenas.
Desde o centenário da abolição, vimos uma renascença temática pautada na agenda de revisão da historiografia das populações afrodescendentes. Pesquisadoras advindas das comunidades de base iniciaram suas histórias como pensadoras e promotoras de outras ambiências de aprendizagem. Pensar em movimento e em redes anticoloniais tem sido uma das tarefas assumidas por Fátima Santana Santos ao longo de sua trajetória de pesquisa e de trabalho docente.
A intelectual-ativista atua ampliando sua internacionalização com ênfase nas vinculações com a diáspora afrolatina, como foi o caso da sua participação na III Escuela Internacional de Posgrado Más allá del Decenio Internacional de los Pueblos Afrodescendientes (Conselho Latino-americano de Ciências Sociais), em Cuba. Santana Santos garantiu presença na Conferência do Clacso, na Cidade do México, em 2022, para divulgar as suas pesquisas em andamento. Junto a isso, a pedagoga e historiadora, graduada pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb), apresenta-se como uma importante mobilizadora no campo da Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER) reinventando, em rede, o percurso docente.
O investimento realizado no Mestrado em Ensino e Relações Étnico-Raciais na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) desdobrou outras apreensões teórico-epistemológicas relacionadas com as "outras educações".
Em 2015, Fátima Santana Santos ganhou o prêmio Arte na Escola Cidadã na categoria Educação Infantil. A autora segue atuando como coordenadora pedagógica do CMEI Dr. Djalma Ramos em Cidade de Lauro de Freitas, Bahia. No Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), destaca-se como pesquisadora do Projeto "Por uma infância escrevivente: práticas de uma educação antirracista". Como pensadora negra, tem priorizado interações que garantam a aproximação da práxis pedagógica às demandas curriculares e à formação de professoras/es, sem deixar de fora um arco filosófico relacionado com as desigualdades sociais e o racismo. Em outros termos, a obra aqui apresentada está relacionada com esses aspectos que saem das margens e passam para o centro das questões sobre autoria e descolonização do pensamento. Nos grupos de pesquisa "Lêtera Negra", da UFSB, e "Protocolos de convivialidade: performance, pedagogia e saberes anticoloniais", da Universidade Estadual de Maringá (UEM), ela promove outras vinculações densas para pensar-se mulher, ativista, intelectual e pesquisadora antirracista.
Concordamos com Lélia Gonzáles e com Sueli Carneiro sobre o lugar de destaque das problemáticas das mulheres negras para entender o Brasil das desigualdades sociais. Um traço desse fenômeno é o éthos da servidão e, consequentemente, a desumanização das pessoas identificadas como mulheres e negras. No ir e vir em espaços de poder, como é o caso das instituições de pesquisa, as reações negativas sobre as outras performatividades estão garantidas. Manter-se partícipe, para lideranças oriundas das lutas travadas nas bases, significa atropelar os efeitos das múltiplas violências, como podemos aprender a partir do enfoque interseccional.
No desenho elaborado pela autora, em Leia-me negras: insurgências afroafetivas na prática pedagógica, vemos o percurso de uma pensadora insurgente, identificada com um projeto de reinvenção da história de sujeitas desobedientes que são acompanhadas por suas "mais velhas", por suas "ancestrais", como é o caso de Maria da Conceição Santana, a mãe-educadora da autora. Aspectos que ganharam centralidade no encaminhamento da proposição de uma educação para a ERER no Brasil foram incorporados na sistematização da obra aqui em questão. Com a elaboração realizada, vimos emergir pontos de contato com as práticas enunciativas elaboradas por Grada Kilomba (2019) em sua obra Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano.
No trabalho de Fátima Santana Santos, a presença contra-hegemônica de uma jovem mulher negra, pensadora da educação básica, está no centro da tematização proposta. Em contextos de alta complexidade, como é o caso dos países com uma realidade multicultural abalada pela herança escravocrata, as populações femininas enfrentam a rigidez de uma gramática social ainda arraigada nas engrenagens coloniais. Portanto, sobra um conjunto de problemas que vão da ausência de moradia até a insegurança alimentar. Aprendemos com o campo dos estudos sobre "cuidados" que são as mulheres racializadas as que se ocupam das crianças, dos idosos, das casas, das questões de saúde e da educação dos seus respectivos núcleos familiares. Quando localizamos esses desdobramentos na vida das mulheres negras, redefinimos a interpretação acerca de suas performatividades sociais. Em redes colaborativas, as negras que assumem lideranças incidem rompendo barreiras históricas e indicando saídas anticoloniais, antirracistas e, consequentemente, antipatriarcais.
A elaboração de um texto em formato de livro é, sobretudo, trabalhosa. Importa salientar como fomos desafiados com a pandemia de Covid-19. Nessa experiência avassaladora, em todo o globo, vimos diversos aspectos serem considerados dentro do quadro da necropolítica, explicado por Achille Mbembe. O enfrentamento do tema do sofrimento de famílias oprimidas – com a degenerescência de suas identidades – passa a ser uma exigência. Aprendemos sobre as diferentes "pandemias racializadas" e sobre as violações de direitos básicos em todo o Terceiro Mundo. Entre 2020 e 2021, as organizações negras se mobilizaram para enfrentar ondas de negacionismo e de facismo estando alinhadas com o que Achille Mbembe problematiza. Ondas autoritárias se instalaram e, junto com a irresponsabilidade administrativa e o descompromisso com os setores mais empobrecidos, vimos os discursos negacionistas implacarem uma gramática negacionista. Toda essa ambiência interferiu na vida de quem educa e desenvolve projetos em colaboração, na vida de etnoeducadoras de referência para o campo da ERER.
Com Fátima Santana Santos e com a equipe de professoras/es do Centro Educacional Dr. Djalma Ramos não foi diferente. Em nossas casas, acompanhamos as notícias sobre as perdas avassaladoras, algo nunca visto antes. Acionamos outras formas de comunicação e de produção de conhecimentos. As nossas opções de lazer foram alteradas, já que a prática dos encontros, as nossas formas de celebrar, foram proibidas. Profissionais da Educação, que se dedicam ao trabalho com as crianças pequenas de famílias que dependem das instituições públicas para inserção socioeducacional, acompanharam as agruras e perdas que impactaram muitos desses grupos vulneráveis, atendidos em suas respectivas escolas.
Importa reconhecer como autoras como a que apresentamos estão situadas como pensadoras e articuladoras comunitárias e envolvidas no levante de um locus de aprendizagem inquestionável, como é o caso dos terreiros de candomblé, das escolas de samba e de núcleos dos diversos movimentos sociais. Nas leituras que fizemos, e por dentro do Movimento Negro e do Movimento de Mulheres Negras, aprendemos sobre pensadoras negras e outras traduções para intelectualidade. Assim, foi possível observar um ponto de inflexão no livro de Fátima Santana Santos, em que as intelectuais afrobrasileiras se apresentam de modo decisivo para a conformação de um éthos revolucionário e de abordagens criativas e oxigenantes. Em Leia-me negras: insurgências afroafetivas na prática pedagógica, somos surpreendidas/os com uma notícia de "felicidade" para o campo da ERER. Lauro de Freitas insurge como uma cidade de possibilidades outras, de infâncias negras criativas em meio a um contexto embalado pela experiência com o racismo cotidiano, as colonialidades e a desumanização das pessoas racializadas.
No livro, estão como inspirações pensadoras como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Lélia González. Ao memso tempo, as crianças pequenas são coautoras e atravessam a trama de uma intelectual orgânica abduzida pelo mundo dos encantamentos. Na obra, a autora explora com primazia temas relacionados às pertenças individuais e coletivas. O diálogo travado incluiu suas interlocutoras privilegiadas, as professoras atuantes nas instituições escolares e, ainda, as/os estudantes envolvidas/os nas ações planejadas e executadas na dialogicidade. A práxis educativa que define a experiência de Fátima Santana Santos reflete uma perspectiva libertadora e emancipatória para a educação antirracista. Fátima Santana dos Santos lança mão de um texto imagético revelador que contempla seu modus operandi como pensadora da escola. Narrar e ler as suas próprias andarilhagens demandou coautoria e reconhecimento da força criativa do seu trabalho, em uma escrita sensível e fluida. Santana Santos apresenta uma tecnologia inspiradora para o campo educacional e, ao mesmo tempo, a riqueza das aprendizagens possíveis nos interstícios. Descobre-se que os laços possíveis com sua mais importante educadora garantiu um legado. Nas entrelinhas de sua escrita descolonial está a ancestral Maria da Conceição Santana, uma divisora de águas para quem deseja compreender o que move as escolhas da intelectual-ativista, pensadora da escola e da universidade e etnoeducadora negra Fátima Santana Santos.
Claudia Miranda,
Rio de Janeiro, julho, 2022.
Referências
KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
SILVA, Rosana Aparecida da. Por uma vida livre de opressão e discriminação racial. Central Única dos Trabalhadores de São Paulo – CUT, São Paulo, julho, 2017. Disponível em:
https://sp.cut.org.br/artigos/por-uma-vida-livre-da-opressao-e-
discriminacao-racial-b758. Acessado em: 30 de novembro de 2022.