Leia-me negras: insurgências afroafetivas na prática pedagógica

Conclusão – Do que prossegue...

Conclusão – Do que

 

prossegue...

 

Quem me deu permissão para praticar o ato de escrever? Por que escrever parece tão artificial para mim? Eu faço qualquer coisa para adiar esse ato – esvazio o lixo, atendo o telefone. Uma voz é recorrente em mim: quem sou eu, uma pobre chicanita do fim do mundo, para pensar que poderia escrever? Como foi que me atrevi a torname escritora enquanto me agachava nas plantações de tomate, curvando-me sob o sol escaldante, entorpecida numa letargia animal pelo calor, mãos inchadas e calejadas, inadequadas para segurar a pena? Como é difícil, para nós, pensar que podemos escolher tornar-nos escritoras, muito mais sentir e acreditar que podemos! O que temos para contribuir, para dar? Nossas próprias expectativas nos condicionam. Não nos dizem a nossa classe, a nossa cultura e também o homem branco, que escrever não é para mulheres como nós? (ANZALDÚA, 2000, p. 230)

 

Volto-me mais uma vez para a leitura de Anzaldúa (2000), pois ela me provoca a pensar sobre como a escrita ou, até mesmo, a ausência da escrita foi inserida em minha vida. Anzaldúa me desafia a rediscutir o lugar da escrita na vida de mulheres negras e o não reconhecimento. A minha trajetória, irmanada com as companheiras de luta dentro do nosso CMEI, sempre foi permeada por lutas. Isso me faz mais uma vez retornar às palavras de Gloria Anzaldúa (2000) sobretudo porque se trata de um convite desafiador, o desafio de continuar a pensar sobre o que significa escrever e ler-me enquanto mulher negra.

Enquanto eu escrevo, eu me volto para a minha lembrança de menina, uma menina que se orgulhava de ler suas redações na escola, mas que cresceu acreditando que a universidade não era o seu lugar. Volto e penso em mulheres negras como Carolina Maria de Jesus, uma mulher que inaugura uma perspectiva para narrativas sobre si e sobre mulheres negras e pobres de nosso país. Voltam-me à lembrança a invisibilidade, a falta de reconhecimento e meu completo desconhecimento das obras de Carolina Maria de Jesus quando cursei Pedagogia.

Volto-me para Conceição Evaristo e suas escrevivências. Lembro-me do reconhecimento tardio dela como escritora. Não tenho como não deixar de lembrar do incômodo que causou sua indicação para a Academia Brasileira de Letras, por se tratar de uma mulher negra. É de suma importância salientar que Conceição Evaristo seria a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira da Academia Brasileira de Letras.

Volto-me para a lembrança de minha mãe e lembrome dos desafios e da luta de todas as mulheres negras deste país: a luta pela sobrevivência diária, a luta pela manutenção dos filhos na escola, a luta para pôr comida na mesa e criar os filhos sozinhas. Projeto-me, então, para o chão da escola. Em um país onde a miséria e a desigualdade social atingem de forma perversa a população negra, vejo cada menina e menino negro, escuto as vozes incessantes das professoras do CMEI Dr. Djalma Ramos que desejam tornar o espaço escolar mais digno, mesmo diante de tanta precariedade.

Figura 1 – Eu e mainha, Maria da Conceição Santana

 

Fonte: arquivo pessoal da autora.

 

Este livro, quando começou e agora quando termina, é sobre idas e vindas. Ao tomar como objetivo de escrita a proposta teórico-metodológica do CMEI Dr. Djalma Ramos, voltada para uma educação antirracista com crianças pequenas, desejei pensar alteridades, construir uma perspectiva de relato de pesquisa, escrita de si escrevivente e prática docente que não anulasse nossas diferenças, mas que ajudasse a construir currículos capazes de respeitar e fortalecer as marcas identitárias negras. Volto-me, neste momento de conclusão, para a abordagem do trabalho realizado pelo CMEI Dr. Djalma Ramos e como ele, como prática pedagógica, me permitiu reafirmar a afroexistência de forma afetuosa, num encontro de mulheres negras, que são professoras negras. Reafirmo que temos um compromisso sociopolítico quando nos dedicamos a contribuir para a recriação de epistemologias negras, quando elaboramos métodos negros de educação, o que, definitivamente, vem inaugurando, para os sujeitos racializados que adentram a instituição (negros e não negros), a possibilidade de vislumbrar experiências com a felicidade.

Toda minha itinerância formativa com a comunidade que compõe o CMEI Dr. Djalma Ramos foi importante para que eu conseguisse ler-me negra, professora e coordenadora pedagógica, parte inseparável de um coletivo de mulheres negras educadoras. Propositalmente, o eu e o nós autorais que aparecem nas páginas deste livro são uma forma de re-existência, é a construção de uma escrita acompanhada, construída de forma ancestral e desobediente, é a tentativa de subverter afirmativas embranquecidas de que existe apenas um modo de escrever.

De certo, a caminhada relatada foi a de reflexões sobre a minha práxis, como coordenadora pedagógica, do meu compromisso com uma educação antirracista para crianças pequenas, do compartilhamento de ideias, projetos, sonhos, atividades desenvolvidas pelo coletivo de educadoras do qual faço parte. Ler-me Negras, conseguir identificar e nomear a pluralidade de mulheres que há em mim, olharme no espelho, transformar as lágrimas em risos, acreditar e não desistir, partilhar a caminhada: essa é a irmandade que temos construídos no CMEI Dr. Djalma Ramos. Hoje, sigo minha jornada mais consciente da relevância, dos riscos e das implicações de um trabalho educacional atravessado pela pesquisa e pela escrita que são escrevivências. Nesse sentido, o fim deste livro é mais um início de uma longa jornada. Compreendo, agora, com mais nitidez, que a luta de meus/minhas ancestrais foi também para que escritos como deste livro fossem possíveis, como possíveis são os direitos de ser e de existir de nossas crianças negras e pobres.

Para concluir, continua pulsante e potente, em mim, as palavras de Lélia Gonzalez (1984, p. 225):

Ora, na medida em que nós negros estamos na lata de lixo da sociedade brasileira, pois assim o determina a lógica da dominação, caberia uma indagação via psicanálise. E justamente a partir da alternativa proposta por Miller, ou seja: porque o negro é isso que a lógica da dominação tenta (e consegue muitas vezes, nós o sabemos) domesticar? E o risco que assumimos aqui é o ato de falar com todas as implicações. Exatamente porque temos sido falados, infantilizados (infans é aquele que não tem fala própria é a criança que se fala na terceira pessoa, porque falada pelos adultos), que neste trabalho assumimos nossa própria fala. Ou seja, o lixo vai falar e numa boa.

 

Volto-me à minha infância e à lembrança de que painho não saía de casa sem um galho de arruda detrás da orelha, numa experiência ancestral certamente aprendida com meus avós: sair com um galho de arruda significava sair protegido. Assim, Ler-me Negras é lembrar que chegamos, que cheguei, até aqui por essas e tantas outras experiências ancestrais e insurgentes. É voltar ao passado e compreender que a arruda continua presente, trazendo proteção ancestral. Ler-me Negras é também seguir lutando pela minha e pela nossa afroexistência, pelo direito de viver cotidianamente experiências com a felicidade.