Leia-me negras: insurgências afroafetivas na prática pedagógica
Posfácio
Posfácio: autoria negra, pele
das chuvas, pensamento
nascente
1. Transfluir: escritas de águas, terrais
Lá, diante do mar, uma mulher negra avista as escritas na pele das águas. Acompanha, como uma aula, todo desenho que fazem as águas quando transfluem pelos céus e retornam às terras, seus lençóis e funduras, a pele da chuva. "As águas cicatrizam feridas coloniais", sopra Carla Akotirene, "a água para as mulheres negras é fundamento epistemológico" (AKOTIRENE, 2020, p. 32).
A pele da chuva é escrita. A pele preta da chuva escreve. As águas como fundamento – sejam feitas de assombros, de orvalho ou de tempestades – são incorporações dos vivos e dos mortos– em meio ao vivo –, performam e pensam vidas pretas sulcando caminhos e abrindo sentidos para a diáspora negra no interior das práticas discursivas acadêmicas, no cerne de modos e fluxos de pesquisas e de produção de conhecimentos nas universidades brasileiras.
A pele da chuva torna-se a escrita de comunidades ancestrais, memórias do presente, do passado e do futuro.
As colonialidades e o monopólio epistêmico ocidental, como processos históricos, ainda não terminaram de passar; fazem perdurar no tempo presente dispositivos para o genocídio, para a opressão, para o silenciamento e para o epistemicídio dos povos pretos.
Mas a ancestralidade das águas é èmí (sopro da vida), é ofó (encantamento), é às.e. (energia vital) e, no contínuodescontínuo das geografias e das memórias do atlântico negro, a ancestralidade torna-se nossa palavra sem medo.
"Nos tiraram tanto, que nos tiraram o medo" (SÁ, 2020, p. 6) 1, diz uma mensagem serigrafada com tinta vermelha, em um muro erguido na cidade de Cachoeira de São Félix (BA). Na leitura de um livro, escutamos um possível ritornelo, ecoando e ampliando a mensagem grafada: "[...] e, se adquiri e conservei o conhecimento da arte de escrever foi por necessidade, tendo descoberto que a escrita e o medo são incompatíveis" (LLANSOL, 1985, p. 13).
As chuvas não param de cair sobre os mares, águas doces encontram a pele salgada das águas; muitos naufrágios, seculares travessias. E aqui, neste lugar editorial que fundamos, tão próximo a nós, foi possível acompanharmos, cartografarmos, revisarmos juntas, comentarmos e editarmos escritas de reexistências.
"Colombo! fecha a porta dos teus mares" (ALVES, 1997).
Estamos (ainda) em pleno mar.
Retornar à terra. Fomos chamadas ao encontro com as águas,
somos Ialodês 2! E, no contexto das violências interseccionalizadas e perenes – raça, gênero, classe, sexualidade, racismo religioso etc. –, a perguntainterlocução de Akotirene nos parece precisa: "[...] levantar-se ou continuar caída? Sentir ou não as feridas da colonização? É da mulher negra o coração do conceito de interseccionalidade" (AKOTIRENE, 2020, p. 24).
No processo de edição dos dois novos livros da série de livros Transfluência (2022-2023), tomamos para nós, coordenadoras editoriais, algumas das perguntas e dos apontamentos de Carla Akotirene (2019) e de Glória Anzaldúa (2021). Fazemos isso para, por meio de um gesto – uma ação e um projeto – editorial de publicação de autorias de mulheres negras no campo oficial dos discursos técnico-científicos, indagarmos: é das mulheres negras a pele da escrita? Da escrita crítica de um pensamento feito de nascentes?
2. Livros-escola, dissertações-carta
21 mayo 80
Queridas mujeres de color, companheiras no escrever –
Eu me sento aqui nua sob o sol, máquina de escrever contra os joelhos, tentando visualizar vocês. Mulher negra fincada na mesa do quinto andar de algum apartamento de Nova York. Sentada numa varanda do sul do Texas, uma chicana abana mosquitos e o ar quente, tentando despertar as brasas amornadas da escrita. Mulher indiana caminhando para a escola ou para o trabalho, lamentando a falta de tempo para trançar a escrita dentro de sua vida. Não é fácil escrever esta carta. Ela começou com um poema, um poema longo. Eu tentei torná-la num ensaio, mas o resultado foi madeira, frio. Eu ainda não desaprendi as merdas esotéricas e pseudo-intelectualizadas da lavagem cerebral universitária em minha escrita. Como começar de novo. Como chegar perto da intimidade e da proximidade que quero. Que forma? Uma carta, óbvio (ANZALDÚA, 2021, p. 44-45).
Os livros de autoria de mulheres negras que compõem a edição II da série Transfluência, a saber, Leia-me negras: insurgências afroafetivas, de Fátima Santana Santos, e As nagôs estão na rua com prazer e alegria: uma cartografia afro-baiana de Belmonte, de Dandara dos Santos Silva, são resultantes da trajetória acadêmica de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais (PPGER) da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).
Da defesa de dissertação à publicação dos livros, passaram-se quase três anos. Como processo de adensamento e revisão estilística dos registros de pesquisa, cada uma das autoras mergulhou nas águas das própria escrita, intensificando as suas escolhas acerca de modos enunciativos, ao mesmo tempo que vivenciavam processos de apropriação de um lugar específico: o de intelectual.
Diante do livro, o medo. Medo de abrir palavra na página que sempre lhe foi negada. Portanto, coordenar o processo de edição desses dois livros da série Transfluência foi assistir a uma certeira e afirmativa tomada de posição diante da autoria. Como é difícil para nós pensar que podemos escolher nos tornar escritoras, muito mais do que sentir e acreditar que podemos! O que temos para contribuir e para dar? Nossas próprias expectativas nos condicionam (ANZALDUA, 2021).
E como casulo, metamorfose ou encantamento, estes livros surgem da força e da dedicação dessas duas pesquisadoras negras, que discutem, propõem e salvaguardam saberes e estéticas de senhoras e crianças, mais velhas e mais novas, cidadãs do Estado da Bahia.
Há a dimensão de uma espécie de ilé è. kó. (escola, curso), de ilé è. kó. gíga (universidade), de ilé ìkáwè (biblioteca), de criação de biblioteca contracolonial, mergulho em materialidades ancestrais negradiaspóricas, neste processo compositivo, do Design Gráfico à elaboração discursiva, passando por muitas etapas que seguem se configurando como etapas formativas do PPGER-UFSB.
O livro é cura e veneno a um só tempo? Dá lugar à manifestação (às incorporações) do verbo? A força da enunciação da palavra pode ser estratégia de cicatrização das "feridas coloniais", as quais se refere Carla Akotirene? Pode a palavra transfluir, dar passagem?
Nem toda palavra tem potências de cura. Para arriscar travessias e reexistências, é preciso desacostumar as rotas previsíveis dos naufrágios e das subalternizações às práticas e aos saberes hegemônicos de produção de conhecimento. Como exercício de navegações na pele das águas e das memórias pretas, a escrita dos livros de Fátima Santana e Dandara Silva atingiram seu ponto de "língua de fogo", ao modo Anzaldúa, tornando-se, de um modo contundente e de umasóvez, poemalongo, ensaio, cartografia, autoetnografia, escrevivência, enunciação coletiva de mulheres negras, pensamento-nascente, dissertações-carta.
Ao longo do processo de edição, entre incontáveis trocas e aprendizagens, com o livro de Dandara Silva, fabulamos e compreendemos o quanto as Nagôs de Belmonte (BA) podem transmitir de saberes e conhecimentos à teoria da diferença de Deleuze e Guattari. Com o livro de Fátima Santana, acolhemos a decisão crítica e metodológica de uma educação antirracista e afroreferenciada, capaz de propiciar experiências de felicidade para a infância preta.
Para fazer ressoar as vibrações da palavra sem medo, para afirmar escritas técnico-científicas subjetiva e politicamente implicadas, para saudar a ancestralidade negra diaspórica e para celebrar modos de pesquisa que são organicamente vida, chamamos Audre Lorde à cena deste nosso posfácio. Neste fim que é também começos, ressaltamos:
Na medida em que aprendemos a suportar a intimidade da investigação e a florescer dentro dela, na medida em que aprendemos a usar o resultado dessa investigação para dar poder à nossa vida, os medos que dominam nossa existência e moldam nossos silêncios começam a perder seu controle sobre nós (LORDE, 2020, p. 45).
Cynthia Cy Barra e Laura Castro
Coordenação Editorial do Projeto Transfluência
Ilhéus; Salvador, Bahia, novembro de 2022.
Referências
AKOTIRENE, C. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019. Coleção Feminismos Plurais.
ALVES, Castro. "Espumas flutuantes". In: Poesias Completas. São Paulo: Ediouro, 1997. (Prestígio). Disponível em:
http://www.bibvirt.futuro.usp.br. Acessado em: 12 de novembro de 2022.
ANZALDÚA, Gloria. "Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do Terceiro Mundo". In: ANZALDÚA, Gloria. A vulva é uma ferida aberta e outros ensaios. Trad. Tatiana Nascimento. Rio de Janeiro: A Bolha Editora, 2021. p. 43-62.
LLANSOL, Maria Gabriela. Um falcão no punho. Lisboa: Relógio D ´água Editores, p.1985.
LORDE, Audre. "A poesia não é um luxo". In: Audre Lorde, irmã outsider: ensaios e conferências. Trad. Stephanie Borges. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. P. 45-49.
SÁ, Tereza Cristina Soares de. A escrita de mulheres negras no sul da Bahia: uma poética dissidente de resistência e ancestralidade. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino das Relações Étnico-Raciais – PPGER), Instituto de Humanidades, Artes e Ciências (IHAC), da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).Itabuna, p. 6, 2020. Disponível em:
https://sig.ufsb.edu.br/sigaa/erArquivo?idArquivo=623871&
key=d66ab80f07772716573cd95b0874f766. Acessado em: 12 de novembro de 2022.
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