Leia-me negras: insurgências afroafetivas na prática pedagógica

Parte II: Por uma educação antirracista para nossas crianças

Parte II: Por uma educação

 

antirracista para nossas

 

crianças

Capítulo 4: Recomeço, a chama

 

que não pode ser extinta

 

Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se elas podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente no coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta.

(Nelson Mandela)

 

As palavras de Mandela, que já percorreram o mundo, dão sentido a este livro, em que apresento uma leitura crítica de propostas pedagógicas e práticas docentes para a educação infantil voltadas a uma educação antirracista, com as quais venho trabalhando no CMEI Dr. Djalma Ramos, desde o ano de 2013. Documentos legais como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), ou Lei n. 9.934 (BRASIL, 1996), definem a educação infantil como a primeira etapa da educação básica. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI) definem criança como:

 

Sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura. (BRASIL, 2010, p. 12)

 

Nesse sentido, considero relevante, e um dos grandes desafios deste livro, construir perspectivas amplas para pensar práticas pedagógicas com crianças negras e pobres, observando como elas têm construído suas identidades, sejam elas pessoais ou coletivas, suas experiências e vivências e, sobretudo, compreendendo como a escola pode contribuir (ou não) para uma saudável construção identitária. O desafio aqui posto traz como urgência teóricometodológica pensar a condição de ser criança negra. Esse lugar de fala já é devidamente exposto na parte 1 deste livro.

Nesta segunda parte do livro, tenho como objetivo contribuir, de maneira sistematizada, para a abertura de vias, consolidando orientações pedagógicas que permitam problematizar, confrontar costumes e refletir sobre experiências de crianças negras em instituições públicas. Pretendo conjecturar, criticamente, saberes e processos de ensino-aprendizagem a partir de experiências infantis singulares. Dou ênfase ao coletivo mais amplo de educadoras negras comprometidas com os desafios educacionais do povo negro e com a consolidação do campo de conhecimento intitulado "educação para as relações étnico-raciais". Assim, as proposições metodológicas que são abordadas nos capítulos a seguir estão voltadas para uma educação antirracista com crianças.

Como já foi destacado, o que me impulsionou deste o início foi a tarefa de formalizar, criticamente, algumas das reflexões profissionais provenientes de uma prática educacional cotidiana, coordenando e avaliando propostas pedagógicas que deem conta de pensar a infância negra, cada vez mais, como um lugar emancipatório e de direitos. Meu desejo surge e se renova com a certeza de que há a necessidade de que as crianças tenham uma experiência positiva de si, das suas marcas identitárias, e que elas possam, sobretudo, vivenciar experiências com a felicidade.

Para tanto, foram extraídos, das práticas pedagógicas realizadas no CMEI Dr. Djalma Ramos, no período de 2013 a 2018, princípios pedagógicos educacionais. Tais princípios são ferramentas didáticas para o desenvolvimento de projetos educacionais no campo da educação antirracista com crianças. Nesse sentido, destaco que relatar a experiência pedagógica efetivada no CMEI Dr. Djalma Ramos é importante para tornar ainda mais visível o importante debate teórico-metodológico sobre educação antirracista com crianças pequenas. Que este relato possa reverberar positivamente em outras crianças (atores curriculantes) e em professores e professoras que compõem os espaços escolares brasileiros. Sobre quem somos, começos e

 

recomeços do que não se apaga

 

Como recomeçar a contar aqui a nossa história, já parcialmente narrada, na primeira parte deste livro? Nós, professoras do CMEI Dr. Djalma Ramos, iniciamos a construção de nosso percurso coletivo no campo da educação antirracista em 2013. À época, nós formávamos uma comunidade educacional majoritariamente negra, mas insistíamos ainda em propostas metodológicas que não evidenciavam quem nós éramos: a nossa história de vida, a nossa ancestralidade, a nossa forma interseccionalizada de estar no mundo: mulheres, negras, trabalhadoras da área da educação pública destinada a crianças, em uma cidade do perímetro urbano próximo a Salvador. Foi a partir do projeto Dr. Djalma Ramos e seu amor por Riachão que nós começamos a repensar nossa prática e nos engajar na busca efetiva por uma nova (e, sobretudo, específica) forma de educar crianças negras e não negras.

O Centro Municipal de Educação Infantil Dr. Djalma Ramos foi inaugurado em março de 1994, durante a gestão do então governador do estado da Bahia, o Sr. Antônio Carlos Magalhães, sendo a presidente das Voluntárias Sociais da Bahia, no período, a Sra. Arlete Magalhães. O nome foi escolhido em homenagem ao grande médico obstetra baiano Dr. Djalma Ramos.

Em 2008, as conhecidas creches mantidas pelo governo do estado da Bahia foram municipalizadas e receberam a denominação de Centro de Educação Infantil (CMEI) e, assim, a referida instituição passou a ser chamada de CMEI Dr. Djalma Ramos, atendendo às diretrizes do Plano Nacional de Educação (PNE) (BRASIL, 2001), da Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) (BRASIL, 2006) e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) (BRASIL, 1996).

Durante o período de realização das práticas pedagógicas relatadas neste livro, a instituição atendia 130 crianças em turno integral, em idade de 0 a 5 anos, e contava com um quadro de 47 funcionários, composto por equipes diretiva, pedagógica e administrativa, sendo uma diretora, uma vice-diretora, uma secretária, uma coordenadora pedagógica, uma técnica administrativa, sete professoras e um professor, uma cozinheira e uma auxiliar de cozinha, seis colaboradoras na equipe de apoio, 16 auxiliares de classe, quatro cuidadoras, dois porteiros e dois vigilantes. A unidade possuía seis salas de aula, uma sala onde funciona a direção; uma sala onde funcionam, ao mesmo tempo, a coordenação pedagógica e a sala de professores, havendo ainda uma sala de apoio, onde aconteciam reuniões; além de um almoxarifado, uma área de serviço, um parque e um estacionamento.

No CMEI Dr. Djalma Ramos, à época, seis das professoras que atuavam em sala de aula foram contratados pelo Regime Especial de Direito Administrativo (Reda), cujo processo seletivo foi simplificado, e os demais profissionais que exercem outras funções no CMEI foram contratados por cooperativas do município e por uma empresa de estágio. As salas eram compostas por turmas com crianças nas seguintes faixas etárias: entre 6 e 11 meses (turma do berçário); crianças entre 1 e 2 anos (grupo 1); crianças entre 2 e 3 anos (grupo 2); crianças entre 3 e 4 anos (grupo 3); crianças entre 4 e 5 anos (pré I); crianças entre 5 e 6 anos (pré II). No ano de 2019, as professoras, a partir de observações, pesquisas e reflexões sobre educação antirracista, resolveram renomear as turmas com nomes de quilombos, guetos, aldeias e reinos. Alguns nomes surgiram em homenagem ao próprio município. A reorganização dos nomes das turmas ficou da seguinte forma: berçário, Quilombo

Caji12 13 14 ; grupo 1, Aldeia Thá-fene ; grupo 2, Gueto Soweto; grupo

3, Quilombo dos Palmares 15 16 ; pré I, Quilombo Quingoma; pré II,

Reino Wakanda 17.

Nas páginas a seguir, estruturadas em três capítulos sequenciais, discorrerei sobre três projetos que repensam como uma instituição pública, nesse caso, o CMEI Dr. Djalma Ramos, torna-se capaz de construir projetos voltados para a educação infantil de crianças negras e como tais práticas podem, por meio da sistematização de seus princípios metodológicos, contribuir para o debate ampliado sobre relações raciais e formação docente na educação infantil.

Os três relatos de experiência que apresentarei a seguir intencionam problematizar a construção de práticas curriculares de uma instituição de educação infantil, a partir de proposições teórico-metodológicas que consideram as relações étnico-raciais e de gênero. Para tanto, foi necessário um caminho metodológico múltiplo, apoiado em pesquisa documental (recolha e análise de registros de práticas curriculares desenvolvidas no CMEI Dr. Djalma Ramos); levantamento bibliográfico afim ao tema abordado; observação participante e etnoimplicada (MACEDO, 2013b; RIBEIRO, 2017); e, sobretudo, levar em consideração a própria experiência de escrever (EVARISTO, 2007; MACEDO, 2015), de narrar criticamente as experiências vividas. Assim, as experiências vividas em minha prática profissional como coordenadora pedagógica, atuando junto com professoras da educação infantil, constituíram-se, em si mesmas, uma parte fundamental da metodologia utilizada nesta pesquisa, que foi desenvolvida como percurso de formação para a obtenção de título de mestra no Programa de Mestrado Profissional em Ensino e Relações Étnico-Raciais da Universidade Federal do Sul da Bahia (PPGER/UFSB).

Se, na primeira parte do livro, pretendi tecer uma articulação orgânica entre minhas memórias e temas e teorias que considero estruturantes em projetos educacionais voltados para a infância negra, a partir de agora, todo o esforço narrativo caminha na direção do desejo de transmissão de saberes e princípios pedagógicos para a efetivação de uma educação antirracista com crianças pequenas.