Leia-me negras: insurgências afroafetivas na prática pedagógica
Introdução
Compreendo o chão da escola e as crianças como propulsores para ousar formular e debater proposições teórico-metodológicas voltadas para uma educação antirracista. Quando iniciei a escrita deste livro, não tinha ideia dos caminhos aos quais ele me levaria. A tentativa – afirmada em um Centro Municipal de Educação Infantil, o CMEI Dr. Djalma Ramos, situado no município baiano de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador – era a de rememorar e de celebrar práticas pedagógicas de uma dada territorialidade negra, construídas por mulheres educadoras negras.
Nos últimos sete anos, a proposta curricular do CMEI Dr. Djalma Ramos vem se tornando um modo exemplar de fazer educação antirracista, a partir da ação de um coletivo de mulheres negras educadoras, do qual faço parte, atuando como coordenadora pedagógica da instituição, desde 2013. As bases epistemológicas do trabalho desenvolvido pelo coletivo se fizeram amparadas e inspiradas em aquilombamentos diários, tal como nos lembra a historiadora e militante Maria Beatriz Nascimento (2018, p. 9, grifo da autora):
O quilombo é um avanço, é produzir ou reproduzir um momento de paz. Quilombo é um guerreiro quando precisa ser um guerreiro. E também é o recuo se a luta não é necessária. É uma sapiência, uma sabedoria. A continuidade de vida, o ato de criar um momento feliz, mesmo quando o inimigo é poderoso, e mesmo quando ele quer matar você. A resistência. Uma possibilidade nos dias de destruição.
Ser parte de um grupo de educadoras negras, que se aquilombam, é exercitar uma voz pessoal e ser muitas vozes, numa dinâmica fluída. É exercício de subjetivação, participação em um corpo coletivo capaz de falar e de inventar linguagens, conceitos e métodos. Dessa forma, as narrativas apresentadas ao longo deste livro serão, por vezes, autobiográficas, feitas em primeira pessoa do singular, sempre que eu fizer referência direta a minhas memórias de vida; e, outras vezes, serão feitas em primeira pessoa do plural, quando estiver em causa as descrições e interpretações de práticas pedagógicas concebidas, efetivadas e interpretadas pelo coletivo de educadoras negras do CMEI Dr. Djalma Ramos, no período de 2014 a 2018. Isso porque, ao longo deste livro, compreendi ser metodologicamente importante colocar lado a lado narrativas plurais, coletivas, resultantes do encontro de um grupo de professoras negras e episódios de minha própria infância como menina negra. Assim, este livro pode se tornar uma forma de afirmação dos aquilombamentos ancestrais. Nas páginas a seguir, estão descritas pertenças individuais e coletivas com as quais uma pesquisa no campo da Educação Antirracista foi realizada.
O processo pedagógico narrado neste livro aconteceu dialogicamente, amparado em uma perspectiva eu/nós, dentro da comunidade do CMEI Dr. Djalma Ramos. Esse processo, foi inspirado por e referenciado em pedagogias culturais, como a
Pretagogia1 (PETIT, 2015). Foi criada, assim, uma forma de ensinar e de aprender afro-brasileira e afroafetiva. As reflexões sobre os processos de ensinoaprendizagem que constam neste livro foram assentadas em uma cosmovisão africana, na qual o elemento norteador nasceu metodologicamente vinculado à mãe África (PETIT, 2015). Nesse sentido, neste livro, tomo o referencial teórico-metodológico para o Ensino da História e Cultura Africana e dos
Afrodescendentes, e, a Pretagogia, como nosso 2 arkhé fundante. Conjuntamente, as reflexões que compõem os dois capítulos dialogaram com itinerâncias formativas vivenciadas cotidianamente no CMEI Dr. Djalma Ramos. Por essa dupla via, houve o desejo de
garantir um 3 lugar de fala (RIBEIRO, 2017), não deixando que se
apagassem 4 escrevivências pessoais e coletivas (EVARISTO, 2007). Saliento que, neste trabalho, ao revisitar e narrar fragmentos de minha memória autobiográfica e da memória do coletivo de professoras negras do qual faço parte ainda hoje, foi possível criar caminhos de aproximação a narrativas de escritoras como Carolina Maria de Jesus (2006), Conceição Evaristo (2007), Lélia Gonzalez (1984), Sueli Carneiro (2003a, 2003b, 2005) e tantas outras mulheres negras que, conjuntamente, trazem em suas obras reflexões sobre luta, resistência, singularidades de existências e contribuições críticas para epistemologias afro-brasileiras.
Além disso, o que também dá sentido e amplia o alcance da pesquisa que relato neste livro é considerar que sujeitos educandos podem ser proponentes de currículo, que esses sujeitos, crianças, sentem e pensam o mundo e que suas perspectivas desafiam a que projetos escolares sejam repensados. Com base nisso, ao longo de minha pesquisa de mestrado, atrevi-me a atravessar fronteiras e limites sócio-históricos dados. Ao indagar metodologicamente como pode a infância negra ser feliz, voltei o olhar para as práticas curriculares efetivadas no interior do CMEI Dr. Djalma Ramos. Nesse sentido, investiguei de que forma tem sido possível construir propostas metodológicas para uma educação antirracista para nossas crianças e como, de que forma, têm sido operacionalizados e sistematizados esses conhecimentos e saberes nas práticas escolares de forma a pensar a infância racializada. Destaco que, neste livro, existe um compromisso social e político voltado para uma educação antirracista para bebês, crianças pequenas e crianças bem pequenas. Desejo contribuir com a elaboração de propostas metodológicas para o Ensino das Relações Raciais que deem conta de pensar questões ainda demasiadamente abertas e urgentes, a exemplo da promoção do Ensino das Relações Raciais como caminho para a eliminação do racismo, do preconceito e da discriminação na Educação Básica. Reafirmo, com firmeza, que é preciso romper com a ordem hegemônica curricular para a infância ou, então, as políticas genocidas e de abandono continuarão compondo um cenário único (uma história única) para a infância de crianças negras.
Por fim, uma ressalva sobre o modo como escrevi este livro. Por que escolhi escrever um livro que dá ênfase a pertenças individuais e coletivas, misturando modos de enunciação em sua estrutura textual? Essa foi uma pergunta que me foi feita entre idas e vindas no processo de revisão do livro. E, sendo bem sincera com aquelas e aqueles que lerão este livro, digo que assumir apenas o lugar de autoria e de trabalho individual seria negar uma longa trajetória de formação que se constituiu coletivamente, por meio de diálogos intermináveis com companheiras de trabalho e de vida. Então, foi desafiador, desde a escrita da dissertação de mestrado até a reescrita de preparação deste livro, achar um jeito de dizer de modo a deixar nítido que a minha escolha de escrita é aquela que vem carregada de muitas e múltiplas vozes, de histórias de vida, pessoais e coletivas, de diálogos com diversas mulheres que caminham comigo. Por tudo isso, cheguei ao título escolhido para este livro: "Leiame Negras". E ainda buscando respostas para a pergunta sobre as modalidades de escrita que manejo aqui, sinto que é importante não deixar de dizer que, neste relato de pesquisa sobre insurgências do pensamento preto e pedagogias afrocentradas, decidi fazer uso da palavra literária, além da palavra crítica. Mesmo que a palavra poética seja considerada a menos adequada e esperada em um trabalho técnicocientífico. Várias vezes ao longo das páginas que se seguem, às leitoras e aos leitores não passará desapercebido que neste livro faço variar modos de escrever, misturo modalidades de escrita, ficcionalizo criticamente minhas memórias, analiso tecnicamente conceitos e práticas pedagógicas, evoco as vozes de minhas colegas do CMEI Dr. Djalma Ramos, ao lado das vozes de inúmeras intelectuais negras cuja leitura das obras marcaram minha formação. Então, para ritmar a dança das palavras e seus mundos institucionalizados (a academia, a ciência, o saber pedagógico, o relato memorialístico, a literatura etc.), a cada mudança de tom (ou de gênero discursivo), introduzo um subtítulo ao texto, desejando demarcar, assim, fronteiras fluídas entre meus tantos e diversos modos de dizer, de pensar e de produzir sentidos para o vivido.