Liberdade

Jonathan Franzen · Capítulo 4 de 12 · parte 3/4

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Liberdade

3. A liberdade de mercado estimula a concorrência

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Naquele momento, a única pessoa que viu o erro foi Walter, que se considerava singularmente qualificado a detectar qualquer embromação nas relações entre seu amigo e as mulheres. Quando Richard lhe disse, pelo telefone, que tinha chegado a hora de deixar as infantilidades para trás e manter uma relação de verdade com uma mulher adulta, um alarme disparou na cabeça de Walter. A mulher era uma equatoriana chamada Ellie Posada. Estava com quase quarenta anos e tinha dois filhos cujo pai, um motorista de limusine, sofreu uma colisão fatal depois que seu carro enguiçou na Pulaski Skyway. (Não escapou à atenção de Patty que, embora Richard lidasse com muitas garotas mais jovens na hora de se divertir, as mulheres com quem no fim das contas teve relações mais duradouras eram sempre da mesma idade ou mais velhas que ele.) Ellie trabalhava para uma empresa de seguros e morava no mesmo andar que Richard. Por quase um ano, este manteve Walter informado de como os filhos dela, inesperadamente, tinham começado a se apegar a ele, e vice-versa, de como era bom chegar em casa e encontrar Ellie, de como as mulheres que não eram Ellie tinham se tornado desinteressantes, de como não comia tão bem nem se sentia tão saudável desde que tinha morado com Walter, e (o que fez o alarme de Walter tocar ainda mais alto) de como toda a indústria de seguros era na verdade fascinante. Walter comentou com Patty que tinha percebido algo de reveladoramente distraído, ou teórico, ou distante, no tom de voz de Richard ao longo de todo aquele ano supostamente feliz, e não ficou nem um pouco surpreso quando Richard afinal cedeu à sua natureza. As músicas que tinha começado a tocar com o Walnut Surprise se mostraram ainda mais fascinantes que a indústria dos seguros, as meninas magrelas que orbitavam seus jovens companheiros de conjunto se mostraram no fim das contas nem tão desprovidas de encantos, Ellie deixou claro que tinha uma concepção muito estrita dos tratos de exclusividade sexual e, em pouco tempo, ele já estava com medo de chegar à noite em casa, porque Ellie ficava de tocaia. Logo depois, Ellie mobilizou os demais moradores do prédio para darem queixa da ocupação sumária por parte de Richard de áreas comuns do condomínio, seu senhorio até então ausente lhe enviou cartas registradas em tom severo e Richard se viu sem teto, aos quarenta e quatro anos de idade, no meio do inverno, com cartões de crédito estourados e uma conta mensal de trezentos dólares para armazenar todas as porcarias que acumulava.

E então começou a melhor fase para Walter como irmão mais velho de Richard. Ofereceu ao amigo uma solução para deixar de pagar aluguel, dedicar-se a compor em sossego e ganhar um bom dinheiro enquanto reorganizava a vida. Walter herdara de Dorothy sua bela casinha à beira de um lago perto de Grand Rapids. Tinha planos de grandes reformas por dentro e por fora da casa que, depois de sair da 3M e ir trabalhar na Nature Conservancy, jamais encontraria tempo para executar ele mesmo, e propôs a Richard que fosse morar na casa, dando um impulso à reforma da cozinha e depois, quando a neve derretesse, construísse um deque de madeira atrás da casa, de frente para o lago. Pagaria a Richard trinta dólares por hora, além das contas de luz e aquecimento, e ele poderia trabalhar no horário e no ritmo que quisesse. E Richard, que estava em má situação, e que (como mais tarde disse a Patty, com uma sinceridade tocante) passara a considerar os Berglund a coisa mais próxima de família que tinha na vida, só precisou de um dia para pensar antes de aceitar a oferta. Para Walter, essa aceitação foi também uma agradável confirmação de que Richard realmente o amava. Para Patty, bem, a ocasião era um tanto perigosa.

Richard chegou com sua picape Toyota sobrecarregada para passar uma noite em St. Paul em sua viagem para o norte. Patty já estava adiantada em sua garrafa quando ele chegou, às três da tarde, e não cumpriu muito bem o papel de anfitriã. Walter cozinhou enquanto ela bebia pelos três. Era como se ele e ela só estivessem esperando a chegada do velho amigo para expor as versões conflitantes dos motivos pelos quais Joey, em vez de estar jantando com eles, preferia jogar hóquei de mesa com um boçal de direita na casa ao lado. Richard, abalado, saía toda hora da casa para fumar um cigarro e fortalecer-se para a cena seguinte de confronto à moda dos Berglund.

“Vai dar tudo certo”, dizia ele ao entrar. “Vocês são ótimos pais. É só que, sabe, quando um garoto tem personalidade muito forte, a constituição dele como indivíduo pode passar por muitos dramas. Essas coisas levam tempo.”

“Meu Deus”, disse Patty. “Desde quando você ficou tão sensato?”

“Richard é uma dessas pessoas excêntricas que ainda leem livros e pensam sobre as coisas”, disse Walter.

“Sei, ao contrário de mim, entendi.” Virou-se para Richard. “De vez em quando por acaso eu deixo de ler um dos livros que ele recomenda. Às vezes eu simplesmente resolvo—deixar de ler. Acho que o significado implícito aqui é esse. Meu intelecto abaixo da média.”

Richard a fitou com dureza. “Você podia beber um pouco menos”, disse ele.

E um soco no esterno teria produzido o mesmo efeito. Enquanto a censura de Walter alimentava ativamente seu mau comportamento, a de Richard teve o efeito de surpreendê-la em sua infantilidade, de trazer à luz o quanto ela se tornara pouco atraente.

“Patty está sofrendo muito”, disse Walter em voz baixa, como se quisesse lembrar a Richard que ainda era leal a Patty, embora ela não reconhecesse.

“Por mim você pode beber o quanto quiser”, disse Richard. “Só estou dizendo que, se quer o garoto de volta, isso podia ajudá-lo a superar o ressentimento.”

“Nem sei direito por que quero ele em casa a essa altura”, disse Walter. “Até que estou gostando dessa folga do desprezo dele.”

“Então, vamos ver”, disse Patty. “Temos Joey se constituindo como indivíduo, Walter que precisa de certo alívio, mas Patty fica como? O que sobra para ela? O vinho. Não é? Para Patty sobra o vinho.”

“Epa”, disse Richard. “Você está com pena de si mesma?”

“Pelo amor de Deus”, disse Walter.

Era terrível ver, pelos olhos de Richard, o que ela estava virando. De dois mil quilômetros de distância era fácil sorrir dos problemas amorosos de Richard, de sua adolescência infindável, de suas resoluções frustradas de deixar para trás seu lado infantil, e sentir que ali, em Ramsey Hill, levavam uma vida mais adulta. Mas agora ela estava na cozinha com ele—a altura dele, como sempre, uma surpresa que a deixava sem fôlego, seus traços kadafhianos temperados e aprofundados, seus densos cabelos escuros ficando lindamente grisalhos—e ele explicara num lampejo como ela conseguira continuar a ser uma criancinha egocêntrica isolando-se no interior de sua linda casa. Tinha fugido da infantilidade predominante em sua família e tinha se transformado ela própria num bebê. Não trabalhava, seus filhos eram mais adultos que ela, e quase nunca sequer praticava sexo. Estava com vergonha de ser vista por ele. Ao longo daqueles anos todos, tinha conservado como um tesouro as memórias da curta viagem de automóvel que fizera com ele, que mantinha cuidadosamente trancadas em algum lugar bem profundo dentro de si, onde deixava que envelhecessem como um vinho para que, de algum modo simbólico, o que poderia ter acontecido entre eles permanecesse vivo e envelhecesse com os dois. A natureza da possibilidade se alterava à medida que envelhecia em sua garrafa selada, mas não azedava, permanecia potencialmente bebível e reconfortante: o dissoluto Richard Katz certa vez a convidara para ir morar com ele em Nova York, e ela tinha recusado. E agora estava vendo que sua escolha não tinha dado muito certo. Tinha quarenta e dois anos e estava bebendo de ficar com o nariz vermelho.

Levantou-se com todo o cuidado, tentando não cambalear, e derramou no ralo o vinho de uma garrafa consumida pela metade. Pôs seu copo vazio na pia e disse que ia subir para descansar um pouco, e que os dois homens podiam jantar sem ela.

“Patty”, disse Walter.

“Estou bem. Está tudo bem. Só bebi um pouco demais. Pode ser que mais tarde eu desça de novo. Desculpe, Richard. Adorei ver você. É que eu ando meio alterada.”

Embora ela adorasse a casa do lago, e fizesse retiros solitários de semanas cada vez que ia, não esteve lá nenhuma vez durante a primavera que Richard passou fazendo as reformas. Walter deu um jeito de ir até lá vários fins de semana prolongados e ajudar, mas Patty estava envergonhada demais. Ficou em casa e recuperou a forma: aceitou o conselho de Richard em relação à bebida, recomeçou a correr e a comer, ganhou peso para preencher as rugas mais tristes que vinham se aprofundando em seu rosto, e no geral tomou conhecimento das verdades acerca da sua aparência física que vinha ignorando no seu mundo de fantasia. Um motivo que a fizera resistir a qualquer tipo de atitude cosmética era que sua detestável vizinha Carol Monaghan tinha renovado totalmente a aparência no momento em que seu detestável brinquedo da hora, o jovem Blake, entrou em cena. Qualquer coisa que Carol fizesse era sem dúvida anátema para Patty, mas ela se humilhou e seguiu o exemplo de Carol. Abandonou o rabo de cavalo, tingiu o cabelo, pediu um corte mais adequado à sua idade. Fez um esforço para estreitar o convívio com as antigas companheiras do basquete, e elas a recompensaram dizendo que ela estava muito mais bonita.

Richard pretendia voltar para a Costa Leste no final de maio, mas, sendo Richard, ainda estava construindo o deque em meados de junho, quando Patty decidiu passar algumas semanas no campo. Walter foi junto com ela nos primeiros quatro dias, e depois seguiu para uma pescaria de vários dias, para sacudir a árvore de dinheiro com alguns convidados vips, que um dos maiores doadores da Nature Conservancy estava organizando em seu “acampamento” de luxo em Saskatchewan. Para compensar sua péssima atuação no inverno, Patty foi um vendaval de hospitalidade na casa do lago, preparando refeições maravilhosas para Walter e Richard enquanto eles martelavam e serravam nos fundos da casa. Permaneceu sóbria, com grande orgulho, o tempo todo. À noite, sem Joey na casa, ela não se interessava pela televisão. Instalava-se na poltrona predileta de Dorothy, lendo Guerra e paz em atenção a uma recomendação que Walter lhe fizera havia séculos, enquanto os homens se dedicavam ao xadrez. Para sorte de todos os envolvidos, Walter jogava melhor que Richard e geralmente ganhava, mas Richard era teimoso e vivia pedindo mais uma revanche, e Patty sabia o que o esforço custava a Walter—ele precisava se concentrar muito para ganhar, e ficava agitado, necessitando de horas para adormecer em seguida.

“Pronto, lá vem você de novo com essa merda de atravancar o meio do tabuleiro com as peças”, disse Richard. “Você vive entulhando o meio do tabuleiro. Eu detesto esse jeito de jogar.”

“Eu sou o rei do atravancamento”, afirmou Walter quase sem fôlego devido à supressão de sua satisfação competitiva.

“E isso me deixa louco.”

“Bem, porque funciona”, disse Walter.

“Só funciona porque eu não tenho disciplina mental suficiente para fazer você pagar caro.”

“Você joga de um modo muito interessante. Eu nunca sei o que vai fazer.”

“Pois é, e perco todas.”

Os dias eram ensolarados e compridos, as noites, assustadoramente frias. Patty adorava o início do verão no norte, que a fazia lembrar os primeiros dias em Hibbing com Walter. O ar fresco e a terra úmida, o cheiro das coníferas, o alvorecer de sua vida. Sentia que nunca tinha sido mais jovem que aos vinte e um anos. Era como se sua infância em Westchester, embora cronologicamente anterior, tivesse de algum modo ocorrido numa época posterior e mais decaída. Dentro da casa pairava um aroma fraco e agradável de mofo que lembrava Dorothy. Do lado de fora ficava o lago que Joey e Patty tinham decidido batizar de Sem Nome, com as águas recém-descongeladas, escuro com a casca e as agulhas de pinheiro, refletindo o dia ensolarado e as nuvens claras do bom tempo. No verão, as árvores decíduas escondiam a única outra casa, que uma família chamada Lundner usava nos fins de semana e no mês de agosto. Entre a casa dos Berglund e o lago ficava uma colina relvada em que cresciam algumas bétulas, e quando o sol ou uma brisa expulsava os mosquitos, Patty podia ficar deitada na relva lendo um livro por várias horas, sentindo-se completamente à parte do mundo, salvo por um ou outro raro avião cortando o céu e carros ainda mais raros que percorriam a estrada vicinal de terra.

Na véspera da partida de Walter para Saskatchewan, o coração de Patty começou a bater mais depressa. Era só o coração dela se manifestando, aquela aceleração. Na manhã seguinte, depois de levar Walter de carro até o campo de pouso em Grand Rapids e voltar para casa, o coração batia tanto que um ovo escorregou da mão dela e caiu no chão enquanto ela preparava massa de panqueca. Ela apoiou as mãos no balcão e respirou fundo várias vezes antes de se ajoelhar para limpar o chão da cozinha. O acabamento da reforma da cozinha esperaria por Walter em algum outro momento, mas o rejunte do novo piso estava ao alcance da capacidade de Richard, que entretanto ainda não chegara a esse ponto de seu trabalho. Em compensação, contou ao casal, aprendera a tocar banjo sozinho.

Embora o sol já tivesse saído havia quatro horas, ainda era relativamente cedo quando ele emergiu de seu quarto de jeans e uma camiseta anunciando seu apoio ao subcomandante Marcos e à libertação de Chiapas.

“Panquecas de trigo-sarraceno?”, perguntou Patty em tom animado.

“Ótima ideia.”

“Se você preferir, posso fazer ovos fritos.”

“Adoro panqueca.”

“E também posso preparar um pouco de bacon.”

“Bacon eu nunca recuso.”

“Está bem. Então panquecas e bacon.”

Se o coração de Richard também estava disparado, ele não dava sinal. Ela ficou de pé, assistindo enquanto ele separava duas pilhas de panquecas, segurando o garfo da maneira civilizada que ela por acaso sabia ter-lhe sido ensinado por Walter no primeiro ano da faculdade.

“O que você está pensando em fazer mais tarde?”, perguntou ele, com um interesse de baixo a moderado.

“Não sei. Não pensei em nada. Nada! Estou de férias. Acho que não vou fazer nada hoje de manhã, e depois preparar um almoço para nós.”

Ele assentiu com a cabeça e começou a comer, e ocorreu a Patty que ela era uma pessoa dada a fantasias basicamente sem qualquer relação com a realidade. Foi até o banheiro e sentou-se na tampa fechada da privada, o coração disparado, até escutar Richard saindo e começando a carregar madeira. Existe uma tristeza ocasional nos primeiros sons do trabalho alheio pela manhã; é como se o silêncio experimentasse uma certa dor ao ser quebrado. O primeiro minuto do dia de trabalho nos lembra todos os outros minutos de que um dia é composto, e nunca é bom pensar em cada minuto individualmente. Só depois que outros minutos se acumularam por cima do primeiro minuto, nu e solitário, o dia se integra de maneira mais segura ao seu transcurso. Patty esperou, e só depois disso saiu do banheiro.

Levou Guerra e paz para a encosta relvada, com a antiga e vaga motivação de impressionar Richard com sua cultura, mas atolou numa passagem militar e leu e releu a mesma página inúmeras vezes. Um passarinho melodioso, cuja família Walter desistira de lhe ensinar, virenídeos ou virionídeos, acostumou-se com a presença dela e começou a cantar numa árvore bem acima dela. Seu canto parecia uma ideia fixa que ele não conseguia tirar de sua cabeça miúda.

Como ela se sentia: como se um grupo implacável e bem organizado de combatentes da resistência tivesse se reunido à sombra das partes mais obscuras da sua mente, de maneira que agora era imperativo ela não permitir que a luz dos holofotes de sua consciência chegasse nem perto deles, por um segundo que fosse. Seu amor por Walter e sua lealdade a ele, seu desejo de ser uma pessoa de bem, sua compreensão da rivalidade da vida toda entre Walter e Richard, sua avaliação equilibrada do caráter de Richard, e a simples cagada geral sob todos os pontos de vista que dormir com o melhor amigo do cônjuge sempre representa: essas considerações de ordem superior se mostravam prontas a aniquilar os combatentes das sombras. E por isso ela precisava manter as forças da consciência plenamente distraídas. Não podia nem mesmo se permitir pensar na roupa que devia usar—precisava desviar num instante a ideia de vestir uma camiseta sem mangas que valorizava especialmente seus atributos antes de levar um café com biscoitos para Richard no meio da manhã, precisava expulsar aquele pensamento de dentro de si na mesma hora—porque o menor sinal de sedução iria atrair o facho do holofote, e o espetáculo iluminado por ele seria revoltante, vergonhoso e patético. Mesmo que Richard não ficasse enojado, ela própria ficaria. E se Richard percebesse alguma coisa e decidisse dizer a ela o que pensava daquilo, como tinha falado da bebida: desastre, humilhação, o pior.

A pulsação dela, entretanto, sabia—lhe avisava com aquele ritmo acelerado —que era provável que ela nunca mais tivesse oportunidade igual. Não antes de estar totalmente acabada fisicamente. Sua pulsação registrava a aguçada percepção oculta de que o acampamento de pesca em Saskatchewan só era acessível por hidroavião, rádio ou telefone de satélite, e que Walter não iria ligar para ela nos cinco dias seguintes, a menos que houvesse alguma emergência.

Deixou o almoço de Richard na mesa e levou o carro até a cidadezinha mais próxima, Fen City. Percebeu como seria fácil sofrer um acidente, e perdeu-se a tal ponto imaginando-se morta e Walter soluçando junto a seu corpo mutilado, sendo estoicamente consolado por Richard, que quase passou direto pela placa de Pare na entrada de Fen City: ouviu de longe seus pneus cantando.

Era só na cabeça dela, tudo era só na cabeça dela! A única coisa que lhe dava alguma esperança era a competência com que vinha conseguindo esconder seu tumulto interior. Tinha estado talvez um pouco distraída e assustadiça nos últimos quatro dias, mas se comportava infinitamente melhor que em fevereiro. E se ela própria conseguia manter encobertas suas forças ocultas, era bem possível que Richard tivesse forças ocultas correspondentes que vinha encobrindo com uma competência equivalente. Mas isso era apenas um fiapo de esperança; era assim que os loucos se perdiam em fantasias lógicas.

Postou-se em frente à modesta seleção de cervejas nacionais da Cooperativa de Fen City, Miller, Coors e Budweiser, e tentou se decidir. Sopesou um pacote de seis latas, como se pudesse avaliar de antemão, através do alumínio das latas, como iria se sentir se as tomasse. Richard lhe tinha dito que devia beber menos; bêbada, ela lhe parecera feia. Ela devolveu a cerveja à prateleira e forçou-se a procurar áreas menos atraentes da loja, mas era difícil planejar o que fazer à noite com vontade de vomitar. Voltou para as prateleiras de cerveja como um passarinho que repete seu canto. As diversas latas tinham decorações diferentes, mas continham todas a mesma cerveja fraca de baixa qualidade. Ocorreu-lhe ir até Grand Rapids e comprar vinho de verdade. Ocorreu-lhe voltar para casa sem comprar nada. Mas aí onde ela ficava? Um cansaço se instalou enquanto ela vacilava diante das prateleiras: uma premonição de que nenhum dos desdobramentos possíveis da situação lhe traria alívio ou prazer suficiente para justificar toda aquela confusão de coração disparado. Patty percebeu, noutras palavras, o que significava ser uma pessoa profundamente infeliz. Ainda assim, hoje a autobiógrafa ainda inveja e sente pena da jovem Patty ali de pé diante das prateleiras, acreditando, inocente, que tinha chegado ao fundo do poço: que, de um modo ou de outro, aquela crise estaria resolvida dali a cinco dias.

Uma adolescente gordinha na caixa registradora tinha se interessado por sua paralisia. Patty lhe dirigiu um sorriso enlouquecido, pegou um frango embalado em plástico, cinco batatas feias e alguns humildes e murchos talos de alho-poró. A única coisa pior do que viver naquela ansiedade sem beber, concluiu ela, seria encher a cara e continuar vivendo naquela ansiedade.

“Vou assar um frango para nós dois”, disse a Richard quando chegou em casa.

Havia salpicos de serragem em seu cabelo, nos cílios e grudados à sua testa larga e suada. “Muita gentileza sua”, disse ele.

“O deque está ficando uma beleza”, disse ela. “A casa vai melhorar muito. Quanto tempo você acha que ainda vai levar?”

“Só mais uns dias, talvez.”

“Sabe, eu e Walter podemos acabar depois, se você estiver querendo voltar para Nova York. Eu sei que a esta altura você já planejava estar de volta.”

“É bom levar um trabalho até o fim”, disse ele. “Só faltam uns dias. Ou você está querendo ficar aqui sozinha?”

“Se eu quero ficar aqui sozinha?”

“Bem, eu faço muito barulho.”

“Ah, não, eu gosto do barulho de construção. É muito reconfortante.”

“Se não for o dos seus vizinhos.”

“Bem, eu detesto esses vizinhos, então é diferente.”

“Certo.”

“Acho que vou começar a preparar o frango.”

Ela deve ter revelado alguma coisa no modo como disse estas últimas palavras, porque Richard franziu um pouco a testa. “Tudo bem?”

“Não não não”, disse ela. “Eu adoro este lugar aqui. Adoro. É o meu lugar favorito do mundo todo. Não resolve nada, você sabe. Mas eu adoro acordar de manhã aqui. Adoro o cheiro do ar.”

“Estou perguntando se está tudo bem de eu ficar.”

“Ah, sem dúvida. Meu Deus. Claro. Sem a menor dúvida. Claro! Você sabe que Walter adora você. Eu tenho a impressão de ser sua amiga há muito tempo, mas quase nunca conversei com você. É uma boa oportunidade. Mas você não precisa achar que precisa ficar, se quiser voltar para Nova York. Estou acostumada a ficar sozinha aqui. Sem o menor problema.”

Uma fala a cujo fim ela parece ter levado muitíssimo tempo para chegar. Seguida por um breve silêncio entre eles.

“Só estou tentando entender o que você está me dizendo”, disse Richard. “Se você quer que eu fique ou não.”

“Meu Deus”, disse ela. “É o que eu já disse várias vezes, não foi? Não é o que eu acabei de dizer?”

Ela viu a paciência dele com ela, a paciência dele com essa mulher, chegar ao fim. Ele levantou os olhos para o céu e pegou um caibro. “Vou terminar essa parte aqui e depois vou dar um mergulho.”

“Vai estar frio.”

“Cada dia um pouco menos.”

De volta a casa, ela sentiu um espasmo de inveja de Walter, que podia dizer a Richard que o amava, e em troca não queria nada de desestabilizador, nada além de ser amado em troca. Como era fácil para os homens! Em comparação, ela se sentia uma aranha sedentária e inchada, tecendo sua teia seca ano após ano, só à espera. Entendeu de repente como as garotas de muitos anos antes se sentiam, as estudantes da faculdade que invejavam a liberdade de Walter com Richard e ficavam irritadas com o incômodo da sua presença. Por um momento, viu Walter com os olhos de Eliza.

Talvez eu precise fazer isso, talvez eu precise fazer isso, talvez eu precise fazer isso, dizia-se enquanto lavava o frango, garantindo a si mesma que não era o que queria dizer. Ouviu o som de um mergulho e ficou vendo Richard nadar em meio às sombras das árvores até o lugar onde a água ainda cintilava sob a luz do sol da tarde. Se ele realmente detestava a luz do sol, como dizia em sua velha canção, o norte de Minnesota no mês de junho era um lugar inóspito. Os dias duravam tanto que você ficava surpreso ao ver que o sol não ficava sem combustível quando finalmente entardecia. E ardia sem parar. Ela se entregou a um impulso de apalpar-se entre as pernas, de experimentar a água, só pelo choque, em vez de mergulhar no lago ela também. Estou viva? Possuo um corpo?

Cortou as batatas em ângulos muito estranhos. Lembravam um quebra-cabeça geométrico.

Richard, depois de um banho, entrou na cozinha com uma camiseta sem inscrição que devia ter sido de um vermelho vivo décadas antes. Seus cabelos estavam temporariamente domados, de um preto reluzente juvenil.

“Você mudou muito a aparência durante o inverno”, disse ele a Patty.

“Não.”

“Como assim, ‘não’? O cabelo está diferente, você está ótima.”

“Quase não mudei nada. Só um pouquinho.”

“E—será que não ganhou algum peso?”

“Não. Bem. Um pouco.”

“Fica bem em você. Estava magra demais.”

“Está procurando algum modo gentil de me dizer que estou gorda?”

Ele fechou os olhos e fez uma careta, como se precisasse de um esforço para conservar a paciência. Então abriu os olhos e perguntou, “De onde está vindo toda essa conversa fiada?”.

“Ah?”

“Você quer que eu vá embora? É isso? Você está com esse jeito meio falso que me dá a impressão de que não está se sentindo à vontade comigo aqui.”

O frango assado tinha o cheiro das coisas que ela costumava comer. Ela lavou e enxugou as mãos, vasculhou o fundo de um armário inacabado e encontrou uma garrafa de xerez de cozinha coberto de poeira da construção. Encheu um copinho e sentou-se à mesa. “Está bem. Sinceramente? Fico um pouco nervosa perto de você.”

“Não precisa.”

“Não tenho como controlar.”

“Mas não tem nenhum motivo.”

Exatamente o que ela não queria ouvir. “Vou tomar só esse copinho”, disse ela.

“Você está me confundindo com alguém que se incomoda com o quanto você bebe.”

Ela assentiu com a cabeça. “Ótimo. Perfeito. É bom saber disso.”

“Você estava com vontade de beber esse tempo todo? Deus do céu. Beba logo.”

“É o que estou fazendo.”

“Sabe, você é uma pessoa muito estranha. O que deve entender como um elogio.”

“Entendi.”

“Walter teve muita, muita sorte.”

“Ah, bem, é esse o problema, não é. Não sei mais se é assim que ele vê.”

“Ah, é sim. Pode acreditar que sim.”

Ela abanou a cabeça. “Eu ia dizer que não acho que ele goste do que eu tenho de estranho. Ele gosta do que é estranho e bom, isso eu sei, mas não fica muito feliz com o que é estranho e mau, e ultimamente eu tenho sido mais estranha e má. Eu ia dizer que achava irônico que você, que não se incomoda com o que é estranho e mau, não seja a pessoa com quem eu me casei.”

“Você não ia gostar de ser casada comigo.”

“Não, tenho certeza de que ia detestar. Eu sei das histórias.”

“Fico chateado, embora não surpreso.”

“Walter me conta tudo.”

“Imagino que sim.”

No lago, um pato grasnou alguma coisa. Marrecos tinham feito ninhos nos caniços da margem oposta.

“Walter lhe contou que eu rasguei os pneus de inverno do carro de Blake?”, perguntou Patty.

Richard ergueu as sobrancelhas, e ela lhe contou a história.

“Que puta maluquice”, disse ele com admiração, quando ela terminou.

“Eu sei. Não é mesmo?”

“E Walter sabe disso?”

“Hum. Boa pergunta.”

“Pelo que estou vendo, você não conta tudo a ele.”

“Ah, meu Deus, Richard, eu não conto nada a ele.”

“Mas eu acho que podia contar. E talvez descubra que ele sabe bem mais do que você pensa.”

Ela respirou fundo e perguntou que coisas secretas Walter sabia a respeito dela.

“Ele sabe que você está infeliz”, disse Richard.

“Mas para isso não precisa de grande agudeza de percepção. Que mais?”

“Sabe que você acha que é culpa dele o fato de Joey ter saído de casa.”

“Ah, essa história”, disse ela. “Isso eu mais ou menos disse a ele. E não conta.”

“Está bom. Então por que você não me conta. Você rasga os pneus dos vizinhos e ele não sabe; e que mais ele não sabe?”

Quando Patty refletiu sobre essa pergunta, só conseguiu ver o imenso vazio de sua vida, o vazio de seu ninho, a falta de sentido da sua existência agora que seus filhotes tinham batido as asas. O xerez a deixou triste. “Por que você não canta para mim enquanto eu ponho o jantar na mesa? Canta?”

“Não sei”, respondeu Richard. “Acho um pouco esquisito.”

“Por quê?”

“Não sei. Só acho.”

“Você é cantor. É isso que você faz. Cantar.”

“Acho que nunca senti que você gostasse muito das coisas que eu canto.”

“Cante ‘O lado oculto do bar’. Essa eu adoro.”

Ele suspirou, baixou a cabeça, cruzou os braços e deu a impressão de que tinha adormecido.

“O que foi?”, perguntou ela.

“Acho que vou embora amanhã, se você não se incomodar.”

“Está bem.”

“Não faltam mais que dois dias de trabalho. Já dá para usar o deque.”

“Está bem.” Ela se levantou e pousou o copo de xerez na pia. “Mas posso perguntar por quê? Quer dizer, é um prazer ter você aqui.”

“Só acho melhor eu ir embora.”

“Está bem. O que for melhor. Acho que o frango ainda vai levar uns dez minutos, se você quiser pôr a mesa para nós.”

Ele não se mexeu.

“Foi Molly quem fez a letra”, disse ele, depois de algum tempo. “E eu não tinha nada que gravar. Foi uma babaquice minha. Uma babaquice consciente e calculada da minha parte.”

“Ela é bem triste, mas bonita. O que você ia fazer? Deixar de lado?”

“Acho que sim. Deixar de lado. Teria sido bem melhor.”

“Sinto muito por vocês dois. Vocês ficaram muito tempo juntos.”

“Ficamos e não ficamos.”

“É, eu sei, mas mesmo assim.”

Ele ficou sentado, cismando, enquanto ela punha a mesa, temperava a salada e cortava o frango. Patty achou que estava sem a menor fome, mas depois de experimentar o frango lembrou que não tinha comido nada desde a noite anterior, e que seu dia havia começado às cinco da manhã. Richard também comeu, em silêncio. A certa altura, o silêncio dos dois se tornou patente e enervante e, pouco depois, exaustivo e desanimador. Ela tirou a mesa, separou os restos, lavou os pratos e viu que Richard tinha ido até a pequena varanda protegida de tela para fumar um cigarro. O sol tinha finalmente desaparecido, mas o céu ainda estava claro. Sim, pensou ela, era melhor que ele fosse embora. Melhor, melhor, melhor.

Foi até a varanda. “Acho que vou para a cama ler um pouco”, disse ela.

Richard assentiu com a cabeça. “Boa ideia. Até amanhã.”

“As tardes aqui são tão longas”, disse ela. “Até parece que a luz não quer morrer.”

“O tempo que eu passei aqui foi ótimo. Vocês dois são muito generosos.”

“Ah, foi tudo ideia de Walter. Na verdade não me ocorreu oferecer a casa para você.”

“Ele confia em você”, disse Richard. “Se você confiar nele, tudo vai dar certo.”

“Bem, pode ser que sim, mas também pode ser que não.”

“Você não quer ficar com ele?”

Era uma boa pergunta.

“Não quero perdê-lo”, disse ela, “se é isso que você quer saber. Não passo o tempo todo pensando que vou deixar Walter. Fico contando os dias até Joey finalmente ficar de saco cheio dos Monaghan. Ele ainda tem um ano inteiro de escola pela frente.”

“Não sei exatamente o que você quer dizer com isso.”

“Só que eu ainda sou muito ligada à minha família.”

“Faz muito bem. Sua família é ótima.”

“Então está bom. Até amanhã.”

“Patty.” Ele apagou o cigarro na tigela dinamarquesa comemorativa do Natal de Dorothy que estava usando como cinzeiro. “Não vou ser a pessoa que vai arruinar o casamento do meu melhor amigo.”

“Não! Meu Deus! Claro que não!” Ela estava quase chorando de decepção. “Quer dizer, Richard, claro, sinto muito, mas o que foi que eu disse? Disse que ia me deitar e que via você de novo amanhã cedo. Foi só isso! Disse que gosto da minha família. Foi exatamente o que eu disse.”

Ele a fitou com um ar impaciente e cético.

“Estou falando sério!”

“Está bem, vá lá”, disse ele. “Eu não quis tirar nenhuma conclusão precipitada. Só estava tentando entender de onde vem toda essa tensão. Talvez você lembre que já tivemos uma conversa como esta.”

“Lembro bem, sim.”

“Então achei melhor tocar no assunto do que não tocar no assunto.”

“Está certo. E eu fico agradecida. Você é um ótimo amigo. E não precisa achar que deve ir embora amanhã por minha causa. Não tem motivo para ficar com medo. Não tem motivo para fugir.”

“Mas acho que mesmo assim eu vou embora.”

“Está certo.”

E ela foi se deitar na cama de Dorothy, que Richard tinha usado até que ela e Walter chegaram e o expulsaram dela. O ar fresco entrava dos lugares onde tinha se escondido ao longo do dia interminável, mas uma luz crepuscular azulada persistia em todas as janelas. Era uma luz de sonho, uma luz de insânia, que se recusava a desaparecer. Ela acendeu o abajur para atenuá-la. Os combatentes clandestinos tinham sido descobertos! O plano fora descoberto! Ficou deitada com seu pijama de flanela e repassou cada coisa que tinha dito nas últimas horas, e ficou pasma com quase tudo. Ouviu a melodiosa ressonância da privada enquanto Richard esvaziava a bexiga, depois a descarga, o correr melodioso da água pelo encanamento, e a bomba de água trabalhando por pouco tempo num tom mais grave. Para se ver livre de si própria, pegou Guerra e paz e ficou lendo por muito tempo.

A autobiógrafa não sabe dizer se as coisas teriam tomado um rumo diferente caso ela não tivesse chegado justamente às páginas em que Natacha Rostova, obviamente destinada ao aparvalhado e bom Pierre, se apaixona pelo grande amigo deste, o elegante príncipe Andrei. Patty foi surpreendida. A perda de Pierre se apresentava, enquanto ela lia, como uma calamidade em câmera lenta. É provável que as coisas não tivessem ocorrido de maneira diversa, mas o efeito que essas páginas tiveram sobre ela, sua pertinência, foi quase psicodélico. Ficou lendo até depois da meia-noite, agora interessada inclusive pelas passagens militares, e ficou aliviada ao ver, quando apagou a luz, que o crepúsculo finalmente acabara.

Em seu sono, em alguma hora silenciosa e muito escura depois disso, ela se levantou da cama, enveredou pelo corredor e depois pelo quarto de Richard, entrando na cama com ele. O quarto estava frio, e ela se aninhou junto a ele.

“Patty”, disse ele.

Mas ela estava dormindo e abanou a cabeça, resistindo ao despertar, e não se podia dizer nada contra ela, pois estava muito determinada em seu sono. Virou-se para o outro lado por cima dele, tentando maximizar o contato entre eles, sentindo-se com tamanho suficiente para cobri-lo por completo, apertando seu rosto contra a cabeça dele.

“Patty.”

“Hum.”

“Se você estiver dormindo, precisa acordar.”

“Não, estou dormindo... Estou dormindo. Não me acorde.”

O pênis de Richard ameaçava pular para fora da cueca. Ela esfregou a barriga nele.

“Sinto muito”, disse ele, encolhendo-se para longe dela. “Você precisa acordar.”

“Não, não me acorde. Só quero que trepe comigo.”

“Ah, meu Deus.” Ele tentou afastar-se mais dela, mas ela o seguiu como uma ameba. Ele a segurou pelos pulsos para mantê-la à distância. “Pessoas que não estão conscientes: acredite ou não, esse limite eu não ultrapasso.”

“Hum”, disse ela, desabotoando o pijama. “Estamos os dois dormindo. Nós dois estamos tendo ótimos sonhos.”

“Pode ser, mas de manhã todo mundo acorda, e se lembra do que sonhou.”

“Mas se for só um sonho... estou sonhando. Vou adormecer de novo. Você também, volte a dormir. E adormeça. Nós dois vamos estar dormindo... e aí eu vou ter ido embora.”

O fato de ela ter sido capaz de dizer tudo isso, e não só dizer mas lembrar com toda a clareza mais tarde, sem dúvida lança uma grande dúvida sobre a autenticidade de seu estado de adormecimento. Mas a autobiógrafa afirma terminantemente que não estava acordada no momento em que traiu Walter e sentiu o amigo dele fendê-la em duas. Talvez tenha sido a maneira como ela imitou o avestruz da fábula e manteve seus olhos bem fechados, ou talvez o fato de não ter retido nenhuma memória de um prazer específico, só de uma consciência abstrata do fato que tinha acontecido, mas se ela se entregar a uma experiência da imaginação e pensar num telefone tocando no meio da noite, o estado a que imagina ter sido levada pelo choque é de vigília, do que decorre logicamente que, na ausência de qualquer telefone que tenha tocado, o estado em que estava era de um sono profundo.

Só depois que o fato aconteceu é que ela despertou, um tanto alarmada, lembrou-se de quem era e obrigou-se a retornar depressa para a sua cama. Assim que ela voltou à consciência, havia luz nas janelas. Ouviu Richard levantar-se e urinar no banheiro. Esforçou-se para decifrar os sons que ele produzia—se estava arrumando a bagagem na caminhonete ou retomando o trabalho. Parecia que estava começando a trabalhar! Quando ela finalmente conseguiu reunir a coragem de sair de seu esconderijo, encontrou-o ajoelhado ao lado da casa, separando uma pilha de restos de madeira. O sol estava no céu, mas ainda era um disco fosco cercado de nuvens. A mudança do tempo arrepiava a superfície do lago. Sem o efeito ofuscante de luz e sombra, a mata parecia menos densa e mais vazia.

“Oi, bom dia”, disse Patty.

“Bom dia”, respondeu Richard, sem erguer os olhos para ela.

“Já tomou café? Que tal comer alguma coisa? Quer que eu faça uns ovos?”

“Tomei um pouco de café, obrigado.”

“Eu faço os ovos.”

Ele se levantou, pôs as mãos nos quadris e passou em revista a madeira que estava arrumando, ainda sem olhar para ela. “Estou deixando tudo arrumado, para Walter saber o que sobrou aqui.”

“Está certo.”

“Vou precisar de umas horas para arrumar tudo. Você pode ir cuidar das suas coisas.”

“Está bem. Não precisa de ajuda?”

Ele abanou a cabeça.

“E tem certeza que não quer comer nada?”

Dessa vez ele não deu nenhuma resposta.

Passou pela cabeça dela, com uma curiosa nitidez, uma lista de nomes em PowerPoint em ordem descendente da bondade do respectivo portador, encabeçada naturalmente por Walter, seguido de perto por Jessica e a uma distância um pouco maior por Joey e Richard, e bem depois, no fundo do subsolo, num solitário último lugar, o feio nome dela.

Tomou café no quarto e ficou sentada ouvindo os sons do trabalho de Richard, o chacoalhar de pregos sendo encaixotados, o troar das caixas de ferramentas. Mais tarde ela se arriscou fora do quarto para perguntar se ele não podia pelo menos ficar e comer alguma coisa antes de ir embora. Ele assentiu, embora com ar de poucos amigos. Ela estava assustada demais para chorar, e foi cozinhar ovos para fazer uma salada. O plano, a esperança ou fantasia dela, até onde se permitia ter consciência de qualquer coisa do tipo, era que Richard se esquecesse de sua intenção de ir embora aquele dia, e que ela tornasse a ter uma crise de sonambulismo na noite seguinte, e que tudo estaria novamente agradável e calado no outro dia, e depois mais um pouco de sonambulismo, e depois outro dia agradável, depois do qual Richard carregaria sua caminhonete e voltaria para Nova York, e muito mais tarde na vida ela recordaria os sonhos incrivelmente intensos que tivera nessas noites à beira do lago Sem Nome, perguntando-se em plena segurança se alguma coisa de fato acontecera. Mas esse plano (ou esperança, ou fantasia) anterior se reduzira a frangalhos. Seu novo plano exigia que ela fizesse um imenso esforço para esquecer a noite anterior e fingir que nunca tinha acontecido.

Uma coisa que se pode dizer com segurança que o novo plano não previa era deixar o almoço inacabado na mesa e depois achar seus jeans no chão e a parte de baixo de seu biquíni penosamente forçada para um lado enquanto eles trepavam, ela em êxtase, apoiados na parede revestida de um papel inocente na antiga sala de Dorothy, em plena luz do dia e tão despertos quanto possível. Não deixaram marca nenhuma na parede, mas ainda assim o local permaneceu claramente assinalado e distinto para todo o sempre. Era uma das pequenas coordenadas do universo permanentemente carregado e alterado por sua história. Tornou-se, aquele local, uma terceira presença silenciosa na sala, com ela e Walter nos fins de semana que passariam lá a sós. Pareceu a ela, de qualquer maneira, a primeira vez na vida que praticara sexo da maneira certa. Uma verdadeira novidade, por assim dizer. E a partir daí ela estava frita, embora tenha levado algum tempo para perceber.

“Bom, então está certo”, disse ela, sentada no chão com a cabeça apoiada no ponto onde antes se encontrava a sua bunda. “Foi muito interessante.”

Richard tinha vestido as calças e caminhava de um lado para o outro a esmo. “Vou acender um cigarro dentro da casa, se você não se importa.”

“Acho que as circunstâncias justificam uma exceção.”

O dia tinha ficado totalmente encoberto, com um vento frio que entrava pela tela de janelas e portas. Todos os passarinhos tinham parado de cantar, e o lago parecia deserto. A natureza esperando que o frio passasse.

“Por que você está de biquíni, pode explicar?”, perguntou Richard, acendendo um cigarro.

Patty riu. “Pensei em nadar um pouco depois que você fosse embora.”

“Está muito frio.”

“Bom, evidentemente, não vou nadar até longe.”

“Só um pouco de mortificação da carne.”

“Exatamente.”

O vento frio e a fumaça do Camel de Richard se misturavam como a alegria e o remorso. Patty começou de novo a rir sem motivo e depois encontrou uma coisa engraçada para dizer.

“Você pode jogar xadrez mal”, disse ela, “mas sem dúvida no outro jogo você é muito melhor.”

“Para de falar merda”, disse Richard.

Ela não conseguiu avaliar ao certo o tom de voz dele mas, temendo que estivesse com raiva, esforçou-se para parar de rir.

Richard sentou-se na mesinha de centro e ficou fumando com grande determinação. “Temos a obrigação de nunca mais fazer isso”, disse ele.

Outra risada escapou dela; não tinha como controlar. “Ou talvez só mais umas vezesinhas e depois nunca mais.”

“Sei, e aí, o que vem depois.”

“A gente pode imaginar que tirou a fantasia do caminho, e pronto.”

“Não é assim que funciona, na minha experiência.”

“Bem, nesse caso acho que preciso me curvar à sua experiência, não é? Já que eu não tenho nenhuma.”

Continuar: parte 4 de 4