Liberdade
3. A liberdade de mercado estimula a concorrência
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
“Das duas uma”, disse Richard. “Nós paramos agora, ou você larga Walter. E como esta hipótese não é aceitável, nós paramos agora.”
“Ou, terceira possibilidade, podemos não parar e eu simplesmente não digo nada a ele.”
“Eu não quero viver assim. Você quer?”
“É bem verdade que duas das três pessoas que ele mais ama no mundo somos você e eu.”
“E a terceira é Jessica.”
“E é sempre um certo consolo”, disse Patty, “pensar que ela vai me odiar pelo resto da minha vida e ficar totalmente do lado dele. Pelo menos isso vai sobrar para Walter.”
“Não é o que ele quer, e não sou eu que vou fazer isso com ele.”
Patty riu de novo, quando pensou em Jessica. Era uma jovem muito boa, aflitivamente séria e exaustivamente madura, cuja exasperação com Patty e Joey —a mãe incompetente, o irmão implacável—raras vezes deixava de ser radical a ponto de parecer cômica. Patty gostava muitíssimo da filha e na verdade, pensando bem, ficaria devastada se ela não a tivesse em boa conta. Mas ainda assim não conseguia deixar de achar graça no opróbrio de Jessica. Fazia parte da maneira como elas duas se davam; e Jessica vivia absorta demais em sua seriedade para se incomodar com isso.
“Ei”, disse ela a Richard, “existe alguma possibilidade de você ser homossexual?”
“Você vem me perguntar logo agora?”
“Não sei. É só que às vezes os homens que se sentem obrigados a comer um milhão de mulheres estão é tentando provar alguma coisa. Ou provar o contrário de alguma coisa. E agora me parece que você dá mais importância à felicidade de Walter do que à minha.”
“Pode acreditar quando eu lhe digo que não tenho o menor interesse em beijar Walter.”
“Não, eu sei. Eu sei. Mas ainda assim o que eu disse tem lá seu peso. Quer dizer, não tenho dúvida de que você vai se cansar de mim em pouco tempo. Basta você me ver nua quando eu tiver quarenta e cinco anos, e vai pensar, Humm. Eu ainda quero isto? Acho que não! Enquanto de Walter você nunca vai ficar cansado, porque não tem vontade nenhuma de beijá-lo. E assim pode ser próximo dele para sempre.”
“Isso é D. H. Lawrence”, disse Richard, impaciente.
“Mais um escritor que eu preciso muito ler.”
“Ou não.”
Ela esfregou os olhos cansados e a boca inchada. No fim das contas, estava muito satisfeita com o rumo que as coisas tinham tomado.
“Você realmente sabe manejar suas ferramentas”, disse ela com uma nova risada.
Richard recomeçou a andar de um lado para o outro. “Tente falar a sério, está bem? Faça um esforço.”
“Agora é o nosso momento, Richard. É só isso que estou dizendo. Temos dois dias, que podemos usar ou não. De qualquer maneira, vão acabar logo.”
“Foi um erro meu”, disse ele. “Não pensei direito. Eu devia ter ido embora ontem de manhã.”
“Tirando uma pequena parte minha, eu também preferia que você tivesse ido. Por outro lado, essa parte pode ser pequena, mas é muito importante.”
“Eu gosto de ver você”, disse ele. “Gosto de estar com você. Fico feliz quando penso em Walter com você—você é uma pessoa assim. Achei que não haveria problema em ficar mais uns dias. Mas foi um engano.”
“Bem-vindo à Pattylândia. A Terra dos Enganos.”
“Não me ocorreu que você pudesse ser sonâmbula.”
Ela riu. “Foi um toque brilhante, não foi?”
“Deus do céu. Mais devagar, está bem? Você está me deixando louco.”
“É, mas o melhor de tudo é que nem faz diferença. Qual é a pior coisa que pode acontecer agora? Você ficar louco comigo e ir embora.”
E então ele olhou para ela, sorriu, e a sala se encheu (metaforicamente) de sol. Ele era, na opinião de Patty, um homem lindo.
“Eu gosto mesmo de você”, disse ele. “Gosto muito de você. E sempre gostei.”
“E vice-versa.”
“Eu queria que você tivesse uma vida boa. Você entende? Achei que você era uma pessoa realmente digna de Walter.”
“E foi por isso que saiu naquela noite em Chicago e nunca voltou.”
“Não teria dado certo em Nova York. Ia acabar mal.”
“Se é o que você acha.”
“Pois é o que eu acho.”
Patty assentiu com a cabeça. “Então na verdade você queria dormir comigo aquela noite.”
“Queria. Muito. Mas não só dormir com você. Conversar com você. Ouvir você falar. Era essa a diferença.”
“Acho que é bom saber disso. Essa questão pelo menos agora eu posso riscar da minha lista, vinte anos mais tarde.”
Richard acendeu outro cigarro e ficaram ali sentados mais algum tempo, separados por um velho tapete oriental barato de Dorothy. Havia um suspiro nas árvores, a voz de um outono que nunca estava muito distante no norte de Minnesota.
“E isso quer dizer que a situação aqui pode ficar bem difícil, não é?”, disse finalmente Patty.
“Pode.”
“Mais difícil talvez do que eu imaginei.”
“É.”
“Seria melhor, no caso, eu não ter tido sonambulismo.”
“É.”
Ela começou a chorar por Walter. Tinham passado tão poucas noites separados em todos aqueles anos que ela nunca tinha a oportunidade de sentir saudades dele e gostar dele de longe da maneira como sentiu saudades e gostava dele de longe agora. Era o começo de uma confusão terrível no coração dela, uma confusão de que a autobiógrafa ainda sofre. E já àquela altura, às margens do lago Sem Nome, na luz difusa e imutável, ela viu o problema com toda a clareza. Tinha se apaixonado pelo único homem no mundo que gostava de Walter e queria protegê-lo tanto quanto ela; qualquer outra pessoa poderia tê-la jogado contra ele. E pior ainda, de certa maneira, era a responsabilidade que ela sentia em relação a Richard, por saber que ele não tinha mais ninguém na vida como Walter, e que sua lealdade a Walter era, a seus próprios olhos, uma das poucas coisas além da música que o salvavam como ser humano. Tudo isso, em seu sonambulismo e egocentrismo, ela tinha posto em perigo. Ela se aproveitara de uma pessoa confusa e suscetível, mas que ainda assim tentava manter algum tipo de ordem moral em sua vida. De maneira que ela também estava chorando por Richard, só que ainda mais por Walter, e por sua própria pessoa azarada e trapalhona.
“É bom chorar”, disse Richard, “embora eu nunca tenha tentado.”
“Parece um poço sem fundo, depois que você começa”, fungou Patty. Agora começou a sentir frio em seu maiô, e um mal-estar físico. Levantou-se e abraçou os ombros largos e quentes de Richard, e deitou-se com ele no tapete oriental, e assim passou a tarde longa, clara e cinzenta.
Três vezes, no total. Uma, duas, três. Uma dormindo, outra com violência, e depois com toda a orquestra. Três: numerozinho patético. A autobiógrafa já passou boa parte de sua quinta década de vida contando e tornando a contar, mas o total nunca passa de três.
Afora isso, não há muito o que relatar, e a maior parte do que resta consiste em mais enganos. O primeiro ela cometeu em dupla com Richard, quando ambos ainda estavam deitados no tapete. Decidiram juntos—concordaram—que ele devia ir embora. Decidiram depressa, enquanto estavam sensíveis e exaustos, que ele precisava ir embora logo, antes que se envolvessem mais fundo naquilo, e que em seguida os dois precisavam pensar com todo o cuidado na situação e chegar a uma decisão de cabeça fria, que, caso fosse negativa, só podia ser mais dolorosa caso ele ficasse mais tempo.
Tendo tomado essa decisão, Patty sentou-se e ficou surpresa ao ver que as árvores e o deque estavam encharcados. A chuva era tão fina que ela não ouvira seu barulho no telhado, tão suave que não correra pelas calhas. Ela vestiu a camiseta vermelha desbotada de Richard e perguntou se podia ficar com ela.
“Para que você quer minha camiseta?”
“Tem o seu cheiro.”
“O que nem sempre é considerado exatamente uma vantagem.”
“Eu só quero ficar com uma coisa sua.”
“Está bom. Vamos esperar que só fique com essa.”
“Eu tenho quarenta e dois anos”, disse ela. “Precisaria gastar uns cem mil dólares para engravidar. Não que eu queira estragar os seus sonhos dourados.”
“Tenho muito orgulho do meu marcador zerado. Só cuide de não estragar, está bem?”
“E eu?”, perguntou ela. “Será que devo me preocupar de poder ter pegado alguma doença?”
“Tomei todas as vacinas, se é isso que está querendo saber. Normalmente tomo um cuidado paranoico.”
“Aposto que você diz a mesma coisa para todas.”
E assim por diante. Ainda houve muita camaradagem e conversa fácil, e na leveza daquele momento Patty disse a ele que agora não tinha mais desculpa para não cantar alguma coisa para ela antes de ir embora. Ele tirou a capa do banjo e ficou tocando enquanto ela preparava sanduíches que embrulhou em papel-alumínio.
“Talvez você pudesse passar a noite aqui, e sair amanhã bem cedo”, gritou ela da cozinha.
Ele sorriu, recusando-se a dignificar aquilo com qualquer resposta.
“É sério”, disse ela. “Está chovendo, e já vai escurecer.”
“Nem pensar”, disse ele. “Desculpe, mas nunca mais vou confiar em você. Você vai precisar se conformar com isso.”
“Rá rá rá”, disse ela. “Por que você não está cantando? Eu queria ouvir a sua voz.”
Para ser gentil com ela, ele cantou a tradicional “Shady grove”. Com o passar dos anos, ao contrário das expectativas iniciais, ele se tornara um vocalista habilidoso e rico em nuances, e tinha o peito tão largo que era capaz de derrubar a casa cantando.
“Está certo. Entendi o que você queria dizer”, disse ela quando a canção acabou. “Não está tornando nada mais fácil para mim.”
Depois que um músico começa, porém, detesta parar. Richard afinou o violão e tocou três músicas country que o Walnut Surprise mais tarde gravaria em Lago Sem Nome. Algumas das letras eram pouco mais que sílabas sem sentido, a serem trocadas por outras muito melhores, mas Patty ainda estava tão afetada e emocionada com sua voz, numa entonação country que ela reconhecia e amava, que começou a gritar no meio da terceira: “está bem! ótimo! pode parar! já chega! pare! chega! já está bom!”. Mas ele não parava, e sua concentração na música deixou Patty tão solitária e abandonada que começou a chorar perdidamente, e acabou tão histérica que ele não teve como deixar de parar— embora tenha ficado inequivocamente puto com a interrupção!—e tentar em vão acalmá-la.
“Seus sanduíches estão aqui”, disse ela, jogando os sanduíches nas mãos dele, “e a porta é ali. Combinamos que você ia embora, e você vai embora. Está bem? Agora! Falando sério! Agora. Eu não devia ter pedido para você cantar. errei mais uma vez, mas vamos tentar aprender com os nossos erros, está bom?”
Ele respirou fundo e se levantou como se fosse proferir algum discurso, mas seus ombros desabaram e ele deixou o pronunciamento escapar sem palavras de seu peito.
“Tem razão”, disse ele, irritado. “Eu não preciso disso.”
“Tomamos a decisão certa, você não acha?”
“Provavelmente, acho que sim.”
“Então vá logo.”
E ele foi.
E ela se transformou em uma leitora melhor. Primeiro por desespero escapista, depois à procura de ajuda. Quando Walter voltou de Saskatchewan, ela tinha dado conta do resto de Guerra e paz em três dias de maratona de leitura. Natacha tinha prometido se casar com Andrei mas em seguida foi corrompida pelo perverso Anatole, Andrei foi embora desesperado e acabou mortalmente ferido na guerra, sobrevivendo apenas o suficiente para ser velado por Natacha e perdoá-la, ao que o excelente velho Pierre, que tinha amadurecido um pouco e pensara profundamente durante seu tempo de prisioneiro de guerra, apresenta-se como prêmio de consolação para Natacha, ao que se segue uma fieira de bebês. Patty sentia que tinha vivido uma vida inteira comprimida nesses três dias, e quando o seu Pierre voltou da floresta, sofrendo muito de queimaduras de sol apesar da aplicação religiosa de protetor solar de potência máxima, ela estava pronta para tentar voltar a amá-lo. Foi pegá-lo em Duluth e interrogou-o sistematicamente sobre seus dias com os milionários apaixonados pela natureza, que pelo jeito tinham aberto com largueza suas carteiras.
“É inacreditável”, disse Walter quando chegaram em casa e ele viu o deque quase acabado. “Ele passa quatro meses aqui e não consegue terminar as últimas oito horas de trabalho.”
“Acho que ele estava de saco cheio da floresta”, disse Patty. “E eu disse que podia voltar logo para Nova York. Escreveu músicas novas aqui, bem bonitas. Estava pronto para ir embora.”
Walter franziu a testa. “Ele tocou para você?”
“Três músicas”, disse ela, virando as costas para Walter.
“E eram boas?”
“Muito boas.” Ela saiu andando na direção do lago, e Walter veio atrás. Não era difícil manter certa distância dele. Só no comecinho eles tinham sido um desses casais que se abraçavam e trocavam beijos demorados a cada reencontro.
“Vocês dois se deram bem?”, perguntou Walter.
“Foi um pouco constrangedor. Fiquei aliviada quando ele foi embora. Tomei um copo cheio de xerez na única noite que ele passou aqui.”
“Não é grande coisa. Um copo.”
Parte do trato que ela fizera consigo mesma era não mentir para Walter, nem mesmo mentiras pequenas; não dizer nada que não pudesse ser entendido estritamente como verdadeiro.
“Mas eu tenho lido muito”, disse ela. “E acho que Guerra e paz foi realmente o melhor livro que eu já li na vida.”
“Estou com inveja”, disse Walter.
“Ah é?”
“De você ter lido esse livro pela primeira vez. Com dias inteiros livres para só ler.”
“Foi ótimo. Estou me sentindo meio mudada pelo livro.”
“Você me pareceu mesmo meio diferente.”
“Espero que não para pior.”
“Não. Só está diferente.”
Na cama com ele aquela noite, ela tirou o pijama e ficou aliviada de constatar que o desejava mais, e não menos, em função do que tinha feito. Era bom, o sexo com ele. Nenhum problema.
“Precisamos fazer mais disso”, comentou ela.
“Quando você quiser. Literalmente quando você quiser.”
Tiveram uma espécie de segunda lua de mel naquele verão, alimentada por sua contrição e irritação sexual. Ela tentou ao máximo se comportar como uma boa esposa, e agradar seu ótimo marido, mas um relato completo do sucesso de seus esforços não pode deixar de incluir os e-mails que ela e Richard começaram a trocar poucos dias depois que ele foi embora, e a permissão que de certa forma ela lhe deu, algumas semanas mais tarde, de embarcar num avião para Minneapolis e ir com ela para o lago Sem Nome enquanto Walter promovia mais uma viagem dos doadores vips nas Águas Distantes. Deletou imediatamente o e-mail com as informações sobre o voo de Richard, assim como deletara todos os outros, mas não antes de memorizar o número do voo e a hora da chegada.
Uma semana antes do dia marcado, ela retornou para o lago sozinha e se entregou inteiramente à sua perturbação mental, o que consistia em embriagar-se até cair toda noite, acordando mais tarde em pânico, tomada pelo remorso e pela indecisão, e depois dormindo até de manhã, e lendo romances num estado suspenso de falsa tranquilidade, depois se levantando de um salto e andando por uma hora ou mais de um lado para o outro nas proximidades do telefone, tentando decidir se ligava para Richard e lhe dizia que não viesse, e por fim abrindo uma garrafa para afastar-se daquilo tudo por algumas horas.
Aos poucos, os dias que faltavam foram se reduzindo a zero. Na última noite, ela bebeu tanto que começou a vomitar, adormeceu na sala e retornou assustada à consciência antes do amanhecer. Para forçar suas mãos e seus braços a parar de tremer o suficiente para teclar o número de Richard, ela precisou se estender deitada no piso ainda sem rejunte da cozinha.
E quem atendeu foi a secretária eletrônica. Ele tinha encontrado um apartamento menor e mais novo a alguns quarteirões do antigo. Tudo que ela conseguia imaginar desse novo apartamento era uma versão ampliada do quarto preto do apartamento onde ele tinha morado com Walter, o apartamento do qual ela o forçara a ir embora. Tornou a ligar, e novamente foi atendida pela secretária eletrônica. Ligou uma terceira vez, e Richard atendeu.
“Não venha”, disse ela. “Eu não posso.”
Ele não disse nada, mas ela ouvia sua respiração.
“Desculpe”, disse ela.
“Por que você não torna a me ligar daqui a algum tempo. Dependendo de como você se sentir de manhã.”
“Andei vomitando por toda a casa.”
“Coitada.”
“Por favor, não venha. Eu prometo que paro de incomodar. Acho que eu só precisava levar isso ao limite até ver que na verdade não posso.”
“Acho que faz sentido.”
“É a coisa certa, não é?”
“Provavelmente. É, acho que sim.”
“Não posso fazer isso com ele.”
“Então está bom. Eu não vou.”
“Não que eu não queira que você venha. Só estou pedindo a você para não vir.”
“E eu vou fazer o que você quiser.”
“Não, meu Deus, preste atenção. Estou pedindo para você fazer o que eu não quero.”
O mais provável é que em Jersey City, Nova Jersey, Richard estivesse achando tudo isso um absurdo. Mas ela sabia que ele queria estar com ela, que estava pronto para pegar um avião de manhã cedo, e a única maneira de concordarem em definitivo que ele não viesse era prolongar aquela ligação por duas horas, dando voltas e mais voltas, repetindo o conflito sem solução possível, até os dois se sentirem tão sujos e esgotados, fartos um do outro e de si mesmos, que a perspectiva de se verem se tornasse autenticamente repugnante.
Entre os ingredientes do sofrimento de Patty, quando afinal desligaram, o menor não era seu sentimento de estar desperdiçando o amor de Richard. Ela sabia que ele era um homem profundamente irritado com as baboseiras femininas, e o fato de ter aturado duas horas de tagarelice ininterrupta da parte dela, cento e dezenove minutos a mais do que sua constituição geralmente tolerava, a deixou cheia de gratidão e dor pelo desperdício, esse desperdício. O desperdício do amor dele.
O que a levou—quase nem é preciso dizer—a ligar de novo para ele vinte minutos depois e fazê-lo percorrer uma versão um tanto mais breve porém ainda mais infeliz do primeiro telefonema. Um breve trailer do que faria de maneira mais extensa com Walter em Washington: quanto mais ela se esforçava em esgotar a paciência do marido, mais paciência ele demonstrava, e quanto mais paciência ele demonstrava mais difícil era abrir mão dele. Por sorte a paciência de Richard com ela, ao contrário da de Walter, estava muito longe de ser infinita. Ele finalmente desligou o telefone na cara dela, e não atendeu quando ela ligou de novo uma hora mais tarde, pouco antes da hora em que, pelos cálculos dela, ele precisaria sair para o aeroporto de Newark a fim de não perder o avião.
Apesar de quase não ter dormido, e apesar de ter posto para fora o pouco que conseguira comer na véspera, ela se sentiu imediatamente revigorada, mais lúcida e mais cheia de energia. Limpou a casa, leu metade de um romance de Joseph Conrad que Walter tinha recomendado, e não comprou mais vinho. Quando Walter voltou de Boundary Waters, ela lhe preparou um ótimo jantar, atirou os braços em torno do seu pescoço e—raridade—o deixou um tanto embaraçado com a intensidade do seu afeto.
O que ela devia ter feito àquela altura era procurar um emprego, retomar os estudos ou ir trabalhar como voluntária. Mas sempre parecia haver alguma coisa atrapalhando. Havia a possibilidade de que Joey se arrependesse e resolvesse voltar para casa durante o último ano da escola. Havia a casa e o jardim de que ela não cuidara durante todo seu ano de bebedeira e depressão. Havia a liberdade que valorizava tanto, de poder passar semanas a fio no lago Sem Nome sempre que lhe dava vontade. Havia uma liberdade mais geral que ela percebia que lhe fazia mal mas de que mesmo assim ela não conseguia abrir mão. Havia o Fim de Semana dos Pais na faculdade de Jessica em Filadélfia, a que Walter não podia ir mas ficou encantado ao saber que Patty se interessara em comparecer, pois às vezes ele ficava preocupado, pensando que ela e Jessica não tinham a devida proximidade. E ainda houve as semanas anteriores ao Fim de Semana dos Pais, semanas de e-mails para Richard e de Richard, semanas imaginando o quarto de hotel em Filadélfia em que os dois iriam passar um dia e uma noite fora do alcance do radar. E depois os meses de depressão grave que se seguiram ao Fim de Semana dos Pais.
Ela pegou um avião para Filadélfia numa quinta-feira, a fim de poder passar, como disse a Walter com o maior cuidado, um dia inteiro sozinha como turista. Ao tomar um táxi para o centro da cidade, foi de repente trespassada pelo remorso por não estar fazendo exatamente o que dissera: não estava caminhando pelas ruas como uma adulta independente, nem cultivando uma vida independente. Nem estava se comportando como uma turista sensata e curiosa, mas como uma louca à caça do amor.
Por mais incrível que possa parecer, não se via sozinha num hotel desde os dias do Quarto 21, e ficou muito impressionada com seu quarto luxuoso e moderno do Sofitel. Examinou com cuidado todos os produtos para banho enquanto esperava pela chegada de Richard, depois tornou a examiná-los enquanto a hora chegava e passava. Tentou ver televisão mas não conseguiu. Estava uma pilha de nervos quando o telefone finalmente tocou.
“Aconteceu uma coisa”, disse Richard.
“Está certo. Tudo bem. Aconteceu uma coisa. Tudo bem.” Foi até a janela e olhou para Filadélfia. “O que foi? A saia de alguém?”
“Até parece”, disse Richard.
“Ah, se você me der um pouco de tempo”, disse ela, “garanto que lhe digo todos os clichês que existem. Ainda nem começamos a falar de ciúme. Estamos, por assim dizer, na Hora Zero do ciúme.”
“Não é outra pessoa.”
“Não existe ninguém? Ninguém? Meu Deus, até eu me comportei pior que isso. À minha maneira, em relação a meu casamento.”
“Não disse que não tinha havido ninguém. Disse que agora não é ninguém.”
Ela apoiou a cabeça na janela. “Desculpe”, disse ela. “É que isso tudo está me deixando com a sensação de que eu sou velha demais, feia demais, burra demais, ciumenta demais. Não consigo ficar ouvindo o que sai da minha boca.”
“Ele ligou para mim hoje de manhã”, disse Richard.
“Quem?”
“Walter. Eu devia ter deixado tocar, mas atendi. Ele disse que tinha acordado cedo para levar você ao aeroporto, e que estava com saudades suas. Disse que as coisas estão andando bem entre vocês dois. ‘Faz tempo que não éramos tão felizes’, acredito que foram as palavras dele.”
Patty não disse nada.
“Disse que você estava indo ver Jessica, Jessica secretamente muito satisfeita com tudo isso, mas preocupada com a possibilidade de você dizer alguma coisa estranha e deixá-la constrangida, ou que você não vá gostar do novo namorado dela. Walter no fim das contas está extremamente feliz que você esteja fazendo isso por ele.”
Patty se agitou perto da janela, esforçando-se para escutar.
“Disse que estava arrependido de algumas coisas que ele me disse no inverno passado. Disse que não queria que eu ficasse com uma ideia falsa sobre você. Disse que o inverno passado foi terrível, por causa de Joey, mas que as coisas melhoraram muito. ‘Faz tempo que não éramos tão felizes.’ Foi isso mesmo que ele disse.”
Uma combinação de engasgo e soluço produziu um arroto ridículo e doloroso em Patty.
“O que foi isso?”, perguntou Richard.
“Nada. Desculpe.”
“Então, de qualquer maneira.”
“De qualquer maneira.”
“Resolvi que eu não ia.”
“Certo. Entendi. É claro.”
“Certo, então.”
“Mas por que você não vem de qualquer maneira, quer dizer, já que eu estou aqui. E depois eu posso voltar para a minha vida incrivelmente feliz, e você volta para Nova Jersey.”
“Só estou contando para você o que ele disse.”
“Minha vida incrivelmente feliz, incrivelmente feliz.”
Ah, as tentações da pena de si mesma. Tão doce em sua língua, tão irresistível de exprimir, e tão feia para ele. Ela pôde ouvir exatamente o momento em que deu um passo além da conta. Se tivesse ficado calma, podia tê-lo hipnotizado e convencido a vir até Filadélfia. Quem sabe? Podia até nunca mais ter voltado para casa. Mas estragou tudo com a porra da pena de si mesma. Percebeu que ele ficava mais frio e mais distante, o que a deixava com mais pena ainda de si mesma, e assim por diante, uma coisa puxando a outra, até finalmente ela largar o telefone e se entregar por completo àquela outra doçura.
De onde vinha a pena de si mesma? E daquele tamanho descomunal? Segundo praticamente qualquer padrão, ela tinha uma vida muito boa. Todo dia, tinha o dia inteiro para encontrar algum modo decente e satisfatório de viver, mas ainda assim tudo que parecia conseguir com todas as suas escolhas e toda a sua liberdade era mais sofrimento. A autobiógrafa se vê quase forçada à conclusão de que tinha pena de si mesma por ser tão livre.
Naquela noite em Filadélfia, houve um episódio breve e deprimente: ela desceu até o bar do hotel com a intenção de dar para alguém. Mas logo descobriu que o mundo é dividido entre pessoas que sabem como ficar satisfeitas sozinhas num banco de bar e pessoas que não sabem. Além disso, todos os homens tinham cara de estúpidos, e pela primeira vez em muitos anos ela começou a se perguntar como seria a sensação de se embriagar e ser estuprada, e voltou a seu quarto ultramoderno para se entregar a novos paroxismos prazerosos de pena de si mesma.
Na manhã seguinte, pegou um trem suburbano até a faculdade de Jessica num estado de carência do qual nada de bom podia resultar. Embora tenha tentado, em dezenove anos, fazer por Jessica tudo que sua própria mãe não fizera por ela—nunca perdera um jogo da filha, que sempre cobrira de aprovação, familiarizando-se com os complexos pormenores da sua vida social, tomando seu partido em cada mágoa ou decepção, envolvendo-se profundamente no drama da escolha da faculdade—, uma verdadeira proximidade, como já foi dito, inexistia entre as duas. O que se devia em parte à natureza autossuficiente de Jessica e em parte ao exagero dos sentimentos de Patty por Joey. Era por Joey, e não por Jessica, que seu coração transbordava. Mas a porta que levava a Joey estava fechada e trancada, devido aos erros dela, e quando Patty chegou ao lindo campus quacre, não dava a mínima para o Fim de Semana dos Pais. Só queria algum tempo a sós com a filha.
Infelizmente, o novo namorado de Jessica, William, não entendia indiretas. William era um jogador de futebol louro e simpático da Califórnia cujos pais não tinham vindo à visita. Ele acompanhou Patty e Jessica no almoço, na palestra de história da arte de Jessica e até o quarto de Jessica no dormitório, e quando Patty convidou apenas Jessica para ir jantar na cidade, esta respondeu que já tinha feito uma reserva para três num restaurante local. Durante o jantar, Patty ficou escutando estoicamente enquanto Jessica estimulava William a descrever a organização beneficente que tinha fundado quando ainda estava no secundário— um programa grotesco de ajuda em que garotas pobres do Maláui tinham seus estudos bancados por equipes de futebol de San Francisco. A Patty pouco restava a fazer além de beber vinho. A meio caminho de sua quarta taça, ela resolveu que William precisava saber que, no passado, ela havia se destacado no esporte intercolegial. Como Jessica não tinha contado que ela chegara a reserva da seleção nacional, foi obrigada a contar ela mesma, e como parecia que estava contando vantagem, sentiu a necessidade de compensar contando a história de sua groupie, o que levou aos hábitos de consumo de drogas de Eliza e às suas mentiras sobre a leucemia, e ao dia em que arruinou seu joelho. Estava falando alto e, a seu ver, de maneira divertida, mas William, em vez de rir, se limitava a trocar olhares nervosos com Jessica, que se mantinha sentada de braços cruzados e com ar macambúzio.
“E isso quer dizer o quê?”, perguntou ela finalmente.
“Nada”, respondeu Patty. “Só estou contando como eram as coisas nos meus tempos de faculdade. Não percebi que você não estava interessada.”
“Eu estava interessado”, William teve a gentileza de dizer.
“O que eu acho interessante”, disse Jessica, “é que eu nunca tinha ouvido nada disso.”
“Eu nunca tinha falado com você sobre Eliza?”
“Não. Deve ter contado a história ao Joey.”
“Eu tenho certeza que tinha falado dela.”
“Não, mamãe. Desculpe. Nunca falou.”
“Bem, de qualquer maneira, agora estou contando a história, quer dizer, talvez tenha falado até demais.”
“Talvez!”
Patty sabia que estava se comportando mal, mas não conseguiu se controlar. Vendo o carinho existente entre Jessica e William, lembrou-se de como era sua vida aos dezenove anos, pensou em sua formação acadêmica medíocre e em suas relações doentias com Carter e Eliza, e se arrependeu da sua vida, ficando com pena de si mesma. Começou a cair numa depressão que se aprofundou vertiginosamente no dia seguinte, quando voltou à faculdade e precisou suportar uma vistoria completa de suas instalações suntuosas, um almoço no gramado da casa do reitor e um debate vespertino (“O desempenho da identidade num mundo polivalente”) a que dezenas de outros pais compareceram. Todos pareciam radiosamente mais bem ajustados do que ela se sentia. Os estudantes todos pareciam animados e competentes em tudo, o que sem dúvida compreendia instalar-se confortavelmente em cadeiras ruins; e todos os outros pais pareciam tão orgulhosos deles, tão emocionados de serem seus amigos, e a própria faculdade parecia imensamente orgulhosa de sua prosperidade e de sua missão altruísta. A verdade é que Patty tinha sido uma boa mãe, e conseguira preparar a filha para uma vida mais feliz e mais fácil que a sua própria, mas bastava a linguagem corporal das outras famílias para indicar o quanto ela não tinha sido uma mãe espetacular, da maneira que mais contava. Enquanto as outras mães e filhas caminhavam ombro a ombro pelos caminhos pavimentados, rindo ou comparando seus telefones celulares, Jessica andava pela grama um ou dois passos à frente de Patty. O único papel que ela permitiu a Patty naquele fim de semana foi o de ficar impressionada com o lugar fabuloso onde estudava. Patty se esforçou ao máximo para desincumbir-se bem do papel, mas no fim, num acesso de depressão, sentou-se numa das cadeiras de jardim que salpicavam o grande gramado e implorou a Jessica que viesse jantar com ela na cidade sem William, que, piedosamente, tinha um jogo de futebol naquela tarde.
Jessica se manteve de pé a certa distância e encarou a mãe com reserva. “William e eu precisamos estudar hoje à noite”, disse ela. “Normalmente eu devia estar estudando o dia inteiro, ontem e hoje.”
“Desculpe ter atrapalhado seu programa,” disse Patty com uma sinceridade depressiva.
“Não, tudo bem”, disse Jessica. “Eu queria que você viesse. Queria que você visse o lugar onde vou passar quatro anos da minha vida. É só que aqui a gente precisa estudar muito.”
“Claro, claro. É muito bom. Acho ótimo você conseguir dar conta disso. Estou muito orgulhosa de você. De verdade, Jessica. Tenho uma enorme admiração por você.”
“Bem, obrigada.”
“É só—e que tal você vir até meu quarto no hotel? É bem engraçado. Podemos pedir serviço de quarto, ver um filme e tomar as garrafinhas do frigobar. Quer dizer, você pode, hoje eu não vou beber. Mas só para ficarmos juntas à noite, só nós duas, por uma noite. Você pode estudar todo o resto do outono.”
Mantinha os olhos baixos, à espera da sentença de Jessica. Tinha a consciência dolorosa de ter proposto um programa inédito para elas duas.
“Acho melhor mesmo eu estudar”, disse Jessica. “Eu prometi a William.”
“Ah, por favor, Jessie. Uma noite não vai fazer tanta falta. Para mim significa muito.”
Como Jessica não respondeu, Patty se forçou a levantar os olhos. Sua filha fitava com um autocontrole melancólico o prédio principal da faculdade, onde em uma das paredes exteriores Patty tinha visto uma pedra gravada com a mensagem da Turma de 1920: usa bem tua liberdade.
“Por favor”, disse ela.
“Não”, disse Jessica, sem olhar em sua direção. “Não! Não estou com vontade.”
“Desculpe eu ter bebido demais e ter falado aquelas bobagens ontem à noite. Eu queria que você me desse uma chance de consertar as coisas.”
“Não estou tentando castigar você”, disse Jessica. “É só que você obviamente não gosta daqui, obviamente não gostou do meu namorado—”
“Não, ele é ótimo, é simpático, eu gosto dele sim. É só que eu vim até aqui para estar com você, e não com ele.”
“Mamãe, eu faço o possível para facilitar a sua vida. Você tem ideia de como eu facilito as coisas para você? Não uso drogas, não faço as mesmas cagadas que o Joey, não faço você passar vergonha, não faço cenas, nunca fiz nada disso—”
“Eu sei! E fico realmente muito agradecida por isso.”
“Está bem, mas então não venha se queixar por eu ter a minha vida, meus amigos e não querer remarcar tudo de uma hora para outra por sua causa. Você já se beneficia muito de eu tomar conta de mim mesma, e o mínimo que pode fazer é não me deixar culpada.”
“Mas Jessie, é uma noite só. É bobagem criar tanto caso por causa de tão pouco.”
“Justamente: então não crie caso.”
O autocontrole de Jessica, e sua frieza com ela, pareceram a Patty um castigo justo pelo quanto ela própria tinha sido controlada e fria com a mãe aos dezenove anos. Estava tão infeliz consigo mesma, na verdade, que praticamente qualquer castigo teria parecido adequado. Poupando suas lágrimas para mais tarde—com a sensação de não merecer nenhum benefício emocional que o choro pudesse lhe trazer, ou de sair correndo triste para a estação de trem—, ela exerceu seu próprio autocontrole e jantou cedo no refeitório com Jessica e sua companheira de quarto. Comportou-se como adulta, embora sentisse que, das duas, a verdadeira adulta era Jessica.
De volta a St. Paul, prosseguiu em seu mergulho ao fundo do poço da saúde mental, e Richard não lhe mandou mais nenhum e-mail. A autobiógrafa gostaria de poder dizer que Patty tampouco lhe enviou e-mail algum, mas a esta altura já deve estar claro que sua capacidade de errar, angustiar-se e se humilhar não tem limite. A única mensagem que ela se sente bem de ter enviado foi escrita depois que Walter lhe deu a notícia de que Molly Tremain tinha se suicidado com soníferos em seu apartamento do Lower East Side. Patty mostrou o melhor de si naquele e-mail, e espera que seja lembrada assim por Richard.
O resto da história do que Richard fez naquele inverno e na primavera seguinte foi contado noutros lugares, especialmente nas revistas People, Spin e Entertainment Weekly depois do lançamento do cd Lago Sem Nome e do surgimento de um “culto” a Richard Katz. Michael Stipe e Jeff Tweedy estavam entre as celebridades que recomendaram o Walnut Surprise e se confessaram ouvintes secretos dos Traumatics há muito. Os fãs homens brancos e malvestidos de Richard podiam não ser mais tão jovens quanto antes, mas muitos deles eram a essa altura influentes editores de suplementos de arte.
Quanto a Walter, o ressentimento que acomete as pessoas quando sua banda desconhecida predileta de repente entra em todas as listas foi multiplicado por mil no caso dele. Walter ficou orgulhoso, é claro, porque o título do cd se inspirava no lago de Dorothy, e por tantas de suas canções terem sido compostas na sua casa. Richard também compusera piedosa e cuidadosamente as letras de cada canção de modo que o “você” presente nelas, que era Patty, pudesse ser confundido com a falecida Molly; e era a essa interpretação que conduzia os entrevistadores, sabendo que Walter lia e colecionava os recortes de cada espaço que o amigo conquistava na imprensa. Mas no geral Walter ficou decepcionado e magoado com o momento de fama de Richard. Disse que entendia por que Richard quase nunca mais ligava para ele, que entendia que Richard estava precisando dar conta de muita coisa naquele momento, mas a verdade é que não entendia nem um pouco. A verdadeira situação da amizade entre os dois estava sendo a que ele sempre tinha temido. Richard, mesmo quando dava a impressão de estar por baixo, nunca estava realmente por baixo. Richard sempre tinha seus planos musicais secretos, planos de que Walter não fazia parte, e estava sempre falando diretamente com seus fãs, de olho na possível resposta. Um ou outro cronista musical menos importante se deu ao trabalho de ligar para Walter e pedir uma entrevista, e seu nome apareceu em alguns lugares menos óbvios, quase sempre na internet, mas Richard, nas entrevistas que Walter leu, referia-se a ele como um simples “ótimo amigo dos tempos de estudante”, e nenhuma das grandes revistas mencionou seu nome. Walter teria apreciado um pouco mais de crédito por ter dado tanto apoio moral, intelectual e até financeiro a Richard, mas o que o deixava mais magoado era como Richard dava a impressão de lhe atribuir pouca importância, em contraste com a importância que ele atribuía a Richard. E Patty, claro, não podia lhe revelar a melhor prova de como era grande a importância que Richard realmente atribuía a ele. Quando Richard conseguia tempo para falar com ele pelo telefone, a mágoa de Walter envenenava as conversas e deixava Richard bem menos propenso a ligar de novo.
E assim Walter resolveu se entregar à concorrência. Tinha sido levado a crer que era ele o irmão mais velho, e agora Richard devolvia as coisas ao devido lugar. Richard, em particular, podia ser um fracasso em matéria de xadrez, de relações prolongadas ou de comportamento de bom cidadão, mas era amado, admirado e festejado publicamente por sua tenacidade, a clareza de seus sentimentos, suas belíssimas canções novas. Tudo isso deixava Walter com ódio da casa, do jardim e do envolvimento com pequenas coisas de Minnesota em que investira tanto de sua vida e energia; Patty ficou chocada ao ver como menosprezava suas próprias realizações. Semanas depois do lançamento de Lago Sem Nome, pegou um avião até Houston para sua primeira entrevista com o megamilionário Vin Haven, e um mês depois disso começou a passar todos os dias úteis da semana em Washington. Ficou óbvio para Patty, embora não para o próprio Walter, que sua decisão de ir para Washington, criar o Fundo da Montanha Azul e adquirir maior importância na cena internacional foi alimentada por sentimentos de concorrência. Em dezembro, quando o Walnut Surprise tocou com o Wilco no Orpheum numa noite de sexta-feira, ele nem tomou um avião até St. Paul a tempo de ver o show.
E Patty também perdeu a apresentação. Não aguentava ouvir o disco novo —não conseguia passar dos verbos no passado da segunda faixa—
Nunca houve pessoa alguma como você
Para mim. Pessoa alguma
Não vivo com pessoa alguma. Não amo
Pessoa alguma. Você foi a pessoa
Como quem ninguém nunca foi
Você foi a pessoa
Essa pessoa para mim
Nunca houve pessoa alguma como você
e assim ela decidiu fazer o possível para seguir o exemplo de Richard e relegá-lo ao passado. Havia algo de excitante, algo de quase Ogro de Atenas, na nova energia de Walter, e ela conseguiu sonhar que os dois pudessem começar uma vida nova em Washington. Ela ainda amava a casa à beira do lago Sem Nome, mas não suportava mais a casa da Barrier Street, que não fora capaz de segurar Joey. Foi passar uma tarde em Georgetown, num belo sábado azul de outono em que um vento de Minnesota sacudia as árvores que amarelavam, e pensou, certo, está bem, isso eu posso fazer. (Teria consciência da proximidade com a Universidade da Virgínia, em que Joey acabara de se matricular? Será que seus conhecimentos de geografia não eram tão ruins como sempre tinha pensado?) Incrivelmente, foi só quando ela chegou de vez a Washington—só quando atravessava o Rock Creek a bordo de um táxi com duas malas—que lembrou o quanto sempre detestara a política e os políticos profissionais. Entrou na casa da rua 29 e viu, na mesma hora, que tinha cometido mais um dos seus erros.
* Ocorreu a Patty, na viagem de ônibus de Chicago até Hibbing, que Richard talvez a tenha rejeitado pelo fato de ela não adorar música tanto assim, o que o incomodava. Não que ela pudesse fazer alguma coisa a respeito.