Liberdade

Jonathan Franzen · Capítulo 4 de 12 · parte 2/4

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Liberdade

3. A liberdade de mercado estimula a concorrência

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Intelectualmente, Walter era sem dúvida o irmão mais velho, e Richard, o seguidor. Ainda assim, para Richard, ser inteligente, como ser bom, não passava de um benefício acessório ao empenho central competitivo. E era disso que Walter falava quando dizia que não confiava no amigo. Jamais conseguiu se livrar da sensação de que Richard escondia muita coisa dele; de que havia um lado oculto em seu hábito de sempre sair à noite por motivos que nunca reconhecia; que ele só se contentava em ser amigo de Walter na medida em que concordavam que ele tinha direito à primeira mordida. Richard era especialmente indigno de confiança sempre que alguma garota entrava em cena, e Walter ficava com raiva dessas garotas por serem mesmo que por um instante mais irresistíveis que ele. O próprio Richard nunca via as coisas da mesma forma, porque se cansava das garotas muito depressa e sempre acabava dando-lhes um pé na bunda; sempre voltava para Walter, de quem nunca se cansava. Mas a Walter parecia desleal da parte do amigo empregar tanta energia em correr atrás de gente de que nem mesmo gostava. Walter se sentia fraco e desimportante por estar sempre lá, deixando que Richard voltasse para ele. Vivia atormentado pela desconfiança de que amava Richard mais do que Richard o amava, e que se empenhava mais do que Richard em fazer a amizade entre eles dar certo.

A primeira grande crise entre eles ocorreu no último ano, dois anos antes de Patty conhecê-los, quando Walter ficou encantado com a segundanista má, que se chamava Nomi. Nas palavras de Richard (como Patty ouviu uma vez), a história não podia ser mais clara: seu amigo sexualmente ingênuo estava sendo explorado por uma mulher que não valia nada e que nem gostava dele, e Richard por fim se encarregou de mostrar a que ponto ela não prestava. Segundo Richard, a garota nem merecia ser objeto de competição, era só um mosquito que ele abateu a tapa. Mas Walter via as coisas de maneira muito diversa. Ficou tão furioso com Richard que passou semanas sem falar com ele. Ocupavam um apartamento de dois quartos, do tipo reservado aos alunos do quarto ano, e toda noite, quando Richard atravessava o quarto de Walter a caminho de seu quarto mais privativo, parava para travar conversas unilaterais que um observador desinteressado até poderia achar engraçadas.

Richard: “Ainda não está falando comigo. Impressionante. Quanto tempo isso ainda vai durar?”.

Walter: silêncio.

Richard: “Se você não quiser que eu me sente e fique vendo você ler, basta dizer”.

Walter: silêncio.

Richard: “O livro é interessante? Você não está virando as páginas”.

Walter: silêncio.

Richard: “Sabe o que você está parecendo? Uma garota. As garotas é que se comportam assim. Isso é ridículo, Walter. E está me deixando puto”.

Walter: silêncio.

Richard: “Se você está esperando que eu vá pedir desculpas, pode tirar o cavalo da chuva, e estou dizendo desde já. Fico com pena de você ficar magoado, mas a minha consciência está limpa”.

Walter: silêncio.

Richard: “Você entende, não é, que é só por sua causa que eu continuo aqui. Se você tivesse me perguntado, há quatro anos, quais eram as probabilidades de eu me formar, eu diria que ficavam entre muito pequenas e nulas”.

Walter: silêncio.

Richard: “É sério, estou um pouco decepcionado”.

Walter: silêncio.

Richard: “Escute aqui. Se eu fosse viciado em drogas e você jogasse o meu bagulho fora, eu ficaria puto com você, mas também iria entender que você estava tentando me fazer um favor”.

Walter: silêncio.

Richard: “Vá lá, a analogia não é muito boa, visto que na verdade eu, por assim dizer, também usei a droga, em vez de simplesmente jogar tudo fora. Mas se você estivesse a ponto de se entregar a um vício terrível, enquanto eu só fiz um uso recreativo, a partir do princípio de que é um desperdício jogar fora drogas em estado de uso...”.

Walter: silêncio.

Richard: “Está certo, a analogia é imbecil”.

Walter: silêncio.

Richard: “Mas foi engraçada. Você devia estar rindo”.

Walter: silêncio.

Pelo menos é assim que a autobiógrafa imagina a situação, com base no testemunho posterior das duas partes. Walter manteve seu silêncio até as férias da Semana Santa, quando foi sozinho para casa e Dorothy conseguiu extrair dele o motivo para não ter trazido Richard. “Você precisa aceitar as pessoas do jeito que elas são”, disse-lhe Dorothy. “Richard é um bom amigo, e você devia ser leal a ele.” (Dorothy era muito apegada à lealdade—que dava algum sentido à sua vida não muito agradável—, e Patty ouviu muitas vezes Walter citar aquela sua recomendação; parecia atribuir-lhe um sentido quase bíblico.) Lembrou à mãe que Richard tinha sido extremamente desleal ao roubar uma garota de que ele gostava, mas Dorothy, ela própria talvez sob o efeito da magia katziana, disse que não acreditava que Richard tivesse feito aquilo com o propósito deliberado de magoá-lo. “É bom ter amigos na vida”, disse ela. “Se você quiser ter amigos, precisa saber que ninguém é perfeito.”

Um detalhe adicional que tornou mais irritante aquele desentendimento acerca da segundanista foi o fato de que as moças que Richard atraía

invariavelmente adoravam música,* e que Walter, sendo o admirador mais antigo e mais fiel de Richard, competia amargamente com elas. Garotas que em outra situação podiam ter sido simpáticas com o melhor amigo do namorado, ou pelo menos tolerantes em relação a ele, julgavam ser necessário dedicar a Walter um tratamento gélido, porque os admiradores mais sérios precisam sempre sentir que existe uma ligação singular entre eles e o objeto de sua admiração; preservam zelosamente esses pontos de conexão, por menores ou mais imaginários que sejam, para justificar essa sensação de singularidade. As garotas consideravam compreensivelmente impossível ser ainda mais ligadas a Richard do que enlaçadas em coito com ele, misturando secreções. Walter, aos olhos delas, era apenas um inseto de irrelevância que as incomodava, muito embora fosse Walter que tivesse transformado Richard em Anton von Webern e Benjamin Britten, fosse ele quem dera a Richard um arcabouço político para suas primeiras canções mais revoltadas, fosse Walter que Richard realmente amava de um modo significativo. E já era desagradável o bastante ser tratado com uma frieza tão sistemática pelas garotas mais gostosas, mas pior ainda era a desconfiança de Walter—confessada a Patty nos anos em que não tinham segredos um para o outro—de que no fundo ele não era diferente de nenhuma daquelas garotas; de que também era uma espécie de parasita grudado a Richard, tentando se sentir mais atualizado e melhor quanto a si mesmo devido àquela ligação singular com ele. E o pior de tudo era sua desconfiança de que Richard sabia disso, e que isso o deixava mais solitário e mais reservado.

A situação era especialmente espinhosa no caso de Eliza, que não se limitava a ignorar Walter mas se empenhava especialmente em lhe causar o maior desconforto possível. Como, perguntava-se Walter, Richard era capaz de dormir com uma pessoa tão deliberadamente desagradável com seu melhor amigo? Walter já era adulto o suficiente, a essa altura, para não dar um novo gelo no amigo, mas parou de cozinhar para Richard, e o principal motivo pelo qual continuava a assistir às apresentações de Richard era para demonstrar seu desagrado com Eliza e, mais tarde, para tentar constranger Richard a não cheirar o pó de que ela o mantinha abastecido. Claro que não havia maneira de constranger Richard a nada. Nem na época, nem nunca.

Os detalhes das conversas deles a respeito de Patty são, infelizmente, desconhecidos, mas a autobiógrafa gosta de pensar que não devem ter sido nada parecidas com suas conversas sobre Nomi ou Eliza. É possível que Richard tenha aconselhado Walter a ser mais firme com ela, e que Walter tenha respondido com alguma bobagem sobre ela ter sido estuprada ou estar andando de muletas, mas poucas coisas são mais difíceis de imaginar que as conversas de outras pessoas a nosso respeito. O que Richard sentia pessoalmente por Patty acabaria ficando mais claro para ela—a autobiógrafa está chegando lá, embora bem devagar. Por enquanto, basta assinalar que ele migrou para Nova York e lá ficou, e que por muitos anos Walter esteve tão ocupado construindo sua própria vida com Patty que raramente parecia sentir falta dele.

O que estava acontecendo era que Richard estava se tornando mais Richard, e Walter, mais Walter. Richard foi morar em Jersey City, após ter decidido que era possível beber socialmente e então, depois de um período que mais tarde descreveria como “consideravelmente dissoluto”, concluir que não, no fim das contas não era nada possível. Enquanto tinha morado com Walter, evitara o álcool que tinha levado o pai à ruína, só cheirava quando outras pessoas compravam o pó, e estava sempre progredindo na carreira musical. Sozinho, durante um bom tempo sua vida foi uma confusão. Ele e Herrera levaram três anos para reconstituir os Traumatics, com a bela e doida loura Molly Tremain participando dos vocais, e lançar seu primeiro lp, Saudações do fundo do poço da mina, pelo menor dos selos existentes. Walter foi vê-los tocar no Entry quando vieram a Minneapolis, mas estava de volta em casa com Patty e Jessica, na época um bebê, trazendo seis exemplares do lp, antes das dez e meia da noite. Richard inventara um emprego suplementar construindo deques em coberturas urbanas, para o tipo de morador rico da parte sul de Manhattan que se sentia descolado graças ao convívio com artistas e músicos, ou melhor, que não se incomodava se o dia de trabalho do construtor do deque de sua cobertura começasse às duas da tarde e terminasse poucas horas depois, e se em decorrência disso ele precisasse de três semanas para fazer o trabalho de cinco dias. O segundo disco da banda, Se você não tiver reparado, não atraiu mais atenção que o primeiro, mas o terceiro, Esplendor reacionário, foi lançado por uma gravadora um pouco maior e acabou incluído em várias listas de Dez Melhores do Ano. Dessa vez, quando Richard esteve em Minnesota, ligou antes e pôde passar uma tarde inteira na casa de Patty e Walter com a cortês mas entediada e quase o tempo todo calada Molly, que era ou não sua namorada.

Aquela tarde—pelas poucas coisas que, para sua surpresa, a autobiógrafa recorda dela—foi especialmente agradável para Walter. Patty estava ocupadíssima com as crianças e suas tentativas de levar Molly a emitir algum polissílabo, mas Walter teve tempo de mostrar todas as reformas que vinha fazendo na casa, e os lindos e ativos rebentos que tinha produzido com Patty, além de ver Richard e Molly consumindo a melhor refeição de toda a turnê e, em destaque nada menor, adquirir dados preciosos com Richard sobre o panorama da música alternativa, informações em que Walter logo se baseou para comprar discos de todos os artistas que Richard tinha mencionado, que ouvia enquanto trabalhava na reforma, impressionando os vizinhos e colegas que se imaginavam atualizados em matéria de música, e sentindo que tinha conseguido o melhor dos dois mundos. O estado da rivalidade entre ele e Richard se revelou muito satisfatório para ele naquele dia. Richard estava pobre, desanimado e magro demais, e sua mulher era estranha e infeliz. Walter, agora inquestionavelmente o irmão mais velho, podia ficar à vontade para apreciar o sucesso de Richard como um acessório próprio que conferia algum condimento especial a ele, realçando o quanto era hip.

Àquela altura, a única coisa que podia ter atirado Walter de volta às coisas ruins que sentia na faculdade, quando era atormentado por sua sensação de estar perdendo para a pessoa que amava demais para não julgar importante derrotar, teria sido alguma sequência de acontecimentos patologicamente bizarra. As coisas em casa precisariam ter azedado muito. Walter precisaria ter conflitos terríveis com Joey, e não conseguir compreender o garoto e conquistar seu respeito, e ver-se reproduzindo de maneira geral sua relação com o próprio pai, e a carreira de Richard precisaria ter melhorado inesperadamente em algum momento tardio, e Patty precisaria apaixonar-se violentamente por Richard. E qual era a probabilidade de tudo isso acontecer?

Infelizmente, maior que zero.

É com hesitação que atribuímos muita importância explanatória ao sexo, porém a autobiógrafa estaria negligenciando sua obrigação caso não dedicasse um desconfortável parágrafo ao tema. A verdade deplorável é que Patty em pouco tempo passou a achar que o sexo era um tanto tedioso e sem sentido—repetir sempre a mesma repetição—e a praticá-lo apenas por causa de Walter. E, sim, sem a menor dúvida, a não praticar muito bem. Geralmente havia alguma outra coisa que preferiria estar fazendo. Na maioria das vezes, ela preferia dormir. Ou algum ruído vinha do quarto de uma das crianças, funcionando para distraí-la ou despertar alguma preocupação. Ou ela se dedicava ao cálculo mental de quantos minutos de um jogo universitário de basquete na Costa Oeste ela ainda conseguiria assistir quando afinal pudesse religar a televisão. Mas mesmo as tarefas domésticas mais simples, como cuidar do jardim, fazer a limpeza ou as compras, podiam lhe parecer irresistíveis e urgentes em comparação a uma trepada, e depois que a pessoa metia na cabeça que precisava relaxar logo e satisfazer-se logo para poder descer e finalmente plantar as marias-sem-vergonha que esperavam em suas caixinhas de plástico, estava tudo acabado. Ela tentou atalhos, tentou a medida preventiva de cuidar de Walter com a boca, tentou dizer a ele que estava com sono e que ele podia ir em frente e se divertir sem se preocupar com ela. Mas a constituição do pobre Walter o fazia importar-se menos com a própria satisfação que com o prazer dela, ou pelo menos fazer o prazer dele depender do dela, e ela jamais conseguiu encontrar uma boa maneira de lhe dizer como isso a deixava numa posição ruim, porque, se fosse mesmo falar, isso acarretava dizer a ele que não sentia por ele o mesmo desejo que ele por ela: que ansiar por sexo com o parceiro era uma das coisas (vá lá, a coisa mais importante) de que tinha decidido abrir mão em troca de todas as coisas boas da vida em comum do casal. Confissão bem difícil de fazer para o homem amado. Walter tentou tudo que pôde imaginar para tornar o sexo melhor para ela, exceto a única coisa que talvez pudesse ter funcionado, que era parar de procurar algum meio de tornar o sexo melhor para ela e simplesmente uma noite dessas forçá-la a debruçar-se sobre a mesa da cozinha e arremeter contra ela por trás. Mas um Walter que pudesse ter tomado essa atitude não seria Walter. Ele era quem era, e queria que Patty desejasse a pessoa que ele era. Queria que as coisas fossem recíprocas! E assim o problema de pagar-lhe um boquete era que em troca ele sempre queria praticar sexo oral nela, o que provocava muitas cócegas em Patty. Com o tempo, ao cabo de anos de resistência, ela conseguiu fazê-lo parar totalmente de tentar. E sentiu-se culpadíssima, mas também furiosa e irritada por ele fazê-la sentir-se tão fracassada. O cansaço de Richard e Molly, na tarde em que vieram visitá-los, pareceu a Patty o cansaço de pessoas que tinham passado a noite inteira acordados trepando, o que é muito revelador do estado de espírito que a dominava naquela época, do ponto de esgotamento a que o sexo tinha chegado para ela, da totalidade da imersão de Patty em apenas ser a mãe de Jessica e Joey, de que nem mesmo ficou com inveja dos dois por aquilo. O sexo lhe parecia uma diversão para jovens que não tinham nada melhor para fazer. Certamente, nem Richard nem Molly lhe pareceram muito animados com ele.

E então os Traumatics seguiram em frente—para sua próxima apresentação, em Madison, e depois para o lançamento de mais discos de títulos estranhos que um certo tipo de crítico, e mais cerca de cinco mil pessoas no mundo, gostavam de ouvir, e shows em locais menores frequentados por sujeitos brancos bem instruídos mas mal ajambrados que já não eram tão jovens quanto tinham sido—enquanto Patty e Walter seguiam em frente com suas vidas rotineiras quase sempre muito absorventes, em que os trinta minutos semanais de tensão sexual eram um desconforto crônico mas pouco grave, como a umidade da Flórida. A autobiógrafa reconhece a possível ligação entre esse desconforto pouco grave e os erros muito graves que Patty vinha cometendo como mãe naqueles anos. Enquanto os pais de Eliza tinham errado, algum tempo antes, por curtirem demais um ao outro e curtirem Eliza de menos, pode-se talvez dizer que Patty cometeu o erro oposto com Joey. Mas são tantos os outros erros, não propriamente ligados à atuação como mãe, a serem relatados nestas páginas, que parece desumanamente penoso falar também dos equívocos de Patty em relação a Joey; a autobiógrafa teme que isso a fizesse estender-se no chão e nunca mais se levantar.

O que aconteceu primeiro foi que Walter e Richard voltaram a ser grandes amigos. Walter conhecia muita gente, mas a voz que ele mais queria encontrar quando chegava em casa e ligava a secretária eletrônica era a de Richard, dizendo coisas como, “Oi, estou falando de Jersey City. Não sei se você poderia me convencer de que a situação no Kuwait não é tão ruim quanto me parece. Ligue para mim”. Tanto pela frequência dos telefonemas de Richard quanto pela maneira menos defendida como falava nos últimos tempos com Walter— dizendo-lhe que não conhecia mais ninguém como ele e Patty, que eles eram sua ligação com um mundo de sanidade e esperança—, Walter acabou metendo na cabeça que Richard gostava e precisava mesmo dele, e não estava apenas aceitando passivamente sua amizade. (Eis o contexto em que Walter citava com gratidão o conselho que a mãe lhe dera em relação à lealdade.) Sempre que uma nova turnê trazia os Traumatics para a área, Richard arranjava tempo para visitá-los, geralmente sozinho. Interessou-se sobretudo por Jessica, que ele afirmava ser uma Alma Autenticamente Boa nos moldes de sua avó, e a bombardeava com perguntas atentas sobre seus escritores prediletos e seu trabalho voluntário na cozinha local para desabrigados. Embora Patty pudesse ter desejado uma filha que fosse mais parecida com ela, e para a qual a experiência que ela acumulara e os erros que cometera pudessem ser vistos como recursos reconfortantes, quase sempre sentia imenso orgulho de ter uma filha tão sensata quanto à maneira como o mundo funcionava. Gostava de ver Jessica através dos olhos de Richard, cheios de admiração, e quando ele e Walter saíam juntos, Patty se sentia segura ao ver os dois entrando juntos no carro, o ótimo sujeito com quem ela se casara e o sujeito muito atraente com quem não. O carinho de Richard por Walter fazia que ela própria visse Walter com bons olhos; seu carisma tinha a propriedade de ratificar tudo que tocava.

Uma sombra que se fazia perceber era a reprovação com que Walter encarava a situação de Richard com Molly Tremain. Molly tinha uma linda voz, mas era depressiva e possivelmente bipolar, passando muitíssimo tempo sozinha em seu apartamento do Lower East Side, fazendo frilas de revisão de textos à noite e dormindo o dia inteiro. Molly estava sempre disponível quando Richard queria vê-la, e Richard afirmava que ela não tinha o menor problema de ser sua amante ocasional, mas Walter não conseguia livrar-se da suspeita de que a relação entre os dois se apoiava em grandes equívocos. Ao longo dos anos, Patty extraiu de Walter várias revelações perturbadoras que Richard lhe fizera em particular, entre as quais “Às vezes eu acho que vim ao mundo para enfiar meu pênis nas vaginas do máximo de mulheres que eu conseguir” e “A ideia de praticar sexo com a mesma pessoa pelo resto da minha vida é para mim igual à morte”. A suspeita de Walter, de que Molly acreditava em segredo que Richard acabaria por superar esses sentimentos, por fim se revelaria correta. Molly era dois anos mais velha que Richard, e quando de repente resolveu que queria ter um filho antes que fosse tarde demais, Richard se viu obrigado a explicar por que aquilo nunca iria acontecer. Em pouco tempo as coisas entre eles ficaram tão mal que ele a largou de todo e ela, por sua vez, deixou a banda.

Ocorre que a mãe de Molly era uma das editoras de Artes do New York Times, fato que pode explicar por que os Traumatics, apesar das vendas bem abaixo de dez mil discos e plateias de pouco menos de cem espectadores, tinham merecido várias resenhas no jornal (“Sempre originais, jamais conhecidos”, “Inabaláveis diante da indiferença, os Traumatics persistem na carreira”), além de críticas breves de cada um dos seus discos posteriores a Caso você não tenha reparado. Coincidência ou não, Loucos de felicidade—o primeiro disco que gravaram sem Molly e, mais tarde se veria, o último da banda—foi ignorado não só pelo Times mas até pelos semanários gratuitos que vinham sendo havia muito um dos bastiões do apoio aos Traumatics. O que aconteceu, explicou Richard num jantar de fim de tarde com Walter e Patty quando a banda passou mais uma vez despercebida pelas Cidades Gêmeas, foi que ele vinha obtendo atenção da imprensa a crédito desde o início, sem jamais perceber, e que a imprensa tinha finalmente concluído que uma proximidade maior da obra dos Traumatics jamais se tornaria necessária para o conhecimento cultural ou a credibilidade de ninguém, e assim não era mais o caso de lhe renovar o crédito.

Patty, levando tampões de ouvido, foi com Walter ao show daquela noite. As Sick Chelseas, um quarteto de assonantes meninas locais pouco mais velhas que Jessica, abriu a noite para os Traumatics, e Patty se pegou tentando adivinhar qual das quatro Richard vinha cantando nos bastidores. Não estava com ciúme das garotas, ficava triste por Richard. Finalmente percebiam, tanto ela quanto Walter, que apesar de bom músico e bom letrista Richard não estava tendo a melhor das vidas: na verdade não estava brincando nem um pouco quando falava mal da própria existência e declarava sua admiração e sua inveja por ela e Walter. Depois que as Sick Chelseas acabaram de tocar, seus amigos e amigas de menos de vinte anos saíram do local e deixaram para trás não mais de trinta tenazes fãs dos Traumatics—brancos, homens, mal ajambrados e ainda menos jovens do que já tinham sido—para ouvir a apresentação feita por Richard sem nenhuma expressão no rosto (“Queremos agradecer a vocês por terem vindo a este Bar 400 e não ao outro Bar 400, mais popular... Acho que nós cometemos o mesmo engano”) e depois uma ruidosa interpretação da faixa-título do novo disco—

Que cabeças pequenas nesses carros gigantes!

Loucos de felicidade, sentados ao volante!

E mil locutoras sorrindo nas lojas

Um muro de tevês! Começo a me sentir

LOUCO DE FELICIDADE! LOUCO DE FELICIDADE! e, mais tarde, uma interminável canção e mais tipicamente repulsiva, “tcby”, que consistia principalmente em sons de guitarra que lembravam lâminas de barbear e cacos de vidro, por cima dos quais Richard cantava seus versos—

Você pode ser comprado

Pode ser chacinado

Iogurte banal de marca atraente

O gato ontem comeu no balcão

Tecno creme, amarelo bege

Delícia criada pela vaca de presépio

Você pode ser surrado

Pode ser enterrado

Jovens pisados sufocados e incultos

A quem o yahoo só ensina o consumo

Não pode ser isto o melhor do país

Não pode ser isto o melhor do país

e finalmente sua canção lenta, de sonoridade country, “O outro lado do balcão”, que deixou os olhos de Patty úmidos de tristeza por ele—

Existe uma porta sem letreiro para lugar nenhum

Do outro lado do balcão

E tudo que eu sempre quis

Foi me perder nesse espaço com você

A notícia da nossa extinção

Corre atrás de nós pelo vácuo

Entramos na rua errada depois do telefone público

E nunca mais ninguém nos viu.

A banda era boa—Richard e Herrera tocavam juntos havia quase vinte anos —mas era difícil imaginar uma banda que fosse boa a ponto de superar a desolação daquela casa de espetáculos tão apertada. Depois de um único bis, “Odeio a luz do sol”, Richard não saiu pelo lado do palco, mas simplesmente encostou a guitarra no apoio e pulou para a pista.

“Simpático vocês terem ficado”, disse ele ao casal Berglund. “Eu sei que vocês acordam cedo.”

“Foi ótimo! Você estava ótimo!”

“Falando sério, acho que é o melhor disco que você já gravou”, disse Walter. “As músicas são ótimas. Mais um grande passo à frente.”

“Pois é.” Richard, distraído, passava em revista os fundos da plateia, tentando descobrir se alguma das Sick Chelseas ainda estaria por lá. E uma delas, claro, estava. Não a baixista de uma beleza convencional em que Patty teria apostado, mas a baterista alta, mal-humorada e de ar descontente, que evidentemente fez mais sentido assim que Patty pensou um pouco melhor. “Tem uma pessoa esperando para falar comigo”, disse Richard. “Vocês devem estar querendo ir logo para casa, mas podemos sair daqui todos juntos se preferirem.”

“Não, pode ir”, disse Walter.

“Adorei ouvir você tocar, Richard”, disse Patty. Pousou uma mão amiga no braço dele e então ficou observando-o caminhar na direção da baterista mal-humorada.

No caminho para casa em Ramsey Hill, a bordo do Volvo da família, Walter não parava de falar das qualidades de Louco de felicidade e do gosto degradante do público americano, que acorria aos milhões para a Dave Matthews Band e nem mesmo sabia da existência de Richard Katz.

“Desculpe”, disse Patty. “Mas pode me lembrar por que Dave Matthews não presta?”

“Por praticamente tudo, menos a competência técnica”, respondeu Walter.

“Está certo.”

“Mas talvez acima de tudo pela banalidade das letras. ‘Preciso ser livre, tão livre, yeah, yeah. Não sei viver sem a minha liberdade, yeah, yeah.’ Mais ou menos em todas as músicas.”

Patty riu. “Você acha que Richard vai transar com aquela menina?”

“Sem dúvida vai tentar”, disse Walter. “E provavelmente conseguir.”

“Acho que não tocavam muito bem. As meninas.”

“Tocavam bem mal. Se Richard transar com ela, não é para confirmar o talento da banda.”

Em casa, depois de verificar se as crianças estavam bem, ela vestiu uma camiseta sem mangas, um short curto de algodão, e veio à procura de Walter na cama. Era muito fora do comum no caso dela, mas felizmente não inédito a ponto de provocar algum comentário ou interrogatório; e Walter não precisava de muita insistência para atender a seus desejos. Nem foi grande coisa, só uma surpresinha de fim de noite, mas ainda assim, em retrospecto, a autobiógrafa acredita que talvez tenha sido quase o ponto alto da vida do casal. Ou ainda, mais precisamente, o ponto final: a última vez em que ela se lembra de ter se sentido segura e a salvo no casamento. Sua proximidade com Walter no Bar 400, a lembrança da cena do primeiro encontro entre eles, o conforto de estar na presença de Richard, o calor do carinho que os unia como casal, o simples prazer de receber aquele velho amigo tão querido, e depois o raro pitéu, para ambos, do desejo súbito e intenso de Patty de sentir Walter dentro de si: o casamento estava funcionando. E não parecia haver o menor motivo para que não continuasse a funcionar, talvez até funcionar cada vez melhor.

Algumas semanas mais tarde, Dorothy caiu no chão da loja de roupas em Grand Rapids. Patty, em palavras que lhe lembraram sua própria mãe, manifestou a Walter sua preocupação com a qualidade do atendimento hospitalar que ela recebeu, tragicamente confirmada quando Dorothy sofreu falência múltipla dos órgãos e morreu. A dor de Walter foi ao mesmo tempo excessiva, provocada não só pela perda da mãe mas também pelo caráter truncado de toda a vida dela, e só um pouco atenuada pelo fato de que aquela morte era também um alívio e uma libertação para ele—o fim da responsabilidade que ela representava, um corte da principal amarra que ainda o prendia a Minnesota. Patty ficou surpresa pela intensidade de sua própria dor. Como Walter, Dorothy sempre acreditara no melhor de Patty, que ficou triste por não ter sido feita, nem no caso de uma pessoa de espírito tão generoso quanto Dorothy, uma exceção à regra de que todo mundo acaba morrendo sozinho. Que Dorothy em sua gentileza eternamente confiante tenha precisado atravessar desacompanhada as portas amargas da morte: foi uma punhalada no coração de Patty.

E também ficou com pena de si mesma, claro, como ocorre com todo mundo que fica com pena de quem sofre uma morte solitária. Ajudou a cuidar do enterro num estado mental cuja fragilidade a autobiógrafa espera que explique, pelo menos em parte, a maneira como reagiu mal ao descobrir que uma menina mais velha da vizinhança, Connie Monaghan, vinha abusando sexualmente de Joey. A litania dos erros que Patty passou a cometer em seguida a essa descoberta excederia em muito a extensão do presente documento, já tão longo. A autobiógrafa ainda sente tanta vergonha do que fez com Joey que nem conseguiria transformar os acontecimentos numa narrativa com sentido. Quando você de repente se descobre num beco atrás da casa do vizinho, às três da manhã, rasgando os pneus da picape que ele dirige, pode alegar insanidade temporária para se defender no tribunal. Mas funcionará também como defesa moral?

Pela defesa: Patty tentou, desde o início, avisar Walter que tipo de pessoa era. Chegou a dizer a ele que tinha problemas sérios.

Pela acusação: Walter estava tomando os devidos cuidados. Foi Patty quem partiu em seu encalço em Hibbing e se atirou em cima dele.

Pela defesa: Mas ela estava tentando fazer uma coisa boa, e ter uma vida boa! E depois desistiu de todo mundo e se empenhou muito em ser excelente mãe e dona de casa.

Pela acusação: Mas tudo pelo motivo errado. Rivalidade com a mãe e as irmãs. Queria que seus filhos fossem um libelo contra elas.

Pela defesa: Ela amava os filhos!

Pela acusação: Amava Jessica na medida certa, mas Joey ela amava em excesso. Sabia o que estava fazendo e não parou, porque estava furiosa com Walter por não ser o que realmente queria, e por ser mau-caráter e julgar que merecia alguma compensação por ter sido uma estrela competidora presa na armadilha de uma vida de dona de casa.

Pela defesa: Mas o amor simplesmente acontece. Não era culpa dela sentir tanto prazer com qualquer bobagem que tivesse a ver com Joey.

Pela acusação: Foi culpa dela. Ninguém pode ser apaixonado além da conta por biscoitos e sorvete e depois dizer que não é culpa sua ter chegado aos cento e cinquenta quilos.

Pela defesa: Mas ela não sabia! Achava que estava fazendo a coisa certa, dando aos filhos a atenção e o amor que seus pais não lhe tinham dado.

Pela acusação: Ela sabia sim, porque Walter lhe disse, disse de novo e tornou a dizer.

Pela defesa: Mas Walter não inspirava confiança. Ela achava que devia sempre tomar o lado de Joey e ser a policial boa, porque Walter era sempre o tira mau.

Pela acusação: O problema não estava entre Walter e Joey. O problema era entre Patty e Walter, e ela sabia perfeitamente disso.

Pela defesa: Ela ama Walter!

Pela acusação: Os autos sugerem o contrário.

Pela defesa: Bem, nesse caso Walter também não ama Patty. Não ama Patty de verdade. Ama uma ideia errada que formou a seu respeito.

Pela acusação: Seria bem conveniente, caso fosse verdade. Para azar de Patty, ele não se casou com ela apesar de ela ser quem era, mas exatamente por causa disso. Pessoas boas não se apaixonam necessariamente por seus iguais.

Pela defesa: Não é justo dizer que ela não ama Walter!

Pela acusação: Se ela não sabe se comportar, não faz diferença se ama ou não.

Walter sabia que Patty tinha rasgado os pneus da picape pavorosa do pavoroso vizinho deles. Nunca chegaram a falar sobre isso, mas ele sabia. E era devido ao fato de nunca terem falado a respeito que ela sabia que ele sabia. O vizinho, Blake, estava construindo um anexo pavoroso nos fundos da casa da sua namorada pavorosa, a mãe pavorosa de Connie Monaghan, e naquele inverno Patty achava proveitoso beber uma garrafa ou mais de vinho toda noite, e depois acordar suada de ansiedade e raiva no meio da noite, caminhando de um lado para o outro pelo primeiro piso da casa, entregue a uma insanidade esmagadora. Havia uma arrogância imbecil em Blake que, em seu estado de privação de sono, ela achava equivalente à arrogância imbecil do promotor especial que forçou Bill Clinton a mentir sobre Monica Lewinsky e a arrogância imbecil dos deputados que em seguida votaram a favor de seu impeachment pela mesma razão. Bill Clinton era um caso raro de político que não parecia hipócrita a Patty—que não se passava por pessoa certinha—e ela era uma dos milhões de mulheres americanas que não hesitariam um segundo antes de dar para ele. Arriar os quatro pneus do pavoroso Blake foi o mais leve dos golpes que pensou desferir em defesa de seu presidente. O que de maneira alguma pretende justificar seus atos, apenas evidenciar seu estado de espírito.

Um agravante mais direto era o fato de que Joey, naquele inverno, agia como se admirasse Blake. Joey era inteligente demais para ter uma admiração verdadeira por Blake, mas estava atravessando um período de revolta adolescente que o obrigava a gostar das coisas que Patty mais detestava, a fim de afastá-la de si. E era algo que ela provavelmente merecia, devido aos milhares de erros que tinha cometido por amá-lo em excesso, mas, à época, não achava que merecesse. Sentia-se como se tivesse levado uma chicotada no rosto. E devido a certas coisas monstruosamente maldosas que se vira capaz de dizer a Joey, nas várias ocasiões em que ele a provocou a ponto de fazê-la perder o controle e responder com violência, sempre fez o possível para dar vazão à sua dor e à sua raiva atingindo terceiros, como Blake e Walter.

Não achava que fosse alcoólatra. Não era alcoólatra. Só estava ficando parecida com o pai, que às vezes fugia da família bebendo além da conta. Houve época em que Walter certamente ficava satisfeito ao ver que ela gostava de beber um ou dois copos de vinho depois que as crianças iam dormir. Dizia que tinha crescido sentindo náuseas com o cheiro do álcool e que aprendera a adorar senti-lo no hálito de Patty, porque vinha do fundo dela e ele a adorava por dentro. Era o tipo de coisa que ele às vezes dizia a ela—o tipo de declaração a que ela jamais conseguia responder à altura, mas de qualquer maneira a deixava enlevada. Mas depois que uma ou duas taças se transformaram em seis ou oito, tudo mudou. Walter precisava que ela se mantivesse sóbria à noite, para ouvir tudo que ele achava moralmente defeituoso no filho de ambos, enquanto ela precisava não se manter sóbria para não ter de ouvir. Não era alcoolismo, era autodefesa.

E aqui: eis aqui uma séria deficiência pessoal de Walter: ele era incapaz de aceitar que Joey não fosse como ele. Se Joey fosse tímido e inseguro com as garotas, se Joey gostasse do papel de filho, se Joey quisesse um pai que lhe ensinasse coisas, se Joey fosse invariavelmente honesto, se Joey tomasse o lado dos mais fracos, se Joey amasse a natureza, se Joey fosse indiferente ao dinheiro, ele e Walter se dariam muito bem. Mas Joey, desde que deixou de ser um bebê, era uma pessoa mais nos moldes de Richard Katz—elegante sem fazer força, asperamente seguro de si, totalmente concentrado em alcançar o que queria, impermeável a sermões moralizantes, sem o menor medo das meninas—, e Walter levava toda a frustração e todo o desapontamento que sentia com seu filho e o depositava aos pés de Patty, como se a culpa fosse dela. Ele passara quinze anos implorando o apoio dela quando tentava castigar Joey, para ajudá-lo a impor respeito às proibições vigentes a videogames, aos excessos de tv e às músicas que degradavam as mulheres, mas Patty não conseguia se impedir de amar Joey tal como ele era. Admirava sua habilidade e achava graça em seu talento para driblar as proibições: ele sempre lhe parecia um menino incrível. Um dos melhores alunos da turma, esforçado, popular na escola, esplendidamente empreendedor. Talvez, se ela fosse mãe solteira, tivesse se preocupado mais com a disciplina. Mas Walter se encarregava disso, e ela se permitia achar que tinha uma amizade incrível com o filho. Adorava as imitações maldosas que ele fazia de professores de que não gostava, transmitia a ele sem a menor censura a maledicência obscena dos vizinhos, sentava-se na cama dele com os joelhos erguidos e enlaçados pelos braços e não recuava diante de nada para fazê-lo rir, nem mesmo Walter era terreno vedado. Não achava que estava sendo infiel a Walter quando fazia Joey rir das excentricidades do pai—sua abstinência de bebida, sua insistência em ir de bicicleta ao trabalho, mesmo quando chovia e fazia frio, sua incapacidade de se defender de gente chata, seu ódio aos gatos, seu veto a toalhas de papel, seu entusiasmo pelo teatro difícil—porque essas eram as coisas que ela própria tinha aprendido a amar nele, ou pelo menos a achar particularmente engraçadas, e queria que Joey visse Walter como ela o via. Ou pelo menos era essa a maneira como racionalizava seus atos, pois, para ser honesta consigo mesma, o que ela queria era que Joey ficasse encantado com ela.

E não via como ele pudesse mostrar-se leal e dedicado à garota vizinha. Achava que Connie Monaghan, concorrentezinha ardilosa, tinha conseguido adquirir algum tipo de ascendência obscena sobre ele. Levou um tempo desastrosamente longo até perceber a seriedade da ameaça Monaghan, e nos meses durante os quais subestimou os sentimentos de Joey pela garota—achando que poderia simplesmente manter Connie congelada do lado de fora e que bastava zombar de maneira leviana de sua mãe cafona e do namorado tapado da mãe para que dali a pouco Joey também estivesse rindo deles—, conseguiu fazer desandar quinze anos de empenho em ser boa mãe. Foi uma cagada em grande estilo, a de Patty, depois da qual ficou totalmente fora dos eixos. Tinha brigas terríveis com Walter em que ele a culpava por tornar Joey incontrolável e ela não conseguia se defender, pois não se permitia pôr para fora a convicção doentia que carregava no peito, de que Walter tinha posto a perder a amizade dela com o filho. Dormindo na mesma cama que ela, sendo marido dela, obrigando Patty a se alinhar aos adultos, Walter levara Joey a acreditar que Patty fazia parte do campo inimigo. Ela odiava Walter por isso, e se arrependia do casamento. Joey saiu da casa dos pais para a das Monaghan e fez todos pagarem por seus erros com lágrimas amargas.

Embora isso mal descreva a superfície das coisas, já é mais do que a autobiógrafa pretendia dizer sobre esses anos, e agora reunirá sua coragem para seguir em frente.

Um pequeno benefício de ter toda a casa à sua disposição era que Patty podia ouvir a música que quisesse, especificamente a música country a cujos primeiros acordes Joey sempre gritava de aflição e repulsa, e que Walter, com seus gostos de programador de rádio universitária, só conseguia tolerar restrita a uma lista muito limitada e basicamente vintage: Patsy Cline, Hank Williams, Roy Orbison, Johnny Cash. Patty também adorava os mesmos cantores, mas não menos Garth Brooks e as Dixie Chicks. Assim que Walter saía para o trabalho de manhã, ela regulava o volume num nível incompatível com qualquer reflexão, e se impregnava de dores de cotovelo tão parecidas com a sua que a reconfortavam e tão diferentes da sua que acabavam por lhe parecer meio engraçadas. Patty gostava principalmente das letras e das histórias que elas contavam—Walter já tinha desistido muito antes de despertar seu interesse por Ligeti ou Yo La Tengo— e nunca se cansava dos homens mentirosos, das mulheres fortes e do espírito indômito da humanidade.

Ao mesmo tempo, Richard estava formando o Walnut Surprise, seu novo conjunto de country alternativo, com três garotos cujas idades somadas não eram muito maiores que a dele. Richard talvez até tivesse persistido com os Traumatics, lançando novos discos no vazio, não fosse um bizarro acidente que só podia mesmo ter acontecido com Herrera, seu velho amigo e contrabaixista, perto de cuja desorganização e péssima aparência Richard dava a impressão de um sujeito de terno cinza de flanela. Resolvendo que Jersey City era burguesa demais (!) e depressiva de menos para ele, Herrera se mudou para Bridgeport, Connecticut, onde foi morar num cortiço. Um dia se apresentou num comício em Hartford em favor de Ralph Nader e outros candidatos do Partido Verde depois de organizar um espetáculo chamado Dopplerplus, composto de um velho brinquedo Polvo alugado de um parque de diversões em cujos tentáculos instalou sete amigos que tocavam cantos fúnebres em pequenos amplificadores enquanto o brinquedo girava e distorcia o som que produziam de forma interessante. A namorada de Herrera mais tarde contou a Richard que o Dopplerplus foi “incrível” e “um enorme sucesso” para “as mais de cem” pessoas que compareceram ao comício, mas depois, quando Herrera estava arrumando tudo, sua van começou a descer uma ladeira, Herrera correu atrás dela, enfiou o braço pela janela e pegou o volante, o que deu uma guinada na van, que bateu de lado num muro e o amassou. De algum modo ele acabou de carregar a van e voltou dirigindo até Bridgeport, tossindo sangue, e lá quase expirou de ruptura do baço, da fratura de cinco costelas e mais a clavícula e de um pulmão perfurado antes de sua namorada conseguir chegar com ele ao hospital. O acidente, depois das decepções de Louco de felicidade, pareceu um sinal cósmico a Richard, e, como ele não conseguiria viver sem produzir música, passou a ser acompanhado por um jovem fã seu que tocava muito bem pedal steel guitar, e assim nasceu o Walnut Surprise.

A vida pessoal de Richard não ia muito melhor que a de Walter e Patty. Perdeu vários milhares de dólares na turnê anterior dos Traumatics, “emprestou” a Herrera, que não tinha seguro-saúde, mais alguns milhares para cobrir as despesas médicas, e sua situação doméstica, da maneira como a descreveu no telefone para Walter, estava em petição de miséria. O que tornou toda a sua existência viável, por quase vinte anos, foi o imenso apartamento térreo em Jersey City pelo qual pagava um aluguel tão baixo que era quase simbólico. Richard não conseguia jogar nada fora, e seu apartamento era tão grande que nem precisava. Walter estivera lá numa de suas viagens a Nova York, e contou que o hall em frente à porta de Richard estava abarrotado de restos de equipamentos de som, colchões e peças sobressalentes para sua picape, e que o pátio dos fundos vinha se enchendo de material e restos de seu trabalho de construção de deques de madeira. E o melhor de tudo era que ainda havia uma sala no porão bem debaixo do apartamento dele, onde os Traumatics podiam ensaiar (e, mais tarde, chegaram a gravar) sem perturbar muito os demais moradores. Richard sempre tivera o cuidado de manter um bom entendimento com eles, mas depois do rompimento com Molly cometeu o erro medonho de ir um pouco mais longe e se envolver com uma vizinha do edifício.

Continuar: parte 3 de 4