Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII
Capitulo VII
Corria o tempo veloz e feliz para Manuel de Moraes. Cumpria com as obrigações do seu emprego. Applicava-se ás lettras e ás artes. Engolfava-se na contemplação do seu amor. Espirito e coração nadavão em prazer e delicias ineffaveis.
Sem que os dous amantes se tivessem mutuamente rasgado os segredos do peito, e confessado as suas ardencias apaixonadas, parecião comprehender-se entre si, porque no trocar dos olhos os feria a chamma, e nas{139} conversações familiares denunciavão as palavras de ambos os seus intimos sentimentos. Notámos já que o amor de Manuel de Moraes tendia a idéas e instinctos mais sensuaes, emquanto que o affecto de Beatriz se sumia no espiritualismo de um animo raciocinador, e menos dedicado ás cousas do mundo. Mais firme devia de ser o da donzella, porque nascia da convicção e da razão que o aceitárão, e dos pensamentos sublimes que ella nutria. Resplandecia como uma aureola celeste, e uma aspiração pura e santa. Dominava a paixão de Moraes os sentidos materiaes exclusivamente, avassallava-o pela fascinação, curvava-o pelo enthusiasmo, e pertencia mais á terra e á realidade, fragil e inconstante como o homem, exaltada e attribulada como todos os seus impetos.
Amavão-se, e bastava o mutuo sentimento para approxima-los, sem que percebessem as differenças que os arredarião mais tarde. {140}
Preparára no entanto Mauricio de Nassau uma poderosa expedição para augmentar os dominios dos Hollandezes no continente brazilico. Reunindo uma frota de vinte dous vasos de guerra, mandou embarcar tres mil e duzentos soldados hollandezes e mil gentios de Pernambuco, com quem entretinha relações amigaveis e excellente alliança, e passou ordens para se dirigirem para a Bahia do Salvador, e tomarem á força conta d'esta praça importante.
Partíra a frota, e penetrára na Bahia, descarregando gente que por terra coadjuvasse os navios na redição da cidade. Foi o assalto terrivel e medonho. Defendêrão-se com denodo os habitantes da praça. Tomárão os Hollandezes os fortes Alberto, Felippe, Bartholomeu, e Rosario. Pretendendo escalar o convento dos Carmelitas descalços, fortificado cuidadosamente, soffrêrão todavia resistencia tão azeda e pertinaz, que os compellio a recuar.{141} Tinhão perdido já cerca de mil e cem homens, quando conhecêrão que lhes não restava recurso, para não morrerem todos, senão no levantamento do sitio, e no abandono da praça. Volvêrão vencidos para o Recife os restos da famosa expedição effectuada pelos Hollandezes em Maio de 1637. Amargurára-se extremamente o principe de Nassau com este evento desastroso dos seus projectos. Traçou todavia ajuntar meios mais fortes e poderosos para os levar avante, não perdendo a esperança de annexar a capitania da Bahia aos demais territorios de que já estava de posse no continente americano, que se intitulava n'esse tempo de Brazil hollandez, para se distinguir do que sobrava ainda aos Portuguezes.
Tramava porém na Hollanda contra o principe um seu decidido inimigo, Christovão Artichfsky, Polaco de nascimento, general ao serviço dos Estados Geraes, e que{142} governára militarmente Pernambuco antes que se tivesse confiado a administração do paiz a Mauricio de Nassau. Proezas praticára Artichfsky, serviços distinctos commettêra, fama de valentia e coragem ganhára, durante as guerras em que anteriormente laborava a Companhia das Indias Occidentaes. Retirado do Recife ao chegar Mauricio, conservava creditos excellentes na Hollanda, e procurava vingar-se da preterição que reputava injusta, e da sua substituição pelo principe Mauricio no cargo principal da Companhia em seus territorios de Pernambuco.
Aproveitando-se da derrota soffrida pélas armas hollandezas diante da Bahia do Salvador, levantou opposições contra Mauricio no conselho director de Amsterdam. Logrou que sem se lhe tirar a autoridade civil e administrativa, confiasse o conselho a Artichftky o commando em chefe das forças militares, com o titulo de mestre general da artilharia.{143}
Chegado ao Recife, e empossado do seu novo cargo, encetou Artichfsky uma serie de correspondencias para Hollanda, censurando os actos do principe de Nassau, e pretendeu manobrar em Pernambuco independentemente da sua autoridade, e fóra da acção superior de Mauricio.
Exasperou-se o principe com o procedimento de Artichfsky, e reunio o seu conselho secreto e politico. Expôz-lhe a impossibilidade da existencia no Brazil hollandez de duas autoridades em luta e dissidencia. Manifestou intenções de retirar-se para Hollanda, e abandonar o Recife.
Erão porém todos os membros do conselho amigos do principe, e justos apreciadores dos seus talentos administrativos. Assentárão unanimemente em fazer uso das suas faculdades extraordinarias e superiores, decidindo em favor de Mauricio, e reenviando para Hollanda o astucioso Polaco, com communicações{144} francas á Companhia a respeito dos motivos que os levavão a adoptar essa anormal resolução e alvitre.
Partíra constrangido Artichfsky, e ficára o principe senhor da situação, e livre do seu inimigo. Mas o perspicaz e atilado conselheiro Brodechevius, pressentio logo que as intrigas do Polaco em Amsterdam arrancarião por fim ao principe o governo de Pernambuco, e os odios concentrados dos naturaes do paiz recomeçariam as lutas e guerras nas terras já possuidas pela Companhia, e lograrião expellir do solo americano as armas hollandezas. Conservava-se tranquillo o Brazil hollandez com a moderação, experiencia e tino de Mauricio de Nassau. Regimen diverso arrastaria tudo para a perdição.
Deliberou-se Brodechevius a abandonar o Recife, e recolher-se a Amsterdam com a sua familia. Communicou á sua filha os seus intentos para que se preparasse a seguir na{145} primeira frota que para Hollanda se fizesse de vela.
Recebeu Beatriz a noticia com tristeza e amargura, mas não oppôz duvidas á resolução de Brodechevius. Tornou-se mais reservada com Manuel de Moraes, escondendo-lhe todavia os projectos paternos.
Não escapou a Manuel de Moraes a nova phase por que passava o trato da donzella. Diminuir-se-lhe-hia o affecto que, sem lhe haver sido jámais declarado, elle não deixára de perceber? Que causas lhe teria dado? Quando de soffrimentos intimos resultasse a frieza calculada, mas triste e pensativa de Beatriz, d'onde partia a sua origem?
Atormentava-se Moraes com serias cogitações, sem que pudesse rasgar o véo que encobria a dôr de Beatriz, que cada vez mais o acabrunhava com o seu procedimento reservado. Corrêrão alguns dias nebulosos e enlutados após tantos dias alegres, felizes,{146} perfumados de amores, de estremecimentos risonhos e de sonhos vaporosos.
Resolveu-se Manuel a um passo atrevido. Não podia conservar-se n'aquella situação miseranda depois da anterior e aventurada posição. Sentio que a franqueza se tornava necessaria, qualquer que fosse o seu resultado. Preferivel era abrir a Beatriz o intimo do seu peito, dirigir-lhe uma declaração leal do seu amor, manifestar pelos labios o que com mais eloquencia havião os olhos propalado, já que uma nuvem se interpuzera á linguagem muda com que mutuamente até então se correspondião.
Não lhe faltavão occasiões para se achar a sós com a donzella. Tomou forças para a acção, e arrojou-se a pratica-la. Perguntou-lhe decidida e resolutamente pelo motivo da sua tristeza, que desgraça lhe houvera acontecido, ou que calamidade estava a elle reservada. Tentou Beatriz esconder-lhe a verdade.{147} Apertando-a cada vez mais, sem que lograsse ser satisfeito, arrancou do coração um grito de dôr, e disse-lhe estremecidamente:
—Dizei-m'o, dizei-m'o por piedade. Não sabeis já, com que força vos amo e adoro!
Não espantou a confissão á donzella. Conheceu porém que após ella feita tão solemnemente, melhor fôra fallar-lhe com lealdade. Posto pretendesse apparentar-se calma e tranquilla a physionomia abatida trahia-a, e a voz se lhe embargava ás vezes, correndo vagarosa e como perturbada por entre os tremulos labios que a desprendião.
Declarou-lhe que seu pai lhe annunciára que pela primeira frota, que do Recife seguisse para a Hollanda, deverião ambos partir, deixando por uma vez as terras de Pernambuco.
—Partir! partir!—exclamou elle attonito;—E eu que fico aqui fazendo? que vida posso esperar?{148}
Subírão-lhe ao espirito todos os impetos da paixão. Fallou mais alto o sentimento do peito que a reflexão, o respeito e a conveniencia.
—Para que me apparecestes?—continuou desasocegadamente. —Para que mostrastes a meus sentidos absortos, quietos e indifferentes, o que era amor, que elles nunca tinhão conhecido.
Estava Beatriz acostumada a ler-lhe a paixão nos gestos, no trato, nos olhos, no fogo, e no enthusiasmo. Não escapa a mulher nem-uma o mysterio de um coração apaixonado, qualquer que seja o trabalho que se empregue em occulta-lo. Impressionou-se todavia com a força e vehemencia com que elle fallava. Fingíra a principio que o não comprehendêra. Empregára esforços para divergir do assumpto do colloquio. Não conseguindo porém que Moraes o abandonasse, disse-lhe Beatriz com sombrio, mas calculado enternecimento:{149}
—Razão maior encontro eu agora na necessidade de separar-nos. Não vos quero enganar. Amo-vos tambem, e não menos profundamente do que me asseverais ser para comigo o vosso sentimento! Serei desditosa igualmente. Devem apartar-nos mares, distancias, terras, espaços. Tentarei esquecer-vos... Procurai igualmente riscar do vossa espirito a minha lembrança... Poderá talvez o tempo abafar idéas que a loucura nos creou, e que a razão condemna...
—Não vos entendo,—interrompeu-a Manuel de Moraes.—Porque condemnará a razão o que lhe não é contrario?
—Não o pensastes, e nem eu ao principio—repetio-lhe Beatriz, pegando-lhe na mão, erguendo humedecidos os olhos para o céo, e empregando um tom de ineffavel ternura.—Deixámos imprudentemente que a paixão se infiltrasse pelos nossos corações, sem que pressentissemos a impossibilidade de{150} uma união legitima. Sois catholico, eu protestante. Distancia fatal e insuperavel nos arreda um do outro. Não podem meus pais esquecer as violencias que dos vossos soffrêrão. Gottejão feridas profundas entre os dous cultos...
—Impossivel! impossivel!—prorompeu Moraes.—Emquanto me não convencia de ser correspondido, poderia realisar-se a separação. Tragaria eu só a minha dôr, matar-me-hia ella sem duvida. Agora que me raiou o céo diaphano, que me sorrio a natureza toda, que me fallão os anjos no paraiso—é impossivel.— Partis, eu parto. Em qualquer parte, lugar ou sitio que vos abrigue, quaesquer mares que atravesseis, estarei ahi tambem, encontrar-me-heis como quem respira com o vosso sopro, vive com a vossa vida, e exhalará o ultimo suspiro da existencia por vós, ou comvosco!
—De que serve tudo isso,—replicou-lhe Beatriz agitada igualmente, posto esforçando-se{151} em parecer serena,—se jámais podemos unir-nos, se nos separão para sempre os homens, os cultos, as tradições e os costumes? Eu não posso tornar-me catholica. Não poderieis renegar a vossa religião, e quando o amor em um momento vos desvirtuasse a razão, e vos coagisse a renegar, não vos atormentaria eternamente o perjurio, não ralaria o remorso todos os dias da vossa vida? Não se murcharia com elle o amor que exigio sacrificios superiores á alma e á fé? Não o quebrantaria o arrependimento, reputando-o capricho insensato? Pensai melhor. Tratemos de cicatrizar o que o peito soffre. Somos como dous viajores que se encontrárão no deserto, repousárão ambos á sombra do mesmo oásis, refrescárão os seus labios nas aguas da mesma fonte, e se despedírão depois, seguindo cada um para horizontes diversos. Este valle de lagrimas em que andamos errantes não é eterno. Transpomo-lo apenas. Mais tarde nos{152} encontraremos. Como o filho de Abrahão atravessastes a Mesopotamia. Não vos seguirá porém a filha de Labão.
—Quereis que eu morra?—perguntou-lhe Manuel assombrado por essas palavras quasi mysticas, e accentuadas tristemente, que lhe dirigira a donzella.—Melhor fôra que me houvesseis deixado perecer quando Deos me mandou aquella febre terrivel, que me consumiria de certo se os vossos cuidados e carinhos me não tivessem salvado!
—Deos—repetio-lhe Beatriz—nos concedeu um coração para amar, mas acima do coração collocou o espirito, que é a sua emanação divina, e a razão que deve dominar sobre tudo e todos. Emmudeça a paixão diante da reflexão. Não nos é permittido unir-nos honestamente. Ficai em Pernambuco. Eu parto. Assim devia sê-lo, logo que nos descobrímos mutuamente os sentimentos.{153}
—Não, não,—gritou Manuel.—Mato-me antes. O que é a vida? o que vale para o homem solitario e abandonado na terra? o que é a religião, quando a creatura não tem fé intensa e profunda, e reconhece que pertence igualmente ao mundo, e á sociedade humana?
Aterrou-se a donzella com esta declaração inopinada. Percebeu logo que a paixão cegava Moraes, e o precipitava para destinos desconhecidos. Mas essa paixão se manifestava com uma força que lisongeava de certo o seu amor-proprio, e exaltava a seus olhos o amante capaz dos maiores sacrificios. Não era todavia Beatriz tão sensivel ao arrastamento dos instinctos do seu sexo, que não deslumbrasse ao longe, e no tempo as consequencias fataes que poderião resultar do enthusiasmo.
—Mudança de culto,—disse-lhe ella,—exige convicção firme, e não subito hallucinamento.{154} Deve ser obra da razão, não do coração. O espirito confirma e garante. O amor é passageiro. Quando lhe desapparece o encanto, e murcha-lhe o viço, bate á porta o arrependimento. Eu propria me condemnaria se causasse a vossa eterna desgraça...
—Não a temais,—retorquio-lhe Manuel.—Permitti que eu vos acompanhe para Hollanda, e provar-vos-hei por meus actos a sinceridade de minhas palavras.
Prometteu-lhe Beatriz pensar no que elle lhe dissera, pedindo-lhe um momento de socego. Cortou-se a conversação, separando-se na maior agitação do espirito.
Dominava a paixão exclusivamente em Manuel de Moraes. Subordinárão-se-lhe todos os mais sentimentos moraes e intellectuaes. Acurvou-se como convencido, ou melhor como escravo que se liga ás suas cadeias e ferros, reputando-os como a sua felicidade,{155} considerando-os como sorte inevitavel e unica que lhe está reservada, e a que o attrahem delicias particulares, sonhos dourados, e voluptuosos imans.
Reflectia mais Beatriz. Folgava-lhe o coração com o amor profundo de Moraes. Fallava-lhe porém a razão, denunciando-lhe perigos futuros. Luta de amor risonho, e de tristes pressentimentos, se lhe travou no espirito, e o apouquentou bastante.
Resolveu-se a fallar com seu pai. Confessou-lhe que amava Moraes, lhe seria impossivel esquecê-lo e abandona-lo; e resistiria o seu animo a aceitar por marido outro qualquer homem, porque lhe pertencia toda a sua alma. Não deixou igualmente de manifestar-lhe os seus temores sobre a sinceridade da declaração do amante, que preferia trocar o catholicismo pelo culto calvinista, no intento de acompanha-la, e viver para ella.{156}
Estimava Brodechevius o homem que salvára a sua filha. Prezava-o como intelligencia distincta, espirito dotado de raras qualidades, e capaz dos feitos e acções mais honrosas. Não lhe repugnava aceita-lo por genro. Não erão para elle distincções a riqueza, e nem o nascimento desigual ou humilde. Arredava-o a só diversidade dos cultos religiosos, que se poderia sanar abandonando Manuel a religião catholica, e adoptando por patria a Hollanda. Cumpria porém em seu parecer verificar igualmente a convicção com que praticaria Moraes a difficultosa mudança. Aconselhou a Beatriz, que, esperando do tempo a prova da sinceridade do amante, lhe consentisse acompanha-la para Amsterdam, aonde se observaria mais cuidadosamente o procedimento de Moraes, para ser ao justo apreciado.
Deixou a frota hollandeza as plagas de Pernambuco no principio do anno de 1639.{157}
Embarcárão-se todos, abandonando as terras brazileiras. Despedio-se Manuel de Moraes da America, na intenção firme de nunca mais revê-la.{158}