Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII

J. M. Pereira da Silva · Capítulo 6 de 16

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Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII

Capitulo IV

 

Chamava-se Loreto a aldeia que tinhão em presença os aventureiros paulistas. Fôra uma das mais modernamente creadas e edificadas pelos Jesuitas, e a mais conchegada ás fronteiras que dividião os territorios conhecidos de Portugal e Hespanha. Havia o governador do Paraguay fundado Villa Real em 1557 na juncção dos rios Paraná e Piquiri, e em 1577 Villa Rica sobre o Ivahy, chamando para povoal-as os gentios guaranys; Não parecendo marchar a catechisação e{76} civilisação dos indigenas com o dominio das autoridades civis, cedeu o governo da metropole aos missionarios jesuitas as duas mencionadas aldeias, e os autorisou a organisarem outras, com que formassem a provincia denominada de Guayrá, submeltida á corôa hespanhola.

Tomárão conta os Jesuitas da direcção das duas povoações, e augmentando o numero dos indigenas que adoptárão a religião catholica, e se declarárão promptos a obedecer-lhes, estendêrão para as margens superiores do Paraná a largueza das suas posses, e a dominação da sua provincia. Santa Maria Maior sobre o rio Iguassú, São Francisco Xavier na embocadura do Imbiberalá, Arcanjos em Tayoba, Santo Ignacio no Iquatemy, São Pedro nos Pinhaes e Loreto no Pirapó, devêrão o seu nascimento aos primeiros annos do seculo XVII, e aos trabalhos exclusivos dos intrepidos discipulos de santo Ignacio.{77}

Não se poupárão os padres a fadigas. Sorria-lhes a idéa de attrahir ao catholicismo almas de gentios, e de protegê-los nos seus direitos e liberdade. Encontrando fertilissimo solo, rasgado por numerosos cursos de agua, e collocado nas duas margens do Paraná desde o Iguassú e o Igurey até o Paranapanema e Pardo, e copiosa quantia de gentios mansos e submissos, que por alli residião, começárão o edificio de um Estado independente no proprio centro dos dominios portuguezes e castelhanos da America.

Lográrão da corôa hespanhola prohibir a entrada na provincia de Guayrá a Europêos, qualquer que fosse a nação a que pertencessem, afim de lhes retirar o contacto dos innocentes indigenas. Á frente de cada uma aldeia collocárão um cura e tanto mais padres e irmãos quantos necessarios para a sua administração e regimen. Era o cura a autoridade principal, e poder executivo da missão,{78} tanto na parte civil como na ecclesiastica. Prestavão-lhe preito diversos funccionarios escolhidos d'entre os gentios, e incumbidos de funcções distinctas. Um corregedor, um lugar-tenente, dous alcaides, um porta-bandeira, sete administradores, um secretario e varios caciques possuia cada uma aldeia, além de officiaes de corpos milicianos, que os padres organisavão e disciplinavão. Dividião-se os gentios em officios. Applicavão-se á agricultura, que se compunha da canna de assucar, matte, trigo, algodão, feijão, milho, anil e tabaco; a fabricas de farinha e officinas de serralharia, carpintaria e outros misteres. Aprendião o manejo das armas de fogo. Formavão uma communidade em que erão iguaes os deveres e direitos.

Recebião os padres nos seus armazens todos os productos da industria dos habitantes da aldeia. Remettião-nos pelos rios e em balsas para Santa-Fé, Buenos-Ayres e ás vezes directamente{79} para Hespanha, aonde erão vendidos, e aonde se compravão os objectos precisos para as necessidades e commodidades dos gentios. Do saldo tiravão a quantia correspondente ao imposto de um peso annual por cabeça de gentio catechisado, o qual competia e se entregava ao governo de Hespanha, segundo a estatistica organisada pelos curas, que para defraudar a corôa não incluião nas listas os menores de vinte annos, as autoridades em exercicio, e os proprios doentes. O que restava ainda se remettia ao geral do Instituto residente em Roma.

Separavão-se nos trabalhos as mulheres, os homens e as crianças, fixando-se a cada um a parte que lhes cumpria executar no dia. Os sós casados vivião na mesma choupana, formando-se quarteirões destacados e particulares para os solteiros e viuvos, para as donzellas e meninos.

Dominava sobre os curas das aldeias de{80} Guayrá o collegio dos Jesuitas fundado na Assumpção, ao qual prestárão obediencia todos os varios nucleos da companhia estabelecidos nos territorios do rio da Prata e seus tributarios até que em Cordova se creou a séde principal do Instituto, e se deliberou a residir ahi o seu principal, assistido por quatro consultores ordinarios e tres extraordinarios, estendendo a sua autoridade sobre os demais collegios espalhados pela America meridional. Existião nos collegios seminarios de instrucção primaria e secundaria, e os dominios hespanhóes de Buenos-Ayres, Paraguay e Tucuman chegárão mais tarde a contar em seu seio cerca de trezentos padres e cem irmãos, além de numerosos noviços.

Erão semelhantemente, e segundo o mesmo plano, edificadas todas as aldeias. Uma grande praça, quadrilatera na extremidade, terminada na ultima linha pela igreja no centro, tendo ao lado direito uma torre,{81} a casa dos Jesuitas, e os armazens que guardavão as mercadorias, e á esquerda o cemiterio, e a habitação das viuvas e donzellas, que se separavão desde a infancia da companhia dos pais e da familia. Quatro cruzes grandes, postadas nos cantos, e uma columna elevada no centro, coroada pela estatua da santissima Virgem, ornavão a praça, á qual em linhas regulares e direitas communicavão as differentes ruas em que se partia a aldeia, povoadas de ambos os lados por predios iguaes na architectura exterior e interior, e cobertos de telhas vermelhas.

Usavão os varões de camisa, calça, ponche e barrete de algodão, e as mulheres de camisa comprida, chamada tipay, sem mangas, apertada ao pescoço e á cintura. Andavão todos de pé no chão, e se permittia apenas aos caciques e funccionarios trazerem os bastões designatorios dos seus cargos particulares.

Mantinha-se a mais perfeita igualdade nos{82} trajos e objectos concedidos aos gentios, nas rações e trabalhos que se lhes fixavão.

Praticavão os corpos milicianos exercicios de guerra aos domingos, ensaiando-se no esgrimir as espadas, disparar tiros, despedir frexas, e atirar com fundas pedras lavradas á maneira de bola. Terminado o exercicio, se recolhião as armas aos armazens, e se conservava a população sem o menor elemento de defesa.

Além da escripta, leitura e arithmetica, ensinavão os padres a musica e o canto, e formavão artistas para as solemnidades e festas da Igreja e da communidade, com a que captivavão os gentios, que se mostravão, em geral, propensos ás artes liberaes.

Acordavão os gentios ao som do sino da igreja, que lhes annunciava a alvorada do dia. Reunião-se para as preces. Seguião depois para os seus trabalhos respectivos guiados pelos seus fiscaes. Erão os castigos infligidos aos{83} delinquentes por um tribunal composto das autoridades da aldeia, sob a presidencia do cura.

Andava assim governada a provincia de Guayrá na época em que Matheus Chagas penetrou em seu territorio com a bandeira ao seu commando, e que foi uma das primeiras dirigidas pelos aventureiros paulistas contra as missões jesuiticas do Paraná superior, e cujos assaltos posteriores as destruírão por tal fórma, que os padres convencêrão aos gentios da necessidade de abandonal-as inteiramente, retirar-se para territorios inferiores do rio, e formar ahi novas aldeias, aonde escapassem ás correrias dos seus inimigos, que elles denominavão de mamelucos.

Observámos já que Loreto era a mais afastada reducção dos dominios castelhanos. Conteria oito ruas com uma população de duas mil almas de ambos os sexos e todas as idades.{84} Estavão cultivados os campos em roda, e offerecião abonos claros de prosperidade. Pastavão tranquillamente animaes domesticos. Vivião quietos os gentios da aldeia, sob o regimen communista dos missionarios, e nem-um acontecimento alterára ainda a paz de Loreto desde a sua fundação.

Não tinhão porém os Portuguezes de São Paulo, e nem portanto os aventureiros exploradores, o menor conhecimento dos feitos dos Jesuitas e da situação e estado das reducções da provincia de Guayrá, desde que passárão para o poder temporal, espiritual e exclusivo da companhia. Pensavão ainda, dando credito ás ultimas noticias espalhadas, que os gentios desejavão soccorros dos Portuguezes para combater os Castelhanos, e estes possuião ahi prata e ouro em quantidade, produzida pelos terrenos proximos sem grande trabalho do homem. Não excedião as idéas moraes dos colonos portuguezes de então{85} as idéas dos Hespanhóes, posto fossem menos crueis e barbaras. Nutrião porém aquelles contra estes grandes sommas de odio, quer pelos interesses contrarios de vizinhança na Europa e America, quer por estar o reino de Portugal avassallado n'esse periodo ao de Castella, e formar uma provincia da monarchia hespanhola desde o anno de 1580, em que Felippe IIº o acurvára ao seu jugo pela força e violencia, e o mantivera e legára aos seus successores castelhanos com tradições de terror, que irritava o povo lusitano, e o desesperava cada vez mais contra o dominio do captiveiro, incitando-lhe constantemente os brios para se levantar e recuperar a sua independencia.

Repousava portanto a razão principal dos assaltos dos Portuguezes de São Paulo contra as missões de Guayrá no desejo de guerrear mais aos Castelhanos que aos gentios, ainda que não poupassem a estes pela cobiça de escravisa-los{86} e vendê-los, afim de lograrem vantagens proveitosas.

Scientificado Matheus Chagas pelos seus espias da situação do Loreto, prohibio aos companheiros dessem o mais pequeno indicio da sua presença, afim de não levantarem suspeitas, e nem alterarem o socego de que os inimigos gozavão. Incitou os aventureiros a atacarem a povoação, que em sua opinião possuia riquezas extraordinarias. Applaudirão-no todos, á excepção de Manuel de Moraes, que exigia reconhecer primeiro se erão contrarios ou amigos, pois que o ultimo caso lhe parecia acção má e digna de castigo do céo. Desprezárão-lhe os companheiros o aviso, e ao amanhecer de um dia, logo que Matheus Chagas notou que a maior parte dos habitantes estava occupada fóra da aldeia, e descuidados os que n'ella permanecião, deixou a guardar o campo alguns que lhe parecêrão mais fracos, e entre elles o proprio{87} noviço, e partio com a sua gente aprestada para o combate.

Encontrárão primeiramente no campo cerca de cincoenta gentios, que reconhecendo inimigos deitárão a fugir para a aldeia. Perseguírão-nos os aventureiros, e entrárão todos na povoação quasi ao mesmo tempo, no meio de um infernal alarido. Tentárão os indigenas defender-se, e comquanto resistissem com furor e denodo, achando-se sem armas, por estarem ellas guardadas nos armazens da companhia, cortava vigorosamente o ferro dos aventureiros por seus corpos, e bastárão poucas horas aos Portuguezes para se apossarem da povoação, que a maior parte dos gentios abandonou logo. Amedrontára os padres e os Guaranys o inopinado do ataque, e cahira em poder dos aventureiros cópia numerosa de gentios, que forão a pouco e pouco amarrados e trancados nas casas, havendo corrido sangue bastante{88} na luta e na perseguição dos fugitivos.

Senhores os aventureiros da povoação, cuidárão em examina-la. Descobrírão nos armazens mantimentos de boca, armas de fogo, munições de guerra, instrumentos de combate, roupas e vestes, aguardente, e muitos outros objectos de valia. Encontrárão na igreja lampadas, castiçaes de prata, e preciosidades agradaveis. Saudárão com vivas estrepitosos o seu triumpho assignalado. Espantárão-se porém de não deparar com Hespanhóes, que pensavão dever alli existir igualmente.

Passou Matheus Chagas ordens apertadas para que se regularisasse o serviço. Mandou vir do seu campo os individuos que lá deixára. Contou e separou os prisioneiros, pela maior parte caciques velhos, mulheres e crianças, que se não tinhão podido evadir, e dividio os presos por diversos sitios guardados{89} com sentinellas. Tratou de recolher e ajuntar os objectos, e tomou providencias e cautelas para responder aos que ousassem retroceder, e roubar-lhe os fructos da victoria.

Conhecendo porém que estava em paiz inimigo, e se não deveria prudentemente alli conservar, applicou toda a sua attenção ao aproveitamento do que pudesse conduzir comsigo, tencionado a desamparar quanto antes a aldeia. Cumprindo partilhar os despojos, consistentes em preciosidades, armas, roupas, animaes, e prisioneiros, manifestárão-se pretenções oppostas, que quasi degenerárão em uma luta civil, teimando cada um dos aventureiros no desejo e cobiça de receber o mesmo objecto. Conseguio o chefe pôr cobro ás pretenções exageradas, fazendo approvar a ideia de uma especie de loteria ou sorte para a divisão immediata dos prisioneiros, animaes e vestimentas, guardando-se em{90} deposito as cousas de valor para serem rateadas em São Paulo.

A cada um tocára um numero correspondente a lote quasi regular e igual. Declarou Moraes que se contentava pela sua parte com os prisioneiros velhos, mulheres e crianças, que erão incapazes de ser transportados, porque náda queria aceitar na partilha, e preferia conceder-lhes a liberdade, e deixa-los em socego. Não entrou assim na loteria organisada, e cuidou logo em dar mantimentos e consolar aquelles infelizes, que lhe agradecêrão fervorosamente a caridade, tanto mais espantados quanto lhes aterrorisavão as imaginações as noticias que entre elles propalavão os padres de que os mamelucos de São Paulo ajuntavão á cobiça ferocidade exaltada, e não tinhão a menor idéa de religião e piedade.

Accommodados os aventureiros, e tomando cada um conta do que lhe pertencia, preparou-se{91} Matheus Chagas para deixar a aldeia. Não raiavão ainda os primeiros arrebóes da madrugada quando começou a bandeira paulista a sua marcha retrograda, collocando-se gente armada na frente, os prisioneiros amarrados, aggrupados, e cercados no centro, os cavallos e bestas carregadas na retaguarda, defendidos e guardados pelos mamelucos.

Não tinhão ainda sahido de todo da povoação, quando estouros fortes e prolongados se ouvírão, e logo após signaes de incendio que rebentára em varios pontos extremos da aldeia. Crescêrão os fogos amiudados, e uma nuvem espessa de fumaça encheu ao principio os ares, que se aclareárão paulatinamente com as luzes do incendio.

Dir-se-hia dia claro, posto a atmosphera se tornasse cada vez mais pesada e quente. Amedrontárão-se os aventureiros, ignorando se o acaso ou deliberada intenção dos gentios causára o incendio ameaçador. Apressárão-se{92} em desamparar a aldeia, recommendando Matheus Chagas aos aventureiros se prevenissem de ciladas.

Multiplicavão-se as chammas, incitadas por um vento fresco do Norte que rijamente assoprava. Illuminárão-se horrivelmente a aldeia, os campos e florestas adjacentes. Gritos espantosos atroárão os ares como se formassem uma infernal orchestra. Estalavão os tectos e portaes das casas, rolavão por terra pedaços dos edificios, telhas soltas, paredes desmoronadas. Atopetavão-se as ruas com destroços, que impedião a livre passagem, e davão immensos trabalhos aos aventureiros para as atravessarem.

Parte d'elles se semeava já por fóra da povoação, e a retaguarda tentava dentro ainda evadir-se ao perigo, e ajuntar-se aos que marchavão adiante.

A numerosos gritos soltados de longe, e cujo sibillo augmentava o pavor produzido{93} pelo incendio, e causado pelas ruinas do fogo, e pelas chammas, que esclarecião a aldeia e envolvião a parte superior do horizonte em nuvens negras, descortinárão os olhos dos aventureiros paulistas massas armadas de Guaranys, que se lhes puzerão por diante; lhes atacárão os flancos, apparecêrão por detrás, e lhes circumdárão os caminhos.

Travou-se uma peleja sem ordem, sem direcção, e nem regularidade. Cada um dos aventureiros tratou de combater como pôde, apercebendo-se emfim da cilada que lhes tinha sido traçada, e descobrindo que se havião introduzido surrateiramente na aldeia e durante a noite, gentios de fóra, para coadjuvarem os que devião correr em soccorro do arraial. Nem lhes era dado avaliar o numero dos inimigos e adivinhar o resultado do combate. Balas de espingardas, settas disparadas, tiros de funda, abrião-lhes as fileiras, zunião-lhes pelos ouvidos, ferião-lhes companheiros,{94} matavão-lhes amigos, ao lado, atrás, adiante, e perto. Pancadas de tacapes pesadas, golpes vibrantes de espadas, sangrias de faca e punhal, succedêrão ao primeiro ataque, e lhes trouxerão a luta de corpo a corpo, e de homem a homem, que é a mais cruel e ceifadora de vidas.

Terrivel espectaculo, que illuminavão por vezes as chammas estridentes do incendio devorador da aldeia, que parecia desabar, estorcendo-se em angustias doridas. Echoavão gemidos, exclamações, algazarras, sons de ferros, e estrepito de fusilaria.

Tropeçava-se por cima de homens vivos e de cadaveres. Esbarrava-se com cavallos e mulas carregadas. Cutilavão-se mutuamente Portuguezes e mamelucos, Carijós e Guaranys, sem quasi se conhecerem. Durou a peleja até que a aurora radiou risonha, e embranqueceu de todo o firmamento.

Notou-se então uma scena tristissima de desolação.{95} Desde as ruas extremas da aldeia até não pequena distancia do campo contiguo, aonde chegára a vanguarda dos aventureiros, cobrião o solo cadaveres de homens e de animaes sem conta; misturados com cargas, armas dispersas, e objectos desgarrados; inundados de sangue, e cobertos muitos com restos do incendio, elevados pelo vento ao ar, e cahidos depois sobre os proprios combatentes.

Poucos aventureiros lográrão salvar-se pela fuga. Sua maior quantia ficou estendida e morta no campo da peleja; raros forão os prisioneiros, e todos feridos mais ou menos gravemente. Havião os Guaranys vencido, e vingado a sua anterior affronta. Tratárão as suas autoridades de dar fim á luta, e de restaurar a aldeia, apagando o incendio, tomando posse d'ella, recolhendo o que pudessem salvar das garras dos aventureiros, pondo ordem no povo, e fazendo enterrar as victimas do combate.{96}

Achavão-se numerosos individuos de um e outro partido entre os cadaveres. Matheus Chagas, Antonio da Costa, e varios outros dos principaes aventureiros perecêrão na peleja. Quatro ou cinco Paulistas feridos se tirárão do meio do campo, e se recolhêrão á prisão. Era Manuel de Moraes um d'estes ultimos infelizes. Recebêra uma frexada no braço, e uma bala de espingarda na perna. Não o ameaçava perigo, mas soffria dôres agudas e penetrantes.

Confiárão-se os prisioneiros aos fiscaes do hospicio, com instrucções para os curarem e guardarem até que se decidisse a sentença dos competentes juizes, incumbidos do seu julgamento. Quando se restabeleceu Moraes das suas feridas, soube com dôr e magoa que os proprios companheiros, que tinhão ficado igualmente prisioneiros, havião já expirado nas prisões respectivas por não poderem resistir á gravidade dos seus ferimentos.{97}