Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII
Capitulo XIV
Fixou e annunciou no entanto o tribunal do Santo Officio de Lisboa um auto de fé para o dia 15 de Dezembro de 1647.
Oito condemnados devião ser queimados nas fogueiras; dez se destinávão ao supplicio do garrote; trinta e quatro ao acompanhamento da procissão, cobertos com as insignias do fogo; tres relaxados em estatua por ausentes e fugidos.
Agitou-se e alegrou-se a população de Lisboa com o aviso do espectaculo que se lhe{273} preparava. Ninguem ousaria deixar de assistir a essa solemnidade religiosa e sagrada, que remia peccados, e valia perante Deos, abrindo aos crentes as portas do céo, e trazendo-lhes pelas indulgencias ganhas a salvação na vida eterna. Quem não tivesse fé no sacrificio divino não se arriscava a perseguições e tormentos iguaes aos das victimas condemnadas, no caso de faltar com a sua presença, e não apparentar jubilo?
Levantárão-se no campo de Santa Anna os cadafalsos e fogueiras. Prevenírão-se os réos que devião figurar na ceremonia. Concedeu-se a alguns a faculdade de chamar confessores particulares, e de receber uma ou outra pessoa da familia, com quem desejassem entreter-se uma vez ainda antes de abandonar o mundo. Transferírão-se todos os condemnados para prisões especiaes, aonde lhes cumpria passar o resto do tempo que lhes sobrava nos paços do Santo Officio.{274}
Intimada a Moraes a sua sentença de garrote, e communicada a noticia de que lhe era licito escolher um confessor, e receber uma pessoa da sua familia, declarou desejar o padre Eusebio de Monserrate para o acompanhar nos ultimos momentos, e sua irmã Dona Clara da Incarnação para lhe dizer o adeos derradeiro.
Forão-lhe satisfeitos ambos os desejos. Impossivel é descrever a sua entrevista com Dona Clara. Quebrantado de forças physicas, martyrisado cruelmente pelas chagas que lhe deixárão no corpo os instrumentos terriveis que supportára, decomposta a physionomia pelas dôres profundas, brancos os cabellos da cabeça e do rosto antes que o tempo lhes mudasse o colorido natural, mais se assemelhava a um decrepito ancião que anciava por descer ao tumulo e não pertencer mais ao mundo.
O tempo, os trabalhos, as peregrinações{275} e soffrimentos lhe havião por tal feitio transfigurado a physionomia, que o não conhecêra Dona Clara, e para o tratar como irmão necessitára de que lhe affirmassem estar em presença de Manuel de Moraes. Abraçando-se ternamente, entretiverão-se no meio de soluços repetidos e de lagrimas abundantes, ácerca dos pais já fallecidos, das irmãs, e parentes domiciliados em São Paulo, da familia que residia em Lisboa, da casa e ninho paterno, e das reminiscencias da mutua mocidade. Revivêrão saudades que pungião o coração, e o cortavão dolorosamente, tanto mais que o tempo feliz passado lhes manifestava a profunda miseria presente.
—Meu respeitavel pai! minha querida mãi e verdadeira santa,— exclamava a miudo Moraes.—Estais ambos já no seio da eternidade, e em presença de Deos. Breve vos irá ahi encontrar o vosso filho desgraçado. Perdoai-lhe... Perdoai a quem concorreu{276} sem duvida para os vossos males na terra, mas que padeceu tambem muito!
Durou a entrevista mais de uma hora, e foi seu resultado infallivel prostrar mais as forças do infeliz noviço, que só deixou a irmã quando os empregados do Santo Officio a coagírão a abandona-lo, e sahir dos paços terriveis da Inquisição.
Tocou a vez do padre Eusebio de Monserrate, que se apresentou no caracter de confessor do condemnado. Contou-lhe a ordem d'el-rei, posto lhe não occultasse o seu temor tanto mais fundado de que o tribunal a desattendesse, quanto até aquelle momento lhe não constára haverem os juizes respondido. Declarou-lhe que visto approximar-se o dia fatal designado para o auto de fé e execução da sua sentença, preferivel era que se preparasse para comparecer perante Deos, abrindo ao sacerdote a sua alma inteira, e recebendo a sua absolvição para se passar á{277} eternidade tranquillo e sacramentado.
Prostrou-se Moraes diante do seu confessor e amigo. Revelou-lhe com franqueza os desejos e aspirações mundanas que lhe havião assoberbado o espirito, os crimes que praticára no seu desvairamento, e as idéas e pensamentos sinceros de que se possuia o seu animo n'aquelle momento solemne. Orárão ambos fervorosamente, e de joelhos, diante da cruz sagrada, que symbolisava o martyrio do filho de Deos. Lançou-lhe o padre a benção consoladora, e recommendou-o á misericordia do Omnipotente.
Estava-se já em vesperas do auto de fé annunciado, e nem-uma deliberação tomára ainda o tribunal do Santo Officio ácerca do aviso expedido pelo escrivão da puridade d'el-rei em pró de Moraes, posto o provincial dos Jesuitas empregasse as maiores diligencias no seu cumprimento.
No dia porém anterior ao designado para{278} a horrenda ceremonia, quando os aprestos todos se havião já concluido, correu voz emfim que não ousára o tribunal do Santo Officio affrontar o perdão que Dom João IVº concedêra, bem que singular e desusado. Assentárão os juizes que darião execução ao aviso regio, depois de sahir Manuel de Moraes no auto de fé como penitente, e coberto com as insignias do fogo, e de assistir ao cumprimento das sentenças relativas aos demais accusados.
Raiou o dia fatal. Cobrírão-se desde a madrugada as casas dos habitantes de Lisboa sitas nas ruas e praças que devia atravessar a procissão, e ornadas de colchas adamascadas, cruzes, imagens de santos, e velas acesas. Guarneceu-se o chão, que nem calçado era n'aquelle tempo, com folhas viçosas de arvores. Brilhárão com velas e lampadas, e ornárão-se com flôres odoriferas os oratorios, que se semeavão pelos cantos das{279} ruas. Derão signaes repetidos de festa os sinos dos numerosos templos, que saudavão o triumpho da Igreja catholica, que salvava a fé e o dogma, castigando os máos, e amedrontando os tibios e descrentes. Desfilárão soldados, occupando varios pontos proximos á praça de Santa-Anna, e occupando-a cuidadosamente para que ninguem, afóra as pessoas do cortejo, penetrasse dentro do circulo reservado ás execuções das sentenças.
Fogueiras formadas com madeiros seccos e palha solta destinadas para os condemnados ás chammas, e cadafalsos erguidos ao lado para os que devião supportar o supplicio do garrote, aterrorisavão as vistas. Vultos cobertos com o manto do Santo Officio, mascarados, e reluzentes com grandes cruzes, que se lhes gravárão nos peitos, os rodeiavão em copiosa quantidade.
Á hora marcada, el-rei, a rainha, os secretarios{280} e conselheiros de estado, e a côrte toda, tomárão os seus lugares, occupando um edificio levantado na frente, conforme os usos supersticiosos da época. Por toda a parte adejava, rumorejava, e saltava, benzendo-se e rezando, uma multidão de gente miuda, que não falta a quaesquer espectaculos de dôr ou de alegria.
Ouvírão-se tiros multiplicados da artilharia dos arsenaes, fortalezas e navios de guerra. Repicárão de novo os sinos das igrejas, e girandolas pittorescas de fogos artificiaes subírão aos ares, e os partírão com mil riscos refulgentes, e ribombos repetidos. Era o signal de que partia dos paços do largo do Rocio o auto de fé e se encaminhava para o seu destino, segundo as formulas da mais rigorosa etiqueta. Marchavão adiante empregados do Santo Officio, montados a cavallo, armados, e segurando bandeiras negras com chammas de fogo, emblemas do tribunal sanguinolento.{281} Seguião-nos padres e frades de diversas ordens, recitando orações lugubres, com a cabeça descoberta. Guardas a pé com clavinotes, espadas e terçados, e vultos mascarados, e com os habitos da Inquisição, rodeiavão as numerosas victimas, amarradas umas ás outras, de pés no chão, e ornadas as cabeças com capuzes negros manchados de flammas luminosas, que lhes cobrião as faces, permittindo-lhes apenas a vista por dous buracos rasgados.
Ião depois os membros do Santo Officio, cercando o Inquisidor geral, que caminhava sob um pallio, e acompanhados por mais de duzentos famulos da Inquisição, que no dizer das tradições se compunhão de fidalgos das primeiras casas do reino, magistrados, altos funccionarios, capitalistas, industriosos, e gente de todas as condições e classes da sociedade.
Fechava o prestito um corpo de cavallaria,{282} com a sua musica e tambores tangendo constantemente.
Parava o auto de fé diante de todos os oratorios e imagens levantadas na sua passagem, e demoradamente chegou assim ao largo de Santa-Anna.
Levantárão-se as bandeiras, e rufárão os tambores. Occupára cada pessoa do cortejo o seu lugar competente. Leu o pregoeiro a lista dos condemnados ao fogo e ao garrote, e a dos penitentes que devião assistir á execução das sentenças. Figurava entre estes ultimos o nome do desditoso Manuel de Moraes, perdoado da pena capital por graça particular de Dom João IVº. Dirigio um sacerdote uma oração a Deos, ajoelhárão-se todos os circumstantes, e manifestárão a piedade dos seus sentimentos.
Derão-se as ordens derradeiras. Subírão ás fogueiras por meio de escadas preparadas as victimas reservadas ás chammas. Forão amarradas{283} a um poste de páo que se erguia no centro d'ellas. Incendiou-se a palha e o madeiro. Uma nuvem escura e ardentes labaredas brotárão immediatamente, e logo depois se ouvírão gritos doridos, e gemidos pungentes dos desgraçados, que se queimavão e desapparecião nas flammas.
Succedeu-lhe a operação do garrote, e algozes impedernidos cortárão os fios de vida, por meio da suffocação instantanea, aos desventurados réos, cujos restos se lançárão nas fogueiras ainda abrazadoras para o fim de se confundirem todos, que se havião condemnado.
Organisou-se por fim em torno das fogueiras e cadafalsos a procissão dos penitentes, sustidos a maior parte por famulos e empregados do Santo Officio, visto como lhes faltavão forças para se sustentarem por seus proprios pés.
Terminada a ceremonia, volveu o cortejo para os paços da Inquisição.{284}
Logo que passou os umbraes da entrada principal do edificio, deu ordens o Inquisidor geral para se tirar Manuel de Moraes d'entre os penitentes, e restitui-lo aos Jesuitas, que já alli se havião reunido, no intuito de recebê-lo, e recolhê-lo á sua casa.
Procedeu-se á entrega solemne, e lavrou-se termo, que assignárão as autoridades competentes. Não se podendo ter em pé o paciente, foi depositado em um assento de pedra, emquanto se cumprião as formalidades do acto.
Quando o padre Eusebio de Monserrate se approximou d'elle para lhe dar o braço, levanta-lo, e ajuda-lo a sahir dos paços do Santo Officio, escapou-lhe Moraes das mãos, resvalou do assento, e rolou pelo chão.
Tratou subito o Jesuita de rasgar-lhe a mascara e as vestes. Descobrio um cadaver. Já não pertencia ao mundo.{285}
Ajoelhou-se Eusebio de Monserrate, e disse enternecidamente:
—Senhor! Senhor! recebe no teu seio piedoso o peccador contrito, e perdôa com a tua infinita misericordia a quem tanto soffreu na terra!
FIM{286}
{287}
[1] O padre Techo na sua obra sobre o Paraguay, e a Historia
Argentina, L. Iº, Capº. 5º narrão o facto de Aleixo Garcia mandado ao sertão por Martim Affonso, e morto por Gaboto, que se apoderou da prata que elle encontrára.
[2] Nos citados autores se falla do convite do cacique Taubixi para se
defender contra os Castelhanos.
[3] O padre Techo conta a historia de Sedenho, que fôra em soccorro
de Aleixo Garcia com 60 homens, dos quaes a maior parte pereceu com o chefe.
[4] Historico—V. René Saint Taillandier, les juifs portugais en Hollande.
[5] Barlius, de rebus variis.
[6] Taillandier acima citado.
[7] Publicada em Leyde, e na lingua castelhana, no anno de 1641, com
o titulo de Prognostico y respuesta a una pergunta de un cabalero muy ilustre sobre las cosas de Portugal.
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J. M. Pereira da Silva
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