Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII

J. M. Pereira da Silva · Capítulo 4 de 16

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Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII

Capitulo II

 

 

Sahido da cerca dos jesuitas, seguira no entanto para o interior da povoação de São Paulo o noviço que se despedira do padre Eusebio de Monserrate. Chamava-se Manuel de Moraes. Nascera nos primeiros annos do seculo. Destinára-o seu pai, José de Moraes, para a vida trabalhosa de membro da companhia de Jesus, por se persuadir ser este o estado mais feliz, e posição mais brilhante e grata a Deos e á sociedade, que podia descobrir para o filho unico varão que lhe concedêra{23} a Providencia. Oriundo da provincia do Minho em Portugal, alli se casára José de Moraes com Ignez das Dôres, e o obrigára a pobreza a deixar os lares patrios, e procurar fortuna no Brazil, levando comsigo a consorte e companheira. Guiado pelos conselhos dos jesuitas, de quem se mostrava fervente admirador, empregára-se em lavoura na capitania de São Vicente, e ganhára creditos merecidos de um dos mais honestos moradores de São Paulo, e dos mais honrados Portuguezes, que ahi residião. Além de Manuel de Moraes, tinha mais tres filhas menores, que Ignez das Dôres educava piedosamente infiltrando-lhes no espirito tenro ainda as maximas mais salutares e virtuosas.

Entregára o proprio José de Moraes o filho querido á companhia de Jesus. Confiára-o particularmente ao padre Eusebio de Monserrate, seu amigo antigo, e protector decidido.{24} Madrugára no moço o engenho, e nem-um estudante o excedia em penetração e agudeza de espirito, e em desejos de instruir-se, e aproveitar as lições dos mestres. Merecia as sympathias dos jesuitas pelo seu procedimento escolar, e pela vida regrada que seguia, posto lhes desagradassem frequentes opposições e resistencias á disciplina e devoções mysticas que soíão praticar-se no Instituto dos discipulos de santo Ignacio. Procurára Eusebio de Monserrate acurvar essa vontade altiva, modificar essas tendencias mundanas, que o noviço manifestava claramente. Nada conseguíra, como acabamos de referir, e se determinára por fim Manuel de Moraes a abandonar o convento, e o velho padre a consentir-lhe aos desejos, reconhecendo a inutilidade das suas exhortações e conselhos.

Turvára-se a noite, e chuva ao principio miuda, que cahia sobre a terra, prognosticava{25} maiores torrentes, pela escuridão que cobria o firmamento, e pelos indicios certos de relampagos, que se denunciavão na atmosphera carregada de grossas nuvens.

Graves cogitações lhe acabrunhavão todavia o espirito attribulado pela importancia do passo que acabára de dar. Como o acolheria seu pai, ao saber da resolução que tomára? Tê-lo-hia previamente scientificado e preparado o padre Eusebio de Monserrate? Que vida o esperava, e que aventuras lhe erão reservadas, agora que, não pertencendo mais ao Instituto de santo Ignacio, entrava no gozo inteiro da liberdade, e se atirava no seio da sociedade civil, que não conhecia, mas que a imaginação lhe pintava como a mais apropriada e favoravel ao seu caracter, e ás suas aspirações intimas, que a communhão religiosa, que o acolhêra e educára até os vinte quatro annos de idade?

Ao descer um outeiro ingreme para subir{26} aquelle em que pousava a casa paterna, para a qual se encaminhava, e que era situada na extremidade da povoação, ouvio não longe de si, e mais em baixo, por detrás de uma ruela miseravel, gritos e rumores extraordinarios.

Cobria-o o habito preto de lila, que usava no convento. Não tinha armas para atacar ou defender-se. Sobrava-lhe porém coragem, e não hesitou um instante em correr para o lugar do perigo, de onde partião vozes que parecião pedir soccorro. Não lhe prestava a roupeta do jesuita uma força moral que lhe attrahia o respeito?

Ao dobrar um becco escuro, achou-se em frente de um grupo de quatro homens e de uma mulher. Escondia-lhe a densa escuridão as peripecias do acontecimento. Approximou-se porém de subito, e gritou-lhes, mostrando a cruz do seu rosario:—Em nome de Deos, cessai, peccadores!{27}

Mais poderosa que a espada foi a exclamação resoluta do noviço. Ao ouvi-lo, tres dos homens deitárão a fugir, sumindo-se incontinente. Achou-se Manuel de Moraes com um só dos homens, e o vulto de mulher que se arrastava pelo chão, proferindo ais angustiados.

Atirou-se-lhe aos joelhos o individuo que ficára, e agradeceu-lhe a sua salvação. Apressou-se a mulher em imitar-lhe o exemplo, e ambos fallavão ao mesmo tempo, denunciando a sua gratidão, e beijando o habito do noviço.

—Que succedeu?—perguntou-lhes Manuel de Moraes, levantando-os, e animando-os com gestos bondadosos, e um tom meigo, que lhe devia affeiçoar a confiança.

—Padre!—disse-lhe o homem mais tranquillo—Sou um pobre carijó, e é minha filha esta menina. Moravamos ahi,—apontando para uma infima choupana—quando tres{28} brancos arrombárão a porta, se atirárão sobre a cama de minha Cora, arrancárão-na d'ahi, e corrêrão para a rua, carregando-a nos braços. Acordei sobresaltado, precipitando-me contra elles com os meus braços por unica arma, que os braços de um pai valem as melhores espingardas. Segurei em minha filha, atraquei-me com elles, quando chegastes, e nos salvastes!

—E que sangue é este?—continuou Moraes, percebendo-lhe manchada a cabeça, a face, e a camisa de algodão.

—Não é nada, meu salvador,—repetio o gentio, chegando os labios á mão do noviço.—Alguma bordoada que apanhei. Não é nada, que escapou Cora dos seus perseguidores.

—E os conhecestes?—interrogou-lhe o joven.

—São perros,—tornou-lhe o carijó.—Não lhes divisei bem os rostos, mas creio{29} que não passão de uns máos vizinhos brancos, que commettem tropelias em São Paulo, sem respeito ás vozes dos santos missionarios, e nem medo de castigo de Deos eterno. Somos fracos, pobres gentios, e os padres sós nos amparão e protegem!

Dirigírão os seus passos para o casebre miseravel que servia de habitação ao indigena. Cahida estava a porta unica que lhe abria communicação para a ruela, arrancada dos gonzos e derribada por terra. Entrárão os tres. Acendeu o gentio lume com umas pedras. Passou-se o fogo para uns pedaços seccos de páo, que se illuminárão em um momento. Vio então Moraes o caboclo, que reconheceu por um dos mais fieis seguidores da religião e frequentadores da igreja da companhia. Trazia camisa e calças de algodão branco. Pés no chão, e o aspecto respeitavel. Uma saia da mesma fazenda cobria o corpo todo de Cora, apertada na cintura e{30} com mangas largas e compridas. Cahião-lhe em desordem pelos hombros bastos cabellos pretos, que se dirião luzentes como o verniz. Olhos quasi azulados, grandes, rasgados, cobertos de espessas pestanas da mesma côr, harmonisavão admiravelmente com o vermelho das faces juvenis, com o delicado dos labios e fórmas do rosto, e com o esbelto e elegante do corpo. Uma grande estampa da santissima Virgem lacrymosa ornava a parede do aposento, despido de trastes, e sem forro nem soalho de madeira.

Ajudou Manuel de Moraes ao gentio no levantar e pregar de novo a porta do seu casebre. Socegou-o com seus conselhos. Exhortou a filha a proseguir no caminho da virtude. Despedio-se por fim d'elles, deixou-lhes a choupana, e continuou o seu caminho, pensando na luta das duas raças de homens que ahi estavão reunidas na mesma povoação e em face uma da outra, e agradecendo{31} a Deos por conservar ao menos a autoridade e prestigio dos padres da companhia de Jesus, afim de defenderem a mais fraca e innocente, e reprimirem com as armas da religião, que assoberbavão felizmente os espiritos de todos, as violencias e arbitrios, que com barbaros instinctos soíão os conquistadores praticar contra os desgraçados gentios.

Volvêrão-lhe pela mente idéas favoraveis ao seu regresso para o seio da companhia, destinada á salvação de tantas almas desditosas, e á protecção de individuos tanto mais interessantes quanto menos robustos, e menos estragados na religião e nos costumes. Ou o pejo, depois do que havia commettido, ou uma aspiração interna e indefinida, que o arrastava para o mundo, e lhe pesava sobre a razão, ordenárão-lhe porém que marchasse para outros destinos, posto lhe fossem desconhecidos.{32}

Absorvido n'estes pensamentos chegou á porta da casa paterna. Reinava o maior socego e quietação na aldêa. Continuava negro o céo, a chuva mais grossa, o vento crespo e em rajadas desagradaveis, a atmosphera atravessada por scentelhas de fogo, o ar roncando já com trovões assustadores, ainda que longinquos ainda. Nem uma luz raiava nas ruas, e nem uma porta ou janella das casas estava aberta.

Bateu docemente com a mão na porta do ninho paterno. Respondeu-lhe logo o latir de um cão amigo, e depois uma voz perguntando-lhe quem era. Á sua resposta conhecida, se lhe abrio a porta, e penetrou elle na casa.

Não era abastada de bens de fortuna a familia de Moraes. Passava todavia folgadamente, porque os trabalhos ruraes do chefe a entretinhão com a satisfação das necessidades da vida, e até com alguma commodidade.{33} Estava o pai, cuja idade orçava pelos quarenta e cinco a cincoenta annos, sentado em uma velha poltrona, rodeiado da mulher e de tres filhas menores de pé, e que parecião ouvir-lhe as admoestações e conselhos. Alguns moveis, uma talha de agua de barro vermelho encostada a um canto, uma mesa no centro, sustentando algumas iguarias frias, e uma vela acesa em um castiçal de páo, formavão todo o seu adorno. Parecia que se terminára a merenda habitual da noite, e que a familia attendia ás bençãos do seu chefe, para se recolher ao descanso do somno.

—Louvado seja nosso Senhor Jesus Christo,—disse Manuel, benzendo-se ao entrar, e beijando as mãos do pai e da mãi.

—Novidades grandes trazeis-nos,—exclamou o velho, percebendo-o.—A taes deshoras fóra do convento! Que desgraças nos annunciais?

Empallideceu Manuel a esta pergunta repentina,{34} e que o impressionou como máo agouro. Como preparar o animo de seu pai, que se mostrára tão adheso ás felicidades da vida ecclesiastica, e tão convencido da missão religiosa, para communicar-lhe o passo que dera de abandonar a companhia? Traçou attenuar-lhe pela melhor maneira o effeito que devia produzir o motivo da sua apparição, mostrando-se ao principio cuidadoso pela saude de todos os membros da familia, que ha tres dias não havia visitado, antes que respondesse a seu pai como lhe cumpria.

Em poucas palavras o satisfez José de Moraes, assegurando-lhe que todos gozavão de paz e socego, reiterando-lhe a pergunta que lhe dirigíra, e mostrando-se ancioso por saber a razão da sua visita inesperada.

Comprehendeu o filho que a narração devia de ser rapida para que menos desastroso fosse o effeito produzido. Não andava já contente José de Moraes com a sua conhecida repugnancia{35} de passar na companhia do gráo de noviço ao de irmão, que era o segundo do Instituto, e requisito necessario e indispensavel para se elevar ao de padre. Exasperava-se porque o filho lhe não abria o coração, pelo temor em que o pai o continha, e respeitoso afastamento de si, em que o guardára desde a infancia, quando alguns avisos dos jesuitas lhe chegavão aos ouvidos, e profundamente o irritavão.

—Antes de responder-vos, meu querido pai—disse-lhe Manuel, ajoelhando-se perante elle, e apertando-lhe as mãos com affecto extremoso—Antes de responder-vos, peço-vos me perdoeis!

A estas expressões arrancou José de Moraes as mãos que o filho conservava e beijava. Levantou-se da poltrona, deu alguns passos para se arredar de Manuel, tomou aspecto sinistro, e gritou-lhe arrebatadamente:

—Que crime commettestes? Preciso sabê-lo{36} primeiro, porque Deos me não permitte perdoar na ignorancia!

Assumio logo ao espirito de Manuel que o padre Monserrate nada contára ao pai, e o não prevenira para o golpe que lhe ia ser descarregado. Sobresaltado mais por esta circumstancia imprevista, conservou-se taciturno por alguns momentos, morrendo-lhe a voz nos labios quando estes pretendião dar passagem ás palavras.

Foi mister que José de Moraes, depois de mira-lo attentamente, e procurar adivinhar-lhe o pensamento, lhe ordenasse positivamente que se não evadisse a declarar-lhe toda a verdade.

Triste e abatido, continuando curvado, e saltando-lhe dos olhos algumas lagrimas, balbuciou então vagarosamente Manuel:

—Faltei á vossa vontade, aos meus proprios desejos de obedecer-vos.

Levou o velho a mão á fronte despovoada{37} quasi de cabellos. Ergueu-se com magestade, posto manifestasse a maior afflicção. Chammejárão-lhe os olhos, apertárão-se-lhe os labios, anuviou-se-lhe a physionomia inteira.

—Expulsárão-te da companhia?—disse-lhe desesperadamente.

—Não, meu pai,—tornou-lhe Manuel com tom decidido e firme.— Foi sempre exemplar o meu proceder na casa dos santos padres. Elles vo-lo dirão todos, que não criei nem-um desaffecto.

—Mais criminoso foste então,—retorquio-lhe o velho—porque lançaste sobre mim, sobre tua familia, e sobre ti proprio, a deshonra, commettendo fóra do claustro attentados talvez horrorosos.

—Não, meu pai,—continuou Manuel mais tranquillamente.—Segui sempre o caminho da virtude, que me ensinastes.

—Não te entendo,—repetio-lhe José de{38} Moraes, bastante alliviado já do peso horrivel de idéas disparatadas que lhe apouquentavão o espirito.

—Não commetti um crime, meu pai,—proseguio Manuel.—Não pratiquei uma acção viciosa. Mas faltei ás vossas ordens, e desobedeci á vossa vontade, por mais que me esforçasse em satisfazer-vos; faltárão-me as forças!

Embrulhava-se cada vez mais o espirito de José de Moraes com estas declarações singelas, mas resolutas no tom e nos gestos do filho. O que lhe teria succedido, que o devesse magoar profundamente? Em que lhe desrespeitára Manuel ás ordens e desattendêra á vontade, que se elevasse a tal gravidade, que lhe fosse preciso perdoar de antemão? Nem-uma idéa lhe fulgurava ao animo que lhe prestasse a chave do segredo, e lhe fizesse adivinhar o mysterio escondido nas palavras do filho. Menos exasperado ficára todavia, posto inquieto ainda.{39}

Conservava-se como uma estatua a mãi enternecida. Não fizera um movimento, não proferíra uma palavra, não praticára um gesto. Debulhados apenas os olhos em pranto copioso, corrião-lhe elles a miudo do filho para o marido, e de José para Manuel de Moraes, sem que ousassem fitar-se seriamente em nem-um dos dous. As duas filhas maiores apertando nos braços a mais pequena, que teria seis annos, e recolhendo-se a um canto da casa, formavão um grupo de pequenas creaturas espantadas, a quem embargava a voz na garganta o terror de que se tinhão apossado.

—Que fizeste pois?—disse mais pausadamente José de Moraes, chegando-se para o filho. Custou-lhe a conceder a mão que o noviço parecia implorar-lhe. Fê-lo todavia na intenção mais de anima-lo a terminar a historia que lhe devia contar, que de manifestar-lhe paternal affecto.{40}

—Perdoai-me antes, meu pai,—repetio-lhe Manuel.—Promettei-me o vosso perdão e abrir-vos-hei todo o meu peito, revelar-vos-hei todo o occorrido.

—Confessa primeiro,—continuou o velho, arredando-se de novo do pé do filho, e carregando o semblante com indicios visiveis de tempestade.

Reinou o silencio. Nem o filho se atreveu a fallar, por o não animar José de Moraes com um gesto ou palavra que se lhe afigurassem de benevolencia, e nem o velho julgou dever proseguir na indagação, depois de ter dado provas patentes das suas exigencias.

Appropinquou-se no entanto de Manuel o cão amigo, no intuito de acaricia-lo e festeja-lo, como soía pelo seu animo de animal fiel e agradecido.

—Sahe d'ahi,—gritou para o cachorro estremoso o velho irritado, lançando-lhe um olhar terrivel e dando-lhe com o pé. Comprehendeu-o{41} o animal submisso, e volveu vagarosa e tristemente para a porta da rua, aonde era o seu lugar, e deitou-se de novo no chão, posto não tirasse a vista da scena, que para elle se diria comprehensivel.

Resolveu-se emfim Manuel de Moraes a fallar, no desejo e esperança de terminar o espectaculo cruel, de que era parte importante. Abaixou humildemente a cabeça e balbuciou pausadamente as seguintes palavras:

—Não encontrei jámais em mim vocação para a existencia pacifica dos claustros, e nem para a vida religiosa. Lutei bastantes annos para vencer minhas paixões, dobrar o meu espirito, reprimir-lhe as tendencias para o mundo e para a sociedade civil, abafar n'alma as aspirações que d'ella partião, e me convidavão para outros destinos. Não posso pertencer á companhia de Jesus, como me determinastes e como vos devia um filho obediente. Prefiro despir o habito, deixar o Instituto,{42} e ajudar-vos nos trabalhos em que vos empregais, meu pai!

—Nunca!—retorquio-lhe o velho com violencia.—Dediquei-te á vida dos missionarios para bem teu, serviço de Deos, amor da religião e arrimo da tua familia.

—Deixei-a já, meu pai!—respondeu o filho.—Esta roupeta me não pertence mais. Estes trajos já não são meus. Desamparei a casa da companhia. Despedi-me d'ella para sempre. Deos não quer votos contrarios ao coração e ao espirito.

Tão decididos termos exaltárão em demasia o animo irritado de José de Moraes. Sem titubear um momento e nem hesitar um instante, gritou para o filho, respondendo á sua declaração com outra mais forte e resoluta:

—Foge de minha presença, que te não reconheço mais por meu filho! Sahe immediatamente d'esta casa que desdouras, e cuja porta te será para sempre fechada!{43}

Pretendeu Manuel fallar ainda. Faltou-lhe coragem diante do gesto altivo e firme do velho. Olhou para a mãi, que cahio em soluços sobre um banco encostado á parede; para as irmãs, que, como pombinhas diante do caçador feroz, se apertavão cada vez mais umas ás outras.

—Minha querida mãi!...—escapou-lhe dos labios uma voz dorida.

Procurou a mãi acolhê-lo, mas trepidou, á vista do marido, que com o braço estendido mostrava ao filho a porta da rua.

—Manuel!—pronunciou sempre a assustada mãi.—Obedece a teu pai, volta para os teus deveres.

—É impossivel já, exclamou o noviço.

—Calai-vos, senhora!—cortou-lhe o velho a palavra nova que desejava ella pronunciar.—É um homem perdido esse que ahi está. Não é mais nosso filho! Acompanha-o a maldição do pai e o castigo infallivel do céo!{44}

Não pôde mais nada dizer Dona Ignez, e perseverou na sua posição dolorosamente enternecida. Afigurava-se a Virgem das Dôres, partida pelas mais acerbas magoas e crueis soffrimentos, e prostrada com a submissa e evangelica resignação de que as sós creaturas celestes se revestem.

Levantou-se então Manuel de Moraes, que se conservava de joelhos. Intentou approximar-se do pai. Foi com força repellido. Traçou proferir algumas palavras. Impôz-lhe o velho silencio com um gesto expressivo. Chegou-se á mãi e agarrou-lhe na mão. Saltou José de Moraes do seu lugar, e arrancou-lh'a violentamente antes que o filho tivesse tempo para a tocar com os labios.

—Segue o teu destino, infeliz!—disse-lhe o velho.

Percebeu Manuel que nada mais podia fazer que minorasse a dôr do pai, e lhe cumpria sómente sahir da casa. Dirigio-se para a{45} porta da rua, e abrio-a. Antes de transpô-la porém, volveu-se de novo para os parentes, mostrando-lhes as lagrimas, e pedindo-lhes a commiseração e piedade. Soluços repentinos acompanhárão uma voz de despedida saudosa, e de adeos dorido. Pôz termo o velho á scena, correndo para a porta, e fechando-a sobre o filho, que se achou de fóra e no meio da rua.{46}