Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII
Capitulo V
Não foi longo e nem demorado o processo de Manuel de Moraes. Depuzerão em seu favor varios caciques e mulheres, que summariárão os seus actos de humanidade durante a occupação da aldeia pelos Paulistas aventureiros. Valêrão-lhe tão significativos testemunhos, e o proprio habito com que se cobríra, e o fizera reconhecer por membro da companhia de Jesus. Determinou a sentença lavrada pelo tribunal respectivo que fosse expulso da aldeia, enviado para Santa-Fé, e{98} ahi entregue ao provincial dos Jesuitas para lhe impôr as penas que julgasse necessarias, attenta a sua qualidade de noviço que abandonára o Instituto de santo Ignacio, e se alistára nas bandeiras dos aventureiros paulistas.
Acompanhado por Guaranys armados seguio Moraes por terra para Villa Rica, que distava não menos de sessenta leguas de Loreto. Conservárão-no ahi preso os padres da povoação por mais de dous mezes, esperando que se apromptassem as balsas que tinhão de expedir para Villa Real com generos e objectos de mercancia.
Embarcou-se emfim Manuel de Moraes, confiado a um irmão da companhia, por nome Cialdini, e a mais de trinta Guaranys, que servião de guardas, e marinheiros dos barcos numerosos que partião carregados de productos da industria das reducções. Descêrão o rio Ivahy, povoado de arvoredos{99} frondosos. Penetrárão no Paraná, e logo que descobrírão a ilha grande, tomárão a embocadura do Pequiri, e atracárão á Villa Real, que repousava docemente á margem d'este rio, e constituia a reducção mais importante e populosa da provincia de Guayrá, governada pelos Jesuitas. Não podião ahi as balsas continuar a descer as aguas do Paraná, porque começava um enormissimo salto, conhecido pelo nome de Sete Quedas.
Nem-um espectaculo, por mais soberbo e admiravel, extasiava tanto os olhos dos viajantes como o da famosa cascata que n'este sitio formavão as aguas do rio Paraná. Dividião-se para deixar erguer-se do seu seio uma ilha espaçosa, coberta de florestas espessas e sombrias, que contrastavão magnificamente com a claridade das aguas, precipitadas á roda. Reunindo-se de novo as massas poderosas do liquido elemento, recuperavão uma largura e extensão de mais de duas mil braças. Ião-se{100} depois estreitando, aprofundando o solo, e aterrorisando com rumores espantosos e roncos estridentes. Apertavão-se em menos de quarenta braças, e arrojavão-se então de uma altura superior a quatrocentos palmos até cahirem em uma bacia estupenda, que formava um lago de quasi duas milhas de diametro.
A oito leguas de distancia se percebia o ruido da cascata. Uma poeira humida levantavão as aguas á elevação grandiosa, formando atravessada pelos raios do sol os arcos iris mais harmonica e variadamente coloridos que se podião imaginar.
Pullulavão na enormissima bacia coroada de densas e phosphorescentes nuvens de vapor ilhéos numerosos, repletos de arvores gigantescas, que matizavão a scena com delicias ineffaveis.
Rolavão ainda de novo as aguas por sete precipicios seguidos, carregando comsigo{101} jaguáras pardas e pintadas, antas, serpentes hediondas, e toda qualidade de animaes do sertão, que se acoutárão nas ilhas durante as seccas, e não tiverão tempo e nem forças para nadar e evadir-se, apenas começárão as aguas a avultar e engrandecer-se. Acolhia-as com gemidos profundos, ecchos dolorosos e repetidos, uma segunda cratera, inçada de picos e rochedos, que parecião erguer-se, e pretender, como os Titães antigos, escalar os céos, resvalando-lhes pelos flancos raios repentinos de luz, que produzia o reflexo do sol por entre a fumaça das aguas, e que se afiguravão de longe verdadeiros coriscos durante o dia, e edificios de pedra alvissima através da escuridão da noite.
Não se podia ahi fallar, porque se sumia a voz humana ao estrondo rouco, monotono e sombriamente horrivel da cascata portentosa.
Mais de tres mezes se demorou Moraes em Villa Real, occupado, pelos padres que a dirigião,{102} no serviço da Igreja e das cousas sagradas, posto persistisse em assegurar-lhes que não volveria mais para o Instituto de santo Ignacio, comquanto guardasse no peito as mais gratas e saudosas reminiscencias pelo acolhimento que recebêra, instrucção que adquiríra, e sympathias que alcançára.
Seguio então por terra com copiosa caravana de gentios, e animaes carregados de mercadorias, para a povoação de Santa Maria Maior, edificada á margem quasi da barra do rio São Francisco na sua absorpção pelo Paraná, e abaixo do salto das Sete Quedas. Tornárão todos a embarcar-se n'este sitio em novas e numerosas balsas, que dirigir-se devião directamente para Santa-Fé, visto que a navegação não offerecia obstaculos mais e nem perigos. Conservava-se Moraes guardado tão cuidadosamente como o fôra desde o Loreto, gozando comtudo da companhia do irmão Cialdini, cùja pratica interessante lhe ganhára{103} cada vez mais o affecto e sympathia.
Cerca de um mez gastárão na descida do Paraná até onde elle recebe o curso do Paraguay engrossado pelas aguas do Vermelho, e cujas barras se denominão das Tres Bocas.
Extasiára-se Manuel de Moraes diante d'essas scenas variadas e sublimes da natureza, e da magnificencia deslumbrante do rio. De um e outro lado florestas virgens, copadas e gigantescas, que provavão a uberdade do solo; rios poderosos que se vinhão ajuntar ao Paraná, que já por si assoberbava os olhos e a imaginação com as grossas e caudalosas massas de agua que rolava, e que se dirião de um vasto oceano; aves de todos os tamanhos, fórmas e coloridos, guarás, anuns, e garças, esvoaçando ao rumor dos remos, e grasnando amedrontadas, para se esconderem nos galhos viçosos do resplendente arvoredo ou se entranharem nos brejos reconditos; jacarés enormes, dormindo ao calor{104} do sol, e que saltavão de subito das ribanceiras, e mergulhavão no vasto pego, como em fortaleza segura.
Mais que o dia claro e limpido deslumbravão as noites deleitosas no seio das solidões. Que painel primoroso e divino quando os raios merencorios da lua, entornando uma luz melancholica por entre as folhas do arvoredo, que sombreava as aguas do rio, scintillavão phosphorescentemente por cima da sua superficie, formavão espelhos estrellados de ouro e prata, e reflectião o horizonte com todos os seus toques magistraes e voluptuosas ondulações!
Atravessárão-se sitios desertos e inexplorados então, e aonde os proprios Jesuitas fundárão depois missões novas, para acolherem os Guaranys atropelados constantemente na provincia de Guayrá, que abandonárão por fim aos Paulistas aventureiros. Em uma e outra margem existem hoje os povos de Corpus Christi,{105} Candellaria, Itaqui, Santa Clara, Trindade, São Cosme, e outras aldeias edificadas pelos famosos missionarios, quando na época a que nos referimos formavão apenas esses territorios immensos, escondrijos e asylos de animaes ferozes.
Descêrão os viajantes das Tres Bocas para Santa-Fé, e acolheu ahi o provincial do Instituto a Manuel de Moraes com carinho paterno, recommendando-lhe penitencias e cogitações serias afim de decidi-lo a volver para o serviço da companhia, que o receberia com os braços abertos, esquecendo-lhe as faltas commettidas.
Em despeito porém das exhortações e conselhos dos padres, apezar de mais de tres annos que foi coagido a demorar-se no convento, persistio Manuel em sua deliberação anterior, e firme proposito, que se não modificava com as circumstancias e eventos.
Concordárão então os padres em remettê-lo{106} por Hespanha para Roma, esperando que o geral da companhia fosse mais que elles afortunado, e se não perderia assim para o Instituto um moço, cujos talentos variados, e solida instrucção, divisavão todos que com elle se entretinhão.
Seguio portanto de Santa-Fé para Buenos-Ayres em uma lancha, que praticava regularmente a navegação entre os dous portos do Paraná e Prata. Residio na casa da companhia o tempo que necessitárão os aprestos de um comboio de embarcações que se tinha de dirigir para Cadix, acompanhado por dous bergantins de guerra hespanhóes, e incumbidos de amparar e defender os vasos do commercio contra as esquadras e corsarios hollandezes, que infestavão os mares.
Ajudou aos navegantes um violento pampeiro, que os tirou em pouco tempo das aguas perigosas do rio da Prata, e os precipitou no seio do oceano Atlantico. Achava-se Moraes{107} em face do outro assombro da natureza, o mar immenso, profundo, tranquillo, ou agitado segundo as crises das correntes e as violencias do vento. As florestas virgens, os rios selvagens e inavegados, os animaes bravios, as cataractas estupendas, os sitios pittorescos, as planicies e montanhas, constituia tudo isso o deserto americano, e formava ao certo uma maravilha, em que o bello, o sublime, o grandioso e o infinito se abraçavão sem que a arte cooperasse para o quadro magestoso. Contrapunha-se-lhe agora o oceano, que sabia gemer tambem como as mattas reconditas, alvoroçar-se como a cratera dos saltos, roncar e enfurecer-se como o jaguára, e o surucucú, e mudar constantemente de physionomia, situação, e colorido, como a varia atmosphera que rodeia a creatura humana.
Corrêrão velozmente os navios para o Norte assoprados pelas aragens frescas de galernos favoraveis, posto fossem coagidos os mais veleiros{108} a reter de quando em quando a sua marcha, afim de esperarem pelos mais pesados, e não se desligarem do comboio, que pelo numero e união dos seus vasos lograria conter piratas e inimigos.
Estavão já pela altura da ilha de Fernando de Noronha, semeiados os navios como uma frota, e communicados constantemente por meio de signaes com os dous bergantins de guerra que os escoltavão, quando velas estranhas rasgárão o horizonte, e apparecêrão aos olhos, ainda que a grande distancia. Deu rebate ao coração dos navegantes o inopinado do caso, e sustos geraes se lhes incutírão nos animos. Serião inimigos? Pretender reconhecê-los não equivaleria a expôr-se mais aos perigos? Fugir-lhes não significaria medo, e os não animaria no seu proseguimento?
Organisou-se conselho a bordo dos bergantins de guerra, que se approximárão um{109} do outro. Decidírão os commandantes preferivel evitar o encontro, e afastar-se o comboio, largando todas as velas para que corressem os navios com maior velocidade. Estavão infelizmente a barlavento as embarcações suspeitas. Percebêrão a manobra, e suspeitando o comboio, e imitando-lhe o exemplo, se precipitárão sobre elles a pannos abertos. Muitos do comboio, por mais veleiros, se forão sumindo, e escapando no seio do oceano e na immensidade do firmamento. Menos felizes, vírão outros os seus perseguidores ganhar-lhes a cada momento em distancia, e cerrar-lhes o espaço que os havia a principio separado. Figurava entre os ultimos o galeão Santo Ambrosio, a cujo bordo se achava Manuel de Moraes.
Ao approximar-se, içárão os navios desconhecidos bandeira dos Estados Geraes de Hollanda, e apresentárão um costado de guerra que mais contribuio para amedrontar{110} os Hespanhóes do comboio. Tiros de artilharia disparados logo após lhes intimárão o dever de parar, e sujeitar-se á inspecção e visita. O commandante do Santo Ambrosio pensou incutir-lhes sustos descarregando sobre elles a metralha de duas peças que o guarnecião, e esforçando-se no entanto em evadir-se. A este signal acompanhárão igualmente com tiros outras embarcações do comboio. Mas infelizmente para ellas não ficou muda a artilharia dos Hollandezes, que posto apenas oito vasos, se mostrárão mais bem tripulados e armados. Nuvens de fumo, cortadas ás vezes por fuzis de fogo, e o estrondo das peças, assoberbavão inteiramente a atmosphera. Abrio agua pela pôpa o galeão Santo Ambrosio, despedaçado por uma bala certeira. Mandou subito o commandante arreiar a bandeira hespanhola que levantára no começo da acção, e dar signaes de render-se para não ir ao fundo do oceano.{111}
Percebidos os signaes pelos Hollandezes, acudírão-lhes incontinente com lanchas ao mar para tomarem conta do navio vencido. Antes que ellas chegassem, rebentou infelizmente a bordo do Santo Ambrosio um incendio do paiol de prôa, que ameaçou devorar-lhe a tripolação, inquietada assim, e ao mesmo tempo pelas aguas do oceano que pela pôpa submergião o galeão desditoso. Achavão-se portanto os navegantes entre dous perigos fataes e horrorosos. Echoárão pelos ares gritos estridentes de desesperação, ais sentidos clamando por soccorro e misericordia. Reinou a bordo infernal anarchia, ninguem mais governando, ninguem mais obedecendo. Lançárão-se uns desordenadamente no seio das vagas do mar, cogitando salvar-se melhor no meio d'ellas que dentro do navio. Saltárão outros nos escaleres pendurados aos lados, cortando-lhes as cordas que os prendião, e arriscando-se{112} a quaesquer eventualidades. Agarrárão-se alguns a bancos de madeira, e com elles se deixárão resvalar pela superficie do oceano.
Conseguírão as lanchas hollandezas salvar bastantes desgraçados, posto crescido numero de Hespanhóes perecesse nos arrancos da dôr, e no jogo sorvedor das ondas. Contou-se entre os escapos Manuel de Moraes, mas nem presa pôde ficar dos Hollandezes o galeão Santo Ambrosio, que as labaredas do fogo e os ultrages das vagas destruírão totalmente em pouco tempo. Lográrão todavia os Batavos audaciosos colher ás mãos dez dos outros vasos do comboio, que não tiverão a fortuna de evadir-se, e com que applaudírão estrondosamente o seu feito e triumpho.
Chamava-se Henrique Long o chefe da frota hollandeza que aprisionára as embarcações referidas. Era um famoso marinheiro, que desde 1630, succedendo a Willekens,{113} Pict Heyne e Padrid, limpava os mares de navios hespanhóes e portuguezes, mercantes e de guerra, causava destroços inauditos no oceano, apoderava-se de cópia numerosissima de galeões adversos, e espalhava os sustos e terrores por toda a immensidade dos mares.
Ordenou Henrique Long que se levassem para o Recife as presas de valor e fossem entregues ao governo que administrava a colonia hollandeza do Brazil, queimando-se immediatamente os galeões imprestaveis. Dos dez vencidos escapárão quatro apenas, para cujo bordo se transferírão as cargas retiradas dos outros, os prisioneiros infelizes, e novas tripolações hollandezas. Deu-se então ainda um espectaculo merencório e attristador para os que se não havião a elle habituado. Lançou-se fogo ás seis embarcações condemnadas, que ardêrão no meio de robustas e estrepitosas chammas, e ao som de vivas partidos{114} dos navios hollandezes, que assistião alegres á scena miseranda.
Executadas as determinações do commandante, seguírão os quatro galeões para Pernambuco. Entrárão no porto do Recife, e derão contas ao conselho director da Companhia das Indias Occidentaes, que governava a conquista hollandeza.
Forão soltos todos os prisioneiros e abandonados a plena e inteira liberdade para procurarem á sua vontade meios de subsistencia e vida, já que havião sido despojados de quantos bens lhes pertencião. Corria o anno de graça de 1632 quando se achou Manuel de Moraes lançado no meio da povoação do Recife, dominado então pelos Hollandezes. Sob os mais infaustos auspicios se lhe abria o mundo livre, a que elle aspirára imprudentemente. Raiava-lhe a aurora da vida anuviada por clarões sinistros de amarguras e dôres physicas. Iniciava assim a sua marcha{115} debaixo das impressões mais crueis e sombrias, já que, por capricho do espirito, ou indefinidos impetos d'alma, desamparára a quietação e santidade do claustro para correr adiante de peripecias e aventuras que lhe preparavão o seu fatal destino e a sua estrella desventurada.{116}