Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII
Capitulo VIII
Não decorrêra um anno inteiro em Amsterdam, para onde se havião retirado Brodechevius e sua filha, e já havia Manuel de Moraes abjurado a religião catholica, abraçado o protestantismo com o consentimento do velho Hollandez, celebrado os seus desposorios com Beatriz, e fixado emfim a sua residencia na nova patria que adoptára.
Venturosos dias se passárão a principio no seio d'essa familia tranquilla e socegada. Posto nem-uma convicção arrastasse Moraes{159} para o novo culto, seguia-lhe os mandamentos com exactidão, e cumpria escrupulosamente com os deveres que a Igreja calvinista recommendava. Não lhe pesavão no espirito, porque não era ainda chegada a hora do arrependimento e dos remorsos, e o prendião com doces e agradaveis laços os encantos da esposa, que cada vez manifestava mais finas qualidades, e correspondia ao seu amor fogoso com uma dedicação admiravel e extremosa.
Frequentavão-lhes a casa familias distinctas, affeiçoavão-lhes a amizade pessoas selectas, attrahião-lhes os cuidados relações agradaveis.
Conheceu e relacionou-se Moraes com muitos judêos portuguezes, evadidos de Portugal diante das perseguições do governo e do Santo Officio da Inquisição. Numerosas familias d'essa raça condemnada por injustos preconceitos e prejuizos loucos da opinião publica da época, abandonárão as terras luzitanas,{160} e achárão abrigo, e liberdade para os seus cultos, na judiciosa Hollanda, que se engrandeceu e gloriou com a sua industria e fortunas.
Primavão entre os judêos portuguezes homens de merito notavel. Havião muitos acquiescido em Portugal a trocar a sua religião pela catholica, afim de se lhes consentir a residencia na patria, que não admittia o culto israelita. Bastava porém a mais pequena suspeita, a menor denuncia, para que fossem presos, encarcerados, processados, e condemnados aos tormentos e fogueiras do Santo Officio. Entrárão alguns para as ordens monasticas, tomárão habitos de sacerdotes, empregárão-se no proprio tribunal da Inquisição, como seus famulos e servidores. Não lhes valêra a metamorphose do culto e dos costumes. Ninguem acreditára na sinceridade da sua abjuração. Após os que, por não quererem renegar as suas crenças religiosas,{161} forão compellidos a expatriar-se, seguírão aquelles que, convencida ou hypocrita e simuladamente, adoptárão o catholicismo, por mais evidentes e claros abonos de sinceridade e dedicação aos dogmas e disciplina da Igreja romana.
Bastava ser judêo, tê-lo sido, ou descender de sangue judêo, para que se lhe não poupassem insultos, prisões, miserias, violencias, assassinatos juridicos e barbaros. Não os isentava o sexo, e nem a idade. Perdeu Portugal com a sua emigração um povo rico, industrioso, trabalhador, activo, intelligente, e capaz de grandes emprezas.
Figuravão entre os judêos estabelecidos por esse tempo em Amsterdam tres Portuguezes, considerados como capacidades elevadas, e que deixárão fama nas lettras e sciencias. Isaac Orobio de Castro, que fôra medico notavel em Lisboa, e professor em Sevilha, escapo dos carceres do Santo Officio graças a{162} um disfarce de vestes, e nomeado para um dos chefes da communhão
israelita da Hollanda[4]. Manassé ben Israel, oriundo de Arabes e
judêos, naturalista distincto [5]. Uriel da Costa, que exercêra cargos civis em Lisboa, convertendo-se á religião de Roma, e que nem por isso fôra poupado pelo cruento tribunal, que anciava por purificar a fé religiosa nas fogueiras que levantava para queimar vivas as
victimas da sua atrocidade supersticiosa[6].
Perseveravão as familias israelitas em guardar na Hollanda os seus costumes, e a lingua portugueza, formando uma communhão livre e levantando as suas synagogas, celebrando os seus actos religiosos, solemnisando o seu dia do sabbado, e as suas festas tradicionaes.{163}
Tudo o que víra Manuel na Hollanda entre os protestantes, e a historia e situação dos judêos portuguezes exilados, parecião fortifica-lo a principio no seu novo culto, demorando o tempo do infallivel arrependimento.
Rebentára por esse tempo a revolução portugueza de 1640. Applaudírão todos os judêos portuguezes o levantamento glorioso do povo luzitano para recuperar a sua independencia, e libertar-se do jugo de Hespanha. Enthusiasmou-se Manuel de Moraes pelo evento feliz, e incitado pelas reminiscencias patrias, escreveu e publicou uma memoria, defendendo os direitos de Portugal e do duque de Bragança elevado ao throno nacional, com o nome de Dom João IVº, e offereceu-a ao diplomata portuguez nomeado para
Hollanda, Diogo de Mendonça Furtado [7].{164}
Começárão estas occurrencias a avivar no espirito de Manuel de Moraes reminiscencias do que fôra, e de onde proviera. O proprio escripto que traçava lhe insinuára saudades da patria, e forão com ellas vindo timidas duvidas a principio ácerca da honestidade e dignidade da sua abjuração religiosa, e a pouco e pouco e com o tempo depois um como que arrependimento do que praticára, e que condemnava-o no fôro interno d'alma.
Ninguem se podia reputar no entanto mais feliz na sua domesticidade. Um sogro que o estimava e prezava, cheio de bondade e affecto; uma esposa bella, meiga, amorosa, devotada; abastança de meios de fortuna; renome de homem intelligente e serio; amigos que o procuravão, e acolhião com urbanidade e respeito; que lhe era mais preciso para a felicidade na terra?{165}
Assim o pensára elle proprio no começo. Não descobríra na existencia senão socego, doçuras, risos, prazeres, delicias, encantos, flôres e perfumes. Passados os primeiros tempos da felicidade, que se deverião reputar a lua de mel dos noivos, uma voz surda e intima, que partia da alma, lhe iniciou uma agitação paulatina no espirito, que se foi entristecendo e cobrindo de luto, e perdendo a vivacidade anterior, como a rosa que murcha a olhos vistos, apenas cortada da haste, que lhe dava viço e vida.
Tratou de occulta-la Moraes aos olhos do mundo, e com mais cuidados da consorte adorada, que se lhe afigurava ainda o unico ente sobre a terra por quem dera e daria sempre a vida. Não escapou porém á perspicacia de Beatriz a metamorphose espiritual e moral que se passava no marido. Não tardou muito a adivinhar por si, á custa de seu unico trabalho, e sem a menor confidencia{166} de Manuel, posto o interrogasse por todas as fórmas sobre o motivo verdadeiro da lamentavel transformação que se ia operando no seu animo.
Estremeceu. Realisára-se o seu pressentimento. Após o saborear dos prazeres, entornava-se o fel do arrependimento. Destruirião os remorsos posteriores aquelle amor fogoso, aquella paixão enthusiastica, que correspondêra mais aos sentidos physicos que aos dotes da alma e do espirito.
Desapparecia-lhe toda a felicidade domestica, como um sonho agradavel que o acordar interrompêra, e a realidade supprimíra. E se não podia queixar de ingratidão. Elle não professava outro amor; não a abandonára por outra mulher; dedicava-lhe o mesmo affecto extremoso e fino; adorava-a sempre com o coração, mas laborava já em lutas intimas das idéas religiosas dos arrependimentos do espirito, dos remorsos d'alma contra esse amor{167} e paixão a que sacrificára o que agora lhe ia parecendo não dever e nem poder ser jámais sacrificado, como superior que era á razão e á vida.
Volveu contra si propria a setta, por se haver mostrado tão fraca, aceitando o sacrificio, e não apreciando no seu justo valor a sua grandeza invencivel. Communicou-se a Beatriz a tristeza e abatimento moral de Moraes, e seguindo cada um vereda differente, se convertêrão ambos em entes isolados e solitarios, que o mundo e a sociedade approximárão, e as paixões latentes separão, como remorsos vivos de crimes, que arredão um do outro os seus complices respectivos.
Fugião já ás confidencias mutuas. Mas o contacto intimo, o lar domestico a vida regular, as devião trazer naturalmente, posto as temessem reciprocamente.
—Sou eu causa,—disse-lhe Beatriz um dia,—dos tormentos do teu espirito?{168}
—Tu?—respondeu-lhe Moraes.—Enganas-te. És antes o unico anjo que me ampara. Ainda esta noite sonhei: Um monstro lançava-se sobre mim; tinha eu conhecimento da minha critica situação, como se estivera acordado; paralysava-me porém a inercia do somno—chegaste,—fugio o monstro,—salvaste-me!
—Sacrificaste por mim tua vida,—continuou ella.—Sei que isso te não peza. Mas sacrificaste igualmente o teu culto religioso, e eu aceitei o que não podia aceitar, e d'ahi provém o arrependimento que te tortura o espirito!
—Ama-me sempre,—replicou-lhe Moraes,—e tudo isso é nada, porque só vivo para ti, e ás dôres que me assomem ao espirito, desconhecidas, precipitadas, anciosas, mas que me obscurecem e assoberbão ás vezes, não vejo remedio ou allivio senão em teu amor. Arranca-m'as tua presença,{169} como a do anjo tutelar e da guarda.
—Moraes,—tornou-lhe ella,—conheço-te, admiro-te, adoro-te. Sei que sacrificio enorme commetteste por meu amor. Culpa minha foi, e não tua, em que se realisasse. Não ha mais remedio; suas terriveis consequencias apparecem agora, e Deos deixa-me solitaria. Vês como os astros gravitão um para os outros, em extases communicativos e innocentes? Um laço ineffavel prende ao creador a creatura. A floresta que geme, o lago que dormita, a torrente que se despenha, o vento que sibilla, a cidade que sonha, o passaro que canta, a aurora que resplandece, tudo tem uma voz no hymno da universal harmonia. Eu porém considero-me discordancia inutil no concerto immenso da natureza. Sou no meio do immortal poema d'arte como um membro cortado, e estranho ao movimento que lhe imprimio o architecto supremo. Dir-se-me-hia semelhante á superficie{170} incolor das aguas que reflecte apenas o brilhantismo das arvores, das flôres e do firmamento.
Impressionou-se seriamente Manuel de Moraes, ouvindo essa linguagem mysteriosa, mas que denunciava o fundo cavado no peito da esposa pelo sentimento forte da dôr e da amargura.
—Ó santa creatura!—exclamou, abraçando-a e beijando-a com effusão,—desterra imagens tristes e aterradoras. Se não sou o que fui, se não passo de uma sombra de homem, se soffro paralysia intellectual, só tu podes alliviar-me as dôres, e salvar-me, porque és o unico ente que me ampara na terra. Restitue-me tua alma, dá-me a fé que é a vida, a fé no teu amor!
—Pensei,—interrompeu ella,—que encarariamos a felicidade sob a mesma feição e aspecto. Encanta-me a paz e tranquilidade da vida intima, mas teu espirito se{171} revolta, e eu considero-me culpada. Dize que sacrificios queres que eu faça para superar os que por mim commetteste!
—Nem-um, nem-um,—respondeu-lhe Moraes.—Cumpre-me a mim repetir todos para te provar minha dedicação. Se queres que eu exista, não soffras, minha alma! Perdôa-me, serena-me estes impetos involuntarios do espirito. Não és culpada,—nem eu,— ninguem o é. Abandona sonhos e pressentimentos infaustos.
Enlutava-se cada vez mais a existencia mutua de Moraes e de Beatriz com a falta de filhos, que são prisões no mundo, e tomão pela sua affeição a dianteira a todos os sentimentos humanos, vencendo-os em superioridade e força, e obrigando os pais a ligar-se á terra, e a applicar-se á sorte e felicidade da sua prole querida.
Definhavão assim cada um para o seu lado os dous esposos, que se adoravão no entretanto.{172} Excedia a prostração em que cahíra Beatriz ao abatimento que Moraes manifestava. Cifrava-se o sentimento d'este no espirito e n'alma. Provinha do arrependimento, acarretára remorsos, que ralando inteiramente, não lhe offendião todavia as forças physicas. A intensidade da dôr de Beatriz se passára porém para o corpo, que minguava a olhos vistos. Empallidecião-se-lhe as faces, outr'ora roseas e rubicundas. Cavavão-se-lhe os olhos, em outro tempo vivos, penetrantes e espirituosos. Quebravão-se-lhe as forças paulatinamente. Tomava aquelle aspecto todo, tão esbelto e levantado como a palmeira do deserto, tão elegante e primoroso como o cysne deslisando-se gentilmente pelas aguas do lago, proporções graves, tendencias á decadencia e ruina, ares de soffrimentos physicos, que assustavão a todos que com ella convivião, e a estimavão e amavão.
Lamentava-se o velho Brodechevius, percebendo{173} finar-se a filha adorada, sem lhe conhecer o mal que a minava, e adivinhar-lhe a cura necessaria. Chorava Moraes como uma criança, esquecendo quasi diante do seu amor a propria dôr, que lhe acabrunhava o espirito. Procurava engana-la, asseverando-lhe que não sentia mais as primeiras impressões que o havião assaltado, e convencido cada vez mais do bem que procurára, e da utilidade moral que lhe proviera dos seus actos, não poderia existir longe d'ella, e sem ella. Esforçava-se em chama-la á ventura e á vida pelo amor que Beatriz lhe consagrava, e por piedade para com aquelle que se lhe dedicára com todas as forças do coração e faculdades d'alma.
—Moraes—disse-lhe ella um dia ao cahir da noite, encostando-se a uma janella que dava sobre o braço de mar que banha Amsterdam, e olhando para uma pallida estrella que bruxuleava no horizonte sombrio e{174} tristonho do norte.—Vês aquella estrella merencoria? É a minha existencia. Breve se sumirá ella no firmamento, e o negro manto da escuridão a cobrirá de todo. Fui feliz emquanto te senti feliz a meu lado. Causei a tua desventura, e devo receber do céo o castigo merecido. Sonhão-te pelo pensamento idéas de deveres nobres e patrioticos. Ruminão-te pelo espirito os insensatos sacrificios que por mim praticaste. Torturão-te a alma os remorsos crueis que acompanhão sempre quem abandona o seu culto, e a religião de seus pais. Não tardará o momento em que fiques livre de mim para volveres ao gremio da tua Igreja, e recuperares o socego pela penitencia e santidade de vida, desprendendo-te das cousas terrestres, que nos afastão da Divindade.
—Por compaixão por ti e por mim—atalhou elle.—Que me importa a religião de Roma, se é christão igualmente o culto{175} ensinado por Calvino, e mais consentaneo com a liberdade e o arbitrio do homem! Não me arrependi; não soffro remorsos. Asseverei-t'o tantas e repetidas vezes, e porque m'o não acreditas?
—Leio melhor que tu no fundo do teu peito—continuou Beatriz.— Fez-me Deos de modo que, ou não devia amar, ou possuindo amor, deveria elle assorberbar-me de sorte que o ente que escolhesse o meu coração me pertencesse inteira e exclusivamente, e não nutrisse idéa que se não cifrasse em mim. No dia em que notei que involuntariamente—sei-o bem, não precisas repetir-m'o—te impressionavão sentimentos, reminiscencias, saudades doridas do passado—afastavas de mim um pensamento, que te ia acommettendo, e dominando o espirito, posto me dedicasses o mesmo amor do coração, não mais porém as faculdades d'alma, entendi que devia desamparar a terra, e que meus dias{176} estavão terminados no mundo, para só entregar-me a Deos.
Pretendeu Moraes replicar-lhe; ella porém largou-o, e retirou-se para o interior do seu aposento.
Não durou muito o seu soffrimento. Á decadencia do corpo ligou-se uma febre nervosa. Inuteis e infructuosos cuidados se lhe applicárão. Nem-um medico lhe adivinhou a molestia. Reclamou-a a eternidade. Forão os seus ultimos momentos tristes, mas affaveis, despedindo-se enternecidamente do pai e do esposo, e entregando a sua alma fervorosa nos braços do Deos eterno!{177}