Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII

J. M. Pereira da Silva · Capítulo 5 de 16

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Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII

Capitulo III

 

Tinha chegado no entanto a tempestade ao seu apogêo. Rasgavão os ares os coriscos e raios que esclarecião sós e momentaneamente a povoação de São Paulo. Enlutára-se a natureza, e a noite espessa, triste e medonha não deixava descobrir caminho. Se não fôra o relampago, que de quando em quando commettia a sua apparição, ter-se-hia perdido de certo o noviço no meio d'esses beccos e ruellas estreitas e escuras, de subidas{47} e descidas, bem que as conhecesse desde a sua infancia.

De vagar, e apalpando quasi o caminho, largou a aldeia, e se dirigio para a planicie. Teria marchado tres quartos de hora pelo campo aberto, apenas de distancia em distancia povoado por um ou outro casebre isolado e solitario, quando se achou no sitio a que chamão hoje da Luz, por se ter ahi erguido uma ermida sob a invocação da senhora d'este nome.

Apezar do máo tempo, alagada a roupeta com as chuvas abundantes que a inundavão, enterrados os grossos sapatos nos lodaçaes, que uns sobre outros tinha de atravessar, continuou a sua marcha por meia hora mais, até que se appropinquou de uma rustica choupana, e conseguio que lhe dessem n'ella entrada e pouso. Pertencia a um seu amigo da infancia, com o qual entretinha a maior intimidade.{48}

Acolheu-o e espantou-se Antonio da Costa com a sua apparição inesperada, e áquellas horas mortas da noite. Agasalhou-o; ajudou-o a despir-se da roupeta de noviço, que trajava ainda, deu-lhe novo fato, emquanto a capa se enxugava ao fogo de um brazeiro, e convidou-o a tomar alguma refeição, para recobrar as forças perdidas.

Não excedia a idade de Antonio da Costa a vinte e dous annos. Era homem robusto já, como se mais adiantamentos ganhára sobre o tempo. Possuia imaginação ardente e aventurosa, e sentimentos cavalheirescos. Vivia só e retirado n'aquelle sitio e casa, depois da morte dos pais, que minguados recursos lhe havião legado. Não se applicáva a trabalho ou officio algum, vegetando e estorcendo-se por isso nas angustias da ociosidade, que mais desespera que nutre o homem, e lhe torna tediosa e aborrida a sua existencia no mundo. {49}

Summariou-lhe francamente Manuel os acontecimentos por que passára, e a situação a que o havião elles arrastado. Chamárão os successos do noviço as reflexões do seu amigo para si proprio. Comprehendeu que era identica a posição de ambos, e lhes cumpria abandona-la conjunctamente, procurando meios que do mundo em que vivião os arrancassem para novo destino. Em vez de dormirem, gastárão os dous moços o resto da noite em mutuos pensamentos e cogitações. Reflectião, e discutião sobre o que devião fazer, sem que tivessem chegado ainda a um accordo, quando começarão a annunciar-se os primeiros arrebóes da madrugada.

Passára o temporal, e promettia bonança o dia que se levantava. Conversavão ambos, recostados sobre a mesma cama, quando ouvírão grandes rumores na estrada. Erguêrão-se, abrírão uma janella que dava sobre ella, e prestárão sua attenção a vozes alternadas e{50} ás vezes conjunctas, e tumultuosas. Descobrírão um grupo de cerca de trinta homens brancos e mamelucos, e outros tantos ou mais gentios, armados todos de espadas, facões, clavinotes e espingardas, de mochila ás costas, vestes grossas de viagem, calças arregaçadas, e largos chapéos, ou carapuças espessas.

Parára o grupo quasi defronte da choupana de Antonio da Costa, e ahi se occupava em uns negocios ou aventuras, fallando muitos ao mesmo tempo, e commettendo a maior algazarra.

—Não ha que fallar mais,—disse um com voz de estentor, dominando inteiramente o barulho...—Matheus Chagas sabe melhor que ninguem os caminhos, está affeito aos perigos do sertão, e devemos obedecer-lhe ás cegas. Sem chefe não ha bandeira que preste. Seja Matheus Chagas acclamado para nosso chefe.{51}

Seguírão applausos repetidos, e gritou a maior parte:—Viva Matheus Chagas!

Rompeu então por d'entre elles um homem pequeno, corpulento, de physionomia requeimada do sol, e rasgada por um talho de faca ou instrumento cortante. Seguravão-lhe as mãos calejadas uma grande espingarda, e um enorme facão lhe pendurava á cintura. Enrolado capote velho com mochilas que parecião coldres lhe cobria desformemente as costas. Era o senhor Matheus Chagas, improvisado repentinamente em commandante do grupo pelas acclamações dos companheiros. Agradeceu-lhes a prova de consideração que recebia, e lhes prometteu que, como homem de resolução, tomava ao serio o posto conferido, e os guiaria para os seus destinos.

—Amigos!—disse-lhes emphaticamente.—Levar-vos-hei caminho direito ao Perú. Muita caça encontraremos nas mattas, e{52} muito peixe nos rios para alimentar-nos, muito boa agua para matar-nos a sede, saborosas frutas para refrescar-nos, bastos arvoredos para cobrir-nos contra os ardores do sol, e gentio em quantidade para captivar e vender. Espero em Deos que entraremos nos paizes dos Castelhanos, e encontraremos e carregaremos ouro e prata que elles lá têm em abundancia, sendo mais felizes que Aleixo Garcia, que elles roubárão escandalosamente, e matárão com tanta

barbaridade [1]. Não sabeis que o cacique Taubixi, mandou avisar os Portuguezes de São Paulo que havião lá muitas riquezas, e os fossem ajudar contra os Castelhanos, que só querião tomar os bens

aos gentios e assassinar-lhes [2] {53} os filhos e as mulheres?

—Bravo! bravo! Viva Matheus Chagas! repetirão todos com contentamento cada vez mais estridente e progressivo.

—Em ordem pois, e andar para adiante!—continuou o fogoso orador.—D'aqui a trinta leguas começão os nossos trabalhos. Até então viagem de rosas. Depois tocaias de gentios atrás do páo, ataques de jaguára de sobre a ribanceira, mordedura de cascavel dentro do buraco. Mas não tenhais medo. Eu conheço todos estes perigos. Servi com um dos homens que por ordem de Martim Affonso acompanhárão ao sertão em auxilio de Aleixo Garcia ao

capitão José Sedenho, e de que poucos escapárão da refrega [3]. Marchemos, amigos!{54}

Reconhecêrão os dous moços, que presenciavão esta scena, que o grupo avistado formava uma bandeira de aventureiros, como começavão a organisar então os Portuguezes de São Paulo, incitados pela ambição de descobrir minas de ouro e prata, e fazer guerra aos gentios do interior para os reduzirem ao captiveiro.

Posto que nas sós tradições, que se referião a Aleixo Garcia e aos Hespanhóes do Perú, se denunciasse a existencia de minas de ouro e prata no interior do paiz, e nem uma havião ainda descoberto os Portuguezes, bastava a idéa para lhes fallar á cobiça, e leva-los a tentar a fortuna nas emprezas, atirando-se nas densas mattas, transpondo os rios caudalosos, dobrando as serranias levantadas, em procura de preciosidades que a crença geral dizia escondidas no seio das terras, e colhidas pelos Castelhanos por mais audaciosos. Deve a corôa portugueza a{55} estas bandeiras de aventureiros terrenos importantes que conquistárão, e com que alargárão as suas posses, ganhando-as sobre os vizinhos Castelhanos, espalhando nucleos de arraiaes e povoações, que com o tempo prosperárão e augmentárão, e abrindo communicações e caminhos para a beira do mar, aonde havião os Portuguezes começado a estabelecer-se. Findárão seus dias pelos desertos muitos dos aventureiros. Bandeiras inteiras desapparecêrão sem deixarem noticias. Não os poupavão as frexas envenenadas dos gentios, e as tacapes terriveis e pesadas de que usavão, no meio dos seus ferozes festejos, para quebrarem as cabeças dos prisioneiros, cujos corpos devoravão em banquetes horriveis. Resultárão porém no fim das correrias dos Paulistas vantagens e lucros extraordinarios para a colonia, que cresceu em terras, população e riquezas.

Olhou Manuel de Moraes para o seu amigo,{56} e disse-lhe:—Não pensas que o céo nos mostra o que temos de fazer? Porque não acompanhamos estes homens nas suas explorações?

Apoderava-se igualmente de Antonio da Costa o mesmo pensamento repentino.—Vá feito,—respondeu,—e já!

Não gastárão tempo em colloquios. Tomou o noviço a sua roupeta que seccára, e o seu chapéo preto de abas largas. Vestio-se Antonio da Costa com uma jaqueta grossa, deitou-lhe por cima um capote, collocou na cabeça um barrete de palha tosca, e pegou da espingarda e espada que possuia. Promptos para a longa peregrinação, sahírão ambos da choupana, cuja porta ficou trancada, e apressárão os seus passos afim de apanharem a bandeira, que se tinha afastado e adiantado bastante.

Ao chegar á margem do rio Tieté, lográrão os moços encontrar os aventureiros, a cuja{57} empreza pretendião associar-se. Requereu Antonio da Costa fallar ao chefe. Apresentado a Matheus Chagas, declarou-lhe a sua intenção e a do seu companheiro.

—Hum! hum!—vociferárão alguns.—Dous rapazolas, que parecem uns fracalhões, para que nos servem? Queremos gente forte, robusta, capaz de trabalhos e de fadigas, e não franguinhos, que irão só incommodar-nos!

—Silencio!—bradou Matheus Chagas.—Sou eu quem governa, e aceito a companhia. Teremos assim padre e sacristão!

Gargalhadas estrepitosas soárão d'entre os aventureiros. Apropriava-se de feito o dito do chefe ás vestes de Manuel de Moraes e ao juvenil semblante de Antonio da Costa. Subio ao rosto do noviço um rubor subito. Virando-se para o seu amigo, pareceu annunciar-lhe que melhor fôra abandonar o intento. Disse-lhe porém baixo Antonio da Costa que não{58} fizesse caso das risotas do grupo, e lançado estava o dado do destino.

Concordes assim, seguírão todos o seu caminho, acompanhando pela margem esquerda a correnteza do rio, até que em um sitio mais baixo deparárão com seis canôas de toscas e mal afeiçoadas madeiras, juntas por amarras de corda, e pregos grossos, como as jangadas modernas das costas do norte do Brazil. Embarcárão-se nas canôas, desatárão-lhes as cordas que as seguravão á terra, e largárão-nas pelo Tieté, para que as suas aguas as levassem.

Rolava o Tieté no seio de planicies admiraveis, povoadas de arvoredos gigantescos, jacarandás, louro, gurubus, cabiunas e gabirobas possantes, volteando incessantemente como serpente que se enrosca, recuando, avançando como jogo de xadrez, e lançando assim traços argenteos e limpidos através da côr verde-escura das mattas, que o cobrião{59} ás vezes com o tecto protector e hospitaleiro dos seus galhos numerosos. Pelos troncos e ramos das arvores corpulentas se atracavão igualmente mil tenues fios de parasitas, scintillando com as côres de suas flôres deleitosas, que perfumavão a atmosphera e extasiavão os olhos. Rasgavão os ares diversos e copiosos chilros de pequenos passaros, que se erguião e sumião ao rumor que fazião os viajantes. Alli gemia funebremente a juriti, e mais adiante repercutia o som vibrante da araponga, assemelhando-se ao lavrar dos ferros nas forjas das officinas. Via-se ás vezes correr assustada a cotia ligeira, e estridentes risadas dos macacos parecião zombarias de gente que chasqueava a viagem dos aventureiros.

Amarravão-se de noite as canôas ás ribas do rio. Acendião-se fogueiras para seccar a temperatura, e afugentar os animaes damninhos dos desertos. Envolvião-se nos seus{60} capotes os homens da bandeira, e dormião ao ar, e á luz opaca dos astros. Levantavão-se á alvorada, reganhavão as suas embarcações, e continuavão a sua derrota.

Havião navegado oito dias já com esta monotonia, quando percebêrão o primeiro salto do rio, cavado entre morros, e apertado pelas suas quebradas. Passárão as canôas para a terra, e as carregárão ás costas até vencerem o salto, e collocarem aonde o rio offerecia de novo facil navegação. Formava o salto uma verdadeira e perigosa cascata, pela qual rodomoinhavão e se precipitavão as aguas por entre pedras ás vezes agudas, que despedaçavão tudo quanto rolasse com a corrente atirada do alto. Exigia esta operação grandes trabalhos materiaes dos aventureiros, que a pericia de Matheus Chagas sabia até diminuir para se não cansarem.

Não poupavão aves e animaes, que lhes apparecião, roncando de quando em quando na{61} solidão o tiro das espingardas disparadas. Apanhavão ás tardes e ao cahir da noite, ao anzol, peixes exquisitos que lhes variavão o paladar, e lhes deleitavão o gosto. Jacús, tucanos, pacas e capivaras dos mattos, bagres, e surubis do rio, erão tudo regalos, com que os presenteava aquella magestosa solidão dos tropicos.

Soou-lhes um dia um assobio agudo e penetrante de animal bravio. Não lhe prestavão os aventureiros mais attenção, quando minutos depois echoou um segundo. Levantou-se Matheus Chagas, e fazendo signal de silencio, disse á meia voz aos companheiros:

—Atraca, e quietos e mudos. Temos, pelo que parece, gentio perto. Cuidado com as tocaias. São finos como lãs de cagado, e velhacos como lobos.

Encostárão as canôas á margem, e o chefe escolheu tres Carijós, aos quaes incumbio de reconhecer os signaes, e vigiar os sitios.{62}

Não se demorárão os caboclos designados. Entranhárão-se logo pelo basto arvoredo, marchando sobre folhas seccas sem que fizessem o menor ruido, enfiando pelos galhos das arvores com geito de animaes silvestres, e avançando com a ligeireza da corça.

Chegados á raiz de um outeiro, que estava a duzentas braças do sitio em que havião ficado os aventureiros, apromptando as suas armas de fogo para o que désse e viesse, deitárão-se ao chão os tres Carijós, estendendo-se ao correr do terreno. Reinava silencio sepulcral. Nem gritos de aves, ou animaes, nem barulho do rio, ou sopro de vento. Ardentissimo o sol vibrava raios abrazadores, que recolhião ao repouso os entes todos que habitavão as florestas.

Applicárão os Carijós á terra os ouvidos, para que a terra lhes communicasse o que sobre ella se passava em distancia. Em dous livros soem os gentios ler com particular attenção,{63} a terra que lhes noticia o que se passa em torno e até distante d'elles, e o céo, aonde descobrem as peripecias do tempo. Depois de um quarto de hora de acurada attenção erguêrão-se vagarosamente, e a um signal expressivo de um respondêrão os dous com breve abano de cabeça. Examinárão então o terreno, para descobrir que especie de entes o havia pisado. Voltárão para junto dos aventureiros com as mesmas cautelas, e disserão ao chefe:

—Inimigo está perto. São muitas duzias.

—Como o podeis saber?—perguntou-lhes um Portuguez curioso.

—Calai-vos—retorquio Matheus Chagas.—Sou eu o chefe, e quem governa.

Approximou-se dos Carijós, e indagou a distancia em que pensavão estar os inimigos.

—Quatro a seis tiros de frexa—respondêrão-lhe os Carijós.— Ouvimos debaixo da{64} terra o rumor dos seus pés. Apanhámos no chão os signaes de seus passos.

Havião acabado apenas de proferir estas palavras, quando cahio de cima das arvores, não muito longe dos aventureiros, um passaro atravessado por uma frexa produzindo um ruido grande por entre as folhas seccas. Correu para alli um dos Carijós, apanhou o passaro, que reconheceu por uma jacotinga, que entregou a Matheus Chagas.

Não podia haver mais duvida de que tinhão perto de si tribus de gentios selvagens. Não era porém Matheus Chagas homem de temer. Habituára-se ás correrias e á luta.

—Á tocáia tocáia,—disse elle.—Vá o padre fallar-lhes, engana-los, e descobrir-lhes o numero. E digão que o padre nos não serve!

Nomeou quatro Carijós, dous mamelucos, e dous Portuguezes. Ordenou-lhes acompanhassem em distancia, e escondidos, a{65} Manuel de Moraes. Recommendou ao noviço avançasse sem temer, procurasse os gentios, e mostrando-lhes sempre a cruz do seu rosario, lhes fallasse no céo, para que elles se persuadissem que não tinhão inimigos diante de si, mas missionarios de paz, que os pretendião catechisar.

Não trepidou Moraes em obedecer ao chefe. A rogos de Antonio da Costa, deu-lhe Matheus Chagas o seu amigo por companheiro.

Tomárão os dous moços a direcção que lhes apontárão os tres Carijós que tinhão já reconhecido os sitios. Seguírão-lhes os passos os oito aventureiros, occultando-se para não serem vistos, e nem pressentidos pelos inimigos.

Chegárão Manuel de Moraes e Antonio da Costa á raiz do outeiro, e subírão-no até o alto pelas escabrosidades do terreno. Quando alli apparecêrão, echoou na baixada opposta uma gritaria descommunal, que lhes annunciou{66} a existencia proxima dos gentios que devião procurar. Levantou os braços o noviço, apertando e mostrando nas mãos a cruz e o rosario, e seguido pelo seu amigo, foi descendo em direitura ao sitio de onde partião as vozes da tribu selvagem, sem que entretanto descobrissem pessoa alguma adiante e nem atrás de si.

Deixado o outeiro, encaminhárão-se afoutamente pela veiga, que se abria, e acabava no rio. Terião marchado duzentas braças mais, quando a gritos repetidos, se sentírão rodeados de um enxame de gentios nús, tendo apenas na cabeça, e nas partes inferiores do corpo, pennas multicôres de passaros vermelhos e fulgurantes, e nas mãos arcos e frexas de tamanhos e feitios diversos.

Sentírão ambos os moços parar-lhes o sangue nas veias, e arripiarem-se-lhes as carnes. Levantada a cabeça, e erguidas as mãos, mostrou Manuel de Moraes aos gentios a cruz{67} divina, e começou um discurso em portuguez, que derão os indigenas mostras de não entender, posto lhe prestassem attenção com ares de curiosidade. Curvado com humildade, e as mãos entrelaçadas no peito, como penitente, se conservava Antonio da Costa firme e resignado, representando ambos as personagens que lhe havião sido confiadas.

Cada um dos gentios procurava todavia examinar os dous individuos. Occupárão-se uns com o improvisado Jesuita, pegavão-lhe na roupeta, miravão-lhe o chapéo, olhavão-lhe para os grossos sapatos, espantavão-se diante dos seus gestos e das suas palavras incomprehensiveis. Seguravão outros no seu acolyto, e puxavão-lhe as barbas sem o menor respeito.

—Homem de paz,—exclamava Manuel pomposamente,—procuro dar-vos a paz, e ensinar-vos a religião do unico Deos, creador do mundo. Deixai, selvagens, a vida errante{68} e nomade, que vos arrasta para a perdição! Morreu o verdadeiro filho de Deos em Golgota...

Trocárão no entanto entre si os gentios palavras rapidas em lingua guarany, das quaes posto algumas escapassem a Manuel, percebeu-lhes comtudo o sentido, por haver estudado o idioma na casa da companhia. Manifestavão os gentios suspeitas de que fosse um laço a scena a que assistião, e parecião desconfiar da veracidade do missionario.

Para desviar-lhes as suspeitas, e affeiçoar-lhes os animos, disse-lhes Manuel em guarany:

—Tenho companheiros, sim, mas ficárão longe e não vos farão mal. Somos mensageiros de paz, e procuramos a vossa amizade. Vim por isso fallar-vos.

—Piayas desconfião, e mossacaz são fortes,—respondeu-lhe um d'entre elles.—Os brancos são máos e enganadores.{69}

—Socegai-vos,—continuou o noviço.—Os que vêm comigo são bons e amigos.

Trocárão-se signaes mutuos os indigenas. Apalpárão alguns d'entre elles os dous moços para examinarem se tinhão armas escondidas. Reconhecendo que nem-umas trazião, o que parecia cacique da tribu lhes disse com resolução:

—Padre, não vos faremos mal. Somos uma tribu e uma nação poderosa. Temos perto d'aqui as nossas tabas, as nossas mulheres e filhos, e os nossos maracás e uapis. Seguí vosso caminho tranquillamente, e não nos procureis mais, que não queremos negocios com brancos.

Sumírão-se logo em um instante com a mesma velocidade com que tinhão apparecido, deixando absortos os dous moços, que sem os verem mais, lhes ouvião todavia estridentes e repetidos assobios pela espessa floresta, os quaes devião corresponder á signaes{70} e avisos que se communicassem os gentios.

Tratárão os moços de voltar para onde estavão os seus companheiros, e descobrírão agachados por detrás de uma grande arvore os oito amigos que os seguião.

—Cuidado,—disse um Carijó.—São muitos centos. Se desconfião, mal de nós.

Deixárão o sitio e procurárão ajuntar-se aos aventureiros, que anciosos os esperavão. Ouvida a narração do successo, deu Matheus Chagas ordem para se demorarem ahi um dia e uma noite, afim de darem tempo aos gentios inimigos de se afastarem para longe das margens do rio. Passado o prazo marcado, embarcárão-se de novo nas suas canôas, e proseguírão na sua derrota empregando todo o cuidado e vigilancia.

Mais de dous mezes terião gasto já, navegando o Tieté sem que outras aventuras os houvessem perturbado, quando começárão a aperceber que o rio se alargava desmedidamente,{71} assoberbavão as suas aguas campinas extensas, cobrião parte das florestas, e corrião com maior violencia.

Appareceu-lhes pela frente dous dias depois como que uma lagôa de dimensão extraordinaria, além de cujas margens se avistavão difficultosamente as terras.

—É o grande rio Paraná,—disse um dos Carijós.—Entramos agora n'elle.

É impossivel descrever-se a magnificencia do soberbo rio. Depois de atravessar as terras de Matto-Grosso, Minas e parte superior da capitania de São Vicente, e de se ter engrossado com tributarios não menos possantes, e extremamente caudalosos, absorvia no sitio descoberto pelos aventureiros as aguas do Tieté por um lado, e as do Sucuriu, e mais o Pardo do outro, formando uma vasta e grandiosa bahia. Cosêrão-se com as suas canôas á riba esquerda do Paraná, para se não expôrem ao arrebatamento das aguas. Transpuzerão{72} outros arroios importantes, e alguns poderosos, como o Aguapehi e Santo Anastacio. Approximando-se do Paranapanema, ordenou Matheus se desamparasse a corrente do Paraná, e se tratasse de subir este seu tributario encostando-se á ribanceira do lado esquerdo. Foi então mister empregar a força das varas e remos para vencer as aguas que descião. Quatro dias de esforços bastárão para se appropinquarem á embocadura do Pirapó, que se despeja no Paranapanema.

Ao descansar das suas fadigas, partírão gentios a pesquizar os terrenos em que se achavão. Participárão na sua volta a Matheus Chagas, que havião descoberto indicios certos de taba proxima de gentios, galhos de arvores cortados, ausencia de caça e signaes de pisadas humanas. Aproveitou o chefe os avisos e destacou de novo espias para melhor e mais cuidadosamente examinarem as localidades.{73}

Dias depois regressárão os exploradores, declarando terem encontrado uma aldeia grande e vasta, com igreja, campos lavrados, bois, cavallos e carneiros pastando, e abonos visiveis de que não erão os seus habitadores gentios selvagens e errantes.

Pensou logo Matheus Chagas que estavão os aventureiros perto das povoações castelhanas de Guayrá, e raiou de alegria por notar a felicidade com que tinhão percorrido todo o Tieté sem a perda de um homem, e nem lutas com os gentios, e chegado a salvo a uma das aldeias de Guaranys catechisados, que, conforme as noticias espalhadas em São Paulo, devião conter immensas riquezas de prata e ouro, que se podião arrebatar aos Castelhanos em paga das que elles havião roubado aos Portuguezes de Aleixo Garcia.

Formou logo uma especie de campo militar com a sua pequena tropa, escondendo-o no seio das mattas mais proximas da aldeia. Tomou todas{74} as providencias que reputou precisas, e preparou-se para lhe dar o assalto, almejando encher-se de despojos e carregal-os para São Paulo.{75}