Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII
Capitulo IX
Achava-se de novo Manuel de Moraes só, e isolado no mundo.
Quando se separára do claustro, dos pais e da familia, o fortalecião muito ainda o viço, a imprudencia afouta e audaciosa, e a esperança propria da idade juvenil. Ao faltar-lhe agora a consorte querida, ente unico, por quem se lhe cifrava a ventura no mundo, roçavão já os seus annos pelos quarenta, e a vida se lhe annunciava com o peso da experiencia e dos soffrimentos.{178}
Não guardára reminiscencias profundas na primeira época. Os acontecimentos repentinos que lhe succedêrão, as viagens que effectuára pelo sertão da capitania de São Vicente, as aventuras que encontrára no meio dos gentios errantes, e na provincia de Guayrá, os rios poderosos, a natureza esplendida do interior da America, o mar com as suas furias e os seus gemidos estridentes, lhe havião exaltado a mente, em vez de abatê-la e curva-la.
Diversa physionomia lhe raiava agora, em idade mais avançada, e fulgurava em torno d'elle. Idéas differentes o acommettião, e lhe corroião as fibras da alma e os segredos do espirito. Saudades sinceras da esposa mortificavão-no e torturavão-no. Havião corrido em companhia d'ella dias tão alegres, tão prazenteiros, tão socegados, tão felizes! Amor puro e sem igual, dedicação primorosa e exclusiva, possuia aquelle ente adorado, que{179} se deixára morrer quando percebêra falta de uma inteira correspondencia da sua parte!
Longe igualmente da patria, cuja lembrança lhe sussurrava a miudo; sem noticias dos pais e da familia que abandonára, e que agora lhe mortificavão o peito com doridos impetos; abjurado da fé catholica, que mitiga as dôres humanas, e falla ao coração com mais eloquencia que qualquer outro culto religioso; atirado no seio de uma socidade, na qual não nascêra, e nem encontrava parentes e amigos intimos, tão necessarios á vida, como companheiros leaes e devotados; que miseria o cercava, que esperança lhe poderia sorrir, que futuro devia antever?
Deixou a casa em que morava, por se lhe partir o peito com o aspecto que ella lhe offerecia já. Separou-se do desditoso Brodechevius, abandonando-lhe as riquezas, que lhe podião pertencer por direito. Recolheu-se a um sitio solitario, nos arredores de Amsterdam,{180} para com liberdade se entregar á expansão da sua dôr.
Era já Amsterdam uma cidade importante pela industria e commercio. Cortavão-na mil canaes, ornados de magnificos edificios, povoados de numerosos navios. Prosperava com o trato mercantil das colonias que roubára Hollanda a Portugal, durante o tempo do seu captiveiro dos sessenta annos, sob os tres Felippes de Castella. Expedia carregamentos continuos e importantes para a Asia, para o Brazil, para o cabo da Boa Esperança. Agglomerava-se-lhe pelas ruas e dentro dos muros um povo emprehendedor, activo e industrioso, que sabia curvar uma natureza ingrata e um clima agreste, e criar bellezas ficticias, e espantosas riquezas, que lhe davão o aspecto de commodos e magestade.
O que admirára Moraes nas obras dos homens começou a perder os seus encantos e fulgor, á proporção que a memoria lhe avivava{181} scenas do passado. Não era mais soberba a natureza dos tropicos, e não extasiavão mais aos olhos as florestas virgens da capitania de São Vicente, os rios caudalosos do Paraná, Tieté, e Prata, e a physionomia esplendida do firmamento com a sua doce e arrebatadora temperatura? Em concepções e obras não superava a natureza á arte? O que valia o panorama de uma Cidade artificial, coagida a oppôr diques ao mar, para que o mar a não engolisse e absorvesse, diante da planicie alegre em que assentava o Recife, ou as alturas em que repousava a povoação de São Paulo?
Á terra seguio-se a raça dos homens na comparação que o espirito lhe foi formando. A taciturna gravidade do Hollandez, posto industrioso e emprehendedor, a avareza dos judêos, ainda que activos e trabalhadores, não estavão abaixo do caracter jovial e vivo dos Portuguezes, e da innocencia e bondade dos gentios americanos? As virtudes e qualidades{182} dos padres protestantes casados, homens do mundo, dos negocios e do trato mercantil, poderião correr por acaso parelhas com a dedicação mystica e santa dos Jesuitas, que parecião não pertencer á terra, mas ao céo, e que na terra cuidavão só e exclusivamente em praticar feitos meritorios e exercer a caridade e a philanthropia moral, expondo-se aos maiores perigos e á propria morte, em beneficio dos gentios desgraçados e nomades?
Subio dos objectos mundanos para os espirituaes. Encarou os dous cultos, calvinista e catholico, mais como philosopho que propriamente como religioso. Lobrigou desenhado ás claras n'aquelle o orgulho do homem, que, a pretexto de liberdade da razão, queria elevar-se directamente a Deos, dispensando intermediarios, e interpretar a capricho os santos Evangelhos, e os livros da lei divina, emquanto que o catholicismo, organisando{183} uma igreja gradual, e erguendo os homens segundo os seus merecimentos, curvava a creatura na humilhação do creador supremo, e lhe explicava os dogmas do culto e os textos das Escripturas sagradas sob a formula mais simples, a da obediencia a uma intelligencia só, para a unidade e regularidade da fé.
E quanta ousadia na affrontação da Divindade; quanta arrogancia na exclusão das pompas dos templos; quanto desprezo na repulsa dos varões virtuosos, dedicados ao ascetismo e ás doçuras da vida eterna, que com razão se canonisárão de santos; quanta rebeldia para com o successor de São Pedro, cuja autoridade negavão os protestantes, que aceitavão no entanto a direcção de qualquer ente levantado do pó, despido de prestigio, e que se erigia por si em propheta e chefe de seita, como Luthero ou Calvino! Resplandecião-lhe pela imaginação a physionomia e o caracter grave, sereno e attrahente da Igreja Catholica,{184} que com o fausto de suas solemnidades irradiava de jubilo; com a melancolia dos seus canticos lembrava ao homem o nada que era; com a confissão e communhão lhe alliviava o peito e a alma; com os sacramentos finaes á hora da morte o levava para a vida eterna socegado e contricto, esperando o perdão da misericordia divina, que nunca desampara os seus filhos malaventurados.
Agglomeravão-se-lhe os remorsos com a consequencia das suas cogitações. Vida sem fé e sem esperança não era a do animal selvagem e embrutecido? Trocar o catholicismo, que nutre, sustenta e enche de fé, pelo calvinismo frio e interessadamente calculado, não constituia um crime, superior ao maior peccado contra a moral universal?
Não existia mais a esposa para lhe distrahir o pensamento amargurado, quando o martyrisava com agudos espinhos e sangrentas dôres. Nem-um amigo lhe apparecia{185} para lhe modificar a direcção espiritualista das idéas, e attrahi-lo de novo ás cousas do mundo. Arrastava-se de dia, estorcendo-se em amarguras. Velava de noite, atormentando-se em reminiscencias crueis e remorsos pungentes. Nem-um instincto o prendia mais á terra. Aborrecia a sociedade, e não encontrava allivio na solidão. Dias sem repouso, e noites sem somno, lhe avivavão cada vez mais os soffrimentos do espirito, ao passo que lhe arruinavão a saude do corpo.
Esforçava-se por respirar o ar livre dos campos, e notando-os todos lavrados artisticamente, cortados de canaes artificiaes e monotonos, divididos com regularidade exemplar, despidos de arvores naturaes e de vegetação espontanea, despovoados de passaros que gorgéão hymnos de amor, que devem subir agradavelmente ao throno de Deos, como harmoniosa orchestra que proclama e sauda a sua omnipotencia, cahia na maior tristeza e{186} prostração, recordando-se das planicies e veigas americanas, imagem e symbolo da Providencia divina pela sua grandeza ineffavel, encantos magestosos, e sublimes attractivos.
Que é das aguas, que corrião com a sua propria força, se desprendião de rochedos, brincavão com as pedrinhas alvas que lhes interrompião o curso, e engrossando, e recostando-se a leitos de flôres e perfumes, extasiavão os olhos, e denunciavão o poder ingente do organisador dos mundos?
Marchava assim meditabundo e só pela beira de um canal proximo a Amsterdam. Cahira a noite, e escurecêra com o seu manto o firmamento, rodeiando-o de trevas, sem que se apercebesse Moraes de que lhe cumpria suspender o seu passeio.
Fendeu os ares de repente uma voz enternecida de mulher, que cantava ao som de um instrumento que elle conhecêra na sua infancia, e que desde as plagas do Brazil não{187} ouvira mais tanger. Era uma guitarra portugueza, que, imitando a harmonia da harpa, gemia melancolicamente. Approximou-se Moraes para a casa de campo de onde sahião os melodicos accentos, arrastado por uma sympathia rapida que lhe sahio do peito. Applicando o ouvido ás palavras do cantico, estremeceu involuntariamente. Erão portuguezas, e pronunciadas por labios portuguezes. Quem seria o anjo que lhe sussurrava aos sentidos vocabulos da juventude? E que exprimião elles, affectos, paixões, ou delirios amorosos?
A pouco e pouco ouvio claramente as palavras, e não pôde suster-se em pé. Cahio sobre uma pedra, que lhe servio de abrigo.
Fôra para elle o cantico mais uma oração que uma lettra poetica; mais um estigma que uma rima musical; mais uma imprecação que um hymno. Formava-se dos versos{188} seguintes, que a boca que os proferia soltava com sonora e cadente melodia:
Ó doce e sagrado culto,
Que com o leite bebemos!
Tu nos sorris desde a infancia,
Com teus feitiços crescemos.
Antes carceres, exilios,
Antes barbaro tormento,
Antes cruentas torturas
Que esquecer-te um momento!
Antes a triste miseria,
A fome e a sêde mais dura;
Antes a morte em martyrios,
Em ancias de crua amargura!
Ó legado precioso
Confiado ao coração!
O penhor sagrado de honra,
Ó santa religião!
Quem póde a fé, que lhe derão,
Renegar impunemente?
Quem seu Deos e sua crença
Se arroja a arrancar da mente?{189}
Vagará no mundo inteiro,
Como um animal damnado.
Nem amigos—nem piedade,
Só, de remorsos ralado!
Ha no espirito do homem uma fibra mysteriosa, que Deos ahi depositou para o fim de impressiona-lo de quando em quando pelo supersticioso, extraordinario e fantastico, abater-lhe a vaidade, e manifestar-lhe a differença das duas naturezas que o compõem, uma fragil como o corpo e oriunda do pó, e a outra immaterial e eterna, como emanação da chamma divina, á qual deve annexar-se no fim da existencia, quando separada dos restos mortaes.
Por mais robusto e forte que seja o espirito, alli estremece diante de um cadaver que passa; acolá se curva contrito diante de uma sepultura; mais adiante se apodera de pensamentos sombrios ao avistar uma cruz no meio do deserto, ou á beira do rio, abandonada como foi{190} pelos povos de Israel o Deos homem, que se sacrificou pela salvação do mundo; um som repentino do sino de igreja; um cantico tristonho a deshoras perdidas da noite; um miserere solemne soltado debaixo das abobadas do templo; quem póde resistir á emoção, immediata e dorida que traspassa os membros do corpo, gela o sangue, sobe á mente, prostra o espirito, e arrasta a alma mais sceptica para cogitações philosophicas e reminiscencias merencorias?
Avassallárão Manuel de Moraes todas estas impressões, causadas pelo cantico e guitarra portugueza, repetidos sem duvida e tangidos por alguma judia expatriada que guardára a sua fé, e conservára a lingua pittoresca de seus pais nas ribas do mar do Norte, e sob os frios gelos de Amsterdam.
—Renegado, renegado!—parecia clamar-lhe uma voz sahida do seu proprio peito, entornando-lhe pela alma abatida uma nuvem{191} de remorsos crueis e dolorosos!—Renegado, renegado!—era o grito estridente que lhe soava os ouvidos. Sem amigos, nem piedade, ficára só e solitario na terra.—Não era este o seu estado? Não se diria o verso dirigido e applicado contra o seu procedimento? Não era um castigo do céo?
Não teve forças para aturar a violencia dos pensamentos. Perdeu os sentidos, rolou por cima da relva que matizava o chão humido, e horas e horas se passárão sem que se percebesse do seu estado, e nem-um individuo caritativo, que por acaso transitou, o descobrio, e cuidou em tira-lo do perigo.
Esclarecião-se já os horizontes com os primeiros raios da aurora, desprendendo-se das fumaças escuras da noite, desfazendo-as ao seu sopro vital, e derramando luz por sobre a terra e nas immensidades do firmamento celeste, quando a propria humidade do chão o acordou do lethargo soporifico, e lhe prestou{192} forças para levantar-se, e reconhecer a sua triste situação.
Encaminhou-se vagarosa e pausadamente para a cidade, estremecendo ao echoar-lhe ainda aos ouvidos o cantico fatal, que o condemnava, e lembrava a sua situação.
—Eu abandonei patria, e reneguei o culto, sem convicção nem consciencia!—dizia comsigo.—Aquelles fieis sempre á sua religião, e supportando por ella tormentos, mortes, exilios, fome e miseria! Ai, padre Eusebio de Monserrate! Não serieis o autor d'esses versos que me lanção sobre a fronte o estigma da trahição? Não me dissestes igualmente que desgraçado seria quem trocasse a Igreja pacifica de Deos pelo oceano tormentoso do mundo?
Faltava-lhe o ar para respirar, a luz para allumia-lo; a fé para lhe tranquillisar a alma agitada por commoções as mais desesperadas e violentas.{193}
Chamou-o o leito a repouso, mas o repouso lhe não appareceu no meio das tormentas do espirito, e o leito se lhe afigurou de espinhos, que lhe rasgavão o corpo, e lhe ferião dorida e profundamente as entranhas todas.
Molestia tenaz o assaltou, e levou-o quasi ás bordas do sepulcro. Resistio a natureza só, e dir-se-hia que ella o reservára ainda no mundo para provanças mais calamitosas.
Quando se ergueu do leito, e logrou sahir de casa, deliberou-se a procurar alguma igreja catholica afim de sentir o effeito que sobre o seu espirito produziria a solemnidade pomposa do culto, que desamparára imprudente, e a que o chamava de novo a agitação do animo.
Póde o homem nas primeiras idades da vida ser desdenhoso de crenças religiosas, philosopho sceptico, indifferente ao culto, mofador das cousas sagradas. Rodeião-no tantos encantos sensuaes, tantas ineffaveis delicias{194} e prazeres materiaes, que n'elles se deixa absorver, e por elles domar facilmente. Acena-lhe o mundo com scenas prestigiosas, falla-lhe a natureza com attractivos, doura-lhe o horizonte tantos quadros alegres, cantão-lhe tão agradavelmente as aves, enfeitição-no as flôres com tantos perfumes, sorri-lhe a sociedade com tanta meiguice, extasião-lhe a existencia tantos mysterios e sonhos! Quando porém dobra o cabo de mais da metade do prazo provavel que tem de passar na terra, e para adiante alarga a vista, vê estreitar-se o espaço, e fulgurar-lhe perto o espectaculo da morte, a sepultura cavada no chão, o somno derradeiro... ai!... infeliz!... Precisa de religião que lhe allivie o peito, de fé que lhe alimente esperanças, de crença firme na eternidade e na misericordia divina, que unica póde perdoar-lhe os crimes!
Era este já o estado de Moraes, e procurando a Igreja de seus pais, quem sabe—fallava-lhe{195} o seu pensamento—se depararia com algum lenitivo aos seus males pungentes!
Custou-lhe a achar uma quasi choupana, sem aspecto e nem perspectiva de templo, aonde se celebrava o culto romano por alguns poucos fieis que residião em Hollanda, e não adoptavão o calvinismo, ou lutheranismo, que predominavão na maioria do povo.
Tremulo, convulso e submisso peneirou os umbraes da porta. Achou-se dentro da igreja, em face de tres altares ornados com imagens, cobertos de flôres allegoricas, scintillantes de luzes. Appareceu-lhe ao lado a pia com a agua benta para se purificar dos peccados. Celebravão os sacerdotes missas solemnes, com canto, coros e musica de orgão. Exaltavão-se as grandezas e o poder de Deos eterno, e anjos com azas brancas, santos prostrados, e parecendo interceder pelos homens, as vestes sagradas dos padres e assessores, e a linguagem mystica latina, formavão{196} um espectaculo imponente da magestade do culto.
Como alegra o viandante cansado e atormentado por sol ardente e areiaes abrazadores a vista de um oasis no seio do deserto da Arabia? Como sorri o encontro de uma fonte crystallina a quem arqueja de sede devoradora? Assomou assim á mente de Moraes uma sensação balsamica, deliciosa, salvadora quasi, que lhe borrifou o pensamento com idéas mais prazenteiras, com um raio de luz que lhe resplendeu nos arcanos d'alma, e allumiou-lhe o espirito.
Prostrou-se contrito como penitente. Raiou-lhe a esperança com as vozes dos sacerdotes, a presença dos altares, a vista dos santos, o aspecto das flôres e ornamentos, o som harmonico do orgão. Elevou até o throno de Deos o grito do seu arrependimento, e implorou-lhe a immensidade da sua misericordia.
Duas horas ahi passou, de joelhos, firme e{197} mais socegado, parecendo-lhe que durante esse tempo lhe concedia a Providencia divina uma vida nova, e promettia um melhor porvir. Para sahir do recinto do templo foi preciso que os empregados lhe annunciassem que tinhão de fechar-lhe as portas.
Descobríra porém o balsamo alliviador dos soffrimentos do seu espirito. Que lhe dizia agora a alma que fizesse para completar a cura, e trazer-lhe o socego?{198}