Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII

J. M. Pereira da Silva · Capítulo 14 de 16

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Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII

Capitulo XII

 

 

Estava então o edificio da Inquisição no largo do Rocio, assoberbando a praça com os seus muros tristes de pedra, e suas portas robustas de ferro. Formava uma massa disforme, mas grandiosa, sem bellezas architecturaes, mas de aspecto imponente e fortificado.

Destacado no fundo do Rocio, rodeiado de soldados e guardas, que velavão noite e dia, contendo as salas do tribunal, os carceres, as cellas dos presos, os quartos dos tormentos{234} e torturas, e os aposentos das penitencias, afugentava o palacio de perto de si e dos seus arredores as massas tranquillas do povo, que o não avistava sem benzer-se devotamente e tirar-lhe o chapéo com respeitoso acatamento, temendo suspeitas e castigo.

Nem pedras restão hoje do barbaro edificio. Uma por uma forão pela população exasperada de Lisboa distrahidas do seu lugar, arrancadas á força, e dispersas em desordem, quando as côrtes constituintes de 1821 abolírão a instituição do Santo Officio, e extinguírão para sempre o tribunal execrando.

Por cima do palacio da Inquisição levanta-se actualmente o lindo theatro de Maria II, fazendo substituir o riso, os prazeres e os divertimentos alegres, ás scenas de dôres e de sangue commettidas outr'ora dentro d'aquelles muros enfumaçados, e que nodoárão as paginas da historia portugueza.

Foi Manuel de Moraes para alli conduzido.{235} Ao penetrar os umbraes da porta principal por entre fileiras de guardas armados, ao avistar a enorme estatua de pedra da Fé, que resplandecia no topo da grande escada, sentio coar-lhe pelo sangue um frio intenso, e anuviar-lhe o espirito cogitações tenebrosas.

Atravessou varios páteos escusos e sombrios. Desceu e subio diversas escadas allumiadas apenas pelo frouxo clarão de lampadas pregadas no tecto. Ouvio ranger gonzos pesados de portas, que se abrião e fechavão. Respirava-se dentro um odor infecto, que parecia exhalação de cadaveres. Dir-se-hia que as paredes gottejavão sangue humano, e gemidos de infelizes creaturas echoavão pelos longos corredores abobadados. Trajavão os empregados vestes iguaes, resplandecendo-lhes ao peito uma grande cruz pintada de côr amarella, e cobrindo-lhes as cabeças um capuz que lhes escondia as faces.{236}

Reinava uma lugubre tristeza, um horror extraordinario, que se entornava por todos os sitios e reconditos do edificio, e amedrontava os sentidos dos entes malfadados que alli penetravão.

Depois de muitas voltas, e palavras baixas trocadas entre os guardas e empregados, achou-se em um negro corredor, aonde se não adivinharia caminho se o não aclareasse opacamente uma lampada acesa, collocada no centro. Abrio-se a um dos lados uma porta de ferro, e foi Moraes introduzido em um quarto pequeno, baixo, despido de ar e sombrio, que se reputaria antes um sepulcro, cavado como que em rocha viva e humida. Trancou-se-lhe a porta, apenas elle entrou para esta prisão solitaria, que com difficuldade agazalharia duas pessoas juntas. Não havia um leito, e nem-um traste. A unica cousa que se apercebia era um pucaro de barro, que parecia cheio de agua, a um canto{237} da cella. O chão de tijollo servia de assento e uma porção de palhas espalhadas formavão a cama. Negra escuridão o rodeiava, vasando-lhe ás vezes por uma fresta aberta na parte superior da muralha um ou outro raio da lampada do corredor contiguo, que descobria o preso aos guardas, que alli vigiavão todas as acções e gestos dos presos, e lhes ouvião os ais e palavras, por maiores cautelas que as victimas empregassem em abafa-los.

Só e n'esta penosa posição, se entregou Moraes a um exame minucioso do sitio em que se achava. Percorreu com os olhos o chão, o tecto, as paredes. Deslumbrou aqui e alli dispersas manchas vermelhas que se dirião de sangue borrifado no meio do colorido enfumaçado e sujo, e hieroglyphicos sensiveis que se afiguravão traçados por mãos humanas. Subírão-lhe á mente assombrada pensamentos amargos e tristonhos. Seria sangue dos réos do Santo Officio que{238} salpicava aquellas paredes? Serião adeoses ao mundo que elles alli escrevêrão, e que já nem erão decifraveis? Appareceria algum nome, alguma data, algum signal, por onde se descobrisse o segredo que pretendessem legar aos posteriores?

Não logrou comprehender nem-um d'esses mysterios. Arripiou-se-lhe porém todo o corpo com o seu aspecto merencorio, e assomou-lhe ao espirito a historia tenebrosa do tribunal da Inquisição, que lançava o susto por toda a parte, e sobre todo o povo, e era tão geralmente execrado pelos seus crimes monstruosos.

Trouxe-lhe o cansaço o somno, porque a consciencia repousava tranquilla, desde que abandonára o calvinismo, e volvêra á religião dos seus maiores. O tempo que dormio não apreciou exactamente. As noites se confundirão com os dias, sem que um signal de maior ou menor luz ou claridade as deixasse{239} verificar, no seio das trevas constantes que inundavão monotonamente a cella solitaria.

Imaginava comsigo que raiava o dia quando, sem lhe abrir a porta da prisão, rolava pelas paredes arranjadas adrede um novo pucaro de agua, e uns pães seccos e duros, avisando-o uma voz cavernosa de fóra para os receber, tira-los do lugar, e substitui-los pelo pucaro da vespera, que se sumia logo com as mesmas mysteriosas cautelas, não ouvindo resposta alguma á pergunta que dirigisse.

Lembrou-se de contar as vezes em que se verificava esta operação, e pensou encontrar no seu numero a quantia dos dias de prisão. Mais de quarenta erão já decorridos, quando sentio rumor mais sensivel de passos e palavras baixas trocadas fóra da cella.

—A mim,—disse comsigo,—ou a outra victima vizinha procurão e buscão para os tormentos e torturas.{240}

Percebeu minutos depois abrir-se a sua porta. Ergueu-se, e vio apparecer um vulto coberto de manto longo e escuro. Tornou a porta a fechar-se, e achárão-se os dous cerrados um junto ao outro, quasi sem poderem fazer livremente um gesto, pela estreiteza do aposento.

—Sois Manuel de Moraes? perguntou-lhe uma voz mansa e socegada.

Pensou rapido o preso que tinha diante de si um dos juizes encarregados do seu interrogatorio e processo. O accento meigo e sereno com que lhe dirigíra a pergunta, significava de certo um dos estratagemas empregados pelos inquisidores, afim de illudir os presos, e leva-los, pelas palavras seductoras e fallazes a confessar-lhes confiada e loucamente os seus segredos, ou a revelar-lhes falsas narrações de imaginarios crimes.

Deliberado porém a dizer a verdade inteira,{241} fosse qual fosse o resultado, e a se não deixar enganar com promessas fascinadoras, respondeu ao vulto em tom resoluto.

—Não ha duvida que me chamo Manuel de Moraes.

—É vossa patria a povoação de São Paulo na capitania de São Vicente dos Brazis?—continuou o vulto a perguntar-lhe.

—É verdade,—repetio Moraes.

—Fostes noviço na companhia de Jesus? Abandonastes o Instituto e o habito?—continuou o vulto.

—Não posso, não devo, e nem quero nega-lo,—proseguio Moraes.

—E me não reconheceis?—disse-lhe o vulto, approximando-se do espaço atravessado pelo raio da lampada do corredor, e mostrando uma face macerada pelos annos e povoada de alvissima barba, uma cabeça despida inteiramente de cabellos, e a roupeta de Jesuita de que estava cingido.{242}

Encarou-o Moraes em vão. Não lhe recordárão os seus olhos o homem que tinhão diante de si. Traçou chamar em seu auxilio reminiscencias passadas. Nem-uma idéa o coadjuvou nos seus intentos.

—Não me é possivel,—respondeu-lhe amarguradamente; e depois de alguns momentos de silencio e de visivel anciedade, continuou:—Sem duvida querem os santos padres castigar-me pela minha fuga da sua casa, e vos envião para interrogar-me?

—Afastai do espirito,—replicou-lhe o Jesuita,—idéas tão erradas quanto insensatas. Nossa companhia aconselha, convence, e influe pela persuasão e consciencia. Não dobra vontades com a força physica. Não castiga rebeldes ou criminosos com penas corporaes, tormentos ou carceres. Deos todo poderoso é o unico juiz que reconhece para os delictos dos homens. Não estais preso por ordem do Instituto de santo Ignacio de{243} Loyola. Sois réo do tribunal do Santo Officio da Inquisição. Venho visitar-vos como amigo e antigo companheiro, conseguindo com custo as licenças necessarias para penetrar até esta prisão.

Profunda impressão produzírão sobre o desditoso Moraes essas palavras pausadas, e proferidas com uma uncção tão aprimorada, que lhe levárão certeza ao animo de robusta expressão de franqueza e verdade. Mas quem era esse homem que lhe fallava? Partia-lhe e agitava-lhe o espirito a idéa de não podê-lo descobrir e conhecer.

—Que quereis pois de mim?—disse-lhe meigamente.—Cheguei de Hollanda, trazendo cartas de recommendação do veneravel padre Antonio Vieira, que me protegeu e salvou do precipicio e da perdição eterna. Se sois Jesuita como proclamais, encontrareis na casa da companhia esses papeis e documentos, que lá deixei quando os famulos da Inquisição{244} me arrancárão da santa morada.

—Tomou o nosso provincial conta de tudo—proseguio o vulto com tristeza.—Entregou a cada um a carta que lhe era dirigida, afim de affeiçoar vontades e dedicações em pró de vossa pessoa e defesa. Infelizmente porém não vo-lo devo occultar, parecem-me inefficazes todos os esforços!

—Tenho de morrer!—proseguio Moraes.—Sinto-o tão cedo porque não expurguei ainda os meus grandes peccados e crimes. Desejára conservar-me no mundo o tempo só preciso para as penitencias e sacrificios. Mas Deos ouve o meu sincero arrependimento, e será de certo misericordioso para comigo!

—Ignorais que já vos condemnárão?—retorquio o vulto.

—Condemnado sem ser ouvido?—perguntou-lhe.

—Fostes denunciado ao tribunal do Santo Officio de Lisboa como herege e apostata,—continuou{245} o Jesuita.—Formou-se o processo, e lavrou-se a sentença. Apezar de ausente e refugiado em Hollanda, fostes relaxado comtudo em estatua no auto de fé de 6 de Abril de 1643, e inscripto o vosso nome no livro dos condemnados á morte.

—Nada me resta portanto no mundo?—exclamou Moraes.— Deixai-me então rogar a Deos tranquilamente nos poucos instantes que me sobrão de vida, para que me conceda a sua graça infinita!

—Ereis assim um réo já, e sujeito ao tribunal da Inquisição— proseguio o velho—quando ousastes vir a Lisboa, confiado na vossa nova abjuração, e na protecção do veneravel padre Antonio Vieira. Soube o Santo Officio que vos havieis recolhido á nossa casa, e reclamou-vos com a sua justiça.

—E o Instituto de santo Ignacio entregou-me, e abandonou-me?— murmurou Manuel com indicios visiveis de despeito.{246}

—Que póde contra a Inquisição a companhia de Jesus?—repetio-lhe o padre.—São tão diversas as funcções respectivas das duas oppostas instituições! Aquella cura da purificação da fé, e da orthodoxia romana, constituindo um poder temporal, formando um tribunal civil, com juizes, guardas, empregados, força publica, instrumentos de tortura, fogueiras, processos e execuções. Limita-se esta ao espiritual, e ás cousas sagradas, apenas incumbida de derramar as luzes e os dogmas pelo mundo. Quantos trabalhos lhe não tem custado salvar os Brazis da inquisição, que desejaria lá como em Portugal estender o seu dominio? Vivem a Inquisição e a companhia separadas por insuperaveis barreiras, em luta constante, porque uma deseja destruir e cortar a arvore molesta, emquanto pretendem os filhos de santo Ignacio que se cure apenas a parte imprestavel, e se aproveite e salve o tronco e os ramos{247} sãos, que podem dar ainda viço e fructos.

—Mande-me ao menos—interrompeu Moraes—um padre, um amigo fiel para me ouvir de confissão, e acompanhar-me nos derradeiros arquejos da existencia!

—E que vim eu aqui fazer?—perguntou-lhe o Jesuita em tom de queixa—para que penetraria por entre estes negros corredores, e chegaria até aqui, se não houvera recebido encargo particular do nosso provincial, e logrado licença do Santo Officio, para ver-vos, fallar-vos, e entreter-vos como membro da companhia de Jesus, que não desampara os seus discipulos?

—Obrigado! obrigado!—proferio Moraes, deixando-se cahir aos pés do padre, e esforçando-se em abraça-los com fervor.

—Levantai-vos, filho—continuou o vulto, tentando erguer o desgraçado e apertando-o nos braços—não é tempo ainda de confissão e preparativos do ultimo instante. Sou por{248} ora um amigo, que procura consolar-vos, e basta para que me presteis toda a vossa confiança recordar-vos de quem sou... lembrar-vos do passado...

Observou Manuel que sahírão estas palavras no meio de suffocados soluços, e inundava o rosto do amigo desconhecido um pranto amargo e copioso.

Por mais tratos porém que désse á memoria, não lhe foi possivel ainda assomar ao espirito pensamento algum que lhe recordasse aquella figura arruinada pelo tempo, aquella veneranda cabeça, aquella voz doce e attractiva, aquelles gestos bondadosos, que o convencião no entanto de que não o enganavão as expressões sinceras do seu respeitavel interlocutor.

Decorreu um silencio de alguns instantes, sem que nem-um d'elles ousasse interrompê-lo, até que o desconhecido, encostando-lhe a face, e imprimindo-lhe um beijo paternal na fronte, perguntou-lhe em voz clara e sonora:{249}

—Não me reconheces ainda? Continuava o animo de Moraes a embrulhar-se com o emmaranhado dos eventos da sua vida errante, sem que pudesse atinar com uma reminiscencia qualquer, que lhe rasgasse o véo que o assombrava de todo.

—Olha—proseguio o vulto, fallando vagarosamente, no intuito de avivar-lhe a memoria—olha em cima d'aquelle outeiro a casa da companhia de Jesus, com o seu risonho sobrado, a sua igreja contigua e a sua torre pittoresca. Adeja-lhe ao lado o arraial com suas casas de telha vermelha, e suas choupanas de palha amarellada, com suas ruas e beccos tortuosos, que trepão e descem outeiros um aos outros pendurados. Divisa do outro lado a cerca plantada de arvoredos fructiferos, de larangeiras, jaboticabeiras, e cajueiros, em cujos galhos canoros sabiás e pintados gaturamos saudão a aurora que nasce, o dia que desapparece, e o poder e a{250} grandeza de Deos, que se estende por toda a parte. Descobre abaixo da cerca, que povoa o outeiro até a sua base, esse riacho, que alli corre sereno e limpido, rumorejando sobre pedrinhas e humedecendo flôres sylvestres, que lhe brotão das margens alegres e festivas. Lança para mais longe os olhos, e lá pairão a planicie com suas mattas poderosas; o grande rio Tieté, que lhe rasga as entranhas; os morros da Penha, que em distancia arrebatão os sentidos, e terminão em soberbo amphitheatro. Sente essa atmosphera perfumada com as folhas movidas e balouçadas pelo brando zephyro, e que se não escapão jámais dos galhos das arvores carinhosas, e nem jorrão murchas pelo chão como succede na Europa durante a estação do outono. Nota esses gentios, côr de cobre, que enchem os templos em multidão, orão devotamente, respeitão e obedecem aos padres da companhia, e formão procissões religiosas. Não avistas a povoação{251} de São Paulo pelas lembranças, já que a não vêem mais os teus olhos? Não me reconheces ainda?

—Meu Deos, meu Senhor!—gritou Moraes.—Que feridas me rasga este padre, e não posso recordar-me d'elle!

—Alli em cima de um outeiro pousava tranquilla e retiradamente uma casinha branca, de telhas vermelhas,—continnou o vulto.— Morava n'ella José de Moraes com sua familia. Chamou-o Deos para perto de si antes que lhe perdoasse a imprudencia que commetteu, expellindo-te do seu alvergue.

—Morto é já meu pai!—desgraçado!—Basta, basta!— interrompeu-o Moraes.—Tende piedade de mim! dizei-me quem sois por compaixão!

—Não descobriste ainda?—repetio o padre.—Conto está obsecado o teu espirito com os successos portentosos da tua vida transviada!... Lembra-te, filho, do padre{252} que te disse: Desgraçado serás, porque a Igreja calholica é a razão divina, a unica salvação da creatura humana. Não encontrará descanso quem a trocar pelo oceano insondavel do mundo das miserias!

—Eusebio de Monserrate!—prorompeu em ancias afflictas Manuel de Moraes, e agarrando-se ao velho, foi desfallecendo, perdendo os sentidos, e cahindo sobre o chão frio do carcere.{253}