Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII

J. M. Pereira da Silva · Capítulo 13 de 16

Páginas do PDF

Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII

Capitulo XI

 

Notámos já que o padre Antonio Vieira, percebendo a sinceridade dos passos e desejos de Manuel de Moraes, se chegára para elle, posto o não interrompesse na sua adoração mystica. Logo porém que percebeu occasião opportuna, se apresentou-lhe á frente, lançou-lhe uma benção paterna com apparatosa solemnidade, e ajoelhou-se igualmente a seu lado, rezando com devoção, e implorando a misericordia divina em pró do acolhimento no gremio da sua Igreja da ovelha desgarrada{218} do rebanho, e que espontanea e convencidamente voltava para viver e morrer no seio d'elle.

Erguendo-se depois, disse a Moraes em tom resoluto:— Approxima-te do confessionario, ajoelha-te perante o sacerdote de Deos, e revela-lhe todo o teu coração!

Obedeceu-lhe Moraes. Sentou-se o Jesuita no confessionario, e a seus pés se prostrou o penitente. Longa foi a confissão com o summariar de aventuras, erros, peccados e crimes de acção e intenção que formárão a vida do renegado. Interrompião-na a miudo soluços magoados, abundantes demonstrações de dôr, e jorros de lagrimas que lhe saltavão dos olhos. Quando a terminou Moraes, levantou-se o Jesuita, cravou as suas vistas no altar, como quem lhe pedia conselhos ou auxilio, e balbuciou preces repetidas. Benzeu depois ao penitente, e designou-lhe a penitencia que lhe cabia para encetar a vida nova{219} que se lhe destinava. Deixou-o ainda no oratorio, e retirou-se para o seu aposento enternecido, e ao mesmo tempo contente e satisfeito com o que se passára, como de um feito importante que lhe devia augmentar os serviços e a gloria!

Mudou inteiramente Manuel de Moraes. Posto conservasse aspecto triste e meditabundo, recuperára o repouso d'alma e do espirito, e com elle o do corpo. Intima alegria lhe proclamava o acerto da sua nova abjuração, que tornou publica, segundo as ordens do padre Antonio Vieira. Cumprindo com os seus deveres religiosos, parecia-lhe que alliviava o animo de um peso insupportavel, que o acabrunhava outr'ora constantemente. Rompeu com o mundo que o rodeiava, cortou as relações e conhecimentos que possuíra, e o padre, a igreja e o estudo occupárão d'ahi por diante e exclusivamente todos os seus momentos. Estimava-o o Jesuita, prezava-o já,{220} e recommendou-lhe escrevesse uma historia da America portugueza, que elle conhecia perfeitamente, e com referencia em particular ás invasões e occupações dos Hollandezes, cuja lingua praticava, e cujos livros lia com facilidade. Quando lhe considerou completa a abjuração, annunciou-lhe a necessidade de partir para Lisboa, afim de ahi reentrando para a companhia de Jesus, e logrando o seu perdão do soberano, e permissão do provincial, passar-se para o Brazil, e dedicar-se com fervor á catechisação dos gentios.

—Cumpre rehabilitar-te,—disse-lhe,—n'aquella sociedade e n'aquelle governo. Encontras nas capitanias do Brazil trabalhos escabrosos, fadigas superiores, perigos incessantes, e talvez a morte cruel amarrado a algum cepo, ou ao sibillar de uma frexa de gentio selvagem. Mas liquidarás as contas dos teus peccados com os sacrificios e feitos honrosos que commetteres. O Deos misericordioso{221} te acolherá nos seus braços divinos. Não hão de ser só os Brazis que te hão de pôr á prova de calamidades e amarguras, de resignação e paciencia. Maiores incommodos te causaráõ os brancos europêos, e a sua raça americana, que anhelão unicamente accumular riquezas, captivando, roubando e destruindo os infelizes gentios, sem freio moral e religioso. Acima d'elles estão ainda o governador e as autoridades da colonia, insaciaveis, perseguidores, tyrannicos, despoticos, para quem não ha lei humana ou divina, e com quem terás de arrostar, no serviço da companhia de Jesus, e na pratica das virtudes christãs e dos dogmas e disciplina da Igreja. Precisas encher com feitos heroicos e meritorios do corpo e do espirito as paginas negras que lavraste no livro da tua existencia atormentada e virtiginosa. Não bastão a fé e a convicção conscienciosa para com Deos e os homens, volvendo dos erros e{222} crimes para o caminho da verdade. Tornão-se indispensaveis muitos exemplos de virtudes e serios sacrificios para te restaurarem no conceito geral, e perante o Eterno. Eu tambem atravessei desertos e mattas virgens, subi montanhas, transpuz rios caudalosos, avassallei distancias abandonadas, só, inerme, confiado na cruz de Christo que trazia ao peito, vigorado pela fé, e fortificado pelos desejos de commetter serviços em pró da religião. Avistei-me com tribus nomades de gentio desconhecido. Senti armar-se o arco, desprender-se a frexa, roncar a tacape por cima da minha cabeça, roçando-me os cabellos com sibillos horriveis e aterradores. Achei-me amarrado ao tronco da arvore, despido das vestes e exposto á morte mais tormentosa. Vi-lhes as velhas nojentas, chegando-se para mim com as suas cabaças, sequiosas do meu sangue, bezuntando-me o corpo com tintas vermelhas e pretas, dansando horrivelmente{223} em torno como megeras, retorcendo-se como serpentes damnadas, e gritando como espiritos do inferno. Escapei aos perigos por milagre de Deos, e catechisei numerosa cópia de Brazis desgraçados, que á minha palavra se ameigavão, á minha voz abandonárão a sua vida errante e seus costumes selvagens, e aos meus conselhos e exhortações recebião o baptismo, e abraçavão a religião catholica e a vida social, sahindo da miseria e da perdição. Formei muitas aldeias de indigenas catechisados, que se tornárão tão bons ou melhores catholicos e vassallos que os proprios conquistadores do seu paiz e das suas terras. Nada d'isso me curtio de dissabores, e nem me pareceu pesado sacrificio. Mas os Portuguezes aventureiros, e principalmente os governadores, capitães-generaes, capitães-móres, autoridades, e empregados publicos da metropole, forão,— sim,—a pedra de toque de minha humildade{224} e paciencia. Eis a vida do Jesuita missionario. Homem, não pertence á humanidade senão pelo lado espiritual, e á sociedade senão pela vida dos sacrificios. Padre, não vive no descanso do claustro e no repouso da communhão. É propriedade dos desertos, das missões longinquas, dos perigos, das almas perdidas dos gentios, da morte ingloria no meio das brenhas. Não são d'este mundo os seus bens e gozos. Lembra-te de José de Anchietta ou de Manuel da Nobrega. Caminha em vida para o céo através de cachopos levantados a cada instante diante de teus passos, e a teu lado, afim de te provarem a devoção, e te apurarem o sentimento humano. Avança sem dobrar o collo, sem perder a resignação evangelica, sem renegar a piedade, sem esquecer a caridade christã, sem conhecer o desanimo, e nem olhar para trás de ti. Envolve-te em manto novo, e regressando para a companhia de Jesus, ennobrece-te{225} e exalta-te no serviço da Igreja e na propagação da fé catholica com feitos meritorios e gloriosos. Será a penitencia reservada ao teu arrependimento, e o balsamo que mitigará os teus remorsos.

Aprazia a Moraes esta linguagem do padre venerando e insigne. Coincidia com os seus desejos. Nada o apegava mais á terra hollandeza. Havião findado os seus amores e os seus deveres sociaes, com o passamento d'aquella creatura humana que o encantára e enfeitiçára com tamanha força. Não o prendia o tumulo, que lhe cobrira os restos mortaes, posto ahi corresse de quando em quando a lançar-lhe flôres doridas de saudade, porque o coração lhe dizia que fôra a hallucinação apaixonada, que se havia apoderado de todos os seus sentidos, a causa da primeira e fatal abjuração religiosa, que lhe pesava constantemente sobre a alma.

Occorrêra além d'isso que Brodechevius,{226} a quem consagrava affecto filial pelas suas qualidades virtuosas, e pelo acolhimento com que sempre o favorecera, não lográra resistir á morte de Beatriz, e conservar-se no mundo. Arrebatára-o a morte mezes logo depois do infausto acontecimento. Que lhe restava em Hollanda, a que mais se chegasse?

Soárão-lhe os conselhos e exhortações do padre Antonio Vieira como uma esperança mais para se conciliar com Deos e com a Igreja. Abrindo-lhe a companhia de novo os braços, regressando para o seu gremio, dedicando-se ao seu serviço, volvendo para a sua patria, não conseguiria rever os pais e a familia querida, receber o seu perdão igualmente, e gastar os ultimos dias de vida de um modo util, proveitoso e santo?

Não o aterrorisavão os trabalhos e sacrificios que se lhe reservavão. Não temia os perigos da tarefa de missionario, porque elles o exaltarião no amor de Deos, e o{227} fortalecerião na fé do culto catholico. Não poderia commetter feitos que lhe remissem os peccados, e afeiçoassem a misericordia divina?

Preparou-se para partir, abandonando Hollanda para sempre. Não podendo seguir por terra e embarcar-se em qualquer porto de França, por causa do dominio castelhano na Belgica, tomou passagem em um navio hollandez que seguia de Rotterdam. Recebeu cartas de recommendação do padre Antonio Vieira para o provincial dos Jesuitas em Portugal, para alguns funccionarios importantes e fidalgos distinctos em Lisboa, e particularmente para Dom Francisco Manuel de Mello. Despedio-se do Jesuita seu protector, que tinha de partir para Munster, no serviço do seu soberano.

Não quiz esquivar-se á obrigação de dizer o ultimo adeos áquella que lhe dominára em vida o coração e o espirito, e o hallucinára{228} a ponto de perder a sua razão e comprometter a sua alma. Seguio para Amsterdam, que lhe recordava acontecimentos que lhe parecêrão felizes a principio, e se lhe tornárão depois tão dolorosos e infaustos. Dirigio-se para o cemiterio, aonde parava a sepultura querida. Ornava-a uma columna de marmore, cercada por uma grande cadeia de ferro. Em grandes lettras douradas se esculpira o nome de Beatriz de Moraes, com a data do seu nascimento e da sua morte. Pallidas roseiras lhe vicejavão em torno, e um cypreste sombrio lhe deitava por cima os galhos dispersos e desordenados. Rodeiavão a grade pequenos arbustos, brotando flôres merencorias nas estações competentes.

Impressionárão-lhe profundamente o aspecto do tumulo, o silencio que reinava, e as reminiscencias que lhe assaltárão o animo. Approximou-se com respeito, e rebentárão-lhe dos olhos prantos amargurados. Ajoelhou-se,{229} dirigio suas preces a Deos, e atirando-lhe em cima ramos de flôres saudosas, exclamou enternecido:

—Mulher adorada! uma fatalidade inesperada nos reunio, uma louca paixão nos enlaçou, um crime nasceu do nosso amor! Fomos mutua causa das nossas desditas e calamidades. Assim nos perdôe Deos no mundo da eternidade, para o qual já te passaste, e aonde não tardarei a seguir-te! Só Deos é grande!

Lançou-lhe um derradeiro olhar. Tinha cumprido com os seus deveres. Affrontára a provança cruel, e a dominára com força.

Embarcou-se em Rotterdam para Lisboa.

Atirárão os mares por vezes o miseravel baixel sobre as costas de França e de Inglaterra, ao atravessar o canal perigoso que as separa, e aonde os ventos se encrespão com tanta furia, e se desencadeião com espantosa e repetida violencia.{230}

Dobrado o cabo de Finisterra, não o poupou o golpho da Gasconha, celebrisado pelas suas constantes tormentas. Ondas precipitadas, correntes de agua, e furacões desordenados, parecião pretender devorar o galeão e os seus hospedes imprudentes.

Vencêrão os nautas todos os perigos. Ao entrarem porém no Oceano, dir-se-hia ainda que as costas de Portugal os repellião, enviando-lhes ventos impetuosos de leste, que os arrastavão para o largo. Mais de quarenta dias despendêrão até que lograssem avistar as montanhas de Cintra. Aproárão á barra do Tejo, com os mastros do galeão partidos, velas rasgadas, cortado em pedaços, e falta quasi completa de alimentos e aguada. Dobrárão felizmente o cabo, e penetrárão dentro das aguas mansas do rio, e no meio das fortalezas que o guarnecem e vigião.

Saltou Manuel de Moraes, e soffreu, como era habitual do tempo, infindos e minuciosos{231} interrogatorios, e visitas rigorosas. Dirigio-se para a casa da companhia de Jesus, e se apresentou ao provincial, que, ao tomar conhecimento das recommendações do padre Antonio Vieira, o acolheu com benevolencia e carinho, ainda que com sorpresa e susto.

Não terião decorrido duas horas depois que se abrigára ao Instituto de santo Ignacio, quando soldados armados, e fâmulos cobertos com as insignias do Santo Officio da Inquisição, se apresentárão á porta da casa santa, exigindo fallar ao provincial, e derramando espanto no claustro e em todo o povo da vizinhança.

Levados á presença do veneravel sacerdote, intimárão-lhe uma ordem do tribunal, reclamando a entrega de Manuel de Moraes, chegado de Hollanda, e asylado na companhia, réo dos crimes de abjuração e apostasia, e sujeito á jurisdicção do Santo Officio.

Conferenciou o provincial com varios padres{232} respeitaveis e illustrados sobre o que lhe convinha praticar em honra do Instituto e em defesa dos seus direitos. Concordárão todos unanimemente, que offendia os fóros e privilegios da companhia a ordem inaudita do tribunal da Inquisição, mas lhe não podia o provincial oppôr resistencia, cumprindo-lhe apenas entregar o preso, e dirigir os seus protestos ao governo e ao soberano, afim de reinvindica-lo como membro do Instituto, e julga-lo segundo os seus regulamentos, quando se lhe imputassem crimes dignos de punição e castigo.

Executou-se a ordem do Santo Officio. Sahio Manuel de Moraes da casa da companhia de Jesus, e se passou para o poder da Inquisição. Corria então o anno de 1645.{233}