Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII
Capitulo XIII
Apenas deixou o padre Eusebio de Monserrate os paços da Inquisição, encaminhou-se para a casa da companhia, e procurou o provincial.
Expôz-lhe com lealdade o que tinha succedido com Manuel de Moraes. Era sua opinião que a sua conversão ao catholicismo se baseava em sinceridade e espontaneidade d'alma, e fôra o seu arrependimento verdadeiro e consciencioso: poder-se-hia tornar um excellente discipulo de santo Ignacio, e prestar{254} relevantes serviços á religião e ao Estado.
Em relação no entanto ás suas pesquizas ácerca dos intentos do tribunal do Santo Officio, perseverava em desconfiança de que confirmaria a primeira sentença proferida em ausencia do réo, e não seria poupado o infeliz no primeiro auto de fé que a Inquisição designasse.
Lembrou ao provincial a necessidade de empregar todos os esforços e empenhos afim de salvar o noviço, avocando-o a companhia como sujeito á sua jurisdicção, e transfuga do claustro, para arranca-lo ao tribunal do Santo Officio. Para se conseguir esse fim, ninguem era de mais: Jesuitas, funccionarios publicos, ministros, nobres, bispos e officiaes da Igreja. Cumpria a todos promover os meios possiveis para attrahir a cooperação e a autoridade d'el-rei e da rainha.
Concordárão em procurar todos os seus{255} amigos, e aquelles individuos para quem trouxera Moraes cartas de Antonio Vieira, e pedir-lhes os seus auxilios efficazes. Escreveu o provincial ao padre Vieira, summariando-lhe os successos, e mostrando-lhe a urgencia de implorar do proprio soberano o perdão do noviço por uma missiva sua directa, empenhando todo o seu valimento.
Uma quantia numerosa de personagens importantes se achou dentro de poucos dias em movimento, e trabalhando em pró de Manuel de Moraes. O confessor d'el-rei e da rainha, Duarte Nunes de Leão, desembargador da casa da Supplicação, João Pinto Ribeiro, secretario privado do monarcha, e varios individuos mais de influencia. Não pôde infelizmente Dom Francisco Manuel de Mello concorrer, porque um fatal acontecimento o roubara á liberdade, e o arrastára aos carceres. Ninguem valêra mais que elle á sua chegada a Lisboa. Considerado pelos{256} seus escriptos primorosos, pelos seus feitos guerreiros no Brazil, Flandres e Catalunha, e pelos seus sentimentos patrioticos de nacionalidade e independencia portugueza, sacrificando honras e riquezas em Hespanha, e expondo-se a perseguições do governo de Castella, de cujas prisões lográra evadir-se, comprando os guardas que o vigiavão, e recolhendo-se a Portugal, travára por um acaso infeliz uma rixa em Belem com o aldeão Francisco Cardoso, e o matára exasperado. Estava por esse motivo processado e preso, cumprindo-lhe cuidar mais da sua salvação que do beneficio alheio.
Virão-se el-rei e a rainha circumdados de pedidos e empenhos para salvarem a Manuel de Moraes. Hesitava porém Dom João IVº em intrometter a sua autoridade, ainda não solidamente estabelecida em Portugal, em questões inherentes ao tribunal do Santo Officio.{257}
Saltára a sua corôa do meio de uma revolução. Sahíra o seu throno de um movimento popular, que fôra unisono no povo, e em maioria apenas na nobreza e clero. Era compellido a todos os instantes a abafar reacções e levantamentos dos que lhe não adherião ao governo, e perseveravão em obediencia a Castella. Via-se obrigado a castigar e punir com severidade fidalgos e bispos, que se lhe oppunhão, e tramavão contra a sua autoridade. Por demais forte se mostrava ainda Hespanha em referencia a Portugal, achando-se felizmente occupada em varios pontos dos seus dominios igualmente insurgidos, e laborando em guerra contra os seus exercitos numerosos, que divididos assim e dispersos, não alcançavão victorias assignaladas.
Cumpria portanto a Dom João IVº praticar na sua administração interior uma tal moderação, que não augmentasse a somma de difficuldades e perigos que lhe surgião{258} por toda a parte. Que valia a salvação de um noviço dos Jesuitas diante dos despeitos e lutas do Santo Officio, que exercia influencia nos animos populares, e ajudava até o seu governo nacional?
Sabia que os proprios fidalgos e principaes ecclesiasticos se honravão de pertencer á Inquisição, e de lhe servir de famulos. E não estremecia o povo todo diante dos seus actos e jurisdicção, reputando-a mais divina que humana?
Mais politico que sentimental se esquivava el-rei aos rogos dos seus mais dedicados amigos e conselheiros dilectos. Recusava-se as vozes da propria rainha Dona Luiza de Gusmão, que tomava o partido dos Jesuitas, apezar de quanta affeição e confiança tributava el-rei á sua extremosa consorte.
Sem a intervenção directa do soberano comprehendia Eusebio de Monserrate que perdidos serião todos os esforços empregados.{259} Esvoaçava por cima da sociedade portugueza da época o poder aterrorisador do Santo Officio. Ninguem o ousaria affrontar impunemente a não ser el-rei em pessoa, graças ao seu prestigio pessoal, e á necessidade que reconhecião os Portuguezes de sustentar-lhe a autoridade para poderem resistir ás forças de Castella, e restaurar a sua autonomia e independencia.
Espalhavão-se por toda a parte espias da Inquisição, adivinhando acções, gestos, palavras, pensamentos, para os denunciarem ao tribunal execrando. Dir-se-hia que as paredes tinhão ouvidos, olhos os trastes das casas, e lia a propria atmosphera no fundo d'alma os mais reconditos segredos, porque chegavão todos ao conhecimento do Santo Officio, que não tardava em expedir mandados de prisão, ordenar castigos, applicar torturas, formar processos, lavrar sentenças rigorosas, preparar forcas e fogueiras, espantando a{260} multidão supersticiosa com os espectaculos horriveis dos autos de fé, acreditados como sacramentos da Igreja.
Não escapavão á sua jurisdicção condições, nem classes da sociedade. Era o unico tribunal judiciario diante do qual desapparecião fóros e privilegios, e que curvava á sua autoridade velhos, moços, crianças, mulheres, aldeões, populares, obreiros, commerciantes, padres, frades, fidalgos, grandes officiaes da Igreja, titulares e validos do soberano.
Não desanimou todavia o padre Monserrate, e quantas mais difficuldades surgião adiante dos seus passos, quanto mais seus projectos se nullificavão, mais tratos dava ao espirito para lembrar-lhe novos meios a empregar, no intuito de conseguir o triumpho. Ardia-lhe no peito o amor-proprio de Jesuita, que não queria consentir na affronta de arrancar a Inquisição ao Instituto um seu noviço e membro, para o julgar e condemnar livremente.{261} Movia-lhe igualmente os affectos a sympathia que lhe ganhára Moraes desde os seus mais verdes annos. Accrescia a essas duas razões poderosas outra ainda de grande importancia para o padre. Não fôra sincero o arrependimento de Moraes? Não estava prompto a commetter todas as penitencias e sacificios que lhe exigissem? Não podia prestar serviços relevantes á religião, á companhia, ao Estado e aos gentios do Brazil? Não o perdoára Deos quando espontaneamente lhe infiltrára no animo a idéa de abandonar riquezas e posições honrosas em Hollanda, trajar de novo o habito da companhia, dedicar-se á vida trabalhosa e miseravel do missionario, volver á sua antiga fé e crenças religiosas, como a ovelha desgarrada que regressa para o rebanho, ou o filho perdido que reganha a casa paterna? Quando Deos se mostrára tão misericordioso, haveria justiça nos homens em condemna-lo?{262}
Proseguíra no entanto o tribunal no julgamento de Moraes. Revendo o antigo processo instaurado na sua ausencia, e annexando-o a novo summario, passou aos interrogatorios necessarios do réo, que por mais de seis dias seguidos fôra tirado do seu aposento e conduzido á sala dos juizes. Perguntas insinuantes a principio, argucias preparadas adrede e geitosamente, lhe forão dirigidas para o apanharem em contradicções, e confissões do que lhes convinha. Mas o preso se conservou inalteravel, sereno, sincero, igual e verdadeiro. Expôz com franqueza toda a sua vida, todos os seus erros e hallucinações, todos os seus peccados e crimes, e os seus remorsos e arrependimento espontaneo, que a propria alma gerára, robustecêra, e lográra verificar particular e publicamente.
Persuadidos os juizes de que conseguirião maiores esclarecimentos, ou factos que mais correspondessem aos seus intentos, com a{263} applicação dos tormentos usados contra as suas victimas, passárão das declarações voluntarias ás arrancadas por meio das dôres resultantes dos instrumentos de tortura.
Começárão pelos anginhos, doce e mimoso nome dado por irrisão a ferros que se collocavão aos dedos dos pés e das mãos, e os apertavão tão cruelmente que causavão soffrimentos horrorosos. Exigírão-lhe confessasse que volvêra apparente e maliciosamente á religião catholica, no intuito de se passar para o Brazil, e servir aos interesses dos Hollandezes, com os quaes se unira, para coadjuva-los nas suas invasões e conquista da America. Resistio Moraes com estoica resignação á barbaridade dos castigos, arrasando-se-lhe os olhos de lagrimas, e escapando-lhe dos labios o nome santo do Christo, que pela salvação dos homens padecêra martyrios superiores.
Não alcançando os juizes o seu fim, adiárão{264} para mais tarde a applicação de novos instrumentos, insinuando a Moraes que lhe era preferivel revelar a verdade espontaneamente a confessa-la á custa de soffrimentos agudos.
Não se apressava a Inquisição nos processos e julgamentos. Annos inteiros se demoravão em seus carceres presos innocentes ou culpados, accusados sem fundamento, suspeitos apenas, e ás vezes mesmo despidos do menor indicio de crime, sem que cuidasse o tribunal em adiantar-lhes as sentenças!
Não se contentando com factos materiaes, e procurando adivinhar intenções e pensamentos, carecia de ganhar tempo, rodeiando as suas victimas com uma espionagem vigilante, que visse e ouvisse o que ellas praticavão ou dizião. Aquelle por recusar-se a comer carne de porco em certos dias; este por soltar uma expressão de raiva ou despeito; um por commetter qualquer gesto que se interpretasse{265} malignamente; outro por não se benzer, ou rezar em horas determinadas: tudo lhe servia de inducção e prova para descobrir crimes, que imaginava o Santo Officio.
Seguírão-se aos interrogatorios e primeiras torturas os depoimentos de testemunhas, que declarárão ser voz geral e constante que Moraes se convertêra ao calvinismo, praticára nos templos protestantes todos os officios religiosos que lhes erão proprios, e se casára com uma mulher schismatica.
Anciosos de confissões mais amplas do réo, applicárão-lhe novos tormentos para o obrigarem pela violencia ás revelações necessarias. Suspendêrão-lhe o pescoço a uma argola pregada no muro, chamada gonilha, que levantando o corpo por uma fórma perpendicular, produzia-lhe uma posição dorida, difficil e quasi suffocadora, peior em soffrimentos que os mais barbaros castigos imaginados pelos tyrannos da idade média. Escalárão-lhe depois{266} as costas e os peitos com azorragues de arame, que o ensanguentárão todo.
Mas a victima se afigurava superior aos tormentos, e resignada á sua sorte. Repetia constantemente as mesmas declarações, e não offerecia elementos novos de duvida ou suspeita aos juizes cruentos.
Recebeu-o a final o leito de Procusto, larga taboa crivada de pregos agudos, á qual se lhe apertou o corpo estendido e deitado por cima. Desfalleceu ahi totalmente Manuel de Moraes, e perdeu os sentidos na cópia de sangue que lhe rebentava por todos os póros.
Foi carregado para a sua enxovia, e ahi deixado a repousar em uma esteira de palha mais macia, é tratado com mais cuidado para se lhe não esvair a vida antes da execução da sentença, e não escapar assim ao castigo publico e exemplar que lhe destinava o Santo Officio.
Lavrou-se a sua sentença. Confirmava em{267} todas as suas partes a do anno de 1643. Condemnava-o a sahir no primeiro auto de fé, coberto com as insignias do fogo, e a ser garroteado na praça publica por apostata, profitente e obstinado.
Chegou aos ouvidos dos Jesuitas a noticia da decisão. Intensa desesperação e despeito violento se apoderárão dos padres. Nem-um deixou de procurar os seus amigos, e de empregar os meios que lhe parecêrão proprios a nullificar a sentença do tribunal do Santo Officio. Applicárão-se os ultimos esforços para lograr d'el-rei uma ordem terminante em pró do infeliz noviço. Cartas do padre Antonio Vieira, conselhos e insinuações do confessor de Suas Magestades, avisos dos seus secretarios de estado, e do seu escrivão da puridade, rogos e empenhos dos fidalgos que o soberano mais prezava, nada alcançava todavia d'el-rei que sahisse da reserva que se havia imposto.
Assumio ao espirito de Eusebio de Monserrate{268} uma idéa aventurada. Conhecendo uma irmã de Moraes, por nome Dona Clara da Incarnação, viuva de um Portuguez que de São Paulo mudára a sua residencia para Lisboa, e carregada de numerosa familia, preparou-a para se lançar aos pés do soberano e da rainha, e implorar-lhe ella propria com todos os seus filhos o perdão do noviço. Concertou com o confessor d'el-rei em facilitar-lhe a entrevista no momento em que Dom João IVº e Dona Luiza de Gusmão seguissem para o oratorio a receber a communhão sagrada.
Combinado o projecto, cuidou-se em realisa-lo. Encaminhou-se para os paços reaes Dona Clara com seus filhos menores. Introduzidos por uma porta particular, achárão-se na passagem dos soberanos no momento designado.
—Piedade! piedade!—gritou toda a familia, arrastando-se aos pés de Dom João IVº,{269} e de sua augusta consorte, agarrando-os com força, e molhando-os com pranto acerbo e copioso.
Enternecêrão-se todos os circumstantes. Pareceu el-rei impressionado profundamente, e não pôde proferir palavra. A rainha, banhada em lagrimas, consolava a dama amargurada, que lhe entregou um memorial escripto, supplicando a graça de Manuel de Moraes. Representou-se a scena mais tocante e dorida. O confessor d'el-rei lhe lembrou que Deos era infinito em sua misericordia, e que os soberanos da terra não tinhão prerogativa mais bem aceita do céo e mais humana que o perdão, que os igualava quasi á Divindade. Prometteu Dona Luiza aos infelizes ouvir-lhes as vozes, e pedio-lhes se retirassem tranquillisados.
Não pôde então o monarcha recusar-se ás supplicas da sua consorte, e deixa-la faltar á sua palavra. Ordenou ao seu escrivão da puridade{270} expedisse ao tribunal do Santo Officio uma ordem terminante, em que, declarando haver el-rei perdoado Manuel de Moraes, lhe determinasse a entrega do preso á companhia de Jesus, como membro que era do Instituto, afim de que esta com penas menores o castigasse conforme julgasse conveniente.
Lavrado e assignado, foi o aviso entregue immediatamente ao Inquisidor geral, afim de executa-lo com o seu zelo reconhecido em pró da religião e do soberano.
Tremia no entanto o padre Eusebio de Monserrate. Obedecer-lhe-hião os juizes do Santo Officio? Não se consideravão superiores a todas as autoridades temporaes, baseando a sua alçada nos breves e determinações do Summo Pontifice de Roma? Não responderião a el-rei memorando-lhe a necessidade de expurgar a fé catholica, e de salvar o dogma; e se resolveria o monarcha a sustentar e fazer cumprir a sua{271} primeira deliberação, que mais ao sentimento intimo que á propria convicção lhe havia sido arrancada?{272}