Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII

J. M. Pereira da Silva · Capítulo 12 de 16

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Manuel de Moraes: Chronica do Seculo XVII

Capitulo X

 

 

Ao amanhecer do dia immediato deixou Amsterdam, e partio para Haya. Chegado á capital dos Estados de Hollanda, indagou aonde residia o emissario e agente diplomatico portuguez, acreditado perante o governo do stathouder, e que era então o padre Antonio Vieira, Jesuita celebrisado, prégador excelso, e amigo particular de D. João IVº, rei de Portugal, incumbido de negociar pazes com os Estados Geraes, afim de poder sustentar{199} a guerra da independencia, em que laborava contra Hespanha.

Dirigio-se para a sua habitação, e pedio ser levado á presença da illustre personagem. Introduzido em uma sala simplesmente arranjada, brilhando mais pela modestia e decencia que pelos ornamentos de luxo tão proprios dos agentes diplomaticos, que nas apparencias assentão a sua dignidade e cuidão realçar o seu credito e caracter, descobrio a um canto sentado em uma poltrona um homem, revestido com a roupeta negra e comprida da companhia de santo Ignacio, tendo um pequeno barrete preto coroando-lhe a cabeça, e occupado em escrever sobre uma mesa singela e repleta de papeis, a que se encostava absorto, parecendo não prestar attenção ao que em torno d'elle se passava.

Contemplou-o Moraes cuidadosamente. Era a sua estatura mais que mediana. Fronte larga, espaçosa, manifestando protuberancias{200} salientes. Olhos vivos e scintillantes. Rosto e queixo povoados de barba espessa, que começava a embranquecer. Aspecto respeitoso e severo.

Aquella roupeta, aquelle barrete, que elle nunca mais víra desde que deixára o Rio da Prata, lhe avivárão reminiscencias de São Paulo, e anuviárão o pensamento com extraordinarios impetos. Fulgurou-lhe á mente a idéa que estava ainda na companhia de santo Ignacio, e perante esses varões respeitaveis, virtuosos e santos, cuja veneração guardava no intimo do peito.

Não ousava approximar-se ao Jesuita, e nem perturba-lo nas suas occupações. Esperou que o padre por si mesmo lhe percebesse a presença, e lhe dirigisse a palavra, o que não tardou em realisar-se, Virando-se por acaso Antonio Vieira, vio de pé, em attitude submissa e quieta, aquelle vulto, e perguntou-lhe{201} o que queria, sem fazer um gesto e nem mover-se do assento.

—Sou Portuguez, e preciso fallar á Vossa Reverendissima,— respondeu-lhe humildemente.

—Como vos chamais?—continuou o padre pela mesma maneira com que lhe fizera a primeira pergunta.

—Manuel de Moraes é o meu nome,—disse-lhe acanhadamente o desgraçado.

Levantou-se subito Antonio Vieira da sua poltrona, avançou alguns passos para o sitio em que estava Moraes, encarou-o com cuidado e perspicacia, e dirigio-lhe as seguintes palavras:

—Conheço-o bem. Tome banco, e communique-me o que deseja.

—Nasci em São Paulo,—proseguio de pé Moraes, não ousando obedecer ao padre, que lhe ordenára de sentar-se.

—Sei, sei,—interrompeu-o o Jesuita.—Não{202} precisa desdobrar paginas que o devem amargurar. Sei toda a sua vida.

—Pois se o reverendo padre a sabe,—continuou Manuel de Moraes,—inutil é que eu o incommode e roube o tempo.

E um signal de despeito se espalhou por toda a sua physionomia, o qual Antonio Vieira penetrou immediatamente, e traçou de desfazer com certo affecto, e sorriso meigo, que lhe morreu nos labios, apenas elles o denunciárão.

—Não tem razão,—disse-lhe o Jesuita.—Abanque-se, e conversemos. Eu pertenço ao Instituto de santo Ignacio de Loyola. Parece que da sua memoria se não varreu ainda o procedimento dos servos de Deos, que o educárão em São Paulo. Nutre contra elles algum motivo de queixa?

—Oh não!—exclamou Moraes.—Deixárão-me gravadas eternamente no espirito e no coração as mais saudosas lembranças. Mas eu{203} reverendo padre, illudi-me, pensando que não nascêra para os santos misteres da companhia. Um espirito inimigo me arrancou do seu socegado e glorioso asylo. Aquellas virtudes primorosas, mas asceticas, aquella vida exemplar de sacrificios constantes e de devotação solitaria em pró dos homens, parecêrão-me superiores ás minhas aspirações e forças. Faltou-me a vocação, a fé, a persistencia do animo. Preferia servir a meus pais no lar domestico, coadjuvar minha familia nos meneios da vida, e pertencer ao mundo. Repellio-me meu pai... Entreguei-me ás aventuras. Atravessei desertos. Cahi prisioneiro...

—Isso nada é—cortou-lhe o Jesuita o discurso, carregando o sobrolho; apertando os labios, e reganhando o aspecto da severidade.—Ahi não ha crime ainda... ha desgraças apenas.

—Perdôe-me o reverendo padre,—gritou{204} soluçando Moraes, e atirando-se ao chão.—Tem razão. Tem toda a razão. Mas Deos não perdôa quando ha arrependimento sincero e firme? Arrependo-me, arrependo-me. Passou-se a época das loucuras. Estou preparado para todos os sacrificios que possão remir os meus crimes. Ancio por confessar-me, fazer quantas penitencias me recommendarem, soffrer as penas que me impuzerem, comtanto que volte á minha santa religião, unica que reconheço por verdadeira, e possa regressar para a minha patria, para o seio dos meus parentes, e para a santa companhia, acabando os meus dias no serviço de Deos, e esperando o seu perdão na eternidade!

Fixou n'elle o padre olhares vibrantes e perscrutadores. Quiz ler-lhe na consciencia, descer-lhe ao fundo d'alma, e descobrir a verdade da retractação e sua espontaneidade. Não se tratava de um gentio selvagem,{205} puro e innocente, nomade e ignorante, despido de idéas sociaes e religiosas, que Antonio Vieira encontrára em multidão errante no seio das florestas brazileiras, e que elle sabia tão perfeita e carinhosamente affeiçoar á grei catholica, chama-lo á religião santa de Christo, e fazer-lhe abraçar de um trago o baptismo com a fé, não guardando no coração pensamento adverso ou malicioso. Fôra Antonio Vieira um missionario magistral, e se habituára a considerar o indigena das solidões da Bahia, do Maranhão e do Pará como uma criança, que aceita sincera e convencidamente os conselhos do religioso provecto, e se lhe dedica com todo o fervor ingenuo da alma e do espirito. Outra era porém a situação de um Portuguez, que esquecêra o seu culto, postergára os seus deveres religiosos, e apostatára da sua fé, trocando-a pelas doutrinas dissidentes e schismaticas que perdião o mundo. Mais difficultosa e grave{206} era ainda a sua posição, tendo em presença um homem que elle sabia instruido, intelligente, e atormentado de paixões tumultuosas.

—Manuel de Moraes,—disse-lhe o padre, erguendo-se como o sacerdote, e tomando a attitude que cabia a quem não fallava já como homem, mas obrava como representante de Deos e da Igreja. —Como posso dar credito ás vossas vozes, quando contra vós proclama uma serie constante de procedimentos indecorosos, uma lista de crimes infamantes?

—Não proclama só, reverendo padre,—retorquio-lhe Moraes;— condemna-me até com força e verdade; sei-o eu mais que ninguem. Daria porém este passo por interesse? O que me falta na vida, se a pretendesse continuar como até agora?

—Sois ardiloso,—disse-lhe o Jesuita.—Conheço-vos muito pelos vossos escriptos, e pela fama dos talentos que Deos vos concedeu. Como patriota, não nutro a menor duvida,{207} porque a defesa que publicastes da nossa revolução de 1640 o certifica de sobejo. Não basta porém isso... não... A religião é superior a tudo. O que é patria, sociedade, familia, homem, sem a religião de Christo, dos seus apostolos, dos seus santos canonisados, da sua Igreja universal e eterna, do seu representante na terra, que é o Summo Pontifice de Roma? Fragil tudo, barro incolor e imprestavel, materia inerte, selvageria miseranda, animalia bruta. Aos interesses mundanos se antepõem as aspirações sagradas e as cousas divinas. Ao homem a familia, á familia a sociedade, á sociedade a patria, e á patria a religião unica e verdadeira de Deos, que é a catholica apostolica romana, da qual são servos humilissimos os socios e discipulos de santo Ignacio, que abandonastes e renegastes!

—É sincero, meu padre,—continuou Moraes,—é sincero o meu arrependimento. Torturão-me{208} os remorsos. Não me deixe morrer sem retractar-me, e expiar os meus crimes. Não me deixe finar nas penas do inferno, que me devastão, assolão e martyrisão já. Tenha piedade. Guie-me. Ensine-me o caminho da esperança, que allivia, quando mesmo não salve!

Forão estas palavras acompanhadas por tão abundantes lagrimas que inundárão o semblante de Moraes, e proferidas com accento tão enternecido e convencidamente profundo, que o Jesuita se impressionou em pró do penitente, e arrancando do pescoço uma enorme cruz pendida de um rosario que o ornava, apresentou-a a Moraes, que a beijou incontinente com fervoroso affecto, e dando evidentes demonstrações de arrependimento consciencioso.

—Levanta-te, peccador!—disse-lhe o padre, e abrindo uma porta, que lhe apontou com a mão, continuou:—Eis alli um oratorio.{209} Alli está a imagem de Deos. Curva-te diante d'elle, dirige-lhe tuas preces, e pede o teu perdão.

Ergueu-se Moraes de subito, correu para o oratorio annunciado, transpôz a porta, e atirou-se de joelhos diante de um altar allumiado por uma lampada de prata e quatro velas de cêra, que lançavão um clarão funebre e merencorio.

Estava em cima do altar um grande quadro representando Jesus crucificado. Gottejava-lhe o sangue das mãos, dos pés, e das numerosas feridas de que tinha o corpo atravessado. Serenidade celeste e magestosa lhe pairava por sobre as faces esbranquiçadas. Dos olhos amortecidos partião raios vivazes de innocencia, pureza e santidade ineffavel. Parecia proclamar ainda ao mundo as verdades eternas, a moral e a fraternidade humanitaria. Pintava-se agarrada aos pés da cruz a afflicta Mãi, carpindo a dôr que lhe{210} dilacerava o peito, e lhe raiava sublime pelas faces enternecidas. De um lado do quadro a grande figura de santo Ignacio de Loyola prégava a disciplina e o enthusiasmo para combater o protestantismo. São Pedro, do outro lado, mostrava as chaves do céo, e cingia a tiára augusta dos Pontifices de Roma, cabeça da Igreja catholica.

Sentio Manuel coar-lhe pelas veias como que um lenitivo, senão jubilo, diante d'essas santas imagens. Despio-se a sua alma do sopro frio e secco do calvinismo, aquecendo-se ás chammas mysteriosas do culto salvador e misericordioso. Não lhe esquecêrão orações enternecidas, preces da mocidade, e sinceras demonstrações de convicção e fé. Sorrio-lhe a esperança, a vida, a eternidade sob nova physionomia. Rasgou-se-lhe aos sentidos, e ao espirito, um vago, diaphano e indefinido futuro, que já não era o da desesperação, como até então antevia, e com que tanto se assustava.{211}

Tempo bastante deixou-o a sós o padre Antonio Vieira na posição de peccador e penitente. Aproveitou Moraes esse espaço, saboreando-o a tragos apraziveis, inundando-se de esperanças prazenteiras, e reganhando a fé perdida, que se lhe entranhou profundamente, e se apossou de sua mente inteira. Dir-se-hia outro homem, mudado, metamorphoseado, crente, e ancioso de entregar-se ao serviço de Deos eterno, e da sua Igreja universal, para remir por meio de todos os sacrificios, que o não aterrorisavão já, os seus peccados e crimes, e alcançar a sua salvação eterna.

Chegou-se a passos vagarosos para o pé d'elle o celebrisado Jesuita. Percebeu-o absorto na contemplação celeste, raiando-lhe o semblante com uma alegria extraordinaria, dedicado fervorosamente á adoração, entregue a pensamentos puros e divinos. Admirou-o na sua contricção, e convenceu-se de que provinha o seu arrependimento de espontaneidade{212} e sinceridade da consciencia, e que o catholicismo e a companhia de Jesus ganharião muito com a abjuração da sua apostasia.

Estava o padre acostumado a assistir a arrependimentos serios, e a devoções preciosas e inspiradas subitamente depois de uma carreira lamentavel de crimes, como se a Providencia divina prezasse sacar do mal infindo o prestimoso bem, e mostrar que a retractacão convencida e conscienciosa conseguia o esquecimento de peccados horriveis, e salvava os infelizes que, recuados dos seus impetos de loucura, se soccorrião á sua inextinguivel piedade.

Não iniciára o proprio santo Ignacio de Loyola a sua vida tormentosa no turbilhão de feitos escandalosos? Não se convertêrão em seus discipulos e se tornárão exemplares de virtudes selectas individuos exaltados repentinamente pelas obras meritorias e gloriosas dos padres da companhia? Não se recrutára{213} e resplandecêra o Instituto algumas vezes com peccadores que se reputavão perdidos, e que uma vida nova de sacrificios attrahira á salvação das suas almas, e ao serviço heroico e humanitario da companhia? Não conseguira Madgalena ser por fim canonisada santa da Igreja, após enormes acções, que a prostravão na miseria degradante e infima?

Era por demais avisado o Jesuita para se enganar em presença de manifestações tão expressivas, e para deixar perder-se uma occasião tão propicia, que offerecia ao Instituto recuperar uma intelligencia primorosa, e um sujeito ornado dos mais bellos e distinctos dotes e qualidades.

Não lhe bastavão os triumphos adquiridos nos sertões do Brazil sobre tribus inteiras de gentios desgarrados e errantes, que chamára ao gremio da igreja santa. Não se reputava o Instituto devotado exclusivamente á catechisação{214} e civilisação dos selvagens dos desertos americanos, como praticavão ainda os discipulos de santo Ignacio, expondo-se corajosos e enthusiasticamente á fome, á sede, ás perseguições, ás frexas envenenadas dos gentios, e á morte cruel, que alguns encontravão na solidão das mattas virgens; nem tambem a conseguir abjurações de rajahs e povos idolatras da Asia, como São Francisco Xavier, apostolo das Indias. Mais poderosa aspiração e ambição mais elevada lhe exaltavão e dirigião o animo. Anciava por ver a companhia alçar-se em prestigio na Europa, combatendo com denodo os schismas que rasgavão a Igreja Catholica, domando as autoridades civis, superintendendo os soberanos, e impondo-se ao poder temporal, e á marcha dos governos. Verdadeiro revolucionario politico e religioso, empregava a penna escrevendo constantemente e publicando umas sobre outras obras primorosas, e não poupava a palavra, fallando dos{215} pulpitos aos reis, aos nobres, ao clero, e ao povo, que se apinhavão nos templos para ouvi-lo prégar, e admirar-lhe a portentosa eloquencia, e a instrucção variada e interessante. Convencido de que a companhia de Jesus era um instrumento da Igreja e do Papa, não repousava em seus trabalhos. Conseguira fazer resoar os templos da Bahia, de Lisboa e de Roma sob os échos agradaveis e harmoniosos de sua voz admiravel, e gemer os prelos typographicos com a tarefa ininterrompida de manufacturar os seus livros. Recebêra missões secretas e politicas de Dom João IVº de Portugal para Roma, França e Hollanda, e em pró do seu paiz negociava ainda allianças de nações estranhas, que o ajudassem contra Hespanha.

Despedia a sua palavra o fogo sagrado. Queimava como incendio, feria como punhal afiado e agudo. Seduzia, arrastava, captivava, e enchia ao mesmo tempo de encantos os ouvintes{216} todos. Manifestava a sua penna uma logica cerrada, um estylo pomposo e correcto, uma cópia espantosa de erudição, e imagens apropriadas, interessantes e arrebatadoras.

Alma grande, sublime espirito, eloquencia superior, corpo affeito a trabalhos e fatigas, indifferente a perigos, devia justamente passar o padre Antonio Vieira, nascido em Lisboa, criado e educado na Bahia, por um dos homens mais extraordinarios que tem o mundo produzido: meio Portuguez e meio Brazileiro; meio civil e meio religioso; meio patriota e meio romano; gozou devidamente em sua vida de uma fama universal e legou á posteridade um nome de engenho selecto, grandioso e admiravel.{217}