Metafísica do gênero humano: natureza e história na obra de Giambattista Vico

Fabrizio Lomonaco, Humberto Guido e Sertório de Amorim e Silva Neto (orgs.) · Capítulo 5 de 14 · parte 2/2

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Metafísica do gênero humano: natureza e história na obra de Giambattista Vico

Os caracteres dos povos na nova ciência das nações de Vico: entre causalidade sacra, histórica e natural

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

o qual a pátria meridional felizmente se juntou. 38

Além do mais, cabe perseguir analiticamente como diversos

sentimentos de pertencimento, cifras identitárias (e materiais teóricos concernentes) deram-se, e puderam também conviver tranquilamente, em Vico: o sentimento de pertencimento, em

verdade bem contido, propriamente “cidadão”, do “napolitano”; 39 aquele relativo à “pátria estatal” do Reino, com o registro de expressões comuns do princípio da lealdade dinástica; aquele relativo a uma identidade pátria, histórico-cultural, “italiana”, linguística em primeiro lugar, bem distinta daquela da herança “itálica”; aquele pertinente a um identidade “europeia” (que de jure não contradizia a impostação universalista da “história ideal eterna” e da história factual da civilização humana) afirmada seja no plano do sentido “eurocêntrico” do pertencimento à área onde, na modernidade, foram obtidas as maiores conquistas da “razão”, da “equidade” própria ao homem, seja no plano de um destacado sentido “classicista” de pertencimento à “república das letras”.

Mas antes de ir rapidamente para a configuração dos caracteres

dos povos antigos, implicados na temática da antiga sabedoria itálica, portanto, no De antiquissima, vale dirigir a atenção, por um momento, sobre as primeiras decisivas e bem conhecidas enunciações em torno dos caracteres das nações implicadas na reflexão epistêmico-metodológica-pedagógica do De ratione, e ainda mais sobre o motivo, de notável relevo, da fundação cultural e particularmente linguística das índoles das nações afirmado decisivamente naquele texto.

Neste sentido, em páginas importantes do De ratione, a

contraposição da peculiaridade intelectual, literária do ingenium italiano, da índole da nação italiana frente aquela francesa (com a comparação entre racionalidade “geométrica” francesa e “engenho” italiano e espanhol), era acompanhada da teorização – sustentada por “summis philosophis” – de que “linguis ingenia, non linguas ingeniis formari” (afirmação “intensificada” pela tradução segundo a qual “a índole dos povos se formam com as línguas e não as línguas com as índoles”); afirmação que, se pode supor, ecoava não somente uma genérica antiga tradição, mas o enunciado preciso de Isidoro de Sevilha: “Ex linguis gentes, non ex gentibus linguae

exortae sunt 40 ”. Daí, então, baseada em sua língua imaginativa, a declaração do absoluto primado dos italianos em todas as artes (“uni Itali pictura, sculptura, architectura, musica omnibus orbis terrarum nationibus praestiterunt”) e o desenho histórico-literário da riqueza da língua italiana (por meio da evocação de Guicciardini, Boccaccio, Petrarca, Ariosto, Tasso) demonstrando o quanto aquela língua “beatíssima”, a ponto de tornar a italiana a nação mais rica em agudeza após a espanhola (“unde Itali post Hispanos acutissimi nationum”), era extremamente apta a efetivar um saber voltado para a eloquência da vida civil, ao contrário daquela “sutilíssima” dos

“Gálios”, voltada às sutilezas da análise matemática. 41

Mais adiante, pode-se antecipar – amadurecido o quadro

conceitual da nova ciência das nações (portanto, também, o tema constante da possível assimetria dos tempos históricos das diferentes nações em relação aos “justos passos” do seu curso “natural”) – a característica da “língua delicadíssima” francesa como sendo derivada da “imatura passagem da barbárie às ciências mais sutis”, expressa no fato (também a ela conseguinte) de que “em meio à barbárie de mil e cem é aberta a famosa escola parisiense, onde o célebre mestre das sentenças Pedro Lombardo se pôs a ensinar a sutilíssima teologia escolástica”. O caso do percurso da civilizadíssima “nação francesa” (civilizadíssima nação tida por Vico como a mais refinada de uma unitária comunidade cultural europeia), conduzida precocemente a um exercício teórico altamente reflexivo, a um pensamento “sutilizado”, a uma “crítica metafísica e de álgebra”, duplicava o caso dos gregos, cujos “filósofos apressaram o curso natural que deveria fazer sua nação, surgindo quando era ainda crua a sua barbárie, passando imediatamente a uma suma delicadeza e, ao mesmo tempo,

conservando inteiras as suas histórias fabulosas”.42 Nos dois casos, um fenômeno cultural, o acontecimento precoce de um pensamento altamente reflexivo, é apresentado como o fator de aceleração do processo histórico normal, o do caminho percorrido “com justo passo” pelos romanos. E fica, todavia, a interrogação (que Vico não parece interessado em formular e nem em solucionar) do porque nessas duas nações não possa se afirmar um assim inusitado pensamento, tão “delicadamente” agudo: a menos que a nativa disposição desses povos – muitas vezes, em outros contextos, afirmada e assumida – não ajude a explicar substancialmente aquele fenômeno, reportando, ainda uma vez, à cadeia causal impressa pelos condicionamentos naturais, físicos, climáticos.

Mas é preciso retroceder e retomar, na íntegra, uma breve

passagem do De antiquissima sobre o tema das nações, texto em que esse tema era assumido nos termos – definível em seu conjunto como “patriótica-intelectual-filosófica” e “patriótica-itálica” – da

tradição da antiquíssima sabedoria itálica.43 Tradição apresentada centralmente naquele texto, mas residualmente presente, também, na produção sucessiva do filósofo napolitano com a confirmação do caráter decisivo de pelo menos alguns elementos (como a primazia dos povos itálicos sobre os gregos em um desenvolvimento cultural devedor dos egípcios e dos fenícios), ainda quando a meditação viquiana havia se libertado, com a drástica crítica à “soberba” das “nações” e dos “doutos”, do princípio racionalista “genealógico-especulativo” que epistemologicamente governava aquela tradição.

É esse, em particular, o caso dos etruscos, que Vico teria

retomado a fim de repropor, mesmo em um contexto conceitual já radicalmente transformado, o nexo entre egípcios e civilização da Etrúria sobre o qual se havia extensamente discorrido, em chave de “patriotismo itálico”, no Proemium do De antiquissima e, depois, na chamada Seconda Risposta. No Proemium do livro de 1710, o autor havia qualificado os jônicos e os etruscos como duas “doctae nationes” e os segundos, marcadamente, como uma “eruditissima gens”, a qual havia precedido os gregos nos saberes mais

essenciais. 44 Na conhecida Seconda Risposta, de 1712, a precedente “forte conjectura de que na Itália existissem letras muito mais antigas que as gregas” havia sido transformada no cerrado intento demonstrativo de que aqueles saberes proviessem do “grandíssimo império” florescente no Egito: “porque coisa verossímil ou mesmo necessária é que os egípcios, assenhoreando todo o mar interno, facilmente pelas suas margens teria subtraído colônias e

assim, para a Toscana, levado a sua filosofia”. 45

A prioridade dos etruscos em relação aos gregos na prática dos

conhecimentos e artes aprendidos dos egípcios (cujos superiores saberes práticos, particularmente no campo da navegação, também os fenícios, pelo menos em um primeiro momento, apresentaramse como devedores) e depois transmitidos aos romanos, teria sido valorizada no Diritto universale, antes de vir diminuído pelo interesse pelos “toscanos” na primeira edição da Scienza nuova. Mas dentro de um quadro teórico que já, antes disso, modificava radicalmente aqueles caracteres e significados. Realmente, sobretudo a partir do De constantia, o decisivo redimensionamento da longínqua antiguidade, inclusive das nações mais doutas, impedia projetar a obtenção e a transmissão de saberes não elementares em uma remotíssima antiguidade imersa “na puerícia do mundo”, e que devia responder às urgentes exigências da “necessidade” e não,

certamente, às solicitações do “prazer” ou do “cômodo”.46

A recordação de aspectos precisos da abordagem das gentes do

mediterrâneo no Vico do De antiquissima parece oportuna nesse discurso, não tanto para evocar uma bem conhecida mudança de perspectiva epistêmica e crítica, quanto para manifestar a importância de reconstruir acuradamente os materiais, os motivos, as “linguagens”, que teriam confluído no complexo arranjo da ciência das nações e dos seus caracteres, cuja elaboração havia sido já potentemente preparada no Diritto universale, particularmente no De constantia. Nesse sentido, os materiais relativos à “propagação cultural” elaborados no tempo do De antiquissima foram depois utilizados, mesmo que no interior de uma perspectiva crítica bastante remexida, adaptando-se ao objetivo de tornar eficazmente plausível o novo quadro de uma história da civilização. Nesse complexo quadro, a tese propriamente viquiana do “poligenismo cultural”, associada à irrenunciável tese do “monogenismo e da monopropagação étnico” (de Adão, de Noé) típica da ortodoxa linguagem religiosa cristã, podia encontrar acolhimento apropriado no compatível recurso a elementos de “propagação cultural” (alguns dos quais difundidos desde o “Oriente sacro”), dos quais se retomarão, logo, outras provas, úteis à melhor compreensão da aquisição, por determinadas gentes, de “caracteres culturais” particulares.

O aceno às fundamentais e iniludíveis sequências do humano

(como aquela que vai do “necessário” ao “cômodo”) nos avizinha, pois, à linguagem, por assim dizer, “histórico-cultural”. Enquanto isso, dentro da complexa “linguagem histórica”, aquela tradicionalmente “histórico-política” dos “fundadores” da cidade, das formas políticas, é radicalmente posta em jogo pela sua transformação em “caracteres poéticos” (como Cadmo, por exemplo, a propósito dos citados fenícios), e a esfera dos eventos históricos particulares (mas depois reconduzidos a gêneros recorrentes, como as transmigrações, as colônias, as guerras, as conquistas) por sua vez, será chamada a explicar, relevantemente, o desvio de uma nação do seu “curso natural” de desenvolvimento.

Decidindo terminantemente o configurar-se dos caracteres

peculiares dos povos (“naturais” e/ou “culturais”), ou pelo menos contribuindo largamente com a sua explicação, serão continuamente evocadas as condições naturais de caráter “geográfico”, “ambientais” e “climáticos”. Em relação a isso é oportuno dizer algo acerca da abordagem de alguns povos, em parte já referidos (caldeus, egípcios, fenícios, etruscos, cretenses, gregos, citas etc.), sistematicamente proposta por Vico naquele enorme laboratório da sua meditação que foi o Diritto universale e, em particular, no De constantia. Mas, antes é preciso deter-se sobre uma importante página do De uno, na qual aparece uma primeira exposição orgânica das causas climáticas da “populorum natura” e, portanto, da sua influência sobre as formas de governo.

Tal excursus atesta, pela primeira vez de modo sistemático, a

importância explicativa assinalada por Vico aos caracteres das nações definidos enfim por via “natural”; e ao mesmo tempo atesta como o argumento “natural-climático” viria declinado, absorvendo a tarefa de afirmar, frente à moleza asiática, a supremacia ético-política da “fortaleza” europeia (e particularmente romana) – geralmente expressa na forte inclinação aos governos dos optimates ou ao “principatus civilis”, mas também articulada em função dos caracteres naturais específicos das diversas “gentes”.

Uma rápida preliminar consideração deve ser elaborada a

propósito. Observa-se, em primeiro lugar, que o recurso à causalidade natural climática se conectava à forte presença, nas páginas do De uno, de um interesse bem usual pela investigação das formas dos governos, em suma, à atuação daquela tradicional “linguagem histórico-política”, cuja presença permanece residual na inovadora ciência das nações viquiana, e cuja estruturação de fundo será por ela desdita. Em segundo lugar – derivando do complexo discurso “topo-etno-psicológico” exposições marcadamente caracterizadas pelo nexo entre clima e formas políticas –, Vico, nessa etapa da sua meditação, tendia a configurar, com efeito, uma relação causal demasiado fechada, unilinear, entre “populorum natura” e “rerumpublicarum formae”, como anuncia já o explícito título do caput CXLV do De uno, “De formis rerumpublicarum ex

populorum natura 47 ”. Em terceiro lugar, ele esboçava uma fenomenologia dos caracteres “antropológicos” e “políticos” das nações, na qual vislumbra um esforço sistemático, mas também elementos de incompletude, ao assumir os tradicionais pares opositivos “topoetno-psicológicos”. Desses, ele retomava os pares essenciais de caráter “antropológico” “fortis-mollis” e “acutus-rudis” (pares ou termos que serão colocados por Vico também em uma perspectiva diacrônica, como veremos no final deste texto) e a sua conexão com aqueles pares opositivos “geográficos” “europeus-asiáticos” (ocidentais-orientais). Mas só tacitamente fazia florescer o outro par setentrional-meridional, indicado para as experiências de uma moleza também meridional (como no caso dos “Sículos”), além da “asiática”, da qual não teria sido fácil indicar as causas climáticas peculiares: porque foi tradicionalmente modulado a partir da tripartição “setentrional-temperado-meridional” (deixando aqui de lado a doutrina ptolomaica dos sete climas etc.). Assim, no De uno, era proposta primeiramente uma bipartição geral entre quase todos os “europeus” e os “asiáticos”, depois, com efeito, uma quadripartição que consentia, em seu interior, as variadas configurações dos nexos entre naturezas dos povos, com as suas aptidões às formas políticas, e as formas políticas propriamente ditas, tal como se deram entre os antigos povos europeus habitantes das regiões do Mediterrâneo.

Uma primeira distinção fundamental era posta entre as gentes

fortissimae, representadas por quase todos os europeus (“tales fuere europaei ferme omnes”), e então dispostas a formas de governo potentes ou monarquias temperadas (“principatus civilis”), e vice-versa aquelas “moles e rudes”, representadas pelos “asiáticos”, facilmente subjugadas por uma monarquia pura e levados a viverem “sub regnis meris”. Logo, em um discurso orientado a sustentar a natureza “ética” do verdadeiro direito e caracterizar os romanos como povo cuja história era, por isso mesmo, exemplar, um aspecto bastante relevante é que a fortaleza das gentes de que se fala não resida na sua mera potência guerreira ou supremacia nas guerras, pois que a verdadeira fortitudo é dirigida “ad tutelam, non ad

iniuriam 48 ”.

Entre os ocidentais, contudo, ao seu redor existiam gentes

“acutissimae et molles, quales siculi”, por conseguinte, subjacentes tyrannis; “acutissimae et fortes”, “ut cretenses, athenienses, carthaginienses” que souberam encontrar “leges et libertatem”; enfim “fortissimae, non tam acutae”, “ut romani” que conquistaram mais lentamente “libertatem”. Como se vê – sem que o autor sentisse, porém, a necessidade de uma explicação teórica das premissas de suas asserções –, na agudeza nativa vinha definido, de certo modo afirmado, um fator positivamente dinâmico, mas perigosamente disposto a assumir diversas e opostas conformações: como aquela – própria dos cretenses, atenienses, cartagineses – da agudeza associada à força, operante, a princípio, na conquista de um viver civil e livre, da libertas, ou como aquela – própria dos Sículos – da agudeza associada à moleza e então, vice-versa, facilmente disposta ao modo de vida obediente sob a tirania. Os primeiros, gentes “acutissimae et fortes invenere leges et libertatem”, enquanto os segundos, “acutissimae […] sed molles […]

statim tyrannis cessere 49 ”.

Muito interessante nesse quadro é o posto ali reservado aos

romanos, cuja história, no Diritto universale, adquiria plena função de “povo campeão” da humanidade e um firme caráter paradigmático: seja como privilegiado repertório de um enorme material histórico, seja pelo exemplar e gradual curso dos fatos

humanos rumo à conquista do verdadeiro-justo.50 Os romanos aqui se apresentam como exemplo único de um povo que não se destaca por agudeza de engenho e que, por isso, tardiamente, após longo caminho, atinge um viver civil livre, exemplo único, portanto,

de gentes “ 51 fortissimae, non tam acutae, sero libertatem experti ”.

Não pretendo superexpor criticamente este lugar dando a ele o

peso muito importante de um genérico “imaginário da medida” (radicado numa bastante sólida tradição “pré-moderna”, clássico-humanista) que de longe, ou melhor, da profundeza de uma esfera “imaginativa” substancialmente irreflexiva, governará, de modo significativo, não somente a indicação dos romanos como aqueles

que paradigmaticamente “caminharam com justo passo”,52 mas, em geral, uma série de posições, expressões de juízo, exposições axiológicas, todas reconduzíveis enfim a uma tácita opção, precisamente, pelas razões do “meio”, do “temperado”, disso que se coloca entre os extremos e não se dirige para nenhum extremo. Um apreço subterrâneo, quando não um elogio, da “bela medida” não abandona nunca o pensamento viquiano, integrando-se, na verdade, dentro de uma meditação que, como poucas, contribuiu com uma visão dinâmica e aberta, genética e historicizante do humano. Ora, esse apreço envolve tanto o “natural” quanto o “histórico”, tanto o “espaço” quanto o “tempo”: recobre as bem conhecidas expressões avaliativas das “justas medidas” corpóreas, as quais retornam os homens finalmente saídos da desmesura dos corpos gigantescos adquiridos na errância ferina, ou ainda as expressões, bem menos conhecidas, da bela medida e originária coloração branca da pele dos povos não submetidos às mudanças de caracteres físicos pela prática de certos costumes; assim como recobre a justa medida à qual se aferram as nações humanas nos processos pelos quais a elas advém a insidiosa corrupção dos costumes, a decadência em uma extenuada “delicadeza” e o risco de morte (como atestam eloquentemente as temáticas da akmé das nações e as sequências descritas por Vico dos fenômenos

fundamentais pelos quais passam as comunidades humanas).53

Existe, porém, uma interrogação que define um território

largamente opaco em Vico: de onde vem realmente – evidentemente não de facto, mas de jure – o caráter paradigmático dos romanos? E a resposta não pode ser simplesmente: por ter caminhado com “justo passo”. Porque isso remete a uma ulterior interrogação: de onde vêm os seus “justos passos”? Eis que, para lançar alguma luz sobre este espaço opaco, pode então contribuir o escorço do De uno, no qual Vico retomava algo do elogio do clima em boa parte temperado da região italiana (expresso no período “latino” das reflexões e escritos sobre as condições climáticas, por exemplo com Vitrúvio), embora sem desenvolver seus aspectos sistemáticos: de resto, difíceis de serem deduzidos de um espaço geográfico no qual haviam convivido etruscos, romanos, sículos, e relativamente ao qual vários protagonistas da cultura napolitana sublinharam, dali a pouco, a extraordinária diversidade dos climas e ambientes, e inclusive dos caracteres das populações, específica do Mezzogiorno.

Em uma investigação sistemática sobre a matéria (em particular

sobre os romanos), a atenção deveria dirigir-se rápido para o capítulo sucessivo, cujo eloquente título (“De iustitia rerumpublicarum ex ipsarum natura”) confirma a estreita relação causal “populorum natura – rerum publicarum natura – iustitia rerumpublicarum”. Nele, a adoção de teorias marcadamente usuais à tratadística política cincoseiscentista (a conformação das repúblicas aristocráticas a uma contida extensão territorial e a uma política não expansiva, ao contrário das repúblicas populares e das grandes monarquias imperiais) tornavase funcional à tese de que por longo tempo os romanos, regidos por governos de patrícios, haviam empreendido somente guerras justas, “[bela] pura et pia”, terminadas vitoriosamente com manifestações de “mansuetudo et clementia”: visão que, pouco mais tarde, será felizmente contradita pela sucessiva denuncia de um heroísmo romano patrício, em vez disso, desapiedadamente cruel (como denuncia já a etimologia de “pátria”); mas que aqui interessa assinalar, porque acompanhada da ideia de que o lento crescimento de Roma aconteceu de modo tal a conferir-lhe uma “iustum reipublicae corpus”, um organismo político,

por sua vez, correspondente à justa medida.54

Mas é preciso andar rapidamente adiante e observar como, no De

constantia, Vico assumia mais explicitamente o clima (em particular a “coeli temperies”) como fundamento da disposição dos povos a ser mais ou menos “engenhosos” e, assim, segundo uma importantíssima sequência de fatores causais, mais ou menos capazes de levar adiante a civilidade. Uma suposição que também pode ser considerada, examinada, no quadro do vasto empenho (explicado em detalhes precisamente a partir do De constantia, mas não descuidado sucessivamente) de reconhecimento e utilização, nas exposições e confirmações de suas teses, dos dados e das explicações assimilados dos saberes correntes sobre a natureza. Dados, “causas naturais”, capazes de explicar, só para oferecer dois exemplos bem conhecidos, como teria sido possível aos homens, errantes nas selvas pós-dilúvio universal, assumir uma estatura gigantesca por via da potente ação dos “nitritos” ou “sais nítricos”

sobre os corpos das suas crianças revolvidas em suas “fezes”,55 ou porque “as línguas devem ter começado por vocábulos monossílabos” e pelo “canto”, a partir de considerações atinentes às “fibras do instrumento necessário para articular a fala”, “molíssimas”

nas crianças, “duríssimas” nos “primeiros homens das gentes”.56 Fica claro, no De constantia propriamente, que Vico recorria a uma sucessão de usuais explicações “físicas” (que sobre esse aspecto não serão retomadas ou desenvolvidas) para dar conta da transmissão hereditária dos caracteres fisiológicos (como a cor da pele) adquiridos “historicamente” por meio da “vis phantasiae” dos genitores (com um processo de “naturalização” do costume): caracteres dos povos que podiam, portanto, mudar agilmente no tempo, sendo assim possível confirmar a tese que da progênie de Noé, toda branca e de belas e corretas feições, descendesse também gentes de pele negra e do pescoço “inaturalmente” alongado, como os etíopes, verossimilmente descendentes dos

caldeus, ou dos fenícios, por intermédio dos egípcios.57 Esse é um tema relevante – embora isolado na reflexão de Vico sobre a “natureza” e a “história”, porque fala da experiência na qual não a “natureza” das coisas deve ser reconduzida à sua gênese histórica, mas na qual o “costume” se transforma em “natureza”.

Retornando aos nexos entre natureza dos climas e atitudes dos

povos é relevante, de certo modo, a peremptória afirmação (“nemo est qui negaverit”) que se lê no capítulo do De constantia dedicado à investigação sobre a origem da língua heroica, ou da própria poesia. Com efeito, “humanitatis principiis […] ingeniosae gentes facilius induunt”, mas são as temperaturas do céu – desde que ele seja mais úmido e frio ou, vice-versa, mais rarefeito e quente – que fazem nascer homens de engenho obtuso ou, pelo contrário, agudo. “Nemo est qui negaverit esse coeli temperaturas quae gentes alias aliis ingeniosiores alant, ut sub crasso frigidoque aëre obtusi, sub

magis aethereo et aestuoso acuti ingenii nascantur homines 58 ”. Por outro lado, a disposição para o engenho inclui ainda fatores causais constantes, que se inscrevem ou no rol dos fatores históricos estruturais (por sua vez, evidentemente em interação com as condições materiais, físicas, geográficas dos lugares) ou no rol das estruturas e tempos recorrentes da vida humana: as solicitações que vêm das formas de necessitas a que estão submetidos os homens; a phantasia mais ou menos vívida, derivada da agudeza dos sentidos, que, por sua vez, é diversa já entre os animais e os homens (“brutis acerrimi sensus sunt natura attributi”), depois segundo o sexo (“foeminae quam viri sensilia magis advertunt”), e da idade, tanto do indivíduo singular quanto de toda as gentes, e da humanidade em geral. Eis então que “primos ingeniosos homines

[…] nihil aliud quam ingeniosos pueros fuisse 59 ”.

O De constantia é o escrito pelo qual é necessário passar a fim de

acompanhar a primeira sólida configuração de uma vastíssima série de temáticas e propostas que encontrarão sua laboriosa ulterior sistematização nas versões da Scienza nuova. Não obstante os significativos antecedentes sobre os quais nos detemos, isso vale também, em larga medida, para a abordagem dos caracteres das nações dentro de um novo quadro de história da humanidade e da civilização, no qual eram chamados a cooperar as “linguagens” de que falamos e o recurso a diversas formas de “causalidade”: “sacra”, “histórica” (“histórico-estrutural’ etc.), “natural” (“geográfico-climática”, “geográfico-ambiental” etc.), “antropológica” (por sua vez, causalidade concernente a formas estruturais da psicologia humana ou a caracteres dos povos adquiridos pelos condicionamentos físicos etc.).

A premissa de onde parte o discurso viquiano sobre as nações

permanece sempre aquela – atinente à história sacra como “philologica dignitas” (a primeira das nove “philologicae dignitates” fixadas nos inícios do Capítulo IX da “Pars posterior” do De constantia) – da sua propagação por meio das descendências de Noé. “Anno post Diluvium, ante babylonicam linguarum confusionem, Sem, Cham, Iaphet exleges terram inter se divisisse; et in Assyria mansisse Semum, Chamum in proximam Phoeniciam

Aegyptumque, Iaphetum in Europam commigrasse 60 ”. Em que vai sublinhada – sobre uma matéria ainda meritória de aprofundamentos críticos – a diversa sorte das descendências de Sem e Cam em relação àquela de todos os “Japetos”: somente eles, nessa etapa da meditação viquiana, destinados a serem por via do trovão extraídos para fora do bruto estupor no qual foram afundados, perdendo “omnem […] religionem” e, com ela, a sua

“ 61 humanitatem ”.

Dirigindo a atenção, nesse momento, sobretudo para os fatores

geográficos influentes sobre os caracteres e sobre a história das nações, pode ser oportuno partir novamente dos egípcios e do processo que os havia levado, bem cedo, a amadurecer a conquista de variadas artes, dentre elas a da navegação (como explica, em particular, o Capítulo XVII da parte II do De constantia). A conquista precoce daquelas artes foi devida a uma série de razões tanto “históricas” quanto “naturais”. Uma razão histórica era consequência da sua vantajosa contiguidade espacial com as regiões e nações do próximo Oriente investidas da gênese “sacra” e da persistência e/ou rápida recuperação das artes, como se viu. Os egípcios, como os fenícios descendentes de Cam, puderam usufruir da vizinhança dos dois fundadores – tendo permanecido Sem vizinho a Cam – e dos seus pósteros não dispersos. Desse modo, teriam podido aprender rapidamente dos caldeus as “artes” pré-diluvianas em geral, que esses não se esqueceriam, e assim sabido avantajarse particularmente à “hereditariedade de Sem”, superando, nisso, os próprios fenícios, que parecem ter sido os primeiros intermediários da transmissão, entre os camitas, das artes não dispersas pelos pósteros de Sem. Mas a singular rapidez de aprendizagem e a capacidade de incremento daquelas artes pelos egípcios foi devida também a uma dúplice ordem de fatores “naturais”. De fato, produzindo os caracteres daquela gens concorria, em primeiro lugar, o fator da “naturalidade étnica” (quer dizer, um praeclarum, praestans, ingenium, nesse caso, em nexo subterrâneo com o clima). Mas esse fator, por conseguinte, vinha incrementado por um fator “ambiental”, por uma necessitas material, como as periódicas

inundationes 62 do Nilo. Com um discurso que reorganizava, em um tecido conceitual e narrativo inovador, variados materiais e “linguagens” (“histórico-teológico”, “históricoerudito”, “etno-geográfico” etc.) se podia então compreender as razões da rápida assimilação, por parte dos egípcios, das “artes” tomadas dos caldeus, o impetuoso desenvolvimento impresso por eles nos egípcios ao adquirirem, entre outras coisas, “navalem et nauticam” e

tornandose a primeira “ 63 maritima potentia ” do Mediterrâneo.

Foquei longamente os egípcios, mas os exemplos poderiam ser

extensivos a diversos povos descendentes do tronco de Noé. Assim, se permanecermos no Ocidente que se abre para o mar mediterrâneo e olharmos os cretenses e, em geral, a “grecae gentes”, temos a confirmação de que também aqueles primeiros, para conseguir a “res et militia navalis”, teriam gozado de uma dúplice favorável condição natural: aquela da “natureza” étnica (tacitamente ligada ao clima) “agudíssima” e aquela “geográfico-

ambiental” “insular”.64 Mas, pareceme a ocasião de retomar e repropor agora o caso das nações “orientais” dos citas, protagonistas, junto dos caldeus e egípcios, da “propagatio generis humani” e então progenitora de uma vasta e diversificada série de gentes sejam asiáticas ou europeias.

Segundo o De constantia, os citas, em comparação com os

caldeus, representaram uma sorte de diretriz “não urbana” da hereditariedade de Sem (e aqui, como um “privilégio de Sem”, volta a relevância do discurso “antropogônico” de matriz “sacra”), das “inocentes” virtudes da frugalidade e da justiça (mais próximas àquelas definidoras do povo hebraico) transmitidas pelo menos a algumas das muitas gentes descendentes deles. Ao tradicional tratamento da marcante rudeza dos citas vinham associados, no De constantia, aspectos também presentes no “mito”, “miragem cita” (objeto de consistentes investigações historiográficas), tão robusto e difundido até o tardo setecentos. Aquele povo de fato destacava-se por costumes assaz positivos, produtos da sua religio: por “morum rectitudine, pudicitia, simplicitate, iustitia, modestia”, em uma palavra, innocentia, virtude ligada à pietas e a hábitos de sustento

moderados com a criação de gado e a agricultura.65 Esses costumes encontram expressões e, principalmente, fundamento no caráter “econômico-social” e então “político” da aequalitas de uma

sociedade de estrutura patriarcal.66 Mas esse tratamento repousa decisivamente sobre um fenômeno “material-ambiental”: a superabundância de terras fertilíssimas para a agricultura e o pastoreio (como confirma o caso dos Sículos).

Daqui, ou do conjunto desses caracteres e condições, resulta o

extraordinário emergir de uma condição “oriental” de igualdade e justiça, de todo diversa daquela “ocidental” necessariamente desenvolvida por meio do instituto das “clientelas”. No oriente não existiu nenhuma necessidade da “lex agraria”, em vez disso,

“ 67 clientelae apud occidentales ortae sunt ”. As causas dos costumes virtuosos dos citas encontram-se no enredo de razões “morais” e “materiais”. Para eles,

 

religio modestiam innocentiamque fecit, quas virtutes ipsis immensa

feracissimorum camporum aequora conservarunt: unde gentis aequalitas

hinc inter ipsas propagata, cum, in tanta camporum abundantia, opus lege

agraria nullum fuit, unde clientelae apud occidentales ortae sunt 68 .

 

Por causa dessa elementar razão material, das grandes

extensões das planícies orientais, pelo Oriente não vige o desenho habitual, que se tornaria onipresente, do processo de fatigosa recuperação do humano mediante a instituição do “ius nexi” da primeira lei agrária.

Ainda mais relevante no discurso aqui conduzido é, pois, a

precisa recondução ao fator climático dos diferentes caracteres das muitas populações derivadas dos citas e dos seus condicionamentos “citicos” de liberdade e igualdade. Deles nascem, de fato, duas diversas descendências fundamentais e possibilidades: uma no Ocidente, na Europa (segundo uma diretriz articulada em duas linhas), e uma no Oriente; uma caracterizada pela fortitudo, a outra pela suavidade e o amor pela aequitas (e aberta ao desenvolvimento das letras): é esse segundo caso aquele dos séres e dos chineses. “Scythia fortissimarum mater in

Occidentem, mitissimarum et aequissimarum in Orientem 69 ”.

Tal diversidade dos processos de desenvolvimento encontra sua

causa explicita no clima.

 

Quapropter e Scythia gentes fortissimae prodiere, primum thraces,

germani parthi; deinde in asperam Europam vandali, hunni, gotthi, heruli,

longobardi, turcae aliaeque barbarae nationes; in mollem Asiam provenere

Seres, mitissimi et aequi amantissimi homines 70 .

 

Com efeito, as diferenças climáticas – entre a polaridade do

“mole” e do “áspero” – marcam as características dos grandes troncos da descendência cita. Na realidade, a fonte cita da propagação do gênero humano tem dupla ramificação, que tende, porém, a articular-se em uma tríplice descendência. Assim, na Europa “in Occidente[m]” tem-se a descendência das “gentes fortissimae” e “in Oriente[m]”, “in molle[m] Asia[m]”, aquela de “mitissimi et aequi amantissimi homines” como os “Seres”. Mas no Ocidente é tecida, depois, uma articulação que duplica e diferencia a fortitudo bárbara. Primeiro, porque prodiere nações igualmente fortíssimas (“thraces, germani, parthi”) entre as quais, porém, existiam também algumas daquelas progenitoras de uma tendência (germânica) à liberdade depois difundida na Europa cristã. Pelo contrário, “in asperam Europam” – uma Europa mais distante e ainda mais áspera do que aquela nórdica, pelo que parece – manifestaram-se “barbarae nationes” como “hunni, gotthi, heruli, longobardi, turcae”.

Uma visão semelhante permitia soluções diversas. Por um lado,

permitia inserir a nação “turca” numa constelação de nações cujas características consentiam, pois, retomar a tradicional, canônica, oposição “Europa-Ásia”, que o próprio Vico havia utilizado, anos antes, na redação do De rebus gestis Antoni Caraphaei. Neste texto, “Ásia” estava para império truco como “Europa” para Europa plenamente ocidental e cristã: onde podiam ser unificadas potentiae adversárias inclusive, mas não radicalmente adversas em religião e

em cultura. 71 Por outro lado, aquela visão consentia dissociar melhor, do Oriente, a propagação da humanidade bárbara americana (que Vico teria sempre “subvalorizado”, substancialmente, em suas formas mais avançadas de civilização, a mexicana e a peruana), aceitando, em vez disso, pelo menos em parte, as teses de Grócio da sua imigração por terra através da Groelândia, portanto, através das mais “ásperas” e desoladas terras

europeias. 72

Como foi várias vezes acenado, a maturação sistemática da

ciência das nações de Vico teria favorecido a afirmação de um olhar unitário substancialmente interessado em encontrar a confirmação de teses gerais acerca do “curso comum” das nações, e isso por meio de procedimentos de tipo comparatista exercitados sobre materiais permanentemente sobrepujados pela circulação dos dados relativos aos povos não europeus (estranhos à amada e constantemente revisitada história romana). Dentro desse procedimento, os fatores envolvidos na “causalidade natural” e, em particular, aqueles estritamente climáticos foram, com maior razão, repropostos com absoluta segurança de sua relevância.

Iniciando a conclusão de um discurso já bastante prolongado,

bastará aqui lembrar alguns lugares essenciais sobre a matéria, bem conhecidos dos leitores das três edições da Scienza nuova. Em uma “regra de interpretação” fundamental, própria da “nova arte crítica” definida na Scienza nuova de 1725 (no Capítulo IX do Livro II), vai exposta uma cadeia estrita de fatores causais que, das “ações” dos povos, por meio das “formas de seus governos” e da “natureza dos povos governados”, remonta finalmente ao primeiro fator da “natureza dos sitas”, “em conformidade” com os quais os diferentes povos assumem suas índoles:

 

diversamente nas ilhas e nos continentes, de onde provêm dali os mais

esquivos,daquiosmaisdinâmicos;diversamentenospaísesmediterrâneos e

nos costeiros, de onde dali se obtém agricultores, daqui mercadores;

diversamente sob climas quentes e mais etéreos e sob frios e

preguiçosos, de onde dali nascem de agudo e daqui de mais obtuso

engenho.73

 

A esse passo conecta-se, evidentemente, aquele sucessivo (do

Capítulo LVI, do Livro II) no qual, com termos claros, é destacada a importância de se reconstruir as formas jurídicas a fim de compreender a totalidade dos fenômenos constitutivos das formações socioculturais humanas, organizando-os ao longo de uma cadeia, ou disposição serial, logicamente e, então, também temporalmente disposta em um andamento genético (andamento factual impresso também ao conhecimento), e exposta, portanto, em uma ordem inversa àquela dada em precedência:

 

nada além da lei das XII tábuas, com um sério argumento, nos demonstra

que, se tivéssemos a história das antigas leis dos povos, teríamos a

história dos feitos antigos das nações. Porque – nascendo da natureza

dos homens os costumes, dos costumes os governos, dos governos as

leis, das leis os hábitos civis, dos hábitos civis os fatos públicos constantes

das nações, e, com uma certa arte crítica, como aquela dos jurisconsultos,

à certeza das leis reduzindo os fatos de incerta e duvidosa razão – os

verdadeiros elementos da história parecem ser estes princípios de moral,

política, direito e jurisprudência do gênero humano, descobertos por esta

nova ciência da humanidade, sobre os quais se guia a história universal

das nações, que narra os seus surgimentos, progressos, estados,

decadências e fins. 74

 

Parece patente como, no Capítulo IX, a ordem investigada e

conquistada cognitivamente deve ser novamente descrita – seguindo o desenvolvimento de uma tão difícil e desafiadora empresa cognitiva – a partir das configurações do viver mais complexas àquelas mais elementares, atingindo a sequência do seu acontecer segundo um critério genealógico, que, enfim, deve levar não a um fundamento historicamente comum da diversidade das nações, mas a um propriamente natural. Uma vez conhecida tal ordem, pode ser novamente proposta em sua sequência temporal: no interior da qual os “dados”, que analiticamente e sincronicamente contribuíram para formar, em sua complexidade, a história humana, ou a história de toda nação singular desenvolvida, vêm expostos em ordem de comparação temporal: precisamente (a partir da natureza física) “moral, política, direito e jurisprudência”. Por isso, a “nova ciência da humanidade” é uma ciência constitutivamente histórica, uma ciência das nações que se dá na forma de uma “história universal das nações”, em suma, de uma história da civilização.

A fundação em chave “naturalística” dos específicos carácteres

“culturais” das nações (deixando estabelecido que os fenômenos religiosos merecem sempre um discurso a parte) – das “diversas línguas” aos “tantos costumes diversos”, frequentemente “contrários” entre si – não é menos consistente, e acompanhada de indicações mais particularizadas, em importantes páginas das duas versões sucessivas: ali onde, em primeiro lugar, se estabelece e confirma “essa grande verdade: como certamente os povos, pela diversidade dos climas, deram vida à várias e diversas naturezas, de onde saíram tantos costumes diversos; assim, das suas diversas naturezas e costumes nasceram outras tantas diversas línguas”, respondendo, de diversos modos, “às mesmas utilidades ou

necessidades da vida”. 75 Trata-se das páginas que concluem o Livro V das duas edições da grande obra viquiana. Desde o início, com a indicação das razões pelas quais, ao contrário de Roma, “esse curso das coisas humanas civis não foi feito por Cartago, Cápua, Numância” (nos primeiros dois casos, precisamente, por razões “materiais” e, sobretudo, estritamente “climáticas”), aquelas páginas parecem um documento eloquente do essencial empenho do autor na determinação dos caracteres dos povos, dos correlativos costumes e das formas políticas correspondentes, por um lado, fundamentado nos fatores geográficos, por outro, tendo por base as religiões e o cultivo das artes, das letras e das ciências. Assim, pelo menos a segunda dessas duas últimas ordens de fatores (para a primeira as coisas permanecem mais complicadas) parece dever remeter-se, enfim, à primeira, embora Vico não assuma o objetivo de efetuar uma concisa abordagem das relações causais entre fatores “naturais” e “culturais”, e de colocar em discussão a incidência dos segundos sobre os primeiros.

Vale retornar, preliminarmente, à fenomenologia das diversas

influências dos climas: do “frio setentrional” que induz “homens bastante duros e sofridos” (ou “de mentes indolentes”); da “Zona temperada, onde nascem homens de ajustada natureza” (com a “relativa moleza da Ásia”); do “Mezzogiorno” que abunda em “povos muito débeis ou contidos” (onde também o excesso de frugalidade denota uma condição de costumes não equilibrados). Observa-se assim uma fenomenologia das religiões, distanciada daquela verdadeiramente cristã, percorrendo as religiões “brandas” (como a chinesa) e as religiões rudes “fantásticas e ferozes” (como a japonesa), ou do cultivo das letras (entre os chineses) e das ciências (decisivas, na última versão da Scienza nuova, para definir as razões pelas quais somente na Europa existem muitas

Republicas populares 76 ). No clima é reconhecido, portanto, o fator primigênio e persistente da “diversidade”, que deve conjugar-se com aquele “estrutural” das “próprias utilidades e necessidades da vida” (que se dão diversamente nos diferentes lugares naturais) segundo a sequência: “climas” – “diversas naturezas” – “costumes diversos” (“e de tão diversos, por isso, hábitos contrários das nações”) – “tantas diversas línguas, quanto são elas [as nações] diversas”: línguas que não constituem, porém, horizontes de vida e de sentido separados, porque por meio delas se dizem, “com tantos diversos

aspectos”, as mesmas experiências.77

A mais geral divisão climática é aquela tradicional, que, na última

versão da Scienza nuova, torna capital a distinção entre o “frio Setentrião”, de onde saem “homens de mente preguiçosa” (como ocorre em particular na “Moscóvia”), e a “zona temperada”, de “onde nascem homens de ajustada medida”, que, voltando para o meridião, favorece a “nativa agudeza africana”, como aquela dos

cartagineses.78

Ao fator naturalístico climático soma-se, e com ele intervém, o

fator naturalístico geográfico-ambiental: como mostra o caso anômalo de Cápua, condicionado, além da “moleza do céu”, pela “abundância da Campânia feliz” (outro antecedente viquiano dos juízos sobre a pluralidade das condições climático-geográficas das terras do Reino, que se encontram especialmente nos iluministas napolitanos da segunda metade do XVIII, ou em Cuoco). O fato, totalmente contíguo aos romanos, de que os capuanos foram prevenidos pela fecundidade da terra a não seguir o natural (historicamente natural) “curso das coisas humanas”, mostra uma forte influência da “terra”, não segundo o “cientístico” modelo explicativo montesquiano (composição “química” da terra – elementos antropossomáticos), quanto, em vez disso, segundo o modelo: produtividade do solo – abundância de recursos –

delicadeza dos costumes.79

Para além da consistência e importância de tais premissas

“naturalísticas”, a ciência viquiana do mundo das nações as reclamava e as reconduzia, todavia, dentro das sequências do curso histórico e do retroagir da “história” sobre a “natureza”. Tal curso prevê o moverse de todas as nações na direção da “causa final” de “uma completa humanidade” (curso que, por certo, não é uma garantia, mas pode ser “interrompido por causas extraordinárias”), mas admite, também, a aceleração na obtenção desta “humanidade”, que “parece estar difusa por todas as nações, já que poucos grandes monarcas regem esse mundo dos povos”, nisso assistidos principalmente por formas “universais”, “universalizantes”, de religiões, como aquela cristã, ou aquela “branda” dos chineses, assim como, do mesmo modo, o cultivo das “letras” ou das

“ciências” constitui um análogo fator cultural de extremo relevo.80

O pensador napolitano imprimia sobre os caracteres das nações,

em geral, o signo possante da força do “histórico”. Em primeiro lugar, do “histórico sacro”, por assim dizer, essencial para se entender a gênese, a propagação e a caracterização das nações gentias, em seguida, bem mais problematicamente, para se entender a incidência (bastante problemática inclusive na modernidade) que tiveram as “verdadeiras” religiões monoteístas na vida das nações, mas também as pagãs, como aquela branda dos chineses (que enfim se reporta à delicada natureza climática daquelas distantes extensões de terra). Em segundo lugar, do “histórico evenemencial”, por assim dizer, como eloquentemente atestam os exemplos de Numância (logo que “os numantinos, […] sobre o seu primeiro florescer de heroísmo, foram oprimidos pela

potência romana”) ou aquele mais recente dos Americanos.81 Em terceiro lugar, também do “histórico-político”, já que a prudência política, nos tempos nos quais pôde reflexivamente se afirmar, pôde contribuir para conservar, ou melhor, para dispor, aparelhar e fixar os caracteres dos povos. Mas era a “ordem histórica estrutural” do “curso natural das coisas civis humanas” isso a que era necessário apelar, e – novidade absolutamente admirável – ordem histórica do dar-se e formarse da própria estrutura da mente humana. Porque – como vimos precisamente – o “dicionário mental” comum à humanidade, em seu acontecer e constituir-se efetivamente sobre o fundamento conativo da vis veri, representa, na mais profunda forma comum do humano, a presença do universal, do eterno, que só se dá na vicissitude de acontecimento humano, mesmo assim, alheio à opacidade da insensatez e da indecifrabilidade do acidental: acontecimento inacreditavelmente objeto de uma ciência segura sobre o mundo das nações.

Vico confirma-se assim um extraordinário e inovador “pensador do

tempo”, da ordem do tempo humano. E pode-se dizer com isso que, de certo modo, ele “temporaliza” também o “natural” e o “espacial”, deslocando-os para uma escala diacrônica: pelo menos aqueles que são os caracteres naturais antropológicos, que encontram sua matriz originária na naturalidade climática. E, com efeito, a tripartição rudeforte-delicado se dispõe como uma das mais gerais e relevantes sequências temporais. Nesse sentido, também ela se coloca como um objeto primário da ciência do dinâmico mundo civil das nações. Mas para tal ciência, enquanto é ela o instrumento de uma filosofia que deve “auxiliar o gênero humano”, aquela sequência deve ser objeto e ocasião de uma severa e aflita advertência a precaver-se da queda nas insidiosas extenuações da

moleza (a “moleza dos nossos tempos”82), na decadência de uma extrema “delicadeza” desmemoriada da sã rudeza de costumes frugais e da virtuosa fortaleza de comunidades civis encaminhadas rumo à conquista do verdadeiro-justo. Não reagindo às insidias e ameaças daquela decadência, o providencial “remédio” último – como bem sabemos – será o regenerar-se da humanidade, perdida e dispersa na “natureza” alheia, na “grande selva” da terra.

 

Tradução do italiano:

Sertório de Amorim e Silva Neto

 

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