Movimentos Sociais e Políticas Educacionais na Era da Barbárie
Prefácio
Fabiana de Cássia Rodrigues
Faculdade de Educação - Unicamp
Foi Rosa Luxemburg quem formulou: “socialismo ou barbárie” enquanto observava as contradições históricas do capitalismo em sua fase imperialista. Meszáros (2003) acrescentou, elevando o tom dramático: “barbárie se tivermos sorte”. Trata-se do dilema a ser enfrentado em tempos de crise estrutural do capital, em que não há mais resquício de qualquer possibilidade civilizadora: “[…] a influência civilizadora encontra seu fim devastador no momento em que a implacável lógica interna da auto-reprodução ampliada do capital encontra seu obstáculo nas necessidades humanas.” (MÉSZÁROS, 2002, p. 801).
As evidências empíricas são de várias ordens, nunca se gastou tanto com despesas militares no mundo. O orçamento de guerra da maior potência militar do planeta, os EUA, em 2019, foi de US$
684,6 bilhões. 1 A mesma superpotência não consegue evitar em 2020 que sua população esteja entre as mais atingidas pela epidemia de COVID-19. O país possui 4% da população mundial e, segundo dados da Universidade John Hopkins, totaliza 22,6% dos
casos e 21% dos óbitos do planeta por corona vírus2. Trata-se de uma evidência gritante da impossibilidade de responder às necessidades básicas de sua população, enquanto investe esforços colossais em capacidade produtiva de meios de destruição.
A devastação sistemática da natureza está expressa de maneira retumbante na queimada do cerrado e da Amazônia brasileira em 2020. O meio ambiente e indígenas são violentados em sua forma de existência em benefício do latifúndio, da expansão de pasto para o agronegócio e de outros interesses predatórios e mercantis. Traços importantes da lógica destrutiva atual do desenvolvimento capitalista num país de extração colonial como o Brasil.
Assim, o título desta coletânea dialoga com o quadro dramático de crise estrutural do capital produtor da barbárie que vivemos. Os textos aqui apresentados tratam dos encaminhamentos dados à política educacional em um contexto histórico em que há um enrijecimento das formas de dominação burguesa. O escopo do livro, no entanto, é mais abrangente, envolve também experiências de resistência e de educação em movimentos sociais.
No polo da barbárie, apresenta-se o projeto educacional ultraliberal para a juventude. Para os formuladores da política educacional, atentos aos interesses da manutenção da ordem, a questão que desafia é: como formar a nova geração para uma realidade de desemprego estrutural em um país que vive a reprimarização de sua economia? Como educar jovens para o apaziguamento da revolta?
A reforma do ensino médio promulgada em 2017 e os princípios que norteiam a política para a formação da juventude no Brasil trazem respostas: aprofundar o esvaziamento de conteúdos científicos trabalhados nas escolas, intensificar a lógica concorrencial entre os estudantes, professores e escolas. Concebe-se a educação do sujeito empreendedor de si mesmo que para ser bem sucedido deve estar afinado com as competência e habilidades sócio-emocionais, as “big five”: Abertura a Novas Experiências, Extroversão, Amabilidade, Conscienciosidade e Estabilidade Emocional (SMOLKA et all, 2015).
Numa escola que tem como eixo a educação da subjetividade, qual papel cabe ao professor? Melhor seria indagar se nesse projeto de formação há espaço para professores. Seria mais adequado, então, chamá-los de “facilitadores” ou, em versões mais arrojadas, “designers de currículo”? Vislumbra-se, assim, uma escola em que, supostamente, existirão diversas possibilidades de itinerários formativos, com liberdade de escolha e uma formação a serviço de uma produção just-in-time de pessoas adequadas às necessidades efêmeras do mercado.
É preciso ser resiliente para enfrentar um mundo adulto premido por epidemias, por falta de água, pelo aquecimento global e seus desdobramentos que gerarão populações desabrigadas, contingentes enormes de refugiados. Sobretudo, somente com o alcance dessas habilidades seria possível estar preparado para a espera inalcançável de ser bem-sucedido no mercado de empreendedores de si. Para os milhares que não se ajustarem, o sistema carcerário e o genocídio estarão a sua espera, como expressões da política de morte à juventude sob comando do Estado. Em outros termos, trata-se da necropolítica, que conforma uma das faces contemporâneas da barbárie.
Vale dizer que o conjunto de textos aqui expostos tratam de certo modo da ambiguidade da questão colocada por Rosa “Socialismo ou barbárie?”, muito embora no título da coletânea só apareça a dimensão da barbárie.
A crise estrutural do capital põe a nú a contradição de todo o sistema, sua incompatibilidade com as necessidades humanas e, na percepção aguda de Mészáros, seu antagonismo profundo com a continuidade da vida humana. Alguns dos textos apresentados nessa coletânea abordam experiências que portam a utopia da revolução. Ou seja, uma utopia no bom sentido do termo, portadora da premonição de que há possibilidades (ARANTES, 2009).
Florestan Fernandes, lúcido dos limites do capitalismo selvagem, encontrou o caminho do engajamento e da luta pelo socialismo por vias que o fizeram se filiar ao Partido dos Trabalhadores em 1986 e o conduziram à luta pela educação pública na Assembleia Nacional Constituinte em 1987/1988.
Assim como a assunção de fábricas por aqueles que ali de fato produzem porta sementes da emancipação do trabalho e dimensões de uma educação que abre horizontes para outras formas de inserção produtiva, fundadas na organização coletiva e na autogestão.
Em meio à violenta política agrária da ditadura instaurada desde 1964, surgem ocupações de terra que dão origem ao maior movimento de luta pela terra da América Latina, o MST, que adquire bases nacionais nos anos de 1980. Séculos de concentração fundiária, do poder e da dominação do latifúndio, mesmo assim, nasce um forte movimento que levanta a bandeira da reforma agrária. A esta luta unem-se outras dentro do MST: por escola, por financiamento agrícola, por formação profissional; que os permita viver, organizar a produção e trabalhar dignamente. É dentro desse quadro que surge um trabalho sistemático interno ao movimento relacionado ao estudo da agroecologia e escolas de formação voltadas a essas práticas.
Levantam-se contra a barbárie os movimentos negros. Os remanescentes de quilombos abordados neste livro, são prova viva disso, ao forjarem sua identidade político-cultural, seguem resistindo e enfrentando toda sorte de violência e arbitrariedade.
Os polos que compõem o livro conformam quadro necessário para o engajamento no presente e não são estanques. As discussões trazem contribuições para a tarefa de compreender as faces da barbárie, suas determinações e formas de expressão contemporâneas. Entender os rumos que a educação brasileira está tomando pelas políticas adotadas é trabalho urgente dos “idealistas”, como Rosa Luxemburg, que se movem para construção de uma sociedade sobre outras bases e enxergam além, buscam em experiências de luta coletiva a abertura de possibilidades que preservem e vislumbrem futuro digno para a vida humana.
Referências
ARANTES, P. Precisamos de algo politicamente revelador e contundente. In: LOUREIRO, I. (org.) Socialismo ou barbárie? Rosa Luxemburg no Brasil. São Paulo: Rosa Luxemburg Sttifund,
2009. Disponível em: https://rosalux.org.br/wp-
content/uploads/socialismo-ou-barbarie.pdf
MESZÁROS, I. Para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2002.
_____________ O século XXI: socialismo ou barbárie? São Paulo: Boitempo, 2003.
SMOLKA. A. B. (et. all) O problema da avaliação das habilidades socioemocionais como política pública: explicitando controvérsias e argumentos. In: Educ. Soc., Campinas, v. 36, nº. 130, p. 219-242, jan.-mar., 2015.