Musa Velha

Francisco Palha · Capítulo 9 de 35

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Musa Velha

A Julio Cesar Machado

 

que em folhetim do Diario de Noticias dirigira ao

author phrases benevolas

 

Ó Julio, ó meu amigo, o que disseste? Fallar em nós?! Fallar em mim?! Na peste d'esse Parnaso ignobil de ha trinta annos? Fui um asno sem tom, nem som, nem furo; uma coisa p'r'ahi entre os humanos

como entre o trigo o joio; um insensato cuidando toda a vida que o futuro

se faz sómente como o faz o gato

por noites janeirinhas, e o meninod'onde ha de vir ridente, e róseo, e puro,

é da raiz... do verso alexandrino!

Tu verás, se viveres. O destino

se condôa de ti a tempo e a horas,

que eu já não temo nada. N'esta idade quanto mais o doutor me põe escoras

mais depressa galopo á Eternidade.

No dia em que florir a ideia nova

nem restos ha de mim na escura cova.

Depois...

Pensando bem, ás vezes julgo

que não deve ser mau vêr estes numes

na faina redemptora! E, mais, o vulgo já não crê n'outro Deus! Os bons costumes vão apanhar por fim um São Martinho

qual nunca lhes foi dado... excepto em vinho que embrutece a razão! Pois com certeza leva uma razzia o Torres e o Cartaxo!

Ou bem que a gente é gente ou que é um cacho! D'amor, que é velho, temos conversado! Rua com elle! Amor é uma fraqueza.

É velho e cego, e não espera luas,

e quando lhe appetece faz das suas,

e são as suas d'elle o vil peccado!

Basta cortar-lhe bem a ponta da aza

e triumpha a moral. Rapaziada,

nunca mais andarás no mundo em braza

atraz da tua amada!

Mudei de metro como d'alimaria

muda Tinoco, o bravo, na tourada,

pois quanto em verso a fórma fôr mais vária

menor é a massada.

Calcule-se o porvir pelo presente.

Nós somos democratas;

e fique o ponto assente.

Noventa e tres é tudo quanto, em datas,

a Historia nos tem dado

mais nobre, e santo, e digno de imitado.

Amor... e guilhotina!

Luz d'uma aurora, d'um incendio chamma! Mayonnaise de sangue e de doutrina! Quanto o homem sublima e quanto o infama!

Noventa e tres e a França!

Eis o lemma, eis o exemplo, a viva esp'rança.

Anda tu cá, ó lemma, que te quero!

Dom Bertholdinho a dar-se um ar de Nero!Somos, sim, democratas... á capucha;

Marats de sêda frouxa; uma chalaça

com Marselheza indigena,—a Cachucha.

Palavra! que tem graça!

Que o bom senso, tão raro! nos acuda;

nos tome um dia a sério!

Não ha Sebastião nenhum da Arruda,

suando phalansterio,

que não mande estampar nos seus bilhetes armas ducaes, brazões de pataratas!

Morremos por trincar a monarchia;

mas trincamos-lhe a ceia e os sorvetes emquanto lá do ceu Deus não envia novo maná... de instituições baratas!... Uns typos! Bons, pacatos, sem ter odios nem bombas... a não ser de Santo Antonio, bombas de luxo, bombas só de estrondo; indo buscar pretextos para brodios

a casa do demonio,

e quando os não achamos

nem dentro em nossa casa nem na estranha, calçado a polimento o pé redondo,

vazio o coração, repleta a entranha,

vêr desfilar a procissão de Ramos.E n'este ambiente, em pleno Rilhafolles,

no ardor da Saturnal, sonhaste, ó Julio, que um velho gordo, com as carnes molles,

sem ter outro peculio

além do rheumatismo, sertanejo,

viria em petit-maitre dar aos folles do outr'ora enamorado realejo?

Desde que o maganão do deus Cupido

não tem na aljava setta que me fira,

passou-me do sentido

tudo quanto em rapaz tanto sentira.

Rabisaltona musa é hoje em dia

quem me ampara e conforta, e quem me inspira. Quando fugir, morri. Outra alegria

qual te foi dada a ti, sol na velhice, conceder-m'o não quiz quem bem podia.

E fez uma tolice.

Eu sei se a fez, ou não; modestia á parte.

E só para dizer-te uma palavra

d'affecto e gratidão moí d'est'arte

a tua paciencia! Antes do Lavra subisses a calçada, ou lesses uma peça premiada.

Era muito, bem sei; mas era menos.

Obrigado, meu Julio. Isto, em resumo, devera ter escripto. O mais é fumo.

Deixa-o seguir no espaço o ignoto rumo, e dá saudades minhas aos pequenos.