Musa Velha

Francisco Palha · Capítulo 29 de 35

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Musa Velha

Onze de Novembro

 

 

É noite de São Martinho,

rival do velho Noé.

Cae agua em logar de vinho,

e—milagre!—o meu visinho

entra em casa por seu pé!...

Memorias do alegre santo,

porque é que tanto duraes

se eu já nem bailo nem canto

dês que me deram quebranto

as peças originaes?!

Até as caras meninas,

socias minhas na funcção,

rosas, d'antes, purpurinas,

por muito favor—cravinas...

d'Ambrosio cravinas são.

Martinho, ao que chega a gente!

Ellas feitas uns pasteis

de carne velha e doente;

eu comprando cada dente

por tres e quatro mil reis!

Bem me toucaram taes flôres!

Bem com ellas me touquei!

Da cabeça agora as dôres

quem m'as faz são os tenores,

as portarias, e a lei!

A lei!... a eterna cantiga!

o eterno sarapatel!

Na nossa edade, e na antiga, lá para uns certos—espiga;

lá para uns outros—papel.

Só uma córta direito:

só a lei da morte é egual.

Para calcular-lhe o effeito

vou, deitado no meu leito,

dormir um somno real.