Musa Velha

Francisco Palha · Capítulo 31 de 35

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Musa Velha

Em Cintra

 

Tal qual como o sacrista,

o velho Catecismo soletrando,

primeiro se espreguiça;

cabeceia depois de quando em quando;

por fim já não atina

se ha tres, se um cento d'inimigos d'alma;

meninos e doutrina,

rosnando manda á missa;

engendra um travesseiro da batina;

deita-se e dorme emquanto dura a calma: farto da vida fui-me estiraçando

n'este alcantil, onde aves de rapina fizeram ninho outr'ora.

Ao longe o sol declina;

já sobre as ondas arde.

Soltando a voz sonora

n'um murmurio suave expira a tarde.

Ai! quem me dera aqui morrer agora!... Não ha somno melhor!... Somno?... Sería?... Eu penso que não é, que sentiria

em torno do meu sêr, do meu sêr novo, uma coisa qualquer que a phantasia

não ousa precisar, á qual aspiro,

para a qual vou fugindo, que me chama, na qual hei de caír como em seu giro

alado insecto vae caír na chamma.

Não é tolice, não. Quem n'este mundo

diria afoito ao sabio mais profundo,

se n'esse tempo o mundo sabios tinha, que dentro da gallinha estava um ovo

e dentro d'aquelle ovo outra gallinha?... Assim succede em tudo. Muda a fórma;as condições variam da existencia;

mas, por mais que a materia se transforma, intacta se conserva sempre a essencia. Logo: hei de viver. Ter consciencia

d'aquillo que então fôr!...

UM CORVO (que fende o espaço, grasnando)

Senil demencia!

Sobre essa rocha estoira como um ôdre:

terás a mesma sorte

de tudo quanto é pôdre.

Serei eu só bastante

para fazer-te o corpo n'um farrapo.

Que vida has de viver desde esse instante

mettido no meu papo?

Aonde a consciencia?... o sentimento?...

Perante a Eternidade

tu duras um momento.

Serviste o pensamento

da grande Divindade;

depois!... Depois da morte

não és coisa que importe

do mundo ao movimento.

UMA ANDORINHA (chilreando em roda da penedia)

Ai! terra onde nasci!

Ai! dôce patria minha!

tão longe eu sou de ti!...

Saudosa do palmar,

aqui, pobre avesinha,

errante a voltear.

Um dia... qual—não sei...

um dia, em vindo o inverno,

de novo á patria irei.

Então sob o docel

d'aquelle azul eterno,

nos plainos meus d'Argel

Emfim serei feliz!

Nenhuma primavera

roubar-me ao meu paiz

Jamais conseguirá!...

Uma outra pátria, espera,

tambem te surrirá.

UM SAPO (no fundo do valle)

Cantigas! boas cantigas

lá por cima oiço cantar.

Do que vae cá pela terra

entendem mais as formigas,

sabem mais reptis na serra

que os passarinhos no ar.

Deixa piar a andorinha.

Bem facilmente se ad'vinha

a tua sorte futura. Tu és, amigo, a doninha.

É teu sapo a sepultura.

Cantigas! Boas cantigas!

Quem trinca, trinca; trincou.

As doninhas que hei papado

por mais figas, figas, figas

que as outras me têm armado,

ninguem d'aqui m'as levou!

O PINHAL (ao longe)

N'um cantico dolente

meus hymnos rumorejo.

É Deus que passa em mim; o Deus que eu vejo em tudo o que palpita, e vive, e sente.

Ó balsamica rosa,

quando a fragrancia exhalas docemente

da petala mimosa;

lá quando do teu seio,

tepido ninho d'um amor fremente,

irrompem n'um gorgeio

maternas alegrias,é Deus que passa, o rosto surridente,

cercado de harmonias.

O SINO DA PENA

Dong!...

Dong!...

Dong!...

UM VELHO QUE VAE NA ESTRADA (tirando o barrete)

Avè, Maria,

cheia de graça...

O SINO

Dong!...

Dong!...

Dong!...N'estas auras subtis do fim do dia —descobri-vos, mortaes!—é Deus que passa.

Dong!...

Dong!...

Dong!...

Desde a remota edade á edade hodierna Descrença e Fé por esse mundo fóra

vão em perpetua luta caminhando.

Da Sciencia os cartapacios consultando em Deus não crê, não crê na vida eterna quem da eterna sciencia tudo ignora.

Sei d'alguns que não crêem... porque é moda... por ser qualquer idea contrabando

em casco avariado. Finalmente,

crêr, ou não crêr, a certos pouco importa,

por isso que incommoda

andar com seus botões pensando a gente no fim que ha de levar depois de morta.

Eu á Sciencia estranho e bom jarreta, eu que penso em morrer, por ser um vivo que fecha a mala e puxa da gorgeta,encontro ás minhas maguas lenitivo

crendo que ambas as coisas não são pêta. Tudo em roda de mim é o grande effeito d'uma causa maior, cuja existencia

dois principios envolve fatalmente;

amor e omnipotencia:

poder que salva; amor sempre clemente.

Isto me fique ao menos! Hei mudado

de pensar e sentir bastantes vezes.

Só não pude sentir nem ter pensado

ser o mundo um curral, e nós—as rezes.