Musa Velha

Francisco Palha · Capítulo 28 de 35

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Musa Velha

Ás Rãs Pedindo Rei

 

Traducção da fabula de Lafontaine—L

G

 

Viviam certas rãs n'um charco immundo em republica plena. Era um pagode!

Tal qual uns democratas que ha no mundo julgando que a republica, no fundo,

outra coisa não é senão a gente

fazer o que bem quer e quanto póde,

a rã tripudiava impunemente.Todos os dias era certo o choque entre o batrachio forte, intransigente, e parte da nação já descontente

que a Jupiter pedia ou rei ou roque.

O deus fez-lhe a vontade.

Largou-lhe lá do ceu um rei pacato,

de summa gravidade.

Das alturas tombando, o rei na quéda

fez tal espalhafato,

que as fêmeas em pavor, os machos fulos, aquellas saltitando, estes aos pulos, como é uso das rãs nas grandes crises, cada qual a gritar:—arreda! arreda!—

entre os juncaes, no lôdo, nas raizes dos salgueiraes se enreda.

*

Por longo tempo em seus esconderijos

das rãs esteve homiziado o povo.

Transformaram-se em medo os regosijos da antiga bacchanal. Gigante novo

cuidavam ser o rei que o ceu lhes déra. Não ousavam sequer saír da tóca;

pois, não raro, os instinctos maus da fera por imprudente a presa é que os provoca.

Já n'essas eras muito a pêllo vinha

dizer: Cautela e caldos de gallinha... O rei era um pedaço de madeira.

Nem mais, nem menos.

N'uma bella tarde

uma das rãs, por ser menos covarde

ou mais bisbilhoteira,

tirou-se de cuidados, manso e manso

na flôr das aguas surge, e ás guinadinhas

com muito tento e geito

do cêpo se aproxima.Após ella vem outra... e outra... aos centos.

Vendo que o rei não sae do seu ripanso, rodeiam-no; coaxam: Salta acima!... e coaxado e feito!...

O rei, temido outr'ora, ás pecuinhas

d'essa chusma villã se vê sujeito.

Em rapido momento

sobre elle a malta audaz se encarapita, e faz do bom monarcha um bom assento. Nem chus nem bus! Calado que nem porta, qual fôra n'outros tempos!...

Isto irrita.

Rompem as rãs então n'uma algazarra

que o pantano atordôa,

os fios d'alma a quem as ouve corta.

«Leva d'aqui, ó Jove, esta almanjarra que nem mexe, nem pune, nem perdôa,

e mais parece uma alimaria morta,

cabide d'uma c'rôa,

em vez de nosso rei—nossa vergonha!»

Vae Jupiter que faz? Uma cegonha,

das muitas que possue, logo destaca,

e manda que das rãs ponha e disponha, n'uma das mãos o queijo e n'outra a faca.Ora a cegonha, apenas em seu throno

dona das rãs se vê e sem ter dono,

diz comsigo:

—Nasci dentro d'um folle!

Quem tira agora o papo da miseria

sempre sou eu!...—

Passeia toda séria,

perna aqui... perna além, n'um andar molle, e quanta rã apanha quanta engole.

*

Geral consternação o charco enluta.

Renovam-se as lamurias:

que o rei é doido e tem ás vezes furias; que, doido ou não, o povo trata á bruta; por fim, que faça o deus formal promessa d'outro rei que as não coma tão depressa! O Jupiter tonante

d'est'arte lhes responde:

«Inutil prece!

Dei-vos um rei tranquillo, inoffensivo, que nem sempre se tem nem se merece:

um rei que era um regalo!

Foi vêl-o e pôl-o pela barra fóra!

Dei-vos segundo: um genio um pouco vivo...

um pouco extravagante...

Meninas, aguental-o!

Era bom o primeiro e foi-se embora.

É mau este de agora.

Contentae-vos com elle, ó meus endezes, pois venha quem vier... peior mil vezes.»