Musa Velha

Francisco Palha · Capítulo 6 de 35

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Musa Velha

Mal por Mal...

 

Eu trago em minh'alma afflicta

revolto mar de agonias.

Tedio da vida os meus dias,

as minhas noites, agita.

Ó minhas crenças d'outr'ora,

dôces amigas da infancia,

a que longinqua distancia

do meu peito andaes agora!

N'esta cerração escura

assim me deixaes sósinho!

e sem que volteis ao ninho

baixarei á sepultura!

De mim te acerca bem perto,

ó morte! No estreito abraço

vôa commigo no espaço,

leva-me d'este deserto!

Mas se na mansão infinda,

onde librar-me tencionas,

nos dão as mesmas taponas

com que a sorte aqui nos brinda;

Se esguio velhote avaro

n'essas alturas se encontra,

com seu barrete de lontra,

olhar e sorriso ignaro;

De fallas mansas, beato

para vêr se os santos pobres,

saudosos dos magros cobres, lhe vão empenhar o fato;

Se o operario, se o povo

crê tambem que o mundo em ruina

ha de saír da officina

corrigido e mundo novo.

E em lutas, que são eternas

por lhe ser eterna a peia,

quebrar pretende a cadeia

e quebra a si proprio as pernas;

Se n'esse logar bemdito

pisamos a mesma lama

que sobre a terra se chama

—O Asmodeu,—O Mosquito—;

Se é Mercurio almiscarado

o filho de Compostella;

se por ventura um Alviella

tem lá de ser encanado;

Se o Milhão é quem impera;

se se fez Deus o egoismo;

se ha dôres de rheumatismo,

e nas vinhas phylloxera:

Fecha, ó anjo, as negras azas!

que em tal apuro, olha o rente!

tanto faz morrer a gente

como mudar-se de casas!