Musa Velha
O Meu Tinteiro
Era em agosto. O norte, desabrido,
mugindo como um toiro, sacudia
os troncos do arvoredo. Ia-se o dia:
um dia d'amarguras tão comprido
que eu cheguei a pensar que a Eternidade nas chammas infernaes já me envolvia! Por meu mal terminou! que um outro veio depois d'aquelle, e foi peior mil vezes!A minha irmã, á dôce companheira
da longinqua, saudosa mocidade,
coubera, nova ainda, a feliz sorte
de ter, após tres longos, tristes mezes d'um filho haver perdido, achado a morte.
Antes d'ella expirar, á cabeceira,
em torno do seu leito, se agrupára
tudo quanto durante a vida inteira
fôra por ella amado, e tanto a amára. Eu, fingindo sorrir, assim dizia:
«Agora estás melhor. No rosto as rosas da antiga primavera! Olhos em fogo!
Uns olhos como d'antes! Vês, Maria,
que estás melhor agora?! Em desafogo
respira o peito já! Estas nervosas
dão vontade de rir! Que espalhafato!
Um cortejo de coisas! Raça estranha!
Por isso o outro fez com que a montanha désse, aturdindo a terra, á luz um rato! Vae a galope a enferma que melhora.
Ámanhã, ou depois, saltarás fórad'essa importuna cama. O que te cança
é ter o corpo ahi. Vamos a Piza
passar o inverno todo. Alli serenos
são sempre os ceus. Alli tepida a briza dá vida a um velho! Então a uma criança!
«Tontinha é o que tu és! que estás chorando! sem que saibas porquê, aposto, ao menos! Iremos todos, grandes e pequenos!
Quasi uma romaria, um cirio, um bando d'alegres passarinhos chilreando
por essa Europa além! Tu, pregoando:
Quem quer saude? Quem? Vende-se e dá-se!irás distribuindo, co'a mão cheia
d'essas papoilas, um bouquet vermelho que pouco e pouco a desbotada face
ha de tingir-te e... até fazer-te feia!»
—Iremos todos, sim!—fraca, tossindo,
a pobre interrompeu:—Sim!... Vamos indo. É então ámanhã que eu d'aqui saio?
Depressa ámanhã vem! Dá-me esse espelho. Se tu não mentes devo estar um Maio!—Mirando-se, volveu:—A minha pena
é que... ellas... me não vejam n'este instante em que finda a comedia e deixo a scena! Se eu não soubesse que este mundo é um sonho; se trouxesse o meu Deus de mim distante; como este despertar fôra medonho!—
Depois foi repartindo as suas prendas por quantos eram lá.
—A ti... primeiro.
Lego-te... dou-te... aquelle meu tinteiro. Tu fazes versos. Sei que não te emendas; sempre te serve aquillo!—
Desde ess'hora,
e já lá vão cumpridos bons trinta annos, quando me engano a mim n'esses enganos da musa brincalhona, raro mólho
a penna folgazã que me não traga
nos bicos uma lagrima.
Ai!... Eu ólho...
aos abysmos do mar pergunto: «A vaga, que eu vi sumir-se, onde é?»
E o mar afaga
a praia em que a deixei, e vae-se embora, e volta, e vae! mas não responde; chora.