Musa Velha

Francisco Palha · Capítulo 11 de 35

Páginas do PDF

Musa Velha

O Meu Tinteiro

 

Era em agosto. O norte, desabrido,

mugindo como um toiro, sacudia

os troncos do arvoredo. Ia-se o dia:

um dia d'amarguras tão comprido

que eu cheguei a pensar que a Eternidade nas chammas infernaes já me envolvia! Por meu mal terminou! que um outro veio depois d'aquelle, e foi peior mil vezes!A minha irmã, á dôce companheira

da longinqua, saudosa mocidade,

coubera, nova ainda, a feliz sorte

de ter, após tres longos, tristes mezes d'um filho haver perdido, achado a morte.

Antes d'ella expirar, á cabeceira,

em torno do seu leito, se agrupára

tudo quanto durante a vida inteira

fôra por ella amado, e tanto a amára. Eu, fingindo sorrir, assim dizia:

«Agora estás melhor. No rosto as rosas da antiga primavera! Olhos em fogo!

Uns olhos como d'antes! Vês, Maria,

que estás melhor agora?! Em desafogo

respira o peito já! Estas nervosas

dão vontade de rir! Que espalhafato!

Um cortejo de coisas! Raça estranha!

Por isso o outro fez com que a montanha désse, aturdindo a terra, á luz um rato! Vae a galope a enferma que melhora.

Ámanhã, ou depois, saltarás fórad'essa importuna cama. O que te cança

é ter o corpo ahi. Vamos a Piza

passar o inverno todo. Alli serenos

são sempre os ceus. Alli tepida a briza dá vida a um velho! Então a uma criança!

«Tontinha é o que tu és! que estás chorando! sem que saibas porquê, aposto, ao menos! Iremos todos, grandes e pequenos!

Quasi uma romaria, um cirio, um bando d'alegres passarinhos chilreando

por essa Europa além! Tu, pregoando:

Quem quer saude? Quem? Vende-se e dá-se!irás distribuindo, co'a mão cheia

d'essas papoilas, um bouquet vermelho que pouco e pouco a desbotada face

ha de tingir-te e... até fazer-te feia!»

—Iremos todos, sim!—fraca, tossindo,

a pobre interrompeu:—Sim!... Vamos indo. É então ámanhã que eu d'aqui saio?

Depressa ámanhã vem! Dá-me esse espelho. Se tu não mentes devo estar um Maio!—Mirando-se, volveu:—A minha pena

é que... ellas... me não vejam n'este instante em que finda a comedia e deixo a scena! Se eu não soubesse que este mundo é um sonho; se trouxesse o meu Deus de mim distante; como este despertar fôra medonho!—

Depois foi repartindo as suas prendas por quantos eram lá.

—A ti... primeiro.

Lego-te... dou-te... aquelle meu tinteiro. Tu fazes versos. Sei que não te emendas; sempre te serve aquillo!—

Desde ess'hora,

e já lá vão cumpridos bons trinta annos, quando me engano a mim n'esses enganos da musa brincalhona, raro mólho

a penna folgazã que me não traga

nos bicos uma lagrima.

Ai!... Eu ólho...

aos abysmos do mar pergunto: «A vaga, que eu vi sumir-se, onde é?»

E o mar afaga

a praia em que a deixei, e vae-se embora, e volta, e vae! mas não responde; chora.