Musa Velha

Francisco Palha · Capítulo 12 de 35

Páginas do PDF

Musa Velha

A Venus Nova

 

Não, Rachel, não desvario.

Venus, o estylo é antigo,

os seus dotes repartio

bem largamente comtigo.

Deu-te esse corpo divino!

esses seios palpitantes!

Fosse eu inda pequenino

e tu minh'ama! Que instantes!

Por ser branca e por ser loira

tem o loiro em menos preço;

por isso te deu da moira

o negro cabello espesso.

Chega aos olhos... De repente

vê que não tem na palheta

côr nenhuma refulgente

para imitar um planeta.

Corre logo á fonte limpa;

e procedeu com acerto

que em ocios não se repimpa

quem se encontra em duro aperto.

«Ó dôce noite», ella exclama.

«Tu tens estrellas a esmo.

Duas quero em rubra chamma,

quasi soes; dois soes. É o mesmo.»

A Noite, que é velha fina,

e foi sempre a Venus dada,

responde:—Minha menina, só para a outra fornada.—

«Pois ao forno! e já! que eu pago!»

A Noite, ouvindo-a, lampeira.

A estrada de São Thiago

deitou logo na caldeira.

Fogo ao lado, e fogo ao centro!

Quando a fervura era viva

o sete-estrello p'ra dentro!

e folhas de sensitiva!

Ao cabo de poucas horas

em duas orbitas fundas

despejou duas auroras

com que est'alma em luz inundas.

Venus pulou de contente;

mas depois... (que são mulheres!)

disse á outra em tom plangente:

«Adeus!... O que tu quizeres!...

«Fizeste-a fresca! Eu reinava.

Era no Olympo a mais bella.

Passei de rainha a escrava.

A Venus agora... é ella!»