Musa Velha
Sentença
Estes autos correndo folha a folha,
d'elles fica provado á saciedade
que tem bolha a Nação, e que tem bolha
o Palha da Trindade.
Marfára-se o jornal só porque em scena
mostrára certa artista
uma das pernas gordas, e essa—obscena,O Palha redarguiu: que era uma pena
e, mais, uma injustiça
tratar como se fôra de corista
a perna d'uma actriz—das de mão cheia;
—que a perna era a cubiça
do velho jornalista;
—que o ferro d'elle, o ferro... era que a meia cobrisse aquella gambia tão roliça;
por fim—que era um sacrista...
insulto enorme a quem ajuda á missa!
Ás partes deu-se vista
da perna questionada. Era postiça.
Recalcitra a Nação, accesa em febre: —que fôra burla torpe, e facto novo
em terra portugueza, dar-se ao povo
um gato em vez de lebre.
—Que falsa ou verdadeira a perna fosse, de rama d'algodão, ou simples cana,
sempre era perna, e gratis dava um dôce a quem de lhe morder não désse a gana.
D'ahi a grave offensa
á pureza moral da raça humana;
a indignação immensa d'uma sã consciencia ultramontana!—Que o Palha tambem fôra antigamente
irmão na sacristia
levantando a ração, conforme a havia,
e sempre com bom dente.
—Que lá n'um bello dia
fugira como um burro cacilheiro
sem lhe gritarem: Chó!... Que santa gente!
Que o réles emprezario, tendo o fito
nas cruzes do dinheiro,
trazia todo inteiro,
aos pinchos, dentro em si, um vil cabrito: a fórma d'animal mais predilecta
do Belzebuth maldito
quando a noss'alma empanzinar projecta. —Que os paes, avós, emfim toda a Palhada que jaz na cova, qual vivera, honrada,
por causa da tal perna
ficára condemnada
d'uma eterna vergonha á dôr eterna.
O réo contesta, e diz:
—Que era verdade
haver por lá andado;
mas n'uma tal edade
que não chegára nunca a ser ferrado.
—Que o tinham n'um cerradoonde brotava apenas a Saudade;
constante era a estiagem;
o ceu caliginoso;
de lagrimas sómente a beberagem;
por festa o cardo; espinhos só por goso. —Que tiritando ali, aguado o pêllo,
extincto o movimento,
transportado se vira n'um momento
ás pávidas mansões do eterno gêlo.
—Que, lá muito de longe, a Liberdade
lhe fez então negaças.
«Tens frio?... Vem. Aqueço. A escuridade é de razão deixal-a á sepultura,
veu das caveiras, manto das carcassas! Chama-te a luz! a luz que vem da altura dos iriados ceus!... Surge!... Caminha!... Quanto mais caminhar a humanidade
do espirito de Deus mais se avisinha.»
Apoz da seducçáo d'aquelle canto,
ouvindo aquelles hymnos,
homem por elles feito, erguida a fronte, partira ancioso em busca do horisonteonde, envolvida em nimbos purpurinos,
c'roada d'amaranto,
a deusa refulgia.
Partira. Fôra. E não se arrependia.
Conspurcal-a pretendem? Na passagem
cospem-lhe insultos? Baixam-lhe a pagode o templo augusto? Arrastam-na á voragem? Ella é pura sempre; é sempre forte!
Póde velar seu rosto; só não póde,
sem que renasça, captival-a a morte!
E disse mais. E disse d'esta sorte:
—Que mesmo ao Santo Padre, e mais é santo, não faz o dinheirinho um mau cabello... nem, em nome de Pedro, recebêl-o.
Para engeital-o, em menospreço tel-o, nas mãos como José largar-lhe o manto, um pobre peccador e Belisario,
seria necessario
que fosse um dromedario;
que fosse um gran camêlo!
—Que exhibir uma perna no theatro
não era nada comparado ás quatrosobre as quaes a Nação a qualquer hora
vae, cabisbaixa, manquejando legoas
por esse paiz fóra.
—Que em seu rancor profundo,
sendo christã, não dera ao menos tregoas áquelles que dormiam descançados
nas sombras do outro mundo!...
Coitados!...
Sim; coitados!
Empenharam-se juntos na batalha
em pró do mesmo rei. Nos mesmos fossos o mesmo pó morderam. Na mortalha
nem isso lhes valeu!
Ai! pobres ossos!
Ouvidos por tal fórma ambos os lados; e
—Sendo mais que certo
que a folha authora, os olhos pondo em Christo, por um cantinho d'elles já tem visto
pernas no palco, e pernas mais ao perto, sem que torça o nariz ou mostre nojo;—Não podendo a Moral chegar tão longe
que exija a cada canto um Varatojo,
nem de cada mortal engendre um monge
dormindo sobre o tojo;
e
Visto que a Nação no seu ataque foi rude, e foi cruel, e deu motivo
do Palha ao fogo vivo
que a poz, no ardor do saque,
pouco mais, pouco menos, como um crivo;
—Sendo que o Palha, embora na defeza,
faltou ás leis da guerra
contundindo a Nação prostrada em terra; inutil, bestial, impia fereza,
inda em cima aggravada na certeza
de estar sovando um martyr;
Attendendo
a ter o mesmo reu a consciencia
do mal que procedia
quando, esquecendo a antiga convivencia
por futil ninharia,
em vez de lhe deitar logo um remendo
se poz a esg'ravatar na porcaria;
Manda a Justiça, a cega, a que é machucha,
a pomba immaculada,
a fossil que nem chuchanem consente sequer em ser chuchada;
ordena a incorruptivel,—Deus lhes valha!... que vejam bruxa os dois! Veja uma bruxa a bruxa da Nação! Veja outra o Palha.
Assim, condemno os dois da vida airada.
Em castigo ao jornal seja o Libello,
n'um livro, publicado. E que o releia, (pequena penitencia ao grande excesso!) quem á bilis soez abriu a veia.
Saibam-lhe a fel, e trinque-os sempre á ceia, os fructos do seu odio!
Dal-o ao prelo,
dar-se a si mesmo em elzevir impresso, jungidos ambos, presos n'um só elo,
do Palha a pena seja, e o seu flagello!
Na mesma falta incursos,
e n'outra falta ainda, a de recursos, paguem os dois as custas do processo.
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