Musa Velha

Francisco Palha · Capítulo 35 de 35

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Musa Velha

Sentença

 

Estes autos correndo folha a folha,

d'elles fica provado á saciedade

que tem bolha a Nação, e que tem bolha

o Palha da Trindade.

Marfára-se o jornal só porque em scena

mostrára certa artista

uma das pernas gordas, e essa—obscena,O Palha redarguiu: que era uma pena

e, mais, uma injustiça

tratar como se fôra de corista

a perna d'uma actriz—das de mão cheia;

—que a perna era a cubiça

do velho jornalista;

—que o ferro d'elle, o ferro... era que a meia cobrisse aquella gambia tão roliça;

por fim—que era um sacrista...

insulto enorme a quem ajuda á missa!

Ás partes deu-se vista

da perna questionada. Era postiça.

Recalcitra a Nação, accesa em febre: —que fôra burla torpe, e facto novo

em terra portugueza, dar-se ao povo

um gato em vez de lebre.

—Que falsa ou verdadeira a perna fosse, de rama d'algodão, ou simples cana,

sempre era perna, e gratis dava um dôce a quem de lhe morder não désse a gana.

D'ahi a grave offensa

á pureza moral da raça humana;

a indignação immensa d'uma sã consciencia ultramontana!—Que o Palha tambem fôra antigamente

irmão na sacristia

levantando a ração, conforme a havia,

e sempre com bom dente.

—Que lá n'um bello dia

fugira como um burro cacilheiro

sem lhe gritarem: Chó!... Que santa gente!

Que o réles emprezario, tendo o fito

nas cruzes do dinheiro,

trazia todo inteiro,

aos pinchos, dentro em si, um vil cabrito: a fórma d'animal mais predilecta

do Belzebuth maldito

quando a noss'alma empanzinar projecta. —Que os paes, avós, emfim toda a Palhada que jaz na cova, qual vivera, honrada,

por causa da tal perna

ficára condemnada

d'uma eterna vergonha á dôr eterna.

O réo contesta, e diz:

—Que era verdade

haver por lá andado;

mas n'uma tal edade

que não chegára nunca a ser ferrado.

—Que o tinham n'um cerradoonde brotava apenas a Saudade;

constante era a estiagem;

o ceu caliginoso;

de lagrimas sómente a beberagem;

por festa o cardo; espinhos só por goso. —Que tiritando ali, aguado o pêllo,

extincto o movimento,

transportado se vira n'um momento

ás pávidas mansões do eterno gêlo.

—Que, lá muito de longe, a Liberdade

lhe fez então negaças.

«Tens frio?... Vem. Aqueço. A escuridade é de razão deixal-a á sepultura,

veu das caveiras, manto das carcassas! Chama-te a luz! a luz que vem da altura dos iriados ceus!... Surge!... Caminha!... Quanto mais caminhar a humanidade

do espirito de Deus mais se avisinha.»

Apoz da seducçáo d'aquelle canto,

ouvindo aquelles hymnos,

homem por elles feito, erguida a fronte, partira ancioso em busca do horisonteonde, envolvida em nimbos purpurinos,

c'roada d'amaranto,

a deusa refulgia.

Partira. Fôra. E não se arrependia.

Conspurcal-a pretendem? Na passagem

cospem-lhe insultos? Baixam-lhe a pagode o templo augusto? Arrastam-na á voragem? Ella é pura sempre; é sempre forte!

Póde velar seu rosto; só não póde,

sem que renasça, captival-a a morte!

E disse mais. E disse d'esta sorte:

—Que mesmo ao Santo Padre, e mais é santo, não faz o dinheirinho um mau cabello... nem, em nome de Pedro, recebêl-o.

Para engeital-o, em menospreço tel-o, nas mãos como José largar-lhe o manto, um pobre peccador e Belisario,

seria necessario

que fosse um dromedario;

que fosse um gran camêlo!

—Que exhibir uma perna no theatro

não era nada comparado ás quatrosobre as quaes a Nação a qualquer hora

vae, cabisbaixa, manquejando legoas

por esse paiz fóra.

—Que em seu rancor profundo,

sendo christã, não dera ao menos tregoas áquelles que dormiam descançados

nas sombras do outro mundo!...

Coitados!...

Sim; coitados!

Empenharam-se juntos na batalha

em pró do mesmo rei. Nos mesmos fossos o mesmo pó morderam. Na mortalha

nem isso lhes valeu!

Ai! pobres ossos!

Ouvidos por tal fórma ambos os lados; e

—Sendo mais que certo

que a folha authora, os olhos pondo em Christo, por um cantinho d'elles já tem visto

pernas no palco, e pernas mais ao perto, sem que torça o nariz ou mostre nojo;—Não podendo a Moral chegar tão longe

que exija a cada canto um Varatojo,

nem de cada mortal engendre um monge

dormindo sobre o tojo;

e

Visto que a Nação no seu ataque foi rude, e foi cruel, e deu motivo

do Palha ao fogo vivo

que a poz, no ardor do saque,

pouco mais, pouco menos, como um crivo;

—Sendo que o Palha, embora na defeza,

faltou ás leis da guerra

contundindo a Nação prostrada em terra; inutil, bestial, impia fereza,

inda em cima aggravada na certeza

de estar sovando um martyr;

Attendendo

a ter o mesmo reu a consciencia

do mal que procedia

quando, esquecendo a antiga convivencia

por futil ninharia,

em vez de lhe deitar logo um remendo

se poz a esg'ravatar na porcaria;

Manda a Justiça, a cega, a que é machucha,

a pomba immaculada,

a fossil que nem chuchanem consente sequer em ser chuchada;

ordena a incorruptivel,—Deus lhes valha!... que vejam bruxa os dois! Veja uma bruxa a bruxa da Nação! Veja outra o Palha.

Assim, condemno os dois da vida airada.

Em castigo ao jornal seja o Libello,

n'um livro, publicado. E que o releia, (pequena penitencia ao grande excesso!) quem á bilis soez abriu a veia.

Saibam-lhe a fel, e trinque-os sempre á ceia, os fructos do seu odio!

Dal-o ao prelo,

dar-se a si mesmo em elzevir impresso, jungidos ambos, presos n'um só elo,

do Palha a pena seja, e o seu flagello!

Na mesma falta incursos,

e n'outra falta ainda, a de recursos, paguem os dois as custas do processo.

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