Musa Velha

Francisco Palha · Capítulo 10 de 35

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Musa Velha

Dies Irae

 

É novembro, e faz um frio!

Eu então é que ando em braza!

Pudera! se o senhorio

me pede a renda da casa!

Réles cobre em vão recruto

no lidar da vida insano.

Desertam n'um só minuto

as vis poupanças d'um anno.

Embora á carne dê tratos,

á velha carne exigente,

deixando passar os pratos

sem pôr nos piteus o dente;

Embora esguia quinzena

traga já no extremo fio,

e córte a rara melena

só pelas calmas, no estio:

Não coalha esta formiga

nem grão, nem sequer paveia!

Sempre na mesma fadiga,

enche... vasa... o pé da meia!

Sob o teimoso aguaceiro

de tanta renda de casas,

depennado, em meu poleiro,

metto a cabeça nas azas.

Cança o sorrir da ventura;

o rigor da sorte cança;

só por entre o que não dura vae sempre durando a esp'rança.

Eu espero a moradia,

onde de graça me acoite,

no seio da terra fria;

nas sombras da infinda noite!

Ao menos no eterno gelo,

nos fundos antros escuros,

não terei por pesadêlo

meus senhorios futuros!

Um é Deus: a esse um amigo

satisfaça em padre-nossos.

Outro é o verme: eu cá o espigo

dando-lhe em paga os meus ossos.