Musa Velha

Francisco Palha · Capítulo 22 de 35

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Musa Velha

Capítulo IX

Este aranzel, espremido

n'uma phrase clara e chã,

quer dizer:—era manhã,

e a solfa dos caldeireiros

matava o bicho do ouvido

na rua Augusta aos parceiros.

 

IX

 

Cheguei a casa. Quem ama

tambem dorme o seu bocado;

nem ha nada como a cama

para amor ser bem tratado.

Vêde as ratices do mundo!

Sentados no mesmo throno

amor, que é vida;—e o somno,

que da morte é irmão segundo!...

Em tão doloroso trance

é praxe no bom romance

surgir a pallida insomnia

beliscando a cachimonia

do que ás paixões não se poupa;

mas eu, que sigo outra lei,

fui-me enroscando na roupa,

e dormi. Fiz mais: sonhei.

Sonhei, sim. O que é sonhar?

É fugir do captiveiro

d'esta bola sublunar.

A noss'alma, que gemia

entre os ferros, encontrar

a paz, o amor, a alegria,

vivo, real, verdadeiro,

o mundo da phantasia.

É n'um divinal momento

conquistar, possuir, haver

o que nunca o pensamento,

por mais audaz, ousou crêr que um dia á mão nos viria.