Musa Velha

Francisco Palha · Capítulo 7 de 35

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Musa Velha

A uma Creatura

 

Que tens tu a dizer do teu destino?

Que mal... que mal te fez, ingrata, a sorte? Desunhas-te a comer queijo londrino;

na polka és a mais forte;

essa fulva cabeça de leôa

não passa d'avellã; por isso és goso

do bravo rapazio de Lisboa.

Preludias na banza um rigorosoque os mortos ergue, as campas despovôa.

Desmamadinho já, em salto airoso,

balando, os longos ecos atordôa

o teu futuro esposo.Calçando o largo pé na estreita bota

encaixaste o Rocio na Bitesga.

Capaz és tu de entrar, sendo janota,

no ceu... por uma nesga.

Trazes um dogue ao collo... Tens na tia chaperon e banqueiro. Anda estafada a velha e mais a burra. A orthographia comtigo, ao vêr as duas, não quer nada. Quem de môlho as barbas não poria

vendo a barba visinha incendiada?!

Dás á lingua durante o santo dia,

e bates na criada!

A coisa mais feliz de quanto existe

és tu portanto. E dás então cavaco,

maldizes, blasphemando, o mundo triste!

e chamas-lhe velhaco!

O mundo?! O mundo o que é? Por mim supponho ser apenas ironica pilheria

que Jehovah soltou quando, risonho,

pretendeu descansar de empreza séria. Ha n'elle o encanto espiritual do sonho. Ha n'elle o encanto vil da vil materia.Faz rir e faz chorar, o Triboulet medonho!

a divinal miseria!

A graça toda está n'estas nuances; nas sombras e na luz com que prepara

da dôr e do prazer os varios lances

o velho Dulcamára;

Nunca viste Neptuno carrancudo

pendurar-se nas azas da procella,

roçar as cãs no ceu e em silvo agudo

dar por mortalha ao barco a solta vela? Agora não o vês sereno e mudo

como a brincar na praia se ennovella? Pois similhante ao mar no mundo é tudo.

Resigna-te, donzella.

E tudo ha de acabar, o mar e o mundo. Até do meu amor a intensidade

sumir-se irá no pelago profundo

da fria eternidade!

Eu escrevi—amor?! Fiz mal. É grego; é grego para ti: peior,—sãoskrito;e tu nas linguas mortas não dás rego.

Se um dia, por acaso, o pequenito

traquinas e cruel, alado e cego,

tentasse dar-te um golpe... era bonito! Fugiria a gritar: Armas que emprego

não entram no granito!

Tu partilha não tens na dôce herança

dos anjos que voaram! Antro escuro

a tua alma será! Nenhuma esp'rança!—

nenhum extasis puro!

Como quando ao romper da rôxa aurora

deslisando na valsa doidejante

soltas da trança a rosa que descora,

de si te apartará n'um só instante

o louco turbilhão que te enamora.

Pallido o rosto, o seio palpitante,

ao ceu perguntarás na dôr d'ess'hora

se a morte vem distante!

O vácuo! a saciedade! o horror das trevas! Ninguem ao pé da cruz no teu calvario! Por só cortejo ao cemiterio levas

um padre mercenario!

Nem esse volta lá. Rezou, e a prece,

em mau latim, por bons tostões foi paga. O fardo que largou mais não merece.

Recebe por adeus grosseira praga

d'um coveiro que o some, e breve esquece. Grão d'areia que foste ao mar co'a vaga, quem te busca depois? Quem te conhece?

Teu fim quem é que indaga?

Se é tempo, ó transviada, atraz teus passos! Abre o teu coração. A fé te anime.

Não ha na vida mais estreitos laços.

Amor tudo redime.

Vêl-o-has dissipar a nevoa densa

que o teu dia transforma em noite escura. Respeitada serás. Trarás, suspensa

de teus vermelhos labios, a ventura;

que eu não sei de ninguem a quem não vença puro amor abraçado á formosura.

Serás mulher,—é essa a recompensa,

em vez de creatura.

Se mover-te consegue esta palestra

manda morrer o cão no Instituto;compra cartilha e pedra, e prova á mestra

que vales mais que o bruto.

Depois reforma a tia. Irá na Graça

accender ao Senhor trezentos lumes

por tirar-lhe do lombo essa carraça.

Vê-se livre da espada de dois gumes

que a burra lhe sangrava, e na carcassa vasto caminho abria a vãos queixumes. Menina, já que estás co'a mão na massa,

reforma os teus costumes.

E como incerto é sempre o bem futuro

e póde arrepender-se o arrependido,

vae lá pondo, á cautela, no seguro

o nome do marido.