Musa Velha
A uma Creatura
Que tens tu a dizer do teu destino?
Que mal... que mal te fez, ingrata, a sorte? Desunhas-te a comer queijo londrino;
na polka és a mais forte;
essa fulva cabeça de leôa
não passa d'avellã; por isso és goso
do bravo rapazio de Lisboa.
Preludias na banza um rigorosoque os mortos ergue, as campas despovôa.
Desmamadinho já, em salto airoso,
balando, os longos ecos atordôa
o teu futuro esposo.Calçando o largo pé na estreita bota
encaixaste o Rocio na Bitesga.
Capaz és tu de entrar, sendo janota,
no ceu... por uma nesga.
Trazes um dogue ao collo... Tens na tia chaperon e banqueiro. Anda estafada a velha e mais a burra. A orthographia comtigo, ao vêr as duas, não quer nada. Quem de môlho as barbas não poria
vendo a barba visinha incendiada?!
Dás á lingua durante o santo dia,
e bates na criada!
A coisa mais feliz de quanto existe
és tu portanto. E dás então cavaco,
maldizes, blasphemando, o mundo triste!
e chamas-lhe velhaco!
O mundo?! O mundo o que é? Por mim supponho ser apenas ironica pilheria
que Jehovah soltou quando, risonho,
pretendeu descansar de empreza séria. Ha n'elle o encanto espiritual do sonho. Ha n'elle o encanto vil da vil materia.Faz rir e faz chorar, o Triboulet medonho!
a divinal miseria!
A graça toda está n'estas nuances; nas sombras e na luz com que prepara
da dôr e do prazer os varios lances
o velho Dulcamára;
Nunca viste Neptuno carrancudo
pendurar-se nas azas da procella,
roçar as cãs no ceu e em silvo agudo
dar por mortalha ao barco a solta vela? Agora não o vês sereno e mudo
como a brincar na praia se ennovella? Pois similhante ao mar no mundo é tudo.
Resigna-te, donzella.
E tudo ha de acabar, o mar e o mundo. Até do meu amor a intensidade
sumir-se irá no pelago profundo
da fria eternidade!
Eu escrevi—amor?! Fiz mal. É grego; é grego para ti: peior,—sãoskrito;e tu nas linguas mortas não dás rego.
Se um dia, por acaso, o pequenito
traquinas e cruel, alado e cego,
tentasse dar-te um golpe... era bonito! Fugiria a gritar: Armas que emprego
não entram no granito!
Tu partilha não tens na dôce herança
dos anjos que voaram! Antro escuro
a tua alma será! Nenhuma esp'rança!—
nenhum extasis puro!
Como quando ao romper da rôxa aurora
deslisando na valsa doidejante
soltas da trança a rosa que descora,
de si te apartará n'um só instante
o louco turbilhão que te enamora.
Pallido o rosto, o seio palpitante,
ao ceu perguntarás na dôr d'ess'hora
se a morte vem distante!
O vácuo! a saciedade! o horror das trevas! Ninguem ao pé da cruz no teu calvario! Por só cortejo ao cemiterio levas
um padre mercenario!
Nem esse volta lá. Rezou, e a prece,
em mau latim, por bons tostões foi paga. O fardo que largou mais não merece.
Recebe por adeus grosseira praga
d'um coveiro que o some, e breve esquece. Grão d'areia que foste ao mar co'a vaga, quem te busca depois? Quem te conhece?
Teu fim quem é que indaga?
Se é tempo, ó transviada, atraz teus passos! Abre o teu coração. A fé te anime.
Não ha na vida mais estreitos laços.
Amor tudo redime.
Vêl-o-has dissipar a nevoa densa
que o teu dia transforma em noite escura. Respeitada serás. Trarás, suspensa
de teus vermelhos labios, a ventura;
que eu não sei de ninguem a quem não vença puro amor abraçado á formosura.
Serás mulher,—é essa a recompensa,
em vez de creatura.
Se mover-te consegue esta palestra
manda morrer o cão no Instituto;compra cartilha e pedra, e prova á mestra
que vales mais que o bruto.
Depois reforma a tia. Irá na Graça
accender ao Senhor trezentos lumes
por tirar-lhe do lombo essa carraça.
Vê-se livre da espada de dois gumes
que a burra lhe sangrava, e na carcassa vasto caminho abria a vãos queixumes. Menina, já que estás co'a mão na massa,
reforma os teus costumes.
E como incerto é sempre o bem futuro
e póde arrepender-se o arrependido,
vae lá pondo, á cautela, no seguro
o nome do marido.