Não tão branca
Capítulo 1
Parte 1 : Lar
Capítulo 1
A Opal Street não é uma rua marcante. Se fosse uma joia, seria apenas uma estranha imitação. Estreita, escura e pouco convidativa, se estende furtivamente a partir da enfadonha Jefferson Street para o encardido e monótono mercado que forma o lado norte da Oxford Street. Não tem mistério, nem fascínio, seja de exclusividade ou mesmo depravação; sua função é comum, ser uma ruazinha despretensiosa cercada de casinhas despretensiosamente habitadas, em sua maioria, por gente despretensiosa.
As residências têm três andares, e contêm seis cubículos chamados, por cortesia, de cômodos: uma sala de estar, uma minúscula sala de jantar, uma cozinha um pouco maior e, acima, um quarto frontal – que parece grande apenas porque ocupa toda a extensão da casa –, um banheiro pequeno e, ao fundo, outro quarto, com janelas cujas possibilidades estão estragadas pela visão de um quintal triste e diminuto. E, acima, outros dois andares similares.
Em uma das casas morava pai, mãe e duas filhas. Lá, como costuma acontecer num lar que abriga duas gerações, emoções opostas e pouco alinhadas se confrontavam. No lar dos ricos, o contentamento com a riqueza da geração mais velha é confrontado pela ambição exagerada da mais jovem. Os mais velhos podem se ver em oposição à indiferença e aborrecimento da juventude, engendrada pela percepção de que não há mais mundos a serem conquistados, pois seus pais já dominaram tudo. Nas casas da Opal Street, as sutilezas da distinção quase não existem; há um contraste objetivo e concreto. O contentamento dos mais velhos é o catalizador do desespero ensurdecedor dos desejos da juventude.
Os conflitos na residência dos Murray apontavam para este estágio, no entanto, nenhum dos quatro membros daquela família poderia ter previsto o que estava por vir. Para Junius e Mattie Murray, que haviam conhecido a pobreza e a vida nas ruas, a pequena casa na Opal Street representava a mais alta ambição; para a filha, Angela, parecia o mais encardido e monótono casulo a cobrir as asas de uma esplendorosa borboleta. Junius e Mattie contavam histórias sobre as dificuldades superadas, o penoso aprendizado de um ofício, o deplorável processo de junção das economias quase inexistentes e como isso se constituía em uma Ilíada moderna. No entanto, para Angela, essa era apenas a descrição de uma vida que ela evitaria a todo custo. Em algum lugar do mundo havia caminhos que levavam às ruas espaçosas, casas enormes e bonitas, sutilezas delicadas da existência. Aqueles eram os caminhos pelos quais Angela pretendia caminhar. Muito cedo, ela havia percebido que as coisas boas da vida não são distribuídas igualmente; mérito nem sempre é recompensado; trabalho duro não necessariamente leva à uma adequada recompensa. Certos dotes fortuitos, beleza física, força incomum, inteligência singular e inabalável, dons concedidos aleatória e desproporcionalmente pelas forças que controlam a vida – são as qualidades que contribuem para uma existência agradável e favorável.