Não tão branca
Parte 2 : Mercado
Capítulo 1
A Quinta Avenida é um desfiladeiro; seus prédios altos diminuem a importância das pessoas que passam correndo em seus corredores estreitos. Mas a 14th Street é um rio, fluindo de forma impessoal, de leito largo, com um desenho estranho e tortuoso cobrindo sua extensão. Para Angela, a famosa avenida parecia apenas a manifestação da vida, mas a 14th Street era o seu ponto de encontro. Lá, nas primeiras semanas após sua chegada a Nova York, ela vagava, perambulando, atenta às lojas que se amontoavam, às pessoas apressadas que se empurravam, e, acima de tudo, atenta aos rostos daquelas pessoas com seus semblantes de dor, orgulho, felicidade, ganância, alegria, ambição, contentamento. Do último, havia muito pouco. Esses homens e mulheres viviam em uma intensidade mais aguda do que aqueles que ela observara na Filadélfia. As poucas pessoas negras que viu também eram diferentes; possuíam uma independência de porte, uma determinação, uma segurança em seus modos que a agradou. No entanto, ela não conseguia ver se qualquer uma dessas pessoas, negras ou brancas, eram mais felizes do que aquelas que havia observado durante toda a vida.
Mas Angela estava mais feliz; estava vivendo na crista de uma onda de excitação e satisfação que nunca diminuiria, nunca cessaria, nunca seria exaurida. Estava vendo o mundo, conhecendo a vida à sua maneira, sem restrições ou limitações; ela era jovem, ela era temporariamente independente, ela era inteligente, ela era branca.
Lembrou-se da expressão “livre, branca e com vinte e poucos anos” ― era o que significava então, essa sensação de possuir o mundo, essa constatação de que, tudo estando favorável, todas as coisas eram possíveis.
Se eu fosse homem, pensou ela, poderia ser presidente, e riu de si mesma porque “se” proclamava uma limitação. Mas essa inconsistência a incomodava pouco; ela não queria ser um homem. Poder, grandeza, autoridade, tudo isso era apropriado para os homens; mas havia dons mais lindos e doces para as mulheres, e um certo tipo de poder também. Tal poder ela gostaria de exercer neste novo mundo brilhante, tão cheio de mistérios e promessas. Se pudesse, teria um salão e uma sala de visitas onde homens e mulheres, não necessariamente incríveis, mas reais, vivos, livres e desimpedidos em maneiras e pensamentos, deveriam vir e se manifestar em sua simpatia e magnetismo. Para conseguir isso, Angela deveria ter dinheiro e influência; na verdade, como era tão jovem, precisaria até mesmo de proteção; talvez fosse melhor casar-se com… com um homem branco. O pensamento veio de repente, do nada; ela nunca tinha pensado nessa possibilidade antes. Se fizesse isso, adequadamente, então toda aquela riqueza, toda aquela plenitude de vida que ela tanto desejava seria duplamente sua. Ela sabia que os homens se divertiam mais do que as mulheres; homens negros mais do que mulheres negras, homens brancos mais do que mulheres brancas. Não que ela os invejasse. Só que seria divertido, muito divertido, capturar o poder e a proteção, além da liberdade e independência, que tanto cobiçava e que agora estava em suas mãos.
Mas Angela sorriu para si mesma, ela não tinha meios para conseguir isso. Não conhecia ninguém em Nova York; não podia sequer pensar de que maneira conheceria as pessoas certas; no momento, sua casa consistia nas quatro paredes do menor quarto do Union Square Hotel. Ela tinha ido para lá no segundo dia após sua chegada, tendo passado vinte e quatro horas caríssimas no Astor. Mais tarde, percebeu que havia habitações infinitamente mais baratas disponíveis, mas não conseguiu se afastar da 14th Street.
Era primavera e a praça estava cheia de espécimes enferrujados da humanidade que se sentavam nos bancos, assim como a própria Angela, por horas seguidas, como se pensassem que o ar e o sol revigorante causariam algum florescimento mágico em suas roupas tal qual nas árvores. Embora estes últimos tenham mudado, as roupas não mudaram, nem seus donos. Eles permaneceram os mesmos, caídos e acovardados.
Estou vendo a vida, pensou Angela, é assim que as pessoas vivem, e nunca percebeu que algumas dessas pessoas, olhando-a com curiosidade, se perguntavam o que a trouxera tão cedo para esta companhia desagradável.
Uma bela pintura!, pensou. Algum dia farei uma ótima pintura dessas pessoas e a chamarei de “Tipos da 14th Street”. E, de repente, uma grande tristeza a invadiu; Angela se perguntava se havia pessoas mais vivas, mais sensíveis à alegria, à aventura de viver, até mais do que ela, para quem ela também seria um “tipo”. Mas não conseguia acreditar nisso, pois estava, ao mesmo tempo, quase irreconciliavelmente convicta e decidida sobre suas conquistas. A vida durante esses dias foi tão intensa, tão quase solidificada, que seu desejo de viver daquela maneira e ser ela mesma eram uma coisa só, e teria sido praticamente impossível inserir um ponto de distinção na firme busca pelo troféu de satisfação. Por isso, continuou a percorrer a via escolhida, parando na maioria das vezes na praça ou diante de uma loja de pianos.
Havia nesta loja um pianista que normalmente estava em serviço e, como o vidro frontal fora removido, a clareza cada vez maior das notas fazia com que um grupo constante de ouvintes, pacientes e aparentemente insaciáveis, parasse. Eles eram em sua maioria homens, e como eram muito menos propensos a ocultar seus sentimentos do que as mulheres, como observara Angela, era fácil seguir sua gama emocional. Jazz os fazia sorrir, mas com uma certa melancolia; se ao menos eles tivessem tempo para dançar agora; quando estavam com vontade! A jovem, que olhava para o aglomerado de transeuntes maltrapilhos, homens de negócios cansados e garotos de recados ruminantes, sentiu por eles uma pena que não deixava de ser satisfatória. Ela havia pegado o que queria enquanto tinha vontade.
Canções de amor, especialmente as baladas tristes, traziam a esses rostos desatentos um arrependimento constrangedor. Mas havia uma expressão que Angela só conseguia interpretar pela metade. Levava-a para os semblantes dos que lá estavam durante as velhas canções inglesas. Ela percebeu então uma atitude mais aguda de atenção, os olhos assumiram uma aparência de total afastamento. Um transeunte absorto em pensamentos ouviu uma parte e imediatamente seu andar e expressão caíram sob o feitiço. Os ouvintes poderiam ser tão variados como quinze pessoas poderiam ser, mas naquele momento foram apanhados em uma nostalgia comum, quase cósmica. Se a próxima música fosse jazz, aquela multidão em particular dispersaria, alguns membros continuariam seus caminhos meditativos, abençoados ou amaldiçoados, sabendo quais memórias não deveriam ser perturbadas pelo estridente daquela última canção popular.
― Saudades de casa ― Angela costumava dizer para si mesma.
E ela também sentia, embora mal soubesse o porquê; certamente não pela Filadélfia ou daquela outra vida, que agora tão distante, parecia impossível. Ela então fez anotações em seu caderno de esboços para que algum dia pudesse fazer uma ótima pintura desses “tipos” também.
*
Claro que estava inescrupulosamente ociosa; mas, como seus dias transbordavam com o impacto de novas impressões, isso não significava nada. Angela não conseguia imaginar o que a vida lhe traria. No momento, pareceu-lhe sábio e divertido sentar-se e ver o que aconteceria. Com uma decisão fácil de entender, ela passou a ir com muita frequência ao cinema, onde a maioria das coisas acontecia. Viu-se estudando a tela com uma intensidade tensa e ardente, perdendo o leve ceticismo paternalista que uma vez teve em relação às aventuras desses heróis e heroínas sombrios; tão inesperada a reviravolta que sua vida sofreu. No ano anterior, sequer tinha sonhado com essa época; dificilmente ousara ansiar por uma vida tão livre e plena como a que vivia agora, e prometia assim ser. No entanto, Angela estava no limiar de uma carreira totalmente diferente de qualquer coisa que um escritor poderia imaginar. Ah sim, ela sabia que centenas, na verdade milhares, de pessoas negras de pele clara haviam fugido do sul segregado, mas esse era o ponto, ela sabia do fato sem conhecer até então nenhuma das possibilidades da grande aventura. Agora sabia: a Filadélfia e suas privações já estavam ficando para trás.
Será que essas pessoas, ela se perguntou, olhando em volta na penumbra suave do belo cinema, a invejariam se soubessem de sua amada liberdade e senso de irrestrição? Se ela dissesse para a mulher ao lado, por exemplo: “Eu sou negra”, a mulher mostraria a ocasional pobreza de espírito de certos estadunidenses brancos e se recusaria a sentar ao seu lado ou faria uma reclamação ao gerente? Mas Angela não tinha intenção de fazer tal anúncio. Assim, passou muitas horas felizes, irresponsáveis e divertidas nas maravilhosas casas da Broadway e na obscura banalidade de sua amada 14th Street. Também havia um teatro na 7th Avenue, na esquina do Village, que ela passou a frequentar, não tanto por causa das peças, que eram as mesmas que em qualquer outro lugar, mas por causa do público, uma espécie de público curiosamente íntimo feito de numerosos grupos ainda mais íntimos. Seus membros pareciam decididos e vagarosos. Porém, quando foi até ali, a solidão pesou sobre ela. Sem perceber, seu rosto assumiu a melancolia dos homens que olhavam para a loja de música. Angela gostaria de conhecer algumas dessas pessoas agradáveis.
*
Ela percebeu que estava negligenciando a arte.
E foi por ela que deixei tudo para trás e vim para Nova York. Devo começar a ter aulas. Não era bem verdade, e o motivo verdadeiro surgiu em sua mente. E talvez eu conheça algumas pessoas.