Não tão branca
Parte 5 : O fim do mercado
Capítulo 1
A eterna rotina da vida continuava ― refeições, sono, conversa, trabalho ― e tudo isso nada significava; um vazio começando em lugar nenhum e levando a lugar nenhum. Aos poucos, porém, dois pontos se fixaram no horizonte, e sobre eles a vida de Angela girou. Um era seu trabalho, sua arte. Toda semana ela passava três ou quatro noites no cavalete. Estava ansiosa para ganhar um dos prêmios do concurso que seria realizado em maio; se obtivesse êxito, enviaria seu pedido de registro na Fountainebleau School of Fine Arts, que foi financiada por americanos e estabelecida, dizia no panfleto, “como uma escola de verão para arquitetos, pintores e escultores americanos”. Se ela conseguisse ganhar, deixaria os Estados Unidos por um ano ou dois, assegurando, assim, o sucesso. A tenacidade com que se apegou a este plano a assustou um pouco, até que Angela descobriu que também havia fundos possíveis dos quais ela poderia, com a recomendação adequada, tomar emprestado dinheiro suficiente para permitir que viajasse para o exterior com o entendimento de que o reembolso poderia ser feito em pagamentos lentos e fáceis.
Ralph descobriu esta informação, aliviando Angela do quase paralisante medo que a assolava de vez em quando. Era divertido e triste perceber que seu talento, usado uma vez como um escudo para protegê-la dos motivos reais para se libertar e ir a Nova York, tinha agora se tornado a maior e mais real força em sua vida.
A Srta. Powell, com quem Angela, no seu novo estado de espírito, conseguiu uma trégua, sabia da sua ambição e, de fato, a partilhava. Se ela ganhasse o prêmio, o dinheiro, combinando-os com uma pequena poupança pessoal e com os termos especiais oferecidos pelo American Committee, a realização de seus mais queridos desejos estaria próxima. Tudo isso ela confidenciou à Angela em duas manhãs de domingo, quando, em seus aposentos um tanto apertados na 134th Street, fizeram companhia uma à outra. Uma habitação próxima fora convertida em local de culto para uma das divisões especiais do credo religioso tão querido para as pessoas negras. A maior parte do culto parecia consistir em canto, e assim as várias horas gastas em conversas sérias pelas duas garotas foram pontuadas por explosões de canções que saíam das gargantas revestidas de bronze dos fiéis.
O outro ponto no qual os pensamentos de Angela se concentravam era sua posição anômala. No entanto, sua mente avisou-a repetidamente que não havia nada inerentemente errado, maldoso ou vergonhoso na posição ela havia tomado. O método poderia ser um pouco censurável. Mas, fora isso, seus críticos mais severos, embora imparciais, poderiam apenas dizer que, em vez de compartilhar os fardos de seu próprio grupo, ela escolheu se desviar por um caminho onde pessoalmente pudesse encontrar maior facilidade, conforto e expansão. Há muito Angela havia desistido da busca pela felicidade.
Mas houve momentos em que uma discussão casual sobre pessoas negras, expressa nos termos peculiarmente brutais que os Estados Unidos empregavam, fez seu sangue ferver, e Angela ansiava por expressar que ela, sendo presumivelmente uma mulher branca, teria os mesmos pontos de vista, dizendo: ― Eu sou uma delas. Você me considera inútil ou desonesta ou ofensiva de alguma forma?
Teria sido, Angela sentiu, um belo gesto. Mas a vida que ela conhecia tinha uma maneira de permitir que grandes gestos passassem despercebidos e não recompensados. Valeria a pena jogar fora os benefícios da sua passabilidade e brancura casual quando nenhum grande problema estava em jogo? Valeria realmente a pena perdê-los numa situação séria? Lembrando-se da era material em que vivia e da nação material da qual era membra, ela tinha dúvidas. O velho ditado de sua mãe se repetia: “A vida é mais importante do que a cor”.
*
Os anos foram passando. Virgínia parecia não ter pressa em se casar. Anthony, a quem Angela via ocasionalmente na Escola de Arte, aparentemente concordava. No entanto, não havia nada em suas ações ou maneiras que a fizesse sentir que ele previa uma mudança. Em vez disso, se o julgava corretamente, Anthony, como ela, cansado daquela confusão, estava em uma aceitação resignada do destino. Se possível, ele estava mais quieto, mais reservado do que nunca, ainda irradiando uma estranha calmaria e a paz que vem da entrega.
Em maio, foram anunciados os prêmios do concurso. Angela recebeu o Prêmio John T. Stewart por seu “Tipos da 14th Street”; sua extrema satisfação foi duplicada ao saber que o Prêmio Nehemiah Sloan, de igual valor, havia sido concedido à Srta. Powell por sua pintura intitulada “Uma Rua no Harlem”. A garota negra ainda era difícil e reservada, mas sob os esforços persistentes de Angela para fazer amizade, ela finalmente começou a derreter um pouco. Não planejavam viver juntas na França, seus gostos não eram suficientemente parecidos para tal proximidade, mas ambas ansiavam por um ano de prazer, de trabalho inspirador, de uma vida que seria diferente.
Angela ficou aliviada, mas a Srta. Powell estava triunfante; ela dava a impressão de ter justificado não apenas sua vocação, mas a si mesma e, em menor grau, sua raça. A autoconsciência da cor, da responsabilidade racial, estava, Angela tinha descoberto, enraizada nela.
O dinheiro da passagem para a França foi pago. Pelos termos oferecidos pelo comitê da Fontainebleau, conseguiram uma boa economia. As meninas partiriam em junho. À medida que o tempo se aproximava, Angela sentia-se cada vez mais entusiasmada. A princípio, ela viu sua permanência no exterior como uma ruptura enviada dos céus da monotonia e das dificuldades de seus problemas pessoais, mas ultimamente, com a reação involuntária da juventude, ela estava começando a recuperar a ideia de embarcar em uma grande aventura. Seu ânimo aumentou continuamente.
Certa noite, Angela foi até a casa de Marta Burden para discutir a viagem; ela queria informações sobre dinheiro, roupas, dicas.
― Tudo em que você puder pensar, Marta ― disse ela com seu antigo modo vigoroso.
― É fácil para você, você já esteve no exterior tantas vezes que deveria escrever uma enciclopédia sobre “O que levar para a Europa”. Eu pretendo seguir cegamente seu conselho e da próxima vez que eu vir a Srta. Powell, a deixarei informada.
― Não precisa ― disse Marta lacônica e sombriamente. ― Ela não vai.
― Não vai! Por quê? Há duas semanas ela disse que iria.
― Sim, mas ela não vai esta semana nem em nenhuma outra, receio; pelo menos não através do fundo do American Committee para a Fontainebleau School of Fine Arts. Eles devolveram o dinheiro da passagem. Você não sabia? Achei que todo mundo já soubesse.
Angela lutou contra uma náusea momentânea.
― Não, eu não sabia. Eu não a vejo há anos. Estou tão ocupada me recompondo. Marta, do que se trata? É porque ela é negra? Sério?
― Bem, é. Eles disseram que eles próprios não têm preconceito, mas que tinham certeza de que o contato forçado no navio seria desagradável para muitos dos alunos, que virão de todas as partes dos Estados Unidos. Além disso, pensam que esse contato seria embaraçoso para a Srta. Powell também. Oh, não há fim para a baboseira ridícula que escreveram e disseram. Eu reuni parte do comitê de estudantes e professores, tentando atiçar o sentimento público. O Sr. Cross tem ajudado e Paget também. Gostaria que Paulette estivesse aqui; ela conseguiria alguma atenção dos jornais. Van Meier publicou alguns editoriais mordazes; ele expôs muitas das cartas idiotas deles. Acho que se insistíssemos, conseguiríamos alguma coisa. ― Ela refletiu por um momento. ― O engraçado é que estamos tendo dificuldade em fazer a Srta. Powell reagir. Não entendo aquela garota.
Angela murmurou que talvez a Srta. Powell não tivesse esperança na luta contra o preconceito.
― É tão irracional, e mesmo assim está em toda parte. Talvez ela não queira sacrificar sua paz de espírito pelo que considera uma luta inútil.
― Foi o que o Sr. Cross disse. Ele tem sido maravilhoso com ela, é um ativista infatigável. Claro que você irá embora logo, já que nada disso afeta você, mas venha a uma ou duas reuniões do comitê, sim? Estamos nos encontrando aqui. Vou ligar para você.
― Bem ― disse Angela para si mesma naquela noite, depois de ter voltado para casa. ― O que será que devo fazer agora?
De vez em quando, ainda recebia um repórter ou outro; o pequeno e agradável movimento de publicidade sobre seu prêmio ainda não havia morrido. E se ela mandasse chamar um deles e anunciasse que não estava disposta a aceitar os termos do American Committee, visto que eles haviam se retirado sua ajuda à Srta. Powell? E se ela dissesse calmamente: “Eu também sou negra”? O que aconteceria? A retirada da assistência, sem a qual sua viagem ao estrangeiro, a esperança de cura, a ampliação de seus horizontes seria impossível. Não havia fim para os problemas em que essa questão da raça poderia envolver alguém, alguns deles apenas superficiais, como neste caso, alguns deles gravemente físicos. A cabeça de Angela doía com a futilidade de tentar encontrar uma solução para esses quebra-cabeças intermináveis.
Quando crianças, ela e Gínia foram proibidas de ler a literatura popular de sua época, que custava cinco e dez centavos. Mas de alguma forma uma cópia de uma história de mistério intitulada “Quem matou o Dr. Cronlin?” chegou até suas mãos, uma história horrível toda cheia de homens barbudos, álcool, silhuetas nas janelas. Tremendo de fascinação, elas o devoraram depois da meia-noite ou no início da manhã, enquanto seus pais ainda dormiam. A cada página, esperavam revelar o mistério. Mas a paciência não foi recompensada, pois a última frase da última página dizia: “Quem matou o Dr. Cronlin?”.
Angela pensou nisso agora, sorriu e suspirou. O que é ou não é ético nessa questão de raça?, ela se perguntou. E de fato era uma boa pergunta. Estudar em Fontainebleau teria sem dúvida mudado a atitude da Srta. Powell em relação à vida para sempre. Se tivesse recebido a justa recompensa por seu estudo meticuloso, ela teria concluído que o que é certo triunfa no final. Além disso, a inspiração poderia ter trazido um talento latente, novas possibilidades. A Srta. Powell ter perdido sua chance por um golpe de azar necessariamente exigia que Angela também perdesse? Em caso afirmativo, para quê?
Incapaz de responder, ela caiu adormecida.
Absorvida nos preparativos, Angela permitiu que duas semanas passassem, então, lembrando-se do convite de Marta, foi novamente para a casa de Starr em uma noite em que o comitê deveria se reunir. Ela encontrou Anthony, Sr. Paget, Ladislas e Marta presentes. A última estava mais perturbada do que nunca. De fato, um ar de sombrio desânimo pairava sobre todos eles.
― Bem ― perguntou a recém-chegada, determinado a parecer à vontade apesar da presença de Anthony. ― Como as coisas estão progredindo?
― Não estão ― respondeu o Sr. Paget. ― Na verdade, estamos prestes a desistir da luta.
Ladislas, com uma espécie de diversão provocada, explicou então que a própria Srta. Powell havia jogado a toalha.
― Ela não apenas desistiu como mandou dizer que, embora aprecie a nossa luta, prefere que deixemos o nome dela fora disso.
― Já ouviu maior absurdo? ― retrucou Marta irritada. ― Eu me pergunto se as pessoas negras não são desistentes por natureza. Às vezes acho que nunca levantarei outro dedo por elas.
― Você não sabe do que está falando ― disse Anthony com veemência. ― Se você conhecesse a guerra incessante que a maioria dos negros trava, entenderia que, às vezes, eles precisam parar de lutar pelos luxos da vida para se ater ao essencial, pelo qual também devem lutar todos os dias com a mesma intensidade com que fizeram no primeiro dia. Não, eles não desistem, eles simplesmente aprenderam a deixar para lá para que possam conservar suas forças para outro dia ruim. Sou negro e sei.
Houve um momento de silêncio tenso enquanto as três pessoas brancas o encaravam, surpresas e sem palavras. Então Marta disse, ainda chocada:
― Negro! Ora, não posso acreditar. Você nunca nos disse que era negro.
― E é exatamente por isso que eu estou dizendo agora ― disse Anthony, com frieza rude. ― Para que você não faça julgamentos precipitados sobre nós. ― Ele começou a caminhar para a porta. ― Já que o motivo para o qual esta reunião foi convocada se tornou nulo e sem motivo, considero que estamos automaticamente dispensados. Boa noite.
Marta correu atrás dele.
― Oh, Sr. Cross, não vá assim. Como se fizesse alguma diferença! Por que isso afetaria nosso real respeito mútuo?
― Por que deveria, de fato? ― Ele perguntou um tanto enigmaticamente. ― Espero que não. Mas eu preciso ir.
Anthony saiu da sala, acompanhado de Paget e Ladislas. Marta ficou olhando, impotente.
― Suponho que eu não disse a coisa certa. Mas o que eu poderia fazer? Fiquei tão surpresa! ― Ela se virou para Angela: ― E realmente não consigo superar o fato de ele ser negro, você consegue?
― Não ― disse Angela solenemente. ― Não consigo…
E surpreendeu a si mesma e a Marta ao explodir em uma torrente de lágrimas.
*
Por alguma razão o incidente firmou sua determinação. Talvez Anthony tenha feito o sacrifício necessário, ela disse a si mesma e soube, mesmo enquanto dizia, que a suposição era pura bobagem. Anthony não considerou que estava fazendo um sacrifício; sua confissão, ou melhor, sua declaração a respeito de seu sangue tinha o significado da ação de uma pessoa que limpa sua casa. Anthony não queria que sua cabeça estivesse cheia de engano e confusão. Ele não se rotulava, mas, por outro lado, entregava-se de vez em quando a uma limpeza geral, porque não permitiria que suas ações fossem confusas.
Angela não queria nada além de deixar para trás todos os problemas da raça. Ela não poderia enfrentar tais problemas na Europa; literalmente, em todos os sentidos, iria começar de novo. Na França ou na Itália, Angela falaria de sua linhagem de sangue negro e aceitaria quaisquer consequências que tal exposição acarretasse. Mas as consequências não teriam as mesmas dores e dificuldades enfrentadas nos Estados Unidos.
Um tanto acanhada, Angela começou a considerar a ideia de ir ver a Srta. Powell. O dilema se dividia em uma relutância em exibir sua boa sorte ante a colega de classe desapontada e uma igual relutância em partir para a França, abandonando apenas a simpatia fria das palavras no papel. Mas alguma coisa mais forte e mais insistente que a mera consideração de cortesia tomou conta dela. Afinal, elas partilhavam do mesmo sangue. Um capricho do destino separou seus caminhos, mesmo assim elas eram mais do que irmãs de pele. Elas estavam mesmo intimamente ligadas pelo sangue, pela condição racial, pelo sofrimento comum. Mais uma vez, Angela pensou no episódio anos atrás, quando tinha visto uma garota negra ser rechaçada em um restaurante: Poderia facilmente ter sido Virgínia.
Sem aviso, Angela foi até o Harlem e se viu perguntando se poderia ver a Srta. Powell. A mãe que Angela tinha visto pela última vez tão orgulhosa e feliz a recebeu com uma nota de perplexidade soturna que, para a garota branca, significava: “É fácil pra você, com seus privilégios, vir até aqui e simpatizar com a minha pobre menina”. Não houve qualquer sinal de gratidão ou apreciação do espírito que inspirou Angela a fazer a visita.
A Sra. Powell respondeu:
― Sim, acho que você pode vê-la. Há três ou quatro outras pessoas lá agora perturbando a cabeça dela. Acho que mais uma não vai fazer nenhuma diferença.
Ela a conduziu por um longo e estreito corredor, passando por duas salas cujos interiores escuros pareciam sombrios em contraste com a forte luz do sol que a visitante acabara de deixar. Mas o final do corredor se abria para uma sala de jantar bastante ampla, iluminada, simples, mas confortável, onde a Srta. Powell estava entretendo, para espanto de Angela, três ou quatro pessoas, todas brancas. Seu espanto, entretanto, diminuiu quando percebeu entre eles John Banky, um dos repórteres que vinha com frequência entrevistá-la sobre seus planos para a França. Todos eles, Angela julgou com raiva, compartilhavam a mesma profissão, na esperança de escrever uma coluna sobre o infortúnio da Srta. Powell.
Angela pensou que nunca tinha visto a garota tão atraente e exótica. Ela estava usando um vestido de seda fina, simples, mas de um flamejante vermelho a partir do qual a escuridão acetinada de seu pescoço se levantava, uma coluna reta encimada por sua cabeça grande e quadrada. Seus finos lábios escuros, um tanto achatados, contrastavam com a perfeição deslumbrante de seus dentes; as maçãs do rosto salientes mostravam um toque de vermelho. Para qualquer pessoa cujos ideais de beleza ainda não foram definidos e nitidamente limitados, ela deveria ter feito um apelo de tirar o fôlego. Enquanto permaneceu quieta em sua reticência um tanto mal-humorada, ela era uma figura maravilhosa em repouso; concentrando toda a atenção do pequeno aglomerado enquanto sua pele e cabelos escuros se contraíam e retinham o brilho que o sol, fluindo por três janelas, derramava sobre ela.
Assim que falou perdeu, porém, um pouco dessa perfeição. Pois, embora uma dignidade silenciosa persistisse, havia dor e perplexidade em sua voz e a sombria tristeza do desespero absoluto. Obviamente, ela não sabia como se livrar dos intrusos, mas conseguiu sustentar uma postura e indiferença que os mantinham à distância. Certamente, pensou Angela, ouvindo as perguntas estúpidas, quase impertinentes, essas coisas não significam nada para eles. Mas eles continuaram lançando suas iscas, como um garotinho que atormenta um animal solitário e desanimado no zoológico.
― Estávamos tendo uma discussão acadêmica com a Srta. Powell aqui ― disse Banky, voltando-se para Angela. ― Esta ― informou ele a seus colegas de trabalho ― é a Srta. Mory, uma das ganhadoras do prêmio da Exposição de Arte e colega de classe da Srta. Powell. Acredito que a Srta. Powell era sua… hã… colega de quarto?
― Não ― disse Angela, corando um pouco pela Srta. Powell, pois ela achava que entendia a ambiguidade da pergunta ―, não tínhamos a intenção de ser colegas de quarto. Embora eu ― Angela ouviu-se, para sua grande surpresa, dizendo: ― eu ficaria feliz em compartilhar o quarto com a Srta. Powell, se ela quisesse. ― Angela queria evitar o assunto. ― O que isso tem a ver com uma discussão acadêmica?
A voz rouca e um tanto rebelde da Srta. Powell interrompeu:
― Não há nenhuma discussão, Srta. Mory, acadêmica ou não. Parece que o Sr. Paget disse a esses cavalheiros e à Srta. Tilden aqui, que eu havia me retirado definitivamente da luta para induzir o comitê a me permitir usufruir dos meus benefícios. Então, eles vieram me pedir que fizesse uma declaração e eu disse que não tinha nada a dizer além de que estou farta de tudo e ficaria feliz em deixar isso para lá.
― E eu ― disse a Srta. Tilden, uma jovem esguia usando um vestido cinza impróprio e um peculiar e horroroso corte de cabelo ― perguntei se ela não estava desistindo porque sabia que não daria conta.
Angela sentiu o sangue ferver. Algo dentro dela pedia cautela, mas ela respondeu desafiadoramente:
― O que você quer dizer com saber que não daria conta?
― Bem, é claro, isso é terrivelmente franco e espero que a Srta. Powell não fique ofendida ― disse a Srta. Tilden, mostrando claramente que não se importava se a Srta. Powell estava ofendida ou não ―, mas afinal de contas sabemos que muitas pessoas acham os… hã… negros… censuráveis e, portanto, é claro que nenhum deles que se preze iria aonde não é desejado.
A mãe da Srta. Powell, nos fundos, dirigindo-se a ninguém em particular, disse que não sabia que “que o comitê era dono do navio”. Se sua filha pudesse pagar, logo mostraria o quão rápido iria aonde quisesse e sem pedir favores a ninguém.
― Ah, mas ― disse a Srta. Tilden judicialmente ― aí está a falácia. Outra coisa está envolvida aqui. Há um lado social nesta questão, inerente, senão explícito. E esta é a questão. ― Ela apontou um dedo fino e pálido para a Srta. Powell. ― Por trás da maioria dos esforços que vocês fazem para entrar em escolas, clubes e restaurantes e assim por diante, não existe realmente esse desejo de igualdade social? Vamos lá, Srta. Powell, seja franca e me diga.
Com tal clareza que chamou a atenção de todos, Angela disse:
― Ora, Srta. Tilden, isso é imperdoável e você sabe disso. A Srta. Powell não tinha nada em mente sobre igualdade social. Tudo o que ela queria era ir para a França e chegar lá gastando o mínimo possível.
Banky, falando em um tom bastante afetado, se posicionou:
― Eu também acho que isso é um pouco demais, Srta. Tilden. Não temos o direito de interpretar as ideias da Srta. Powell por ela.
Um jovem atarracado e de rosto vermelho interveio:
― Mas, do mesmo modo, não é essa a questão envolvida? A questão toda não se resume nisto: a Srta. Powell ou qualquer outra jovem negra, conhecendo as condições na América, tem o direito estar na companhia de um grupo de pessoas com quem ela não tem nada em comum, exceto sua arte? Se ela parar para pensar, saberá que ninguém do grupo de estudantes que a acompanharia no navio quereria de fato sua presença. Aqui está a Srta. Mory, por exemplo, uma colega. O que seria mais natural em outras circunstâncias do que ter feito arranjos para viajar com a Srta. Powell? Ela sabe que tem que dividir sua cabine com alguém. Mas não; o pensamento aparentemente nunca entrou em sua cabeça. Por quê? A resposta é óbvia. Muito bem, então. Se ela, conhecendo a Srta. Powell, se sente assim, qual será o sentimento de completos estranhos?
Uma espécie de silêncio chocado caiu sobre a sala. Era uma situação impossível. Como, pensou Angela desesperadamente, conhecendo os dois lados, ela poderia explicar a essas pessoas presunçosas e complacentes a ambição da Srta. Powell, seu orgulho frio, a distância com que ela tratara seus colegas estudantes, seu esforço óbvio demais para compartilhar seu treinamento e não sua amizade? Apressada, ela tentou acabar com isso, envergonhada de si mesma, envergonhada pela Srta. Powell, cujo olhar angustiado implorava por seu silêncio.
Por fim, a garota negra falou.
― É maravilhoso de sua parte participar dessa maneira, Srta. Mory. Não fazia ideia de que você entendia tão perfeitamente. Mas não vê que não adianta tentar explicar? É uma coisa que as pessoas entendem ou não.
Ela deixou seu olhar suave e escuro pousar por um segundo em seus ouvintes.
― Receio que não esteja no poder dessas pessoas entender o que você quer dizer.
O jovem atarracado ficou um pouco mais vermelho.
― Acho que entendemos, Srta. Powell. Tudo o que a Srta. Mory diz simplesmente confirma minha primeira ideia. Pois, de outra forma, entendendo e simpatizando com você como ela faz, por que, por exemplo, nunca fez qualquer tentativa muito perceptível de se tornar sua amiga? Por que ela não convidou você para ser sua companheira nesta viagem que, pelo que sei, estão fazendo juntas? Seria o bastante para fazer cair por terra o argumento do comitê. Mas não, ela não faz nada, mesmo que isso signifique o impedimento da ambição de uma vida. Veja, não te culpo, Srta. Mory. Você está agindo de acordo com uma lei natural. Estou apenas tentando mostrar à Srta. Powell como é inevitável o funcionamento de tal lei.
Era um raciocínio tolo e falacioso, mas continha verdade suficiente para doer. A crosta gelada que se formara sobre o coração de Angela tremeu, quebrou e derreteu. De repente, parecia que nada no mundo era tão importante do que a situação da Srta. Powell; por isso, ela determinou categoricamente que nenhum preço seria muito caro.
Angela disse com frieza em um tom que nunca tinha se ouvido usar antes:
― É verdade que nunca defendi a Srta. Powell, pois nunca pensei que ela precisasse. Mas agora que a questão surgiu, quero dizer que estaria perfeitamente disposta a compartilhar meu quarto e dar-lhe o máximo de companhia que ela pudesse suportar. No entanto, isso está tudo fora de questão agora porque a Srta. Powell não irá para a França e nem eu. ― Ela parou um segundo e acrescentou baixinho: ― Pelo mesmo motivo.
Alguém disse perplexo:
― O que você quer dizer quando diz que não vai? E pelo mesmo motivo?
― Quero dizer que se a Srta. Powell não é desejada, eu também não sou. Você insinua que ela não é desejada porque é negra. Bem, eu também sou negra.
Um dos homens disse baixinho:
― Meu Deus, que furo! ― E pegou o chapéu.
Mas Banky, com o rosto rígido e branco, o conteve.
― Eu não acredito que você saiba o que está dizendo, Srta. Mory. Mas de qualquer forma, seja verdade ou não, pelo amor de Deus retire o que disse! ― Seu tom de horror adicionou o último toque.
Angela riu na cara dele.
― Retirar! ― Ela mal podia se conter. ― Você realmente acha que ser negro é tão horrível assim? Você não vê que, na minha maneira de pensar, é muito melhor ser negra e perder minhas bolsas de estudo e honras e preferências do que ser as coisas desprezíveis que vocês todos mostraram ser esta manhã? Vir aqui importunar esta pobre garota e sua mãe, empurrando a sua autoconfiança goela abaixo, como bestas? ― Ela virou-se para a mãe. ― Sra. Powell, você certamente não quer mais essas pessoas aqui. Tenho sua permissão para levá-las para fora? ― Atravessando a sala soberbamente, Angela abriu a porta.
― Por aqui, por favor, e não voltem mais. Vocês podem ter certeza de que encontraremos uma maneira de mantê-los fora.
Silenciosamente, a pequena fila foi embora. Apenas a Srta. Tilden, colocando a mão no braço de Angela, fez uma pausa para dizer avidamente:
― Você vai me deixar vê-la, não é? Posso lhe dar uma boa publicidade, só preciso de mais informações. Que tal uma entrevista exclusiva?
Angela disse friamente:
― A Sra. Powell vai mostrar a porta da frente.
Então ela e sua ex-colega ficaram olhando uma para o outra. A garota negra cruzou a sala, pegou suas mãos e as beijou.
― Oh ― ela disse ―, foi magnífico. Nunca imaginei… mas você não deveria ter feito isso. É tudo tão injusto, tão bobo e tão cansativo. Você, é claro, só ouve comentários quando revela sua condição. Mas eu sou negra passo por isso a minha vida toda. Você não sabe os inúmeros prêmios que foram roubados de mim por causa da cor. ― A Srta. Powell se virou quando sua mãe entrou na sala. ― Mãe, ela não foi magnífica?
― Ela foi tola ― a Sra. Powell respondeu brevemente.
Suas palavras trouxeram a exaltada Angela de volta à terra.
― Sim ― disse ela, sorrindo caprichosamente. ― Eu sou apenas isso, uma tola. Eu não sei o que tomou conta de mim. Eu sou pobre, estava angustiada; queria algo novo. Agora não sei que caminho tomar. Essa história estará por toda Nova York amanhã de manhã. ― Ela caiu na gargalhada. ― Fiz minha confissão diante de quatro repórteres! ― Sua mão buscou a da Srta. Powell. ― Adeus, vocês duas. Não se preocupem comigo. Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer, mas o simples fato de que aconteceu mostra que a verdade provavelmente viria a público qualquer dia. Então, não se culpem por isso. Adeus.
*
Banky estava esperando por ela no vestíbulo, escada abaixo.
― Eu sinto muito por toda essa maldita confusão, Srta. Mory ― ele disse. ― É uma pena. Se houver algo que eu possa fazer…
Angela disse que não havia nada.
― E você não precisa se preocupar. Como eu disse lá em cima, ser negra não é tão horrível assim. Eu vou me dar bem.
Ignorando a mão dele, ela passou por ele e saiu para a rua. Era sábado à tarde, então havia uma chance de ela encontrar Gínia em casa. E se ela não estiver lá, posso esperar, disse a si mesma, e agradeceu a Deus em seu coração pela estabilidade que existe na irmandade.
Gínia estava em casa, remoendo alegremente os pequenos negócios que a mantinham uma menininha. A irmã, olhando para a beleza serena de seu rosto, disse: ― Você me faz sentir como uma velha.
― Bem ― respondeu Gínia ―, você certamente sabe a arte de esconder os estragos do tempo, pois não apenas parece jovem, mas tem o jeito de alguém que acaba de encontrar um milhão de dólares. Entre e me fale sobre isso.
― Encontrar um milhão de dólares? Hum, perdi, eu deveria dizer! ― Mas uma súbita onda de alívio e contentamento tomou conta dela. ― Oh, Gínia, veja, eu fui uma completa idiota! Eu joguei fora todas as chances que já tive no mundo, apenas por um capricho.
De repente, unidas pela irmandade, elas se sentaram frente a frente no sofá confortável enquanto Angela contava sua história.
― Eu não tinha a menor intenção de contar. Outro dia eu estava pensando sobre o quão sortuda eu era comparada à Srta. Powell, e de repente saí contando tudo. Mas eu tinha que fazer isso. Se você tivesse visto aqueles repórteres sujos e o rosto da Srta. Powell sob sua implacável sondagem e a velha Sra. Powell, impotente e grunhindo e suando… me fez pensar como uma tola, ela me disse isso, você sabe… Ah, Gínia, querida, você nunca chora! Querida, não há nada para chorar; qual é o problema? Querida!
― Estou chorando porque você é uma tola ― disse Gínia soluçando e fungando, cobrindo os olhos. ― Você é a garota mais tola e querida que já existiu, e é a minha adorável, maravilhosa e completa irmã. De volta! Oh, Angela, eu estou tão feliz. Diga-lhes para não lhe enviar o dinheiro da sua passagem; diga que não quer nada deles que eles não queiram dar; deixe-os ir, exceto aqueles que gostam de você por quem você é. E, minha querida, se você não se importa em ter que economizar um pouco por um ano ou dois e não esbanjar como planejou, vamos conseguir levá-la para a Europa. Você sabe que eu tenho todo o meu dinheiro da venda da casa. Nunca toquei nele. Você pode ficar com quanto quiser e me pague mais tarde ou não pague.
Rindo e chorando, Angela disse que não poderia considerar isso.
― Guarde o dinheiro para o seu casamento, Gínia. Vai demorar algum tempo até que… Anthony ganhe algum dinheiro de verdade, imagino. Mas vou seguir o seu conselho e ir para a Europa, afinal. Tudo isso vai estar no jornal amanhã, suponho, então escreverei ao pessoal do American Committee esta noite. Quanto ao prêmio em dinheiro, se eles quiserem de volta, eu devolverei. Mas acho que não; nada foi dito à Srta. Powell. São mil dólares. Vou pegar o dinheiro e ir para Paris e viver o quanto puder. Se não puder ficar com os mil, vou usar as poucas centenas que me restaram e irei mesmo assim. E quando voltar, voltarei ao meu antigo emprego… ou darei aulas. Mas tudo isso está muito distante, e não sabemos o que pode acontecer.
Havia um ou dois assuntos imediatos. O encontro com os repórteres deixou Angela um pouco mais abalada do que parecia à primeira vista.
― Eu não quero encontrá-los de novo ― disse ela com tristeza.
O aluguel do pequeno apartamento na Jayne Street ainda tinha um mês. Ela desceria naquela mesma noite, juntaria suas coisas e voltaria para Gínia, com quem viveria sossegadamente até a hora de partir. A correspondência poderia ser deixada com o zelador. Felizmente, a mobília não era dela; havia apenas algumas fotos a serem removidas. Afinal, ela tinha poucos amigos a considerar, apenas os Sandburgs, Marta Burden, a Sra. Denver, Ralph Ashley e Rachel Salting.
― E eu não sei o que fazer com eles ― disse Angela, ponderando. ― Afinal, você não pode escrever para as pessoas e dizer: “Caro amigo, você sempre pensou que eu era branca. Mas não sou. Sou negra e vou voltar a viver com minha própria família”. Oh, Gínia, Gínia, como pode este mundo ser tão difícil?
No final, depois que a história apareceu, como era esperado, no jornal da manhã seguinte, Angela recortou e mandou para cada um de seus antigos amigos cópias da história da Srta. Tilden, cuja manchete era: “Negrinha socialmente ambiciosa confessa longa fraude”.
*
Com exceção do artigo de Banky, todos os outros foram indelicados. O jovem húngaro enfatizou o elemento do autossacrifício e a teoria de que o sangue, afinal, era mais espesso que a água. Angela adivinhou corretamente que, se pudesse, ele teria preferido omitir, e que apenas o havia escrito para compensar o máximo possível os demais artigos. Das três outras histórias, a da Srta. Tilden era a mais tola e perigosa. Ela falou da mistura de sangue como a maldição do país, uma maldição cuja “influência insidiosamente oculta ameaça os poços da pureza racial nacional. Incidentes como esses fazem alguém parar antes de condenar os esforços da Ku Klux Klan e sua luta incessante pelo Americanismo puro”.
O efeito imediato dessa publicidade foi algo que nenhuma das irmãs previra. Quando Angela se apresentou ao trabalho na manhã da segunda-feira seguinte, encontrou um bilhete em sua mesa pedindo sua presença imediata no escritório. O presidente retribuiu seu bom dia com pouca cortesia, mostrou-lhe um recorte de jornal e perguntou se ela era a Srta. Mory da história. Após a sua garantia de que sim, era ela, ele entregou-lhe um mês de salário em lugar do aviso prévio e pediu que considerasse sua participação na empresa encerrada.
― Não temos lugar para fraudes em uma instituição como esta ― disse ele, cruel.
O incidente abalou as duas meninas até certo ponto. Virgínia, em particular, ficou sem fôlego pela crueldade imediata. Nunca ela testemunhara a variação especial do preconceito manifestado em relação às pessoas como Angela. Que o presidente da empresa atribuísse a reticência da garota sobre o assunto à fraude pareceu-lhe a última gota de injustiça.
A própria Angela estava muito menos perturbada.
― Já vi demais esse tipo de coisa para sentir como você, Virgínia. Claro, como você vê, há todos os tipos de absurdos envolvidos. No seu caso, sendo visivelmente negra, você seria recusada no trabalho desde o início. Talvez eles tivessem dito que consideram os negros incompetentes ou que outras meninas tinham uma forte aversão natural a trabalhar ao lado de uma de nós. Mas eu consegui o cargo, mantive-o por tempo suficiente para provar a capacidade e o trabalho de meninas como eu. Então, evidentemente, não há nenhuma aversão cega inerente a ser superada. Minha cor não mudou, mas expus o meu sangue. Veja, eu não mudei nem um pouco, mas de repente há todos esses dedos apontados. Não há nenhuma lógica nisso! Seria realmente muito engraçado, sabe, Gínia, se não fosse cheio de consequências desastrosas para pessoas como, digamos, a Srta. Powell.
― Não mencione ela ― disse Gínia com veemência ― Se não fosse por ela, você não estaria com todos esses problemas.
Angela sorriu.
― Se não fosse por ela, você e eu provavelmente nunca teríamos realmente nos encontrado outra vez. Mas você não deve culpá-la. Mais cedo ou mais tarde eu estaria confessando, como dizem os jornais, meu sangue negro. Não que eu pense que tem mesmo tanta importância; apesar de meus esforços para esconder, eu realmente não acho importante, Virgínia. Mas porque este nosso país torna o assunto tão necessário, ao contrário da minha própria convicção, eu estava começando a sentir como se estivesse carregando um grande segredo. No entanto, quando começo a me aprofundar nela, a questão do sangue não parece nada comparada à individualidade, ao caráter, à vida. A verdade é que eu estava exausta.
Ela se sentou, perdida em pensamentos.
“Todas as complicações destes últimos anos, e você não pode adivinhar quais complicações ocorreram, querida criança, foram ocasionadas pela minha passabilidade, por esta pele branca. Eu entendo por que a Srta. Powell desistiu da luta desigual sobre seus tickets. Claro, de certa forma, teria sido uma coisa boa se pudesse ter resistido, mas ela estava perfeitamente certa em deixar pra lá para que pudesse evitar amargura e decepção ainda maiores e para que pudesse ter algo em que devotar sua arte. Não é possível lutar e criar ao mesmo tempo. E compreendo, também, por que seu Anthony faz sua confissão; simplesmente para que não se incomode com as armadilhas da pretensão e vigilância. Suponho que ele tenha contado a você sobre aquela noite na casa de Marta Burden?
― Sim ― disse Gínia, suspirando ― ele tem ideais terríveis. Há algo terrivelmente imponente em Anthony. Gostaria que ele fosse mais como Matthew, confortável e acolhedor. Matt também tem alguns ideais, mas não os expõe tanto. Anthony é um querido, muito querido, mas ele é terrivelmente, terrivelmente, como se diz… devoto. Eu não fico nem um pouco surpresa ao saber que ele tem isso pesando seu coração.
Angela disse um tanto severamente:
― Olhe, Gínia, eu não acho que você o ama, não é?
― Bem, às vezes, acho que sim. Às vezes acho que não. Claro que a verdade é que dificilmente teria pensado em Anthony ou no casamento agora, se não estivesse tão solitária. Você sabe que não sou como você, Angela. Quando éramos crianças, eu era quem queria fazer carreira e você sempre ia se divertir. Agora, é o contrário; você é que terá uma carreira. Você apenas gravita para a aventura. Há algo tão forte e intenso em você que você não consegue ficar fora da batalha. Mas, Angela, eu quero um lar, com você, se você puder ficar parada por tempo suficiente, ou, se isso não acontecer, um lar com marido e filhos e tudo o que vem com isso. Claro que não me importo em admitir que a qualquer momento eu teria desistido até de você por Matthew. Mas, antes de ser esposa dele, prefiro morar com você e, depois, gostaria de me casar com Anthony. Não gosto de ficar sozinha; pois embora eu possa me defender sozinha, não quero.
Angela sentiu que empalidecia com a necessidade de esconder suas emoções.
― Então, o pobre Anthony vem em terceiro lugar em sua vida?
― Sim, receio que sim… querida, o que você acha de vieiras para o jantar? Tenho vontade de cozinhar hoje. Acho que vou até o mercado.
Ela saiu da sala, e sua irmã voltou-se para a grande fotografia de Cross mantida sobre a lareira. Angela colocou os dedos na face dele, tocou sua testa. Oh, Anthony, Anthony, a vida está te traindo de novo? Você sempre será o primeiro na minha vida, querido.
Talvez o diagnóstico de Virgínia sobre seu caráter estivesse correto. De qualquer forma, Angela recebia bem a atual combinação de dificuldades pela qual estava passando. Do contrário, essa última confissão de Gínia a teria afundado em uma nova infelicidade. Mas ela tinha muitos ajustes a fazer e a enfrentar. Em primeiro lugar, havia seu novo status no minúsculo círculo para o qual se mudara. Quando, ao cabo de duas semanas, desceu para seu antigo apartamento na Jayne Street para pedir sua correspondência, ela descobriu, apesar de tudo surpresa e magoada, uma distração gelada, um distanciamento, na Sra. Denver, com quem teve um breve encontro. Por outro lado, havia um bilhete e um cartão de visita de Marta Burden, e cerca de meia dúzia de cartas de Elizabeth e Walter Sandburg.
O bilhete de Marta dizia:
Sem dúvida, você e o Sr. Cross são pessoas muito boas. Mas não acredito que aguentaria outro choque tão em breve. O que você fez foi magnífico. Mas, oh, minha querida, que gesto impulsivo. E afinal, para que fim? Você virá me ver assim que receber isto ou me avisará como posso vê-la? E Angèle, se você deixar todo esse absurdo atrapalhar sua ida para a Europa, eu nunca vou te perdoar. Ladislas e eu temos vários milhares de dólares armazenados apenas implorando para serem usados.
Elizabeth Sandburg não disse nada sobre o assunto, mas Angela foi capaz de ler sua reação nas entrelinhas. O casal de bom coração conseguiu convencê-la o suficiente sobre seu respeito e amizade. Com sua imensa e errante letra, de cinco palavras por página, ela escreveu:
Por que diabos você não vem nos ver?
Você não pode imaginar como sentimos sua falta. Deixe de lado a obra-prima que você está compondo e nos dê um fim de semana.
Mas de Rachel Salting e de Ralph, nem uma única palavra!
Capítulo 2
Mais do que nunca, sua determinação de partir tornou-se fixa.
― Algumas pessoas ― Angela disse a Gínia ― podem pensar que é bom ficar aqui e lutar contra as coisas. Marta, por exemplo, está profundamente desapontada porque não permitirei que o comitê que estava trabalhando para a Srta. Powell aborde o meu caso. Suspeito que ela pensa que nós somos todos desistentes. Mas eu sei o limite. Eu disse a ela que queria passar minha vida fazendo algo além de lutar. Além disso, o Committee, como eu, está farto de toda essa questão, embora não pelo mesmo motivo, e acho que haveria ainda menos possibilidade de uma segunda chance no meu caso do que no da Srta. Powell.
Uma entrevista com Clarke Otter, Presidente do Conselho Consultivo do American Committee, deu a ela esta impressão. A atitude do Sr. Otter denunciava uma curiosa mistura de ressentimento em relação à “fraude” e à exasperação por ela ter sido impulsiva o suficiente para dar aquele show.
― Achamos que tem toda a razão em expressar sua determinação de não tirar proveito dos benefícios do Committee. Evidencia uma delicadeza de sentimentos bastante incomum, dadas as circunstâncias.
Angela estava fervendo de raiva quando saiu.
Uma carta para o doador do prêmio trouxe de volta a resposta lacônica de que ele estava interessado “não em etnologia, mas em arte”.
― Eu gostaria de ver essas pessoas ― disse Angela, se voltando para o jargão de sua juventude. ― Aposto que ele está longe de ser tão indigesto quanto soa. Aposto que está borbulhando de alegria com a estupidez de tudo isso.
Ela mesma estava alegre. Virgínia não se lembrava de tê-la visto tão animada, não desde os dias em que costumavam servir o jantar de segunda-feira para a mãe e desempenhar os papéis da Sra. Henrietta Jones. Mas a própria Angela sabia a superficialidade daquela alegria cuja realidade, Anthony, incapaz de permanecer por qualquer tempo em sua presença, mas de alguma forma incapaz de ficar longe, algumas vezes suspeitava.
Suas economias! Incluindo o prêmio em dinheiro, chegavam a cerca de 1.400 dólares. Anthony a incentivou a comprar uma passagem de segunda classe em um dos grandes e confortáveis navios. Então, poderia voltar de terceira classe.
― E, de qualquer maneira, não gaste mais do que o necessário ― disse Gínia maternalmente ― e, se precisar de dinheiro extra, escreva, e eu te mandarei o que precisar.
Pelas histórias contadas por ex-estudantes estrangeiros, parecia que ela poderia esticar o dinheiro por um período de oito ou nove meses.
― E até lá saberei se serei uma artista ou uma simples professora de desenho.
― Quase espero que seja o último ― disse Gínia com um egoísmo comovente ―, então você terá que voltar e morar conosco. Você não espera que sim, Anthony?
Angela pôde vê-lo estremecer de tensão.
― Oito ou nove meses no exterior devem fazer uma grande diferença na vida dela ― disse ele. ― Na nossa vida.
Tanto ele quanto Angela tinham apenas um pensamento esses dias: que a hora da partida teria que chegar. Nenhum deles tinha imaginado o horror que isso traria ao seu autocontrole.
*
Agora faltavam apenas cinco dias para sua partida na segunda-feira. Angela os dividiu entre os Sandburgs, Anthony e Gínia, que estava com um resfriado de verão. No sábado, ela pensou que gostaria de ver a Filadélfia novamente; era um pensamento tão persistente que às nove horas ela já estava no trem e às onze e quinze se preparava para dormir em um pequeno quarto lateral do Hotel Walton, em sua cidade natal. Sorrindo, ela adormeceu vagamente, acalmada pelo pensamento de estar tão perto de tudo o que tinha representado uma estável vida.
A proximidade iria abalá-la mais do que ela poderia sonhar.
De manhã, Angela tomou café em seu quarto, então ficou na porta do hotel, calçando suas luvas, como fizera tantos anos antes quando era uma menina fazendo compras com a mãe. Uma torrente de lembranças a invadiu, entre elas a lembrança daquele dia em que seu pai e Virgínia cruzaram com elas na rua. Quão trivial parecia agora o motivo para não falar com eles! Anos depois, Angela cortou Gínia por um motivo igualmente trivial.
Ela subiu em direção à 60th Street. Era domingo e a bela melancolia do dia estava se instalando na pacata cidade. Havia um frescor e uma solenidade no ar, como se até a atmosfera tivesse se tornado rarefeita e calma. Uma sensação de solidão a invadiu; esta era a cidade de seu nascimento, de sua infância e da maior parte de sua vida. No entanto, não havia ninguém, ela sentia, que pudesse transformar aquele lindo dia em uma recepção; velhos conhecidos podiam ficar um pouco satisfeitos ou curiosos em vê-la, mas nenhum deles demonstraria qualquer alegria comovente. Ela os havia deixado tão abruptamente, tão por completo. Bem, não deveria estar pensando nessas coisas. Afinal, em Nova York ela também se sentia sozinha.
O carro da 60th Street a deixou na Jefferson Street e lentamente Angela atravessou os três longos quarteirões. Sempre calados e respeitáveis, assim estavam na santidade da manhã de domingo. Que dia terrível o domingo poderia ser sem amigos, laços, casa, família. Apenas cinco anos antes, menos de cinco anos, ela tinha toda a simples e estável vida familiar, um café da manhã apetitoso, a música, a igreja com seus tipos interessante, bons para pintar, longas tardes e noites com os visitantes e discussões preenchendo o vazio.
E Matthew Henson, ele, ela se perguntou, lhe daria as boas-vindas? Mas Angela achava que ainda não queria vê-lo. Ela não estava feliz, mas não tinha desistido das aventuras, de experimentar a vida. E sabia que uma vida passada com Matthew Henson significaria o fim disso. Afinal, ele era, com sua firmeza, sua retidão, com seu dom para a responsabilidade, mais feliz do que ela? Angela duvidava. Oh, ela esperava que os domingos em Paris fossem alegres!
A Opal Street entrou em sua visão, uma linha, uma mera sombra de uma rua caindo sobre a Jefferson. Seu coração se acelerou, as lágrimas brotaram de seus olhos ao virar aquela esquina que tantas vezes havia virado, aquela esquina que uma vez deixara para sempre para saborear e conhecer a vida. No sol quente de julho, a rua estava quase deserta. Um jovem negro, impecável em uma camisa branca, fina e reta, inclinado para pegar o volumoso jornal de domingo, endireitou-se para vê-la avançando em direção a ele. Ao lado dele estava a antiga casa de Angela ― como era minúscula e ainda assim cheia de segredos, de conhecimento de alegria, desespero, sofrimento, futilidade ― em sua breve vida.
Angela ficou alguns momentos na frente dela, apenas olhando, mas logo se levantou e colocou a mão no tijolo vermelho, perguntando-se às cegas se de alguma forma a coisa inanimada não poderia se comunicar com ela através do toque. Uma mulher negra sentada na janela olhando para ela com bastante severidade, saiu e perguntou-lhe o que queria.
― Nada ― Angela respondeu estupidamente. ― Eu só queria dar uma olhada na casa.
― Não está à venda.
― Não, não, claro que não. Eu só queria vê-la de novo. Eu morava aqui, sabe. Eu estava pensando…
Mesmo que conseguisse permissão para entrar, ela aguentaria? Se pudesse apenas ficar uma vez naquele pequeno quarto dos fundos e chorar e chorar, talvez suas lágrimas inundassem toda aquela massa de pesar, confusão e memórias fúteis, e ela pudesse recomeçar a vida com uma página em branco. Graças a Deus, ela era jovem! De repente, pareceu-lhe que entrar na casa mais uma vez, ficar naquela sala seria remediador.
Erguendo os olhos em expectativa para o rosto da mulher, Angela começou:
― Será que você poderia…
Mas a mulher, lançando um último olhar desconfiado e murmurando que não queria “nada com o lixo branco e pobre”, virou-se e, batendo a porta atrás de si, entrou na saleta quadrada e baixou as persianas.
*
O jovem magro desceu correndo a rua em sua direção. Uma inspeção mais próxima revelou um agradável rosto moreno sardento encimado por um cabelo ruivo escuro espesso e macio, cortado bem curto.
― Angela ― disse ele timidamente, e então com mais segurança: ― É Angela Murray.
Ela virou o rosto aflito para ele.
― Ela não me deixou entrar, Matthew. Vou para a França amanhã e pensei que gostaria de ver a antiga casa. Mas ela não me deixou entrar. Ela me chamou… ― a voz quebrou com a injustiça disso ― de “lixo branco e pobre”.
― Eu sei. ― Ele balançou a cabeça gravemente. ― Ela faz esse tipo de coisa; ela não entende, sabe. ― Matthew a conduzia gentilmente em direção a sua casa. ― Acho melhor você entrar e descansar um pouco. Meu pai e minha mãe saíram em sua viagem anual à cidade de Bridgeton; mamãe nasceu lá, sabe. Mas você não vai se importar de entrar na casa de um velho amigo.
― Não ― Angela disse, consciente de uma esmagadora fadiga. ― Eu não deveria.
Enquanto eles cruzavam o limiar, ela tentou sorrir, mas o esforço foi demais e Angela caiu em uma enxurrada de lágrimas sufocantes, estrangulantes e barulhentas. Matthew tirou o chapéu dela e a abanou; trouxe água gelada e um grande lenço macio para substituir o dela, que estava encharcado. Em meio às lágrimas, ela sorriu para ele, compreendendo por que Virgínia falava tanto sobre a gentileza dele. Ele ainda era Matthew Henson, ainda sardento e moreno, ainda coberto com aquele cabelo espesso. Mas cuidados, penteados, métodos de toalete aperfeiçoados e, acima de tudo, a emanação de um espírito bom e generoso o haviam metamorfoseado em alguém que ainda era o velho Matthew Henson e ainda assim alguém dotado de uma quintessência de bondade, gravidade e compreensão.
Ela bebeu a água cheia de gratidão, pegou seu pó de arroz.
― Não preciso perguntar como você está ― disse ele, fazendo uma prece de agradecimento pela histeria evitada. ― Quando uma senhorita começa a passar pó no nariz, ela está relutando. Quer me contar sobre isso?
― Não há nada a dizer. Só que eu queria ver a casa e de repente me vi com saudades, solitária, incompreendida. E quando aquela mulher me recusou com tanta crueldade, foi demais.
Seu olhar vacilou, seus olhos se encheram de lágrimas novamente.
― Oh ― disse Matthew aterrorizado ―, pelo amor de Deus, não chore de novo! Vou até lá e discutirei com ela; farei com que entregue toda a casa para você. Farei o que for preciso. Apenas seque essas lágrimas.
Ele pegou o lenço dela e enxugou-as com muita, muita delicadeza. Ela segurou sua mão.
― Matthew, você é um querido.
Ele encolheu os ombros negligentemente.
― Você nem sempre pensou isso.
Essa jogada nunca funcionaria.
― O que você estava planejando fazer quando cheguei? Preparando-se para ler o seu jornal e ser todo caseiro e confortável?
― Sim, mas eu não quero fazer isso agora. Vou te dizer uma coisa, Angela, vamos nos divertir. E se jantarmos aqui? Lembra como costumava me fazer feliz como um rei antigamente quando apenas me entregava um copo d'água? Você disse que ia embarcar amanhã; deve estar tudo pronto. Que horas você tem que estar de volta? Vou colocá-la no trem.
A ideia a encantou.
― Eu adoraria! Matthew, que divertido!
Eles encontraram um avental da mãe dele e, na caixa de gelo, rosbife frio, alface, que o povo da Filadélfia chama de salada, beterraba e milho.
― Vou fazer bolinhos ― disse Angela com alegria. ― E você pegue um pote depois do jantar e saia para trazer sorvete. Oh, Matthew, como está tudo voltando para mim! Você ainda faz compras aqui no mercado?
Eles comeram a refeição na pequena sala de jantar escura e fresca, o oposto da sala de jantar da antiga casa de Junius Murray do outro lado. Mas de alguma forma sua pequenez não era mais enfadonha; ao contrário, parecia uma pequena ilha de proteção em um mar de problemas. Na fantasia, ela viu seu pai e sua mãe, quase um quarto de século atrás, vindo orgulhosamente para uma casa assim, seu pequeno refúgio contra o mundo. Quão linda tal vida poderia ser quando compartilhada com alguém amado ― com Anthony! Ela suspirou involuntariamente.
Matthew, estudando-a pensativo, disse:
― Você está sonhando, Angela. Diga-me do que se trata.
― Eu estava pensando em como uma casa como esta poderia ser um pequeno refúgio; tal qual era para minha mãe. Engraçado como eu quase derrubei as paredes uma vez tentando fugir. Agora não consigo pensar em mais nada maravilhoso do que ter um lugar como este, aqui, ali, em qualquer lugar, para voltar.
Assustado, Matthew contou a ela sobre sua surpresa ao ouvir tais palavras.
― Se Virgínia tivesse dito essas palavras, eu acharia perfeitamente natural; mas nunca pensei em você interessada em um lar. A propósito, como está Virgínia?
― Perfeita.
Melancólico, ele perguntou:
― Suponho que ela esteja muito feliz?
― Feliz o bastante.
― Uma ótima garota, a pequena Virgínia.
Por sua vez, Matthew começou a meditar.
― Você não me contou sobre suas aventuras e sua fuga para o grande mundo.
― Não há muito o que contar, Matthew. Tudo o que vi e experimentei foi o destino comum da maioria das pessoas, um pouco aguçado, talvez, um pouco vivificado. Em resumo, me diverti muito e tive problemas na mesma medida. Fui estimulada pela aventura; conheci o sofrimento, o amor e a dor.
― Você ainda está me surpreendendo. Não imaginei que uma garota como você pudesse saber o significado da dor.
Ele deu a Angela um sorriso torto.
― Embora você certamente saiba como causá-la. Mesmo agora, posso sentir uma pontada que nenhum outro pensamento produz se eu deixar minha mente voltar para aqueles primeiros dias desesperados depois que você me deixou. Céus, como sofremos quando somos jovens!
Ela balançou a cabeça, colocou a mão sobre a dele.
― Muito. Lembre-se, eu também estava sofrendo, Matthew, embora por outro motivo. Eu estava tão pressionada, então… bem, não vamos falar sobre isso. Espero que você tenha superado todo esse sentimento. Na verdade, eu não valia a pena. Diga-me que você não deixou que isso o incomodasse todos esses anos.
A mão dele apertou a de Angela levemente, então se retirou.
― Não, eu não… A sua partida foi tão repentina que me paralisou, me puxou para baixo. Eu sofri, oh, muito, mas estava sofrendo com meus olhos abertos. Eu soube então que você não era para mim; que fundamentalmente estávamos muito distantes. E, por fim, superei isso. Aqueles dias! ― Ele sorriu novamente com ironia, lembrando. ― Mas continuei sofrendo do mesmo jeito, só que de outra maneira. Me apaixonei por Gínia.
O coração de Angela parou de bater.
― Matthew, não acredito! Por que diabos você nunca disse isso?
― Eu não poderia. Ela era uma criança, entende; ela deixou tão claro o tempo todo que só me via como o namorado da irmã e, portanto, uma espécie de irmão em quem podia confiar. Depois que você se foi, eu costumava ir vê-la, levá-la por aí. Ela se pendurava no meu braço e erguia o rosto para um beijo de boa noite! Uma vez, eu me lembro, tínhamos saído e ela ficou enjoada do carro, coitadinha! Ela estava com tanta vergonha! Como um bebê, sabe, brincando de ser adulta e depois com vergonha de voltar à infância. Fui vê-la no próximo dia e ela estava tão pequena e frágil! Fiquei longe por um longo tempo e então soube que ela estava indo para Nova York. Eu te julguei muito mal, Angela. Você deve me perdoar. Pensei que você a tinha induzido a ir. Eu soube mais tarde que estava errado, que você e ela raramente se viam em Nova York. Você sabe por que ela foi embora?
Havia o orgulho da irmã a proteger, mas sua própria necessidade a socorrer; quem poderia ter sonhado com tal dilema?
Não posso trair Gínia, Angela pensou e disse a Matthew que, embora pessoalmente não tivesse influenciado a irmã, esta tivera um bom motivo para deixar a Filadélfia.
― Acho que sim. Certamente ela se foi. Mas ela me escrevia de vez em quando, cartas como ela mesma, tão francas, infantis e ingênuas e tornando tudo tão claro que qualquer demonstração de amor da minha parte estava fora de questão. Eu disse a mim mesmo: “Não vou estragar minha vida inteira por causa dessas garotas Murray”. E eu deixei nossa amizade se transformar em um nada… então ela veio visitar Edna Brown neste verão. Eu quase pulei para Merion para vê-la. No momento em que coloquei os olhos nela, percebi que ela havia se desenvolvido, tinha se tornado uma mulher. Ela estava como sempre, gentil e doce, mais bonita, mais atraente do que nunca. Pensei em tentar a sorte… Edna me disse que ela estava noiva. Como ele é, Angela?
― Muito bom, muito bom.
― Louco por ela, suponho?
Angela olhou desesperadamente para ele.
― Ele é um tipo que não demonstra. Suponho que ele é louco por ela o suficiente. É só que… bem, eles falam como se não tivessem intenção de se casar por anos e anos e parecem contentes com isso.
Matthew franziu a testa, incrédulo.
― O quê! Que estranho!
Impulsivamente Angela explodiu:
― Oh, Matthew, você não sabe, há tanta dor, tanto sofrimento no mundo, um homem nunca deveria deixar pedra sobre pedra para alcançar sua felicidade. Por que você não escreve para Gínia, vai a Nova York para vê-la?
Sob as sardas, a pele morena dele empalideceu.
― Você acha que há uma chance?
― Meu querido, eu não ousaria dizer. Sei que ela gosta muito de você. E não acho que ela o considere um irmão.
― Angela, você não me enganaria, não é?
― Por que eu deveria fazer isso? E lembre-se de que, afinal, não estou lhe dando nenhuma garantia. Estou apenas dizendo que vale a pena arriscar. Agora vamos ver, vamos arrumar este lugar e depois devemos ir.
Na estação, ela deu um beijo de despedida nele.
― De qualquer forma, você sempre foi um irmão para mim. Pense no que eu disse a você, Matthew; faça alguma coisa.
― Eu farei. Oh, Angela, suponho que Deus a tenha enviado aqui.
― Talvez sim.
Eles se separaram solenemente.
Três horas depois, Angela entrou no apartamento da irmã. Gínia, gripada, seus olhos inflamados e chorosos, cumprimentou-a lamentavelmente.
― Olhe para mim, Angela. E você vai embora amanhã! Jamais conseguirei ir até o navio!
O telefone tocou.
― Tem tocado sem parar durante a última hora, alguém ligando para você. Atenda.
A mensagem era de Ralph. Ele tinha estado em New Orleans.
― E voltei e descobri o recorte do jornal. Sei que você o enviou. Garota, te persegui tanto hoje! Finalmente encontrei Marta Burden, ela me disse onde você estava hospedada. Posso subir? Estarei aí em meia hora.
― Não esta noite, Ralph. Você gostaria de vir para o navio amanhã?
― Então você vai de qualquer maneira? Claro! Mas não antes de te ver! E se eu te levar para o navio?
― Muito legal da sua parte, mas vou com minha irmã.
Gínia, com uma voz embargada, disse que não faria nada disso.
― Estou gripada!
Angela falou de novo.
― Minha irmã disse que não vai, então vou recorrer a você, se puder.
Ela desligou.
Virgínia queria saber da viagem. As duas irmãs conversaram longamente durante noite, mas Angela não disse nada sobre Matthew.
*
A segunda-feira foi um dia de surpresas. Marta e Ladislas Starr, impossibilitados de estarem presentes na despedida, foram até a casa levar a viajante para dirigir pela cidade. Secretamente, Angela ficou encantada com esse arranjo, que trouxe uma carranca ao rosto de Ralph.
Virgínia, miserável com o resfriado de verão, aguentou bravamente.
― Não me importo de deixar você ir embora de casa assim; mas eu não aguento a ideia o navio! Angela, você não deve se preocupar comigo nem um pouco. Apenas volte para mim, volte feliz. Eu sei que você vai. Oh, como isso é diferente daquela separação anos atrás na Filadélfia!
― Sim ― disse Angela sobriamente. ― Eu estava fisicamente a cento e cinquenta quilômetros de você, mas era como se estivéssemos separadas por um mar. Bem, querida, cinco mil quilômetros não são nada quando há amor, confiança e compreensão. E, Gínia, ouça! A vida é cheia de surpresas. Se uma oportunidade para a verdadeira felicidade vier, não tenha medo dela.
― Misteriosa ― chiou Gínia, rindo. ― Não sei do que você está falando, mas eu vou fazer o meu melhor para agarrar qualquer felicidade que vier em minha direção.
Elas trocaram beijos graves, quase frios, sem lágrimas. Mas nenhuma das duas conseguiu se despedir de verdade.
Angela ficou em silêncio durante quase todo o caminho até o cais, dando aos amigos apenas respostas monossilábicas. Lá, outra surpresa a esperava na forma da Sra. Denver, que permaneceu, no entanto, apenas por alguns momentos.
― Eu não poderia suportar que você fosse ― ela disse lamentavelmente ― sem que eu a visse pela última vez. ― E, envolvendo a garota em um abraço apertado, ela desabou e murmurou tristemente sobre uma filha perdida que teria sido “talvez como você, querida, se ela tivesse vivido”.
Elizabeth Sandburg, a alegre, a complacente, a querida da vida, agarrou-se a ela, chorando:
― Não suporto perdê-la, Angèle.
Walter a abraçou.
― Beije-me, velha amiga. E lembre-se, se você precisar de qualquer coisa, qualquer coisa, você deve nos chamar. Se você ficar doente, vamos atrás de você, certo, Lizzie?
― Sim, claro, claro… e não me chame de Lizzie… vamos embora, por favor, e deixe-os um momento juntos. Você não vê Ralph olhando para você?
Eles se retiraram para um bom ponto focal no cais.
Angela, surpresa e chorando, lembrando-se das palavras da Sra. Denver e das manifestações de gentileza, disse:
― Eles realmente me amam, não é?
― Sim ― disse Ralph seriamente ―, todos nós te amamos. Irei vê-la logo, Angèle, posso? Você sabe que temos muitas coisas para falar, algumas coisas que você talvez ache que significam muito para mim, mas que na realidade não significam nada. Por outro lado, existem algumas questões que realmente querem dizer alguma coisa para mim, mas cujo valor para você eu não tenho certeza.
― Oh ― ela disse, enxugando os olhos e lembrando de seu antigo segredo. ― Você não veio me pedir em casamento, não é? Você não tem que fazer isso. E, de qualquer maneira, não é mais como antes. Não há mais mistério sobre mim, você sabe. Então, a verdadeira atração se foi. Lembre-se, não estou esperando nada de você, então, por favor, não pergunte. Ralph, não posso ficar parada e acho que muitas vezes, apesar de tudo, conviverei com a minha passabilidade. Mas eu quero que você saiba que a partir de agora, estou do lado dos negros. E eu não quero que você passe para este lado. ― Ela balançou a cabeça finalmente. ― É complicado demais até para você.
Pois, embora Angela soubesse que ele acreditava em suas próprias palavras corajosas, a experiência a ensinara a não pedir um americano a colocá-las à prova.
― Tudo bem ― disse ele, sorrindo para as suposições ingênuas dela. ― Não vou pedir-lhe em casamento, pelo menos não ainda. Mas irei da mesma forma. Suponho que você não tem garantias em Paris.
― É claro que não tenho ― ela riu um pouco. ― Você sabe perfeitamente bem que eu quero que você venha. ― Seu rosto de repente se tornou sério. ― Mas se você for, não vá prometer amor sem significar nada. Eu odiaria isso entre nós dois.
― Não ― disse ele, compreendendo instantaneamente. ― Eu também não farei isso.
― Você irá como um amigo?
― Sim, como um amigo.
Um ajudante de convés se aproximou e disse educadamente que em poucos minutos eles partiriam e todos os visitantes deveriam desembarcar.
Capítulo 3
Entre as cartas, estava um breve bilhete de Anthony:
Angela, meu anjo, minha querida menina, adeus. Essas últimas semanas foram o céu e o inferno. Eu não podia suportar vê-la partir, então saí por algumas horas… não pense que vou negligenciar Gínia. Eu nunca vou fazer isso. Estou certo em supor que você ainda se importa um pouco? Oh, Angela, tente me esquecer… mas não esqueça! Eu nunca vou te esquecer!
Havia cartas e flores dos Burdens, presentes de todos os tipos, de Ralph e da Sra. Denver, de Virgínia, um conjunto de notas para cada dia fora. Ela lia cartas, examinava seus presentes e os colocava de lado. Mas durante todo o dia o bilhete de Anthony repousou em seu coração; à noite, ficou sob sua cabeça.
*
Paris a princípio a encantou e cortejou. Por um tempo, teve a impressão de que sua antiga alegria de viver havia voltado. Foi como aqueles primeiros dias que passou explorando Nova York. Angela andava encantada nos ônibus, sem parar, até o terminal desconhecido e imprevisível; seguia o sinuoso Sena; cruzando e recruzando as pontes, cada uma com suas características distintas. Atrás do Panteão, perto da igreja de Santa Genevieve, ela descobriu um restaurante russo onde pratos estranhos e exóticos eram servidos por garçons altos e loiros em blusas russas rígidas e brancas. Um dia, vagando pelo Boulevard du Mont Parnasse, ela encontrou em sua junção com o Boulevard Raspail, o Café Dome, um restaurante para estudantes do qual muitos alunos haviam falado na Escola de Arte de Nova York. Ao entrar, ela foi reconhecida quase imediatamente por Edith Martin, uma garota que havia estudado com ela na Filadélfia.
A Srta. Martin morava em Paris há dois anos; conhecia todas as fofocas e personagens do bairro; poderia contar a Angela sobre pensões, cafés, gorjetas e disposição gaulesa. Sobre todos esses tópicos, ela despejavauma torrente de informações, apresentava seus amigos, convocava a recém-chegada constantemente a seu estúdio ou acampava sem ser convidada nos minúsculos aposentos da outra garota na Pensão Franciana. Não havia chance de solidão física real, mas Angela pensou, depois de algumas semanas de camaradagem persistente, que nunca se sentira tão solitária em sua vida. Pela primeira vez em sua vida aventureira, ela foi pega por uma onda de saudades de casa.
Então, isso também passou com o verão, e Angela se viu no final de setembro absorta em seu trabalho. Ela ia à Academia duas vezes por dia, mergulhando na atmosfera do Louvre e na galeria de Luxemburgo. Foi um trabalho árduo, mas aos poucos ela aprendeu a lembrar que aquela era sua vida e que seu objetivo, sua única ambição, era se tornar uma reconhecida pintora de retratos. O professor, renomado filho de um pai ainda mais renomado, quase sempre elogiava seus esforços.
Com a chegada do outono, o senso de aventura a deixou. Paris, tão bela no verão, tão alegre com seus milhares aglomerados, seus anfitriões focados no prazer, assumiu outra roupagem no tom sombrio do final do outono. Os turistas desapareceram e o trabalho árduo e constante, a dedicação firme ao negócio da vida, tão perceptível nos franceses, tomou o lugar de uma liberdade transitória e descuidada. Angela sentiu que estava entrando na linha; mas era uma boa disciplina, como ela mesma percebeu. Uma ou duas vezes, em períodos de total solidão ou tédio, ela deixou que sua mente se demorasse em sua vida curiosamente frustrada e distorcida. Mas a capacidade de autopiedade havia desaparecido. Ela havia conhecido muitas outras pessoas cujas vidas estavam igualmente distantes de objetivos que a princípio pareciam tão certos. Por um período, Angela esperou febrilmente a chegada de correspondência estrangeira, certa de que alguma palavra deveria vir de Virgínia sobre Matthew, mas os meses se arrastaram carrancudos e as cartas de Gínia permaneceram as mesmas missivas ingênuas tagarelando sobre trabalho, Anthony, Sara Penton, os filmes e visitas a Maude.
Claro que nem tudo pode dar certo, Angela pensou.
Certamente, Matthew, pensando bem, julgou mais sábio consultar as evidências de seus próprios sentidos do que ser guiado pelas dicas que Angela só podia oferecer vagamente.
Naqueles seis meses, ela perdeu para sempre o otimismo cego da juventude. Não escreveu a Anthony nem teve notícias dele.
*
O dia da véspera de Natal amanheceu, ou melhor, passou em meio à névoa negra da noite tenebrosa. Angela sentiu seu espírito afundar. Virgínia tinha prometido a ela um presente.
Procurei por toda esta cidade para encontrar algo bom o suficiente, algo absolutamente perfeito. Anthony tem me ajudado. E, finalmente, encontrei. Tomamos todas as precauções possíveis contra a interferência do vento, da chuva ou do clima, e a menos que algo imprevisível intervenha, ele estará lá para você na véspera de Natal ou no dia anterior. Mas lembre-se, não abra até o Natal.
Mas já eram seis horas da véspera de Natal e nenhum presente chegara, nenhuma carta, nenhuma lembrança de qualquer tipo.
Oh, pensou Angela, que idiota fui por ter vindo tão longe de casa!
Por um momento, ela imaginou a possibilidade de se jogar na cama e chorar até que acabasse. Em vez disso, se lembrou do convite de Edith Martin para passar a noite em sua casa, uma noite que incluiria dança e brincadeiras, uma viagem antes da meia-noite para ouvir a missa em St. Sulpice, e um retorno ao estúdio para, sem dúvida, mais danças, piadas e risos, e possivelmente embriaguez por parte dos homens.
Às dez horas, enquanto Angela estava em seu minúsculo quarto, um tanto taciturna dando os últimos retoques em sua roupa, a empregada, Heloísa, trouxe-lhe um telegrama.
Era uma longa mensagem de Ralph desejando sua saúde, felicidade e oferecendo-se para ir com uma semana de antecedência. De alguma forma, o pedaço de papel azul a animou, acalmando seus nervos tensos.
É claro que eles estão pensando em mim. Terei lembranças de Gínia a qualquer momento; não é culpa dela que a entrega esteja atrasada. O que será que ela me enviou?
Voltando da festa às três da manhã de Natal, Angela colocou a mão com cautela na porta para acender a luz, esperando que um pacote estivesse perto da soleira, mas não havia nada lá.
Bem, mesmo que estivesse aqui, eu não conseguiria abri-lo, pensou ela, porque estou com muito sono.
E de fato ela havia se entorpecido com dança e alegria até uma sonolência avassaladora. Mal conseguindo jogar de lado seu lindo vestido, caiu luxuosamente na cama, grata em meio à sua sonolência pelo cansaço que a faria esquecer.
No que lhe pareceu menos de uma hora, ela ouviu uma batida forte na porta.
― Entrez ― disse Angela, sonolenta, e imediatamente adormeceu.
A porta, por acaso, estava destrancada; ela estava cansada demais para pensar nisso na noite anterior. Heloise ficou chocada.
― Meu Deus ― disse ela ao cozinheiro depois ―, uma hora eu tive que acordá-la! Lá estava ela dormindo e o cavalheiro lá embaixo esperando!
Angela finalmente abriu os olhos perplexos.
― Um cavalheiro ― reiterou Heloísa. ― Ele espera por você lá embaixo. Ele diz que tem um presente que deve colocar em suas mãos. Mademoiselle descerá então ou devo dizer a ele para voltar depois?
― Diga a ele para voltar ― murmurou ela, depois abriu os olhos pesados. ― É mesmo Natal, Heloísa? Onde está o cavalheiro?
― Como se eu o tivesse no bolso ― disse Heloísa mais tarde em seu fiel relatório ao cozinheiro.
Mas finalmente a mensagem foi ouvida. Agarrando um roupão e chinelos, Angela meio que saltou, meio que caiu pela pequena escada e mergulhou na pequena sala de estar. Anthony, sentado no sofá extremamente desproporcional, bege e marrom, levantou-se para recebê-la. Com os olhos fixos no semblante atônito dela, ele começou a vasculhar os bolsos, batendo no colete, tirando chaves e lenços.
― Deve haver uma etiqueta em mim em algum lugar ― observou ele ―, mas, de qualquer maneira, Virgínia e Matthew enviam lembranças.
- fim -