Não tão branca
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― E Roger, o que ele faz?
― Gasta. O que mais há para fazer? Nada, exceto se divertir e não aborrecer o pai. O pai dele é uma figura, sabe como é, louco por seu nome e seu legado. Roger não se atreve a ficar bêbado e se deitar na sarjeta, nem a se envolver com os tipos errados. Fora isso, este mundo é uma ostra e ele a come todo dia. É um jovem que consegue tudo o que deseja.
― O que você quer dizer com se envolver com os tipos errados? Ele não é da realeza.
― Você falou como uma boa estadunidense. Não, ele não é. Mas ele não deve se casar com certos tipos. O velho não ligaria nem um pouco para
o dinheiro, mas insistira em sangue azul e no Mayflower9. O engraçado é que Roger, que parece tão democrático, é assim também. Mas claro que correu tanto atrás das coisas boas que é intocável. É por isso que não posso ficar com ele. Não me importo se um homem não se casará comigo, mas não posso perdoá-lo se ele achar que não sou boa o suficiente para me casar com ele. Qualquer mulher é melhor que o melhor dos homens.
O rosto dela foi tomado de uma expressão intensa, cheia de energia; alguém poderia dizer que ela estava consumida pela excitação.
Angela assentiu, sem prestar muita atenção. Roger, um multimilionário! Roger, que apenas duas noites antes havia beijado seus dedos, seus olhos ávidos e mesmo assim tão humildes e implorantes!
― Escute, se você começar a se engraçar com Roger, tome cuidado. Ele não tem escrúpulos, e dirá ou gastará o que for preciso para conseguir o que quer.
Paulette riu com a pergunta nos olhos da amiga.
― Não, eu não considerei Roger nem por cinco minutos. Mas conheço o tipo dele. São perigosos. É errado que homens tenham poder e dinheiro; estão condenados a fazer alguma mulher sofrer. Vamos até a Avenue comigo, preciso comprar um chapéu. Não posso mais usar este. É muito pequeno, parece um amendoim num barril.
*
A mente de Angela era visual. Ela viu os dias da semana, os meses do ano em pequenas e estreitas divisões. Ela viu os últimos anos de sua vida caindo em compartimentos separados e desiguais que juntos constituíam sua existência. Quando olhava para o período entre o Natal e a Páscoa, via uma névoa azulada começando em uma neblina branca, se transformando em algo vermelho e terrível; e através da névoa azulada estendia-se o nome: Roger.
Roger! Angela nunca tinha visto ninguém como ele: tão alegre, tão bonito, como um deus loiro e glorioso, tão irresistível, tão persistente. Ela não tinha gostado tanto a princípio; gostava como alguém gosta do sol, do céu azul ou de um pássaro cantando, de qualquer coisa alegre e livre. A mente deles não se conectava. Ele não sabia nada da vida, exceto o que era prazeroso; é verdade que sua ideia do prazer nem sempre coincidia com a dela. Roger não tinha medo, nem restrições, nem preocupações. Sim, ele tinha uma; não queria ofender o pai. Ele desejava o dinheiro do pai ardente e inabalavelmente. Não invejava o pai por um dia, nem uma hora, em nenhum momento de sua vida; sobre isso tinha uma sinceridade esquisita e altruísta. O velho cavalo de guerra financeiro fizera sua fortuna com trabalho duro e lutas impiedosas. Ele dera a Roger seu ser, a entrée para uma existência maravilhosa. Já havia lhe concedido uma soma anual que teria mantido várias famílias no conforto. Se Roger tivesse se importado em economizar por dois anos, nunca precisaria ter pedido outro centavo ao pai. Com qualquer tipo de sorte, poderia ter construído para si mesmo uma segunda fortuna colossal. Mas não se importou em fazer isso. Ele não desejava ao pai a perda de um instante de vida ou de alegria. Mas queria a posse final desses milhões.
Angela gostava mais dele quando Roger falava sobre “meu pai”; ele nunca mencionou a vastidão de sua riqueza, mas agora ela não poderia ter evitado adivinhar, mesmo sem a ajuda de Paulette, que ele era um homem rico. Ela não recebia joias dele, mas havia presentes constantes: flores, frutas, doces, livros, belas cópias dos antigos mestres. Ela tinha medo e vergonha de expressar um desejo na frente dele. Com tudo isso, havia ainda sua presença constante. E uma estranha vigilância que Angela sentia, mas não conseguia explicar.
― Ele deve me amar ― disse a si mesma, pensando nas carícias dele. Ela não conseguira evitar que ele a beijasse. Sua inquietação o divertia e encantava: ele ria de seu puritanismo, conseguia envergonhá-la.
― Criança, de onde você veio? Não há nada de errado em um beijo. Se eu não te beijasse, não poderia vir te ver. E eu tenho que ver você, Angèle! ― A voz de Roger ficou mais profunda; a expressão em seus olhos a fez vacilar.
Mesmo assim, ele não a pediu em casamento. Mas suponho que seja porque ele pode ver que ainda não o amo. E Angela se perguntou como seria amar. Até Gínia sabia mais sobre isso do que ela, pois sentia, talvez ainda sentisse, uma forte afeição por Matthew Henson. Bem, de qualquer maneira, se eles se casassem, ela provavelmente iria amá-lo; a maioria das mulheres aprendeu a amar seus maridos. A princípio, depois de sua conversa com Paulette sobre Roger, Angela esperava uma diminuição das atenções dele a qualquer momento, afinal ela era desconhecida. Mas Angela tinha certeza agora que Roger a amava e gostaria de se casar com ela, pois nunca lhe ocorreu que os homens dispensavam atenções como essas em uma fantasia passageira. Ela viu a vida se desenrolando como um conto de fadas. Pobre, negra ― negra nos Estados Unidos; desconhecida, uma ninguém! E aqui em sua mão estava a possibilidade de amor e de grande riqueza. Angela faria muitas coisas boas para os negros; ela garantiria que a Srta. Powell, por exemplo, tivesse sua bolsa de estudos. Oh, ela iria caçar garotas e homens como Seymour Porter ― ela quase esqueceu o nome dele. Arthur Sawyer? ― e dar-lhes um gostinho da vida em sua plenitude e beleza como nunca haviam sonhado.
Esta noite ela iria sair com Roger. Angela colocou seu vestido cor de fogo novamente; um lindo vestido verde também estava pendurado em seu armário, mas ela usava o flamejante porque a iluminava por dentro, iluminava não apenas seu belo e adorável corpo, mas também sua mente. A satisfação com a aparência liberou uma fonte inexplicável de alegria e simplicidade, de forma que ela parecia quase ousada.
Roger, sentado defronte, tentou sondar o humor dela, tentou avaliar o convite das maneiras e das possibilidades de Angela. Ela o tocou uma ou duas vezes, familiarmente; quase possessivamente, ele pensou. Angela parecia estar ao seu alcance agora, se junto com esse gesto ela fosse imprudente. Foi esse atributo que, pela primeira vez naquela noite, ele pensou surgir dentro dela. Se, além de seu interesse insaciável pela vida ― pois sempre lhe perguntava sobre pessoas e lugares ―, ela possuía aquela imprudência, então poderia realmente fazer-lhe uma proposta que estivera em seus lábios por semanas e meses. Algo inocente, pateticamente intocado, sobre ela, até então o manteve afastado. Mas se Angela tivesse a ousadia necessária! Eles estavam jantando na East Tenth Street, em um pequeno café que contrastava com o Park Avenue Hotel, para onde ele a levara pela primeira vez. Mas sobre eles estendia-se o resplendor e a perfeição do cristal e da prata, do maravilhoso guardanapo e do atendimento servil. Tudo, pensou Angela, olhando em volta, foi traduzido. O leve cheiro da comida era, disse ela a Fielding, realmente um aroma: a água mineral, que ele bebia porque não podia evitar e ela porque não conseguia aprender a gostar de vinho, era néctar; o pão, o peixe, os pratos eram ambrosia.
A comida, também, em geral, deveria ser considerada como manjares.
― Comes e bebes, em melhores palavras ― disse ela rindo.
― E você também merece todas as melhores palavras. Angèle, você é maravilhosa, você é encantadora ― os lábios de Roger diziam, mas seus sentidos batiam e martelavam.
Intoxicada com a magia do momento e dos arredores, Angela inclinou o rosto sorridente um pouco mais perto, e viu o rosto de Roger mudar, escurecer. Nuvem sobre o sol.
― Com licença ― disse ele e atravessou a sala atrás dela com pressa. Surpresa, ela se virou e olhou para ele. Em uma mesa atrás dela, três pessoas negras (sob o comando de um garçom perplexo e perturbado) estavam prestes a pegar uma mesa. Roger subiu e falou com o chefe dos garçons com autoridade, até com raiva. Este último olhou ao redor da sala, acenou com a cabeça e, se aproximando, dirigiu-se ao pequeno grupo. Houve uma discussão apressada e ligeiramente sarcástica. Então os três saíram, passando pela mesa de Angela desta vez, de cabeça erguida.
Ela voltou para seu prato, seu coração doente.
Para ela, a noite acabara. Roger voltou, seu rosto corado, triunfante.
― Bem, eu ensinei a esses guaxinins! Eles se esquecem tão rápido, vindo aqui estragar o apetite dos brancos. Eu disse ao gerente que se eles fizessem um de seus malditos pedidos, eu seria o responsável por atendê-los. Eu não os permitiria aqui com você, Angèle. Pude perceber naquela noite na casa de Marta Burden, pela maneira como você olhou para aquela garota, que não tinha tempo para crioulos. Aposto que você nunca esteve tão perto de um antes em sua vida, não é? Gostaria de saber onde Marta arranjou aquela.
Angela estava em silêncio, sem vida. Roger continuou contando exemplos de como tinha “ensinado o lugar” de várias pessoas negras de modo efetivo. Ele tinha banido negros em Harvard, aspirantes a pequenas sociedades literárias ou de honra.
― Eu os mandaria de volta para a África se pudesse. Houve um pretinho no Harlem que tinha boas ideias, sei bem; embora ele deva ser um bruto para ceder à sua raça daquela maneira; é claro que com ele é apenas uma questão de dinheiro. Ele os trairia por alguns milhares. Puxa, se ele pudesse realmente fazer isso, eu não sei, acho que estaria disposto a financiá-lo.
A esse discurso havia razões econômicas para se opor, princípios de justiça, altos ideais de humanidade. Mas Angela não conseguia pensar em nenhum deles. Sem palavras, ela o ouviu, seu apetite sumiu.
― Qual é o problema, Angèle? Você ficou enojada ao vê-los?
― Não, não é isso. Eu não me importo com eles; você está enganado sobre mim e aquela garota da Marta Burden. É você, você é tão violento. Eu não sabia que você era assim!
― E eu fiz você ficar com medo de mim? Oh, não foi minha intenção. ― Mas Roger ficou lisonjeado ao pensar que a havia afetado. ― Venha, vamos tomar um pouco de ar. Vou levá-la para dar uma volta pelo parque e depois para casa.
Mas ela não queria ir ao parque; ela queria ir para casa imediatamente. O pequeno carro azul dele estava lá fora; em quinze minutos, eles estavam na Jayne Street. Angela não permitiria que ele entrasse, nem mesmo no vestíbulo; ela mal lhe deu a mão.
― Mas, Angèle, você não pode me deixar assim; o que eu fiz? Assustou você que eu xinguei um pouco? Mas eu nunca xingaria você. Não faça assim.
Ela se foi, deixando-o perplexo na calçada. Acendendo um cigarro, ele voltou para o carro.
― Mas que diabo!
Ele mudou de marcha.
― Mas ela gosta de mim. Eu poderia jurar que ela gostou de mim esta noite. Malditos negros! Aposto que ela está pensando em mim.
*
Roger teria perdido a aposta. Angela estava pensando naquelas pessoas negras.
Ela podia visualizar todos eles com muita facilidade; poderia interpretar suas expressões mutáveis tão completamente como se essas mudanças estivessem diante dela em um livro. Era uma menina e dois homens, um jovem, e o outro talvez o pai de um dos outros dois. A pessoa de aparência paternal, pois assim sua mente o registrou, tinha uma expressão de prontidão para o que viesse. Ela conhecia e entendia o tipo. Suas experiências geradas por essa coisa chamada preconceito foram muito vastas para parecerem surpresas. Se eles fossem servidos, aquele seria um dia de sorte; do contrário, ele se recusaria a permitir que o incidente abalasse seu espírito robusto.
O interesse de Angela foi para o jovem e para a garota. No espelho atrás de Roger, ela os viu entrando na sala e pensou: Oh, aqui estão alguns deles lutando novamente. Ó Deus! Por favor, deixe-os serem servidos, por favor, não deixe que sua noite seja estragada.
Ela própria estava muito feliz e sabia que a recepção de outros cinquenta maîtres d'hôtel não compensaria uma rejeição no início. O jovem estava nervoso, com o rosto tenso, de modo que parecia prestes a enfrentar o ataque do inimigo na recente Grande Guerra; mas lá as probabilidades eram iguais; aqui as cartas já estavam marcadas contra ele. Logo sua expressão mudaria para uma de severidade, determinação e desespero. Mencionariam um processo; aparentemente foi o que aconteceu; ainda assim, um processo judicial, na melhor das hipóteses, é um péssimo substituto para uma noite divertida.
Mas a garota, a garota em cujo lugar Angela poderia facilmente estar! Ela era certamente uma garota legal, com tudo o que a frase implica. Para Angela, que a observava com atenção, mas com a indiferença da segurança, ela parecia Virgínia, tão esguia, tão atraente que era e tão corajosa. Muito corajosa! Ah, que coragem!
A princípio, uma resistência alegre:
― Oh, eu sei que não é comum que pessoas como nós entrem neste café, mas tudo vai ficar bem.
Encontrou o olhar de Angela com uma firmeza não correspondida, pois ela pensou: Ah, coitadinha! Talvez ela pense que eu também não a quero. E quando o golpe aconteceu, a coragem teve de ser traduzida novamente em uma segurança reconfortante.
― Não se preocupe comigo, Jimmy. ― O visitante que estava assistindo podia ouvi-la.
― De fato, isso não vai estragar a noite, acho que não; há muitos lugares onde eles ficariam bem. Escolheram o errado.
Os três haviam saído com a cabeça erguida, o olhar firme e nivelado. Mas o resultado da aventura da noite seria um cinismo crescente no homem idoso, uma amargura expansiva para o rapaz e uma nova timidez na menina. Mesmo depois de terem saído para a rua, Angela não conseguia aliviar seus sentimentos, pois ela devia confortar sua escolta perplexa e instigada. Angela se perguntou se ela tinha sido consoladora para Matthew Henson… Quanto tempo se passara? Apenas um ano? E, de repente, sentada imóvel em sua poltrona, sua capa de noite escorregando despercebida para o chão, o triunfo começou a crescer dentro dela. A vida nunca poderia enganá-la como havia enganado aquela garota negra esta noite, como certa vez a enganou na Filadélfia com Matthew. Ela estava livre, livre para saborear a vida em toda a sua plenitude e doçura, em todos os seus mínimos detalhes. Ao ter coragem suficiente para empregar a arma única que um acidente de hereditariedade colocou em suas mãos, Angela era capaz de dominar a vida. Como ela abençoou sua mãe por lhe mostrar o caminho! Em um país onde a cor significava a diferença entre liberdade e grilhões, quão sortuda ela era! Mas, Angela disse a si mesma, estava farta de Roger Fielding.